LOGINA manhã chegou fria na Alcateia da Lua Negra.
A névoa ainda cobria parte da floresta quando Nyra abriu os olhos. Por um momento, tudo parecia normal. O quarto estava silencioso, e a luz suave do amanhecer atravessava as cortinas de linho.
Mas havia algo diferente.
O espaço ao lado dela na cama estava vazio.
Frio.
Nyra se sentou lentamente, passando os dedos pelos cabelos ainda bagunçados. Draven costumava acordar cedo, mas raramente saía sem pelo menos beijá-la antes.
Ela respirou fundo, tentando ignorar a sensação estranha que crescia em seu peito.
Talvez ele estivesse apenas ocupado.
Nos últimos meses, aquilo tinha se tornado comum.
Mesmo assim… algo dentro dela se inquietava.
Nyra levantou-se da cama e caminhou até a janela. Lá fora, alguns membros da alcateia já estavam acordados, iniciando suas tarefas matinais. Guerreiros treinavam perto da clareira, enquanto outros organizavam suprimentos.
Todos pareciam tranquilos.
Mas sua loba interior não estava.
Havia um peso estranho no ar.
Nyra fechou os olhos por um instante e tentou se concentrar na conexão que tinha com a alcateia. Era uma habilidade natural de uma Luna — sentir o estado emocional de seu povo.
Normalmente, aquilo a acalmava.
Mas hoje…
Ela sentiu algo que a fez franzir a testa.
Inquietação.
Pequena, quase imperceptível.
Mas estava lá.
Nyra se afastou da janela e vestiu um vestido simples de tecido escuro. Prendeu os cabelos rapidamente e saiu do quarto.
Os corredores da casa do Alfa estavam silenciosos.
Enquanto caminhava, alguns membros da alcateia que passavam pelo local abaixavam a cabeça respeitosamente.
— Bom dia, Luna.
— Bom dia.
Nyra respondia com gentileza, como sempre.
Ela havia aprendido desde cedo que uma Luna não governava apenas com força.
Mas com cuidado.
Com presença.
Ao descer as escadas principais, encontrou Kael, o Beta da alcateia.
Ele estava encostado na parede próxima à porta principal, conversando com dois guerreiros. Assim que viu Nyra, ele imediatamente ficou em postura formal.
— Luna.
Nyra sorriu levemente.
Kael era alto, de cabelos castanhos escuros e olhos atentos. Era o braço direito de Draven e um dos guerreiros mais leais da alcateia.
— Bom dia, Kael. Você viu o Alfa?
Kael hesitou.
Foi apenas um segundo.
Mas Nyra percebeu.
— Ele saiu cedo para a patrulha — respondeu finalmente.
Nyra inclinou a cabeça.
— Patrulha? Ele não mencionou nada ontem.
Kael cruzou os braços.
— Foi uma decisão de última hora.
Nyra assentiu, embora algo dentro dela continuasse desconfortável.
— Entendo.
Kael parecia observá-la com atenção.
— Está tudo bem, Luna?
Nyra sorriu novamente.
— Claro.
Mas naquele momento…
Uma pontada de dor atravessou seu peito.
Foi rápida.
Aguda.
Tão inesperada que ela levou a mão ao coração.
Kael imediatamente se aproximou.
— Nyra?
Ela respirou fundo.
A dor desapareceu tão rápido quanto veio.
— Estou bem — disse, tentando parecer tranquila.
Mas Kael não parecia convencido.
— Você está pálida.
Nyra soltou um pequeno riso.
— Provavelmente apenas cansaço.
Ela mudou de assunto rapidamente.
— A reunião com as alcateias do norte ainda acontecerá hoje?
— Sim. No início da tarde.
Nyra assentiu.
Mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa…
Seu corpo balançou.
A visão escureceu por um segundo.
O chão pareceu girar.
Kael foi rápido o suficiente para segurá-la antes que ela caísse.
— Nyra!
Ela piscou algumas vezes, tentando recuperar o equilíbrio.
Seu coração batia rápido demais.
— Eu… estou bem…
Mas sua voz saiu mais fraca do que ela gostaria.
Kael a observava com preocupação.
— Você precisa ver o curandeiro.
— Não é necessário — respondeu ela imediatamente.
Ele cruzou os braços.
— Luna…
— Kael.
O tom dela foi firme.
Por um momento, o Beta suspirou.
— Pelo menos sente-se um pouco.
Nyra concordou.
Ele a ajudou a se sentar em um banco próximo.
Ela respirou fundo, tentando controlar o próprio corpo.
Algo não estava certo.
