FAZER LOGINMaíra foi condenada por um crime que nunca cometeu. Filha de um homem acusado de traição e executado, perdeu seus direitos e foi obrigada a viver como serva na casa do Alfa Zayan Kalycan. Desde criança, aprendeu que sobreviver significava trabalhar em silêncio, não questionar e jamais esperar ser escolhida. Até que, aos vinte anos, sua cerimônia de união revelou uma verdade capaz de abalar toda a alcateia: Maíra era a companheira destinada de Zayan, o mesmo Alfa que já havia escolhido Isadora como sua Luna. Dividido entre o vínculo sagrado, o poder e a mulher que amava, Zayan tomou uma decisão que mudaria o destino de todos. Para se libertar de Maíra, estava disposto a fazê-la sofrer, sem imaginar que sua rejeição despertaria uma força que ele jamais poderia controlar.
Ver maisPOV. Maíra
Dizem que a Deusa da Lua não comete erros. Passei vinte anos tentando acreditar nisso, embora nunca tenha entendido por que ela permitia que algumas pessoas nascessem para governar, enquanto outras pareciam destinadas a passar a vida inteira de joelhos. Eu era uma delas. Uma ômega sem lobo desperto, filha de um traidor e escrava da alcateia que havia condenado meu pai à morte. Não me recordava de muita coisa sobre ele. Era pequena quando o levaram, mas ainda me lembrava de suas mãos grandes, do cheiro de madeira que impregnava suas roupas e da maneira como me chamava de sua pequena lua. Meu pai, Alaric, fora um membro respeitado da alcateia até ser acusado de traição. Diziam que conspirara contra o Alfa e que suas ações poderiam ter levado todos à morte. Nunca me mostraram provas, e ninguém se preocupou em explicar o que realmente havia acontecido Ele foi executado. E eu herdei sua condenação. Pelas leis da alcateia, os descendentes dos traidores perdiam seus direitos e eram destinados ao serviço da família governante. Assim, ainda criança, fui levada para a mansão do Alfa. Não recebia salário, não tinha liberdade para deixar a propriedade e não podia decidir o que fazer da minha vida. Era uma escrava. Ainda assim, tinha uma cama, roupas limpas e refeições todos os dias. A mansão possuía alojamentos para os empregados, e o meu era pequeno, mas confortável o suficiente para me proteger do frio e da chuva. Eu sabia que minha condição era melhor do que a de muitos outros escravos. Talvez por isso nunca reclamasse. Ou talvez porque tivesse aprendido muito cedo que, para pessoas como eu, reclamar só tornava as coisas mais difíceis.Desde criança, compreendi que precisava ser útil. Se realizasse minhas tarefas antes que alguém precisasse mandar, se mantivesse os corredores limpos, se cuidasse das roupas e se estivesse sempre disponível, dificilmente alguém teria motivos para me repreender. Não era uma garantia de segurança, mas era o mais próximo que eu conhecia. Com o passar dos anos, tornei-me uma das servas mais dedicadas da mansão. Conhecia os horários dos moradores, sabia quais empregados precisavam de ajuda e conseguia perceber quando alguma tarefa estava prestes a ser esquecida. Às vezes, trabalhava tanto que mal conseguia sentir os pés ao final do dia. Mas, quando Helena, a governanta, elogiava meu serviço, sentia uma satisfação silenciosa. Eu não tinha uma família que se orgulhasse de mim. Não possuía amigos influentes ou qualquer posição que me garantisse respeito. Meu trabalho era a única coisa que eu podia oferecer. E, enquanto fosse boa no que fazia, talvez conseguisse continuar vivendo em paz. — Maíra, já terminou de organizar a despensa? A voz de Helena me alcançou quando eu estava saindo da cozinha. — Sim, senhora. Também conferi os mantimentos que chegaram ontem e organizei a lista do que precisaremos comprar. Ela ergueu as sobrancelhas. — Já? — Aproveitei que terminei de lavar os utensílios mais cedo. Helena examinou a lista que lhe entreguei. — Você não precisava ter feito tudo isso sozinha. — Não foi um problema, senhora. Ela suspirou, mas um pequeno sorriso surgiu em seus lábios. — Você trabalha demais menina. Baixei os olhos. — Só estou fazendo minhas obrigações. — E mais algumas que não são suas. Não respondi. Helena era uma das poucas pessoas da mansão que, de vez em quando, demonstrava preocupação comigo. Não era uma mulher particularmente afetuosa, mas nunca me tratara com crueldade. — Vá tomar seu café da manhã. Depois, quero que ajude na organização do salão. — Sim, senhora. Dirigi-me à cozinha, onde os outros empregados já estavam reunidos. Peguei uma fatia de pão, um pouco de queijo e uma caneca de leite. Sentei-me em um dos bancos próximos à parede e comecei a comer. — Você já terminou a despensa? — perguntou Clara, uma das cozinheiras. — Terminei. — Pela Deusa, Maíra! Você nunca para? Alguns empregados riram. Sorri discretamente. — Se eu parar, o trabalho acumula. — Um dia ainda vão colocar você para trabalhar em três lugares ao mesmo tempo. — Espero que não. Clara empurrou uma pequena porção de frutas na minha direção. — Coma. Você está cada vez mais magra. — Estou bem, Clara. — Não pedi sua opinião. Ela voltou ao trabalho, e eu terminei meu café. Naquele momento, dois empregados que estavam perto da porta começaram a conversar. — Você soube que a filha do traidor