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Capítulo 4

Author: Sea One
Meia hora depois, Adrian voltou ao restaurante, com Sera logo atrás. Ele falou comigo como se nada tivesse acontecido, o tom suave e enganosamente gentil.

– Irene, eu acabei de dar uma boa lição nela. Agora ela vai se desculpar pessoalmente com você.

Sera abaixou a cabeça imediatamente, fazendo-se de submissa.

– Me desculpa, Irene. Foi tudo um capricho meu. Espero que você possa me perdoar, pelo menos considerando que o Don já "me ensinou uma lição".

Ela enfatizou de propósito as palavras "me ensinou uma lição".

A expressão de Adrian endureceu por um instante, então ele franziu a testa e rosnou, ríspido:

– Já pediu desculpa e ainda está aí parada? Some da minha frente!

Observei Sera em silêncio. Por trás daquele ar de mágoa ensaiada, havia um prazer inegável brilhando nos olhos dela. Ela saiu rápido, quase correndo.

O olhar de Adrian a acompanhou, a garganta ainda se movendo num engolir tenso. Só então ele se virou para mim, pigarreando levemente.

– Deixa ela ir refletir. Agora ninguém vai atrapalhar seu aniversário. Vou ficar com você o dia inteiro.

Hesitei.

– Adrian… eu queria te dizer…

O celular dele tocou.

No identificador: Sera.

Ele atendeu, meio sem jeito. Do outro lado, a voz dela soava urgente.

– As gangues estão brigando por um carregamento de armas. Precisamos ir ver isso.

Adrian recusou na hora.

– Vale a pena eu ir pessoalmente? Que os tenentes resolvam. Eu vou ficar com a minha principessa.

Sera rebateu:

– Se você não for, alguém vai usar isso contra você! Todo mundo vai dizer que você não é apto!

Adrian soltou uma risada fria.

Eu intervim:

– Vai. Isso é mais importante do que eu.

Empurrei-o gentilmente em direção à porta.

Ele beijou minha testa.

– Passo na sua casa hoje à noite.

– Mais cedo… o que você ia me dizer? – Ele perguntou.

– Só… fique em segurança. – Respondi.

Todos esses anos, eu sempre deixei que ele colocasse os assuntos da gangue em primeiro lugar. Treinei todos os dias, moldando a mim mesma para ser uma boa Donna, esperando o dia em que ele finalmente tiraria meu nome.

Uma vez, confiei nele completamente.

Agora, eu duvidava dele com a mesma intensidade.

Eu o segui em segredo, peguei um táxi para ver como ele lidaria com a disputa pelas armas.

O que vi fez meu coração apertar dolorosamente.

Ele e Sera estavam sentados de frente para o líder da outra gangue, num restaurante sofisticado. Rindo. Conversando. Como se nada tivesse acontecido.

As luzes de Ano-Novo brilhavam do lado de fora. Lá dentro, o restaurante estava quente, festivo, cheio de comida. Eles estavam totalmente à vontade.

Claro — chefões resolvem tudo à mesa. Nada de tiroteios, nada de caos.

Enquanto isso, eu ainda nem tinha almoçado.

Quando cheguei em casa, comecei a arrumar minhas coisas para Miami.

Então chegou uma mensagem de Adrian:

[A situação está feia. Não vou voltar hoje à noite.]

Liguei para ele imediatamente.

Ele atendeu. Ao fundo, o som suave de um violino. Eu não disse nada. Apenas desliguei.

É. Eu me lembrei — enquanto eles jantavam, eu o vi lançar um olhar para um programa de concerto do outro lado do salão. Era para lá que eles iam depois.

Adrian não ligou de volta.

Eu quis chorar, mas tudo o que consegui foi rir. Joguei o celular de lado e continuei arrumando as malas.

Na manhã seguinte, Adrian entrou apressado. No instante em que me viu, beliscou meu nariz, com um sorriso travesso no rosto.

– Minha principessa… veio me fiscalizar? Descobriu alguma coisa?

Eu o conheço. Ele estava nervoso — com medo de que eu perguntasse como o dia anterior passou de uma "disputa de armas" para um concerto.

Provavelmente já tinha ensaiado cem conversas "e se" na cabeça.

Mas eu apenas disse, seca:

– Não estava fiscalizando. Apertei o botão errado.

Só então ele notou a pilha de malas no meio da sala.

Instintivamente, passou os braços pela minha cintura, como sempre fazia.

– Você está arrumando as coisas? Vai viajar?

Afastei as mãos dele com delicadeza.

– Vou para Miami.

Ao ouvir isso, ele relaxou, soltando o ar.

– Vai ver sua mãe e seu pai? Quando você vai? Vou pedir para minha assistente preparar uns presentes para você levar e mandar lembranças minhas.

– Hoje à tarde. – Respondi.

– Ótimo. Eu te levo ao aeroporto. Mas volta logo — vou sentir sua falta.

Sorri em silêncio.

Depois que eu partisse, não tinha planos de voltar para Chicago.

Mas mesmo quando o avião já estava prestes a decolar, ele não apareceu.

Tudo o que me deixou foi uma mensagem:

Apareceram uns afazeres no porto. Vou mandar o motorista te levar ao aeroporto.

Mais tarde, o Instagram de Sera postou uma foto do porto dos Grandes Lagos. Eles estavam inspecionando os cais com outro líder de gangue.

Ela estava de braços dados com um homem — só dava para ver as costas — mas eu sabia.

Era Adrian.

E Sera… ela parecia, em todos os sentidos, uma Donna.

Soltei uma risada sem som e chamei um táxi por conta própria.

No aeroporto, meu celular vibrou.

Mensagem da minha mãe:

[Já embarcou?]

Respondi na hora:

[Mãe, estou a caminho!]

Depois do embarque, me acomodei no assento.

O celular apitou.

Uma mensagem de Adrian.

Ele me enviou um print de um convite:

Noivo: Julian Monroe

Noiva: Irene Cast

Ele escreveu:

[O que é isso?]

Ignorei.

O anúncio do avião pediu que desligássemos os celulares.

Retirei o chip e o parti ao meio.

Adrian… para mim, você é como aquele sorteio. Em branco. Vazio.
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