LOGINCASSIUS
A conversa vinda do quarto, que agora sabia ser da humana, me trouxe um nome que fez minha mente entrar em um turbilhão de emoções sem que sequer eu as conseguisse conter. Omar Smith? Meu corpo enrijeceu no mesmo instante. Por que aquele nome soava tão... errado? Tão familiar. Como um eco distante de algo que eu deveria lembrar - mas que permanecia enterrado em algum lugar da minha mente. Fechei os olhos por um breve instante, buscando qualquer fragmento daquela lembrança. Forcei. Insisti. Mas tudo o que encontrei foi uma sensação incômoda... quase ameaçadora, como um aviso silencioso. - Gustavus - chamei meu beta através do vínculo mental, ele respondeu quase de imediato. - Quero tudo sobre Omar Smith. Tudo. - Sim, meu Alfa. A resposta veio imediatamente. E então, como uma presença que jamais me abandonava por completo, Demétrius emergiu. - Você ouviu, Cassius? - a voz dele carregava algo raro... algo que me incomodou. - Amália. Esse é o nome dela. Um arrepio percorreu minha espinha. Amália. O nome parecia deslocado em minha boca. Suave demais. Humano demais. E ainda assim... - O nome de uma verdadeira princesa - completou ele, quase... satisfeito. Cerrei o maxilar, irritado. - Controle-se, Demétrius - rosnei. - Está parecendo um tolo. O silêncio que se seguiu entre nós como sempre, foi denso, carregado, quase sufocante. - Preciso lembrá-lo mais uma vez o que somos? - continuei, mais frio. - Um lobo sanguinário. Uma maldição viva. Por um instante, minha visão escureceu. Imagens vieram sem aviso. Sangue. Dor. A perda de controle. A lua cheia. Sempre a maldita lua cheia. Meus olhos se tornaram pesados, sombrios, carregados por uma tristeza que eu me recusava a nomear. Mas Demétrius não recuou. - Eu me lembro muito bem, Cassius - disse ele, agora mais baixo... mais sério. Havia pesar em sua voz. - Eu sinto isso tanto quanto você. Um silêncio sepulcral. - Mas não se esqueça... ela foi escolhida pela Deusa Lua. Meu coração bateu mais forte. Forte demais. - Ela é a nossa chance, Cassius - insistiu. - Eu sinto isso em cada parte do meu ser. E não sabemos se teremos outra. Não podemos perdê-la. O ar ao meu redor pareceu, mais pesado era difícil respirar. - A nossa libertação desse inferno. Abri os olhos novamente e encarei o chalé. A luz ainda estava acesa. E a silhueta dela... ainda ali. Tão próxima. E perigosamente fora do meu alcance. - Dê uma chance a ela - insistiu Demétrius. Expirei lentamente, tentando conter a tensão que crescia dentro de mim. Uma chance? Ou o início da minha ruína? - Não posso simplesmente ficar aqui fingindo que tudo isso faz sentido - rebati, a voz carregada de impaciência. - Há algo errado. Um fio solto em meio a essa insanidade. - Então descubra - ele respondeu, firme. - Aproxime-se. Conheça Amália. Deixe o vínculo falar mais alto. Esse é o nosso caminho. - Entenda porque a deusa a escolheu. porque uma humana ao invés de uma loba de linhagem pura como você tanto desejava. Disse Demétrius dessa vez enfurecido. Cerrei os punhos com força, sentindo as unhas perfurarem a palma da minha mão. A dor era bem-vinda. Era um lembrete de controle. - Você realmente sugere que eu... - minha voz saiu fria e perigosa - um Alfa Supremo, líder da maior alcateia do país... tenha ao meu lado como minha Luna.... uma humana fraca? Minha voz saiu mais baixa do que pretendia. A imagem dela veio à minha mente. Pequena. Frágil. Humana. Mas incrivelmente sedutora. - Uma mulher que sequer consegue cuidar de si mesma? Demétrius se agitou dentro de mim. Senti sua raiva como se fosse minha. - Você está enxergando apenas