Seu corpo estava estranho nos últimos dias.
Cansaço.
Tonturas.
Dores que vinham e desapareciam sem explicação.
Mas ela havia ignorado.
Uma Luna não podia demonstrar fraqueza.
Principalmente quando a alcateia precisava dela.
Depois de alguns minutos, Nyra se levantou.
— Estou melhor agora.
Kael ainda parecia preocupado.
— Vou pedir para alguém chamar o curandeiro.
— Não precisa.
Ela colocou uma mão no ombro dele.
— Eu prometo que estou bem.
Kael não respondeu.
Mas acabou assentindo.
— Se precisar de algo…
— Eu sei.
Nyra deixou o salão e caminhou em direção à floresta.
Ela precisava de ar.
Precisava sentir a terra sob os pés.
A presença da lua.
Mesmo durante o dia.
Quando chegou à borda da floresta, fechou os olhos e inspirou profundamente.
O cheiro da natureza sempre a acalmava.
Mas então…
Outro cheiro apareceu.
Doce.
Estranho.
Feminino.
Nyra abriu os olhos lentamente.
Seu coração começou a bater mais forte.
Ela conhecia aquele cheiro.
Era o mesmo perfume que havia sentido na noite anterior dentro da casa.
Seu lobo interior rosnou baixo.
Instinto.
Alerta.
Nyra seguiu o rastro lentamente.
Passou entre as árvores.
Entre os arbustos.
Até chegar a uma pequena clareira escondida.
E então ela parou.
Seu coração congelou no peito.
Porque ali…
Diante dela…
Estava Draven.
E não estava sozinho.
Diante dele estava uma loba de cabelos negros como a noite.
Linda.
Elegante.
Com um sorriso lento nos lábios.
Vespera.
Nyra sentiu o mundo ao seu redor ficar em silêncio.
Ela não podia ouvir mais nada.
Apenas o próprio coração.
E então…
Draven estendeu a mão.
E tocou o rosto da outra loba.
Como ele costumava tocar o dela.
O chão pareceu desaparecer sob os pés de Nyra.
Porque naquele instante…
Algo dentro dela começou a se quebrar.
Meses depois…O mundo não parou.Ele nunca para.Mas agora…ele não exigia tudo deles.Nyra caminhava devagar.Sem pressa.Sem aquela urgência constante que antes guiava cada passo.O vento tocava seu rosto…leve.Quase familiar.Diferente de antes.Agora não era aviso.Era apenas… presença.Ela parou.Observando o horizonte.Tudo parecia… mais simples.Não fácil.Mas… possível.— Você ainda faz isso.A voz veio atrás dela.Calma.Conhecida.Nyra não precisou virar imediatamente.Um pequeno sorriso surgiu.— Observar?Draven se aproximou.Parando ao lado dela.— Como se o mundo fosse quebrar a qualquer momento.Nyra soltou um leve ar.— Ele pode.Draven assentiu.— Pode.Ele olhou na mesma direção que ela.— Mas não do jeito de antes.O silêncio caiu.Mas dessa vez…era confortável.Nyra cruzou os braços levemente.— Você mudou.Draven olhou para ela de lado.— Você também.Ela arqueou uma sobrancelha.— Eu sempre fui assim.Ele deu um pequeno sorriso.— Não.Ele respondeu.— Você só
O silêncio não era vazio.Era… completo.Não havia nada puxando.Nada exigindo.Nada prestes a quebrar.O mundo não precisava deles.E isso…era estranho.Nyra permaneceu parada por alguns segundos.Sentindo.Não o sistema.Mas a ausência dele.Sem tensão.Sem peso.Sem aquela pressão constante no fundo da mente.Ela soltou o ar devagar.— Então é isso…A voz saiu mais baixa do que ela esperava.Draven estava ao lado dela.Sem pressa.Sem urgência.Apenas… ali.— É.Ele respondeu.O silêncio caiu.Mas dessa vez…não carregado.Apenas… real.Malrik apareceu alguns passos atrás.— Nunca achei que ia ver isso.Kael completou:“Nem eu.”Nyra virou levemente o rosto.— E agora?Malrik deu de ombros.— Agora a gente vive com o que construiu.Kael respondeu:“E aprende a não quebrar de novo.”O vento soprou.E dessa vez…não trouxe aviso.Nem ameaça.Só… movimento.Nyra fechou os olhos por um instante.Sentindo o próprio corpo.A própria presença.Sem dividir atenção.Sem carregar o mundo.A
