INICIAR SESIÓNDominic Willians
A reunião com o conselho da empresa parecia mais uma arena de combate do que uma mesa de discussão. O clima era pesado, como se cada palavra carregasse um peso de mil decisões. Eu já estava acostumado com aquilo, mas naquela manhã, algo me incomodava mais do que o normal. Os diretores estavam especialmente agitados, debatendo o cenário econômico — instável, imprevisível e volátil. Palavras que eu ouvia desde que comecei nesse ramo. Mas então, como sempre acontecia nessas reuniões, o foco desviou do mercado para a sucessão da empresa. E o nome dele surgiu. — A imagem da empresa precisa de estabilidade, Dominic. — disse Martins, um dos conselheiros mais antigos, encarando-me com aquele olhar que escondia julgamento. — E seu filho, Brandon... convenhamos, ele não transmite nenhuma confiança como sucessor. Se continuar assim, tudo o que ele vai herdar são dívidas! Fechei os olhos por um segundo. Já esperava por isso. Brandon era tudo, menos previsível. Mas era meu filho, e parte de mim ainda tinha esperanças de que ele mudasse. Só que a cada dia, essa esperança parecia mais tola. Antes que eu pudesse responder, outro diretor aproveitou a deixa: — Tenho um velho amigo, Jackson Hayes. A empresa dele tem potencial, só está com problemas de liquidez. Ele tem uma filha jovem, bonita e bem-educada. Se Brandon se casasse com ela, conseguiríamos consolidar uma aliança estratégica. Estamos falando de um retorno comercial acima de 500%! Franzi o cenho. Aquilo era ousado. Mas não completamente absurdo. Em um mundo onde alianças significavam mais do que contratos, casamentos estratégicos ainda aconteciam, mesmo que as pessoas fingissem que não. Levei a mão ao queixo, ponderando. Havia lógica naquela proposta. E, infelizmente, poucas opções no cenário atual. Não havia muito o que ser feito. — Marque um jantar. — falei, sem emoção. — Chame o senhor Hayes e a família. Eu levo o Brandon. (...) Na noite marcada, chegamos ao restaurante reservado. Era um dos lugares mais sofisticados da cidade. Escolhi esse em especial para passar a mensagem certa: elegância, seriedade, compromisso. Exatamente o que precisava esta noite. Brandon apareceu atrasado, como sempre. Ao menos estava vestido a caráter, adequadamente. Quando entrou e viu o ambiente formal, a expressão no olhar dele mudou. Passou rapidamente da curiosidade ao incômodo. Ele veio até mim e sentou-se à mesa, encostando na cadeira e cruzando os braços com desconfiança. — Que tipo de jantar é esse? — perguntou, estreitando os olhos. — Você não disse que queria conversar comigo em particular sobre a empresa? E essa mesa enorme? O que você está planejando? Suspirei, já prevendo o que viria. — Um encontro para discutir uma possível união entre você e a filha de um amigo. — disse com franqueza. — Seria benéfico para todos nós. A resposta dele veio como uma explosão. — Você só pode estar brincando! Quer que eu me case com uma desconhecida por causa de negócios? De jeito nenhum! A cada palavra, senti o sangue me subir à cabeça. Meu maxilar se contraiu, e tive que fazer esforço para manter o controle. — Você não tem disciplina, Brandon. Vive se escondendo atrás de identidades falsas, enganando mulheres, brincando com os sentimentos alheios como se tudo fosse um jogo. — Apontei o dedo para ele. — Se não quiser assumir responsabilidades, então também não pode assumir a empresa. Eu retiro sua sucessão! — falei com firmeza. Ele deu uma risada seca, debochada. Como o moleque que era. — Ótimo! Não estou interessado na sua empresa, nem nesse casamento ridículo! Se quer tanto casar, case você mesmo! — depois disso, ele simplesmente se levantou e saiu, batendo a porta do estabelecimento como uma criança mimada. Minha sorte foi que, quando fiz reserva no restaurante, aluguei o lugar completamente para que apenas nós estivéssemos aqui. Então, não tinha ninguém além de mim até o momento. Pois nem meus convidados haviam chegado ainda. Fechei os olhos. Respirei fundo. Estava prestes a ir atrás dele, quando a porta do restaurante se abriu novamente. Jackson, Irina e... Stella. Eles entraram com passos hesitantes, olhando ao redor, claramente confusos. A presença deles me surpreendeu. Mas nada, absolutamente nada, me preparou para o que senti ao ver a Stella. Ela era linda. Mas não daquele jeito óbvio, montado. Era uma beleza suave, delicada, que parecia se impor pela serenidade. E havia algo nela... algo nos olhos, no jeito como os ombros estavam tensos, como se ela carregasse um fardo que ninguém via. Me perdi por alguns segundos naquela visão. Meus pensamentos foram interrompidos pela voz de Jackson, cautelosa: — Você é... o Brandon? Quantos anos você tem mesmo? A pergunta me pegou desprevenido. Eu até quis rir, sem jeito com a situação. Ele havia percebido, claro. Eu era muito mais velho do que o esperado. E meu filho... bem, meu filho tinha saído porta afora. Minha mente ecoou as palavras do Brandon. “Se quer tanto casar, case você mesmo.” O absurdo daquela frase deveria ter me feito rir, mas quando ouvi a pergunta do Jackson, algo dentro de mim clicou. Talvez