o que quer ver - retrucou. - Eu sei que você sente o vínculo. Sente a atração. Eu vejo... eu sinto. Fechei os olhos por um segundo, irritado. Porque ele estava certo. E isso me incomodava mais do que qualquer outra coisa. - Amalia não é uma humana comum, não se esqueça como ela teve coragem em nos atacar para se proteger. Devemos nos aproximar dela - continuou ele, mais controlado agora. - Nos atacou? Ri com escárnio. Ela usou um spray de pimenta contra um Alfa. Você entende o quanto isso é ridículo? - Ela teve Coragem. Rebateu Demétrius, muitos teriam desmaiado ao ver nossas presas. Bufou indignado com minha descrença. - Cassius, precisamos descobrir quem ela realmente é. Permitir que ela nos conheça. Disse ele em um tom muito mais suave. Um Silêncio pesado pairou sobre nós. Apenas observei a janela que ainda mantinha a luz acesa. Fechei os olhos e Imaginei como seria estar perto dela naquele momento, tendo a em meus braços. - Devemos isso à Deusa Lua, Cassius. Demétrius ressurgiu com mais verdades. Abri os olhos mais uma vez, fixando o olhar no chalé. Em Amália. E, pela primeira vez em muito tempo... a dúvida se instalou dentro de mim. Não como fraqueza. Mas como um presságio. De que nada, absolutamente nada, sairia como o esperado.AMÁLIAUm ano havia se passado desde o nosso casamento.Às vezes eu ainda me pegava observando a aliança em meu dedo, lembrando de tudo o que havíamos enfrentado para chegar até ali. Parecia uma vida inteira... e, ao mesmo tempo, apenas um piscar de olhos.No campo de treinamento, os trigêmeos enfrentavam Cassius com uma determinação que fazia qualquer guerreiro experiente arregalar os olhos.Apesar da pouca idade, seus movimentos eram precisos. Eles alternavam entre a velocidade e os instintos naturais de seus lobos e a magia herdada da Filha da Lua. A combinação era devastadora.Um segundo estavam correndo pelo campo.No outro, rajadas de energia prateada explodiam ao redor deles, obrigando Cassius a se esquivar enquanto ria.O crescimento dos lobos sempre foi diferente do dos humanos. Mas, sendo descendentes diretos da Filha da Lua, nossos filhos se desenvolviam em um ritmo ainda mais impressionante.Eu sorri.— Astrid... vamos?Minha loba respondeu imediatamente.Em questão de se
CASSIUSNunca imaginei que alguns minutos pudessem parecer uma eternidade.O grande salão da alcateia havia sido transformado para aquela ocasião. Centenas de flores brancas e prateadas ornamentavam o corredor central, enquanto fitas de seda desciam das enormes vigas de madeira. Cristais pendiam do teto, refletindo a luz do sol que atravessava as janelas e espalhando pequenos feixes prateados por todo o ambiente.Era como se a própria Lua tivesse deixado um pedaço de seu céu ali.À minha frente estava o altar ancestral, construído em pedra branca e marcado com os antigos símbolos da Deusa Lua. Sobre ele ardia o Fogo Eterno, uma chama prateada que jamais se apagava e que testemunhava as uniões dos Alfas havia gerações.Toda a alcateia estava presente.Benjamin permanecia ao meu lado, impecavelmente vestido, com um sorriso orgulhoso. Gustavus ocupava o outro lado, embora seus olhos insistissem em procurar Olivia entre os convidados. Quando a encontrava, ela retribuía discretamente o olh
