FAZER LOGINO eco dos sapatos de Anthony no piso de mármore não tinha pressa nenhuma. Não precisava ter. Quando se vive há mais tempo do que a própria história se dá ao trabalho de lembrar, o tempo deixa de ser uma corrida e vira só uma prisão com paredes invisíveis.Ele deu um gole devagar no copo de cristal, olhando através dos vitrais altos da mansão. Lá fora, a névoa da madrugada engolia a cidade. Para os humanos lá embaixo, Anthony de Valmont era só um boato, uma história de terror sussurrada em noites frias. Mas ali dentro, sozinho no escuro, ele sabia exatamente o que era: um cara vestindo um terno impecável, mas morto por dentro há séculos.— Que piada… — murmurou ele para a sala vazia, a voz rouca quebrando o silêncio pesado. — A eternidade é um erro de cálculo do caralho.Ele já tinha feito de tudo nessa vida. Viu impérios caírem, governantes virarem poeira, colecionou artes raras, seduziu as mentes mais brilhantes e viajou o mundo inteiro. E para quê? No fim das contas, a sede sempre v
A pesada porta de carvalho maciço cedeu lentamente, revelando não um mero mortal imprudente ou um servo da noite em busca de refúgio, mas sim uma figura que parecia desafiar a própria lógica daquela mansão isolada. Sob a luz fria e prateada da lua, delineava-se a silhueta de uma mulher cujos olhos carregavam uma intensidade magnética e desafiadora, completamente imunes ao pavor que a presença de um predador milenar costumava inspirar. Ela não ostentava armas visíveis, nem tampouco o tremor característico daqu aqueles que pisavam em territórios proibidos; trazia consigo apenas uma aura de perigosa serenidade e uma maleta de couro envelhecido que exalava o odor inconfundível de pergaminhos antigos e ervas raras. Anthony permaneceu imóvel por um instante, avaliando o intruso com a precisão fria de quem já vira impérios ruírem e corações pararem, surpreendendo-se ao perceber que aquela intrusão despertava em suas entorpecidas fibras uma curiosidade há muito esquecida. — Vejo que os rumor
CAPÍTULO EXTRAORDINÁRIOA PENUMBRA DA CRIPTA subterrânea não era apenas um refúgio contra o mundo dos vivos; era um mausoléu erguido para a eternidade. Sobre a imensa mesa de carvalho negro, o calor difuso de dezenas de velas de cera de abelha tremeluzia contra as lombadas de couro de livros seculares. As chamas projetavam sombras longas e inquietas pelas paredes de pedra úmida — sombras que pareciam dançar conforme a respiração ritmada e serena de Elena.Anthony de Valmont mantinha-se inclinado sobre a mesa, a silhueta aristocrática envolta em seu casaco de veludo escuro. Seus olhos prateados, destituídos do brilho humano há mais de quinhentos anos, fixavam-se nos componentes alquímicos que a mulher organizava com uma precisão cirúrgica e fascinante. O cheiro denso de enxofre, alecrim seco e uma essência metálica inexplicável impregnava o ar, sufocando por completo o odor habitual de poeira, mofo e decadência que caracterizava a biblioteca secular da família Valmont.— Não se trata a
A penumbra da cripta subterrânea não era apenas um refúgio contra o mundo dos vivos; era um mausoléu erguido para guardar séculos de segredos. O corpo de Anthony de Valmont transformara-se em um campo de batalha invisível, no qual eras inteiras de trevas e biologia sobrenatural colidiram em uma violenta e silenciosa combustão molecular. A cada segundo, o veneno ancestral cravado em sua carne resistia com fúria à nova ordem imposta pelo tônico alquímico, fazendo com que suas veias parecessem carregar brasa viva em vez de sangue.Apoiado com as duas mãos trêmulas sobre o piso gélido da biblioteca subterrânea, o outrora imortal respirava com extrema dificuldade. Os músculos de suas costas mantinham-se curvados e rígidos sob o casaco de veludo escuro, enquanto o suor frio acumulava-se em sua testa pálida. Ele fechou os olhos com força, cerrando os dentes aristocráticos para conter os gritos de agonia que ameaçavam rasgar sua garganta. Havia um orgulho secular em cada linha do seu rosto; e
O som no peito de Anthony de Valmont já não era uma simples lembrança do passado. Era um martelo pesado, violento, esmurrando as paredes da sua própria caixa torácica. Thum-thum. Thum-thum. A cada pancada daquele coração ressuscitado, uma onda de calor denso e avermelhado se espalhava por seus membros, queimando os últimos vestígios do frio de gelo que o acompanhara por mais de quinhentos anos.Pela primeira vez em séculos, ele levou a mão trêmula ao peito. A pele sob a camisa de linho fino não parecia mais mármore esculpido no escuro. Ela estava quente. Transpirava. Guardava um pulso real, desesperado, de sangue mortal.Elena permaneceu a poucos passos, os braços cruzados sobre o peito. Seus olhos castanhos não tinham pena; carregavam aquele brilho provocador e desafiador que sempre fazia o sangue de Anthony ferver — mesmo quando ele nem sangue quente tinha.— Bem-vindo de volta ao mundo dos mortais, conde — disse ela, deixando escapar um sorriso de canto, carregado de deboche e vitó
O sol de meio-dia já inundava sem piedade os aposentos superiores da mansão dos Valmont. A claridade amarelada rasgava a poeira flutuante e espantava o cheiro de mofo e misticismo que impregnara aqueles móveis centenários por eras. Sentado em uma poltrona de veludo escuro colada à janela, Anthony de Valmont fitava o horizonte dos jardins com uma estupefação quase infantil.Para aquele homem, que por mais de quinhentos anos fora o temido Conde de Valmont, o mundo lá fora deixara de ser uma pintura morta através de um vidro escuro. Ele sentia a terra respirar. Cada folha sacudida pelo vento fresco e cada canto distante dos pássaros batiam em seus ouvidos com uma nitidez avassaladora. Seus sentidos, antes anestesiados pelo torpor gélido e arrogante da imortalidade, finalmente despertavam para a crueza e a beleza da vida real.Mas a paz durou pouco.A porta de madeira pesada rangeu, e Elena entrou no salão carregando uma bandeja de prata um tanto desgastada. Sobre ela, repousavam uma xíca