participará da cerimônia? — Claro. Ela completa vinte anos hoje. — É estranho pensar que alguém como ela poderá despertar um lobo. — Se a Deusa realmente quisesse isso, já teria despertado há muito tempo. Continuei comendo, fingindo não escutar. Não era a primeira vez que ouvia comentários sobre meu pai ou sobre a ausência do meu lobo. As pessoas raramente diziam aquelas coisas diante de mim. Geralmente, preferiam falar pelas costas, como se isso tornasse suas palavras menos cruéis. Eu não as culpava por completo. Eu não as culpava por completo. Havia crescido ouvindo a mesma história sobre meu pai. Era natural que acreditassem nela. Pelo menos, era o que eu tentava dizer a mim mesma. Quando terminei, lavei a caneca e me levantei. — Precisa de ajuda, Clara? — Vá cuidar do salão antes que Helena venha atrás de você. Assenti e saí da cozinha. Era melhor manter-me ocupada. A mansão estava especialmente movimentada naquela manhã. A cerimônia do despertar aconteceria naquela noite, durante a lua cheia. Todos os jovens que completavam vinte anos seriam apresentados à Deusa da Lua, que poderia conceder-lhes o despertar de seus lobos e revelar seus companheiros destinados.POV: Maíra O silêncio que se seguiu após a discussão entre Zayan e Isadora durou três dias. Três dias em que o Alfa não voltou a me chamar de companheira destinada. Três dias em que não apareceu na cozinha quando eu levava as refeições, não perguntou sobre meus ferimentos e sequer olhou em minha direção quando cruzávamos os corredores. No início, pensei que estivesse ocupado com os assuntos da alcateia. Zayan sempre tinha reuniões, relatórios para analisar e decisões que exigiam sua atenção. Mas, no quarto dia, quando o vi passar por mim no pátio e desviar o olhar deliberadamente, compreendi que alguma coisa havia mudado. Não era indiferença. Era esforço. Eu conhecia o suficiente sobre o vínculo para reconhecer os sinais. O lobo dele ainda me procurava. Às vezes, eu sentia o puxão no peito quando estávamos próximos, uma espécie de saudade que não me pertencia inteiramente. Em outras ocasiões, quando ele se afastava, uma dor profunda se espalhava pelo meu corpo, como se algo dent
A voz dela ecoou pelo corredor. Os guardas abaixaram a cabeça. Eu permaneci imóvel, desejando desaparecer. Zayan apertou os punhos. — Não faça isso novamente. Isadora ficou pálida. — Está me dando ordens por causa dela? — Estou deixando claro que não permitirei que o vínculo seja usado para prejudicar minha companheira. Isadora soltou uma risada incrédula. — Sua companheira? O Alfa ficou em silêncio. Ela deu um passo em sua direção. — Você passou semanas afirmando que não a queria. Que pretendia romper o vínculo e permanecer ao meu lado. Mas agora a chama de sua companheira diante dos guardas? Zayan não respondeu. Isadora olhou para mim. E, naquele instante, percebi que alguma coisa havia se quebrado entre nós. A mulher que antes me tratava com formalidade agora me observava como se eu tivesse roubado algo que lhe pertencia. — Saia daqui, Maíra — ordenou ela. Zayan virou-se imediatamente. — Isadora… — Eu disse para ela sair! O Alfa ficou imóvel. Olhei para ele. E
Na manhã seguinte, o peso das novas tarefas tornou-se evidente. Helena tentou intervir quando viu a lista que Isadora havia preparado. — Minha Luna, essas atividades são excessivas para uma única pessoa. Isadora estava sentada à mesa do desjejum. — Maíra é uma das servas mais eficientes da mansão. — Não duvido disso, mas… — Então não vejo motivo para questionar a distribuição. Helena baixou a cabeça. — Como desejar, minha Luna. Eu permanecia próxima à porta, aguardando novas instruções. Isadora virou-se para mim. — Maíra, quero que os aposentos principais estejam limpos antes do meio-dia. A lavanderia deverá estar organizada até o fim da tarde, e o salão de recepção precisa estar pronto para a reunião desta noite. — Sim, minha Luna. — E cuide para que tudo esteja impecável. — Sim, senhora. Peguei a lista e saí. Helena me alcançou no corredor. — Não precisa aceitar tudo sem dizer nada. — Ela é a Luna, senhora. — E você não é uma máquina. Sorri discretamente. — Vou
Naquela noite, o conselho se reuniu novamente.Eu estava servindo o jantar quando percebi que Zayan parecia inquieto.Seu lobo estava agitado, e o vínculo transmitia uma sensação de desconforto que me fazia sentir o peito apertado.Tentei manter a concentração.Quando me aproximei para servir o vinho, uma pontada intensa atravessou meu corpo.A taça escorregou de minhas mãos.O vidro se chocou contra o chão, espalhando cacos sobre o mármore.O salão ficou em silêncio.— Maíra! — exclamou Helena, que estava próxima à entrada.Abaixei-me imediatamente.— Perdão, minha Luna. Meu Alfa.Zayan se levantou tão depressa que a cadeira caiu para trás.— Não toque nisso!Sua voz ecoou pelo salão.Parei, surpresa.Ele atravessou o espaço entre as mesas e segurou meu braço antes que eu pudesse recolher os cacos.— Você se machucou?Olhei para ele, confusa.— Não, meu Alfa.Zayan examinou minha mão.Um pequeno corte havia surgido próximo ao polegar.Uma gota de sangue escorreu pela pele.O Alfa ros












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