CASSIUSA manhã do nosso casamento amanheceu diferente.O sol atravessava as cortinas do quarto em feixes dourados, iluminando cada detalhe do lugar, mas nem toda aquela luz era suficiente para acalmar a tempestade dentro de mim.Eu, que jamais havia tremido diante de uma batalha, de uma guerra ou de um inimigo, estava nervoso.Muito nervoso.Respirei fundo enquanto ajustava pela terceira vez a gravata do terno preto perfeitamente alinhado ao meu corpo. Sobre a cama repousava uma pequena caixa de veludo azul-marinho. Passei os dedos sobre ela por alguns segundos, tentando controlar a ansiedade.Dentro estava um dos objetos mais preciosos que eu possuía.Uma suave batida interrompeu meus pensamentos.— Entre.Gustavus abriu a porta e sorriu ao me encontrar parado diante do espelho.— Alfa Cassius... precisa de alguma coisa?Balancei a cabeça com um sorriso discreto.— Hoje não existe Alfa. Só Cassius. Você é meu melhor amigo, Gustavus... praticamente um irmão.Ele relaxou imediatamente
AMÁLIASe alguém me dissesse, alguns meses atrás, que eu estaria planejando meu casamento enquanto embalava três bebês nos braços, eu teria dado risada.Agora, porém, aquela era a minha realidade.E, estranhamente...Era perfeita.---— O da esquerda acordou.Abri um olho, ainda sonolenta.— Qual deles é o da esquerda?Cassius riu.— Boa pergunta.Sorri antes mesmo de abrir os olhos completamente.Nossos trigêmeos tinham pouco mais de dois meses e já haviam aprendido a nos vencer pelo cansaço.Kael era o mais tranquilo.Aurora tinha um pulmão que faria qualquer guerreiro recuar.E Theo...Theo simplesmente parecia acreditar que dormir era uma enorme perda de tempo.— Acho que é o Theo... — murmurei.No mesmo instante outro choro ecoou pelo quarto.Cassius suspirou dramaticamente.— Esquece. Agora são dois.Comecei a rir.— Bem-vindo à nossa vida.Ele se aproximou da cama e beijou minha testa.— Ainda é a melhor vida que eu poderia ter.Meu coração aqueceu.Ainda me surpreendia o quant
AMÁLIAA noite passou em claro.Ou melhor... passou entre mamadas, chorinhos, bocejos, fraldas trocadas e incontáveis sorrisos.Eu estava completamente exausta. Sentia os músculos doloridos pelo parto, as pálpebras pesadas e tinha certeza de que enormes olheiras denunciavam cada minuto sem dormir. Ainda assim, pela primeira vez em muito tempo, aquele cansaço não pesava sobre mim.Era um cansaço feliz.Nossos três filhotes pareciam decididos a aproveitar cada segundo do primeiro dia de vida. Quando um finalmente fechava os olhinhos e adormecia, outro despertava cheio de energia, como se tivessem feito algum pacto secreto para garantir que os pais jamais descansassem ao mesmo tempo.Sorri ao observar Cassius atravessar o quarto de um lado para o outro, embalando um dos meninos nos braços. Seus movimentos eram cuidadosos, quase desajeitados, enquanto cantarolava uma antiga canção de ninar da alcateia.A cena era simplesmente adorável.O homem que eu vira enfrentar exércitos, desafiar a p
AMÁLIAEu estava desesperada, temendo pela vida dos meus filhos e pela chegada do Devorador da Lua. Meus poderes estavam em ebulição, prestes a tomar conta do meu ser, e eu não sabia se resistiria.Cada contração parecia arrancar um pedaço da minha alma.Meu corpo queimava por dentro. A energia prateada que sempre viveu adormecida em mim agora percorria minhas veias como um rio de fogo líquido. Minha visão oscilava entre o quarto e uma imensidão escura, onde eu podia enxergar as rachaduras no tecido da realidade crescendo a cada segundo.— Ela está entrando em trabalho de parto! — ouvi a voz aflita do doutor Oliver.Ao meu lado, Cassius segurava minha mão com tanta força que seus nós estavam completamente brancos.— Estou aqui... meu amor... respira... olha para mim.Tentei obedecer.Mas, no instante seguinte, um rugido monstruoso atravessou os céus.As paredes da mansão estremeceram.O chão vibrou violentamente.O Devorador da Lua estava tentando romper sua prisão.— Não... — sussurr