O equilíbrio estava estável.Mas dessa vez…não havia ilusão.Nyra sentiu antes de qualquer mudança no sistema.Uma pressão diferente.Não externa.Não caótica.Mas… direcionada.— Ele vai tentar de novo.Draven não perguntou como.— Mais direto?Nyra respondeu:— Mais preciso.O vento soprou.E aquilo…era o tipo de movimento que não vinha para testar o sistema.Mas… para testar eles.Malrik ficou atento.— Não vai ser sobre estrutura.Kael completou:“Vai ser sobre escolha.”O silêncio caiu.Pesado.Real.E então…veio.Não como erro.Nem como instabilidade.Mas como… divisão.Dois pontos.Ambos importantes.Ambos instáveis.Ambos… ao mesmo tempo.Nyra travou por um segundo.Não por indecisão.Mas porque aquilo…não tinha resposta perfeita.— Não dá pra pegar os dois.Disse Draven.Malrik confirmou:— Um vai cair.O vento soprou.E aquilo…era o teste final.Escolha.Real.Irreversível.Kael falou:“Se a gente dividir… perde os dois.”Nyra assentiu.— Sim.Ela disse.Baixo.Mas firm
O sistema continuava estável.Mas agora…havia algo diferente dentro dela.Não distração.Não fraqueza.Mas… presença.Nyra sentia isso em cada movimento.Cada leitura.Cada decisão.Como se algo que sempre esteve fragmentado…agora estivesse inteiro.E isso mudava tudo.— Você está mais precisa.Disse Draven.Ela olhou para ele de lado.— Você também.O silêncio caiu.Mas não desconfortável.Era… carregado.De tudo que agora não precisava mais ser escondido.Malrik observava de longe.— Isso está afetando o sistema.Kael respondeu antes de Nyra:“Está fortalecendo.”O vento soprou.E aquilo…não foi negado.Nyra respirou fundo.— Porque não tem mais conflito interno.Ela disse.Simples.Direto.Real.Draven deu um leve sorriso.— Eu devia ter percebido isso antes.Nyra respondeu:— A gente não tinha espaço pra isso antes.O silêncio caiu.E aquilo…era verdade.Mas agora tinham.E estavam lidando com isso sem quebrar nada.Sem perder o controle.Sem fugir.Um novo ponto começou a osc
O beijo terminou.Mas não como antes.Não com urgência.Nem com aquela necessidade de se afastar rápido.Dessa vez…eles não recuaram.Nyra ainda estava próxima.A respiração mais lenta.Mas não instável.Era diferente.Tudo estava diferente.Draven não soltou ela imediatamente.A mão ainda firme no rosto dela.Como se quisesse ter certeza…de que aquilo foi real.E não mais um momento roubado no meio do caos.— Isso muda tudo.Ele disse, baixo.Nyra sustentou o olhar.— Já mudou.O silêncio caiu.Mas não pesado.Não desconfortável.Era… inevitável.Porque agora não havia mais volta.Nenhuma linha para fingir que não foi cruzada.Nenhuma desculpa para recuar.Eles sabiam.E isso…era suficiente.Draven passou o polegar devagar pela lateral do rosto dela.Um gesto simples.Mas carregado de algo que ele nunca tinha deixado aparecer antes.Cuidado.— A gente ainda está no meio disso.Ele disse.Nyra assentiu.— Eu sei.Mas não se afastou.Nem um centímetro.O vento soprou leve.E o siste
O sistema estava estável.Não perfeito.Mas… suficiente.E ninguém precisou fazer nada.Nenhum ajuste.Nenhuma contenção.Nenhuma decisão urgente.Apenas… silêncio.Um silêncio diferente.Não tenso.Não vigilante.Mas… real.Nyra sentiu isso antes de entender.Seus ombros estavam menos rígidos.A respiração… mais leve.Como se, por alguns segundos…ela pudesse simplesmente existir.Sem sustentar tudo.Sem pensar em tudo.Sem carregar tudo.E isso…era quase estranho.Ela abriu os olhos devagar.E foi então que percebeu.Draven ainda estava ali.Não atento ao sistema.Não olhando o horizonte.Mas… olhando para ela.Sem pressa.Sem urgência.Apenas… presente.— Faz quanto tempo?Ele perguntou.A voz baixa.Quase calma demais.Nyra franziu levemente o cenho.— Tempo de quê?Draven deu um pequeno passo mais perto.— Desde que a gente parou de ser… só isso.O silêncio caiu.Mas dessa vez…não pesado.Intimista.Nyra não respondeu imediatamente.Porque ela sabia exatamente o que ele queria







