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Capítulo 3

Auteur: Crystal K
Às nove da manhã, eu já estava lá embaixo.

Briony enrolou um cachecol ao redor do meu pescoço e colocou um café quente em minhas mãos.

— Ele disse que viria às dez. Você não precisava ter descido tão cedo. — Resmungou, franzindo a testa.

— Não quero me atrasar.

Dez horas. Ninguém apareceu.

Dez e meia. A rua continuava vazia.

Onze horas. O café já estava gelado.

Minha ligação caiu direto na caixa postal. Não tentei de novo, apenas continuei esperando.

Eu sabia que ele fazia aquilo de propósito.

A situação me levou de volta a sete anos antes, quando era eu quem sempre se atrasava. Roric ficava me esperando lá embaixo, alto e firme, enquanto eu fazia questão de demorar.

Quando finalmente descia correndo, ele fingia estar de cara fechada. Mas bastava um leve puxão em sua manga e um beijo rápido em seu queixo, depois de me erguer na ponta dos pés, para toda aquela falsa irritação desaparecer.

Então, Roric me puxava para um abraço apertado e soltava um suspiro carregado de resignação e carinho.

Agora era a minha vez de esperar, e aquela era a vingança dele. Por isso, continuei ali. Era hora de pagar tudo o que eu lhe devia.

Briony se inclinou para fora da janela, com a voz tensa de raiva.

— Suba, Ayla. Ele não vem mais.

— Vou esperar só mais um pouco.

— Você já está aí fora há três horas!

Baixei os olhos para minhas mãos. As pontas dos dedos começavam a ficar azuladas por causa do frio, e um leve tremor as percorria.

Minha loba estava tão fraca que eu já nem conseguia regular a temperatura do próprio corpo.

Ao meio-dia, o sol alcançou seu ponto mais alto, pareceu pairar ali por um instante e então iniciou sua descida lenta e debochada.

Briony desceu mais uma vez. Seus olhos estavam vermelhos.

— Por favor, volte para dentro e descanse. Seu corpo não vai aguentar. — Implorou, com a voz trêmula, enquanto segurava minha mão congelada.

— Não posso voltar.

— Por que não?

Porque, se eu voltar para dentro e me deitar, talvez não tenha forças para me levantar nunca mais.

Naquela manhã, vi meus próprios olhos no espelho. Meus olhos de loba, que antes brilhavam prateados sob a luz da lua, agora estavam opacos, de um cinza sem vida.

Minha loba estava desaparecendo rápido demais.

Cada vez que eu adormecia podia ser a última.

— Estou bem. Ele vai aparecer. — Respondi, oferecendo a Briony um sorriso fraco.

Às 14h47, um Maybach preto finalmente encostou junto ao meio-fio.

A porta se abriu, e Roric saiu do carro, erguendo-se em toda a sua altura. Seus olhos estavam escondidos atrás dos óculos escuros.

Ele vestia um casaco de caxemira cinza-escuro e parecia irritantemente relaxado, como um rei que acabasse de sair da cama.

Briony correu para a frente e bloqueou o caminho dele até mim.

— Quase cinco horas. Você a deixou aqui fora esperando por quase cinco horas. — Disse ela, com a voz trêmula.

Roric tirou os óculos escuros e lançou-lhe um olhar displicente.

— Tive um imprevisto.

— Seu—

— Briony. — Está tudo bem. — Interrompi, segurando seu braço.

— Como pode estar tudo bem? Olhe para você! Seus lábios estão arroxeados!

— Está tudo bem mesmo. — Insisti, dando leves tapinhas em sua mão.

Briony me encarou com os lábios trêmulos, mas não disse mais nada. Apenas lançou a Roric um olhar carregado de puro ódio antes de se virar e voltar para o andar de cima.

A porta traseira do carro se abriu, e Cressida inclinou o corpo para fora.

— Desculpe pelo atraso. Entre. — Disse, acenando para que eu me aproximasse.

Seu pescoço e seu colo estavam cobertos de marcas escuras. Chupões. Ela os exibia como se fossem um colar de pérolas.

— Nossa noite se estendeu um pouquinho demais. — Contou, passando o dedo sobre a marca mais escura no pescoço. Seu tom misturava manha e ostentação.

— Roric tem um fôlego impressionante. Hoje de manhã, ele estava exausto.

Cressida me olhou com um brilho malicioso nos olhos.

— Foi por isso que nos atrasamos tanto. Você não se importa, não é?

Por um instante, senti alguma coisa se partir dentro do meu peito. Contive o ardor que subiu pelo nariz e forcei um sorriso.

— Não me importo.

Entrei no banco traseiro e afivelei o cinto de segurança.

O carro arrancou.

A cidade se transformou em um borrão do outro lado da janela. Mantive os olhos fixos nas luzes que passavam, tentando não pensar em nada.

Entretanto, uma onda de náusea começava a crescer em meu estômago.

No início, foi apenas um leve desconforto, semelhante a um enjoo provocado pelo movimento do carro. Depois, a sensação se intensificou e se transformou em espasmos de náusea que subiam do estômago até a garganta.

Cerrei os dentes enquanto um suor frio brotava em minha testa.

Como minha loba estava muito enfraquecida, eu quase perdi o olfato por completo. Aromas que um lobisomem comum conseguia perceber a dezenas de metros de distância, eu mal distinguia quando estavam bem perto.

Por isso, não notei de imediato a fragrância que preenchia o carro, só percebi quando a náusea se tornou insuportável.

— Pare o carro. Vou vomitar. — Pedi com dificuldade, cobrindo a boca.

Cressida se virou no banco da frente, piscando com falsa inocência. Então, pegou um pequeno e elegante difusor que estava no console central.

— Você não é alérgica a esta fragrância, é?

Vi o que ela segurava. Era um difusor de Erva da Lua Prateada.

A Erva da Lua Prateada era um produto fitoterápico usado para estimular o espírito lupino. Para um lobisomem saudável, exalava apenas um aroma agradável.

Contudo, em alguém que sofria de degeneração do espírito lupino, provocava uma violenta reação de rejeição.

Ele se lembrava. Sete anos antes, eu lhe contei que aquele aroma me fazia mal.

Roric guardou aquilo na memória durante todo esse tempo. E agora usava essa lembrança para me machucar.

Meu sangue gelou.

Roric não olhou para mim, mas seus dedos apertavam o volante com tanta força que os nós ficaram brancos.

Sem dizer uma palavra, estendeu a mão e desligou o difusor.

Vi Cressida se encolher no banco da frente.

— É a fragrância favorita da Cressida. Ela não precisa abrir mão de algo de que gosta por alguém que não importa. — Explicou ele com frieza.

Seus olhos encontraram os meus pelo espelho retrovisor, afiados como uma lâmina.

— Qual é o problema? É só um cheiro. Isso não vai matar você.

Cressida soltou outra risadinha no banco da frente.

O carro voltou a se mover.

Recostei-me no banco e fechei os olhos.

A náusea diminuiu aos poucos, mas a dor em meu peito se abateu sobre mim em ondas, uma após a outra.

É isso. Já não sou mais sua prioridade, e está tudo bem. Não vou precisar suportar isso por muito mais tempo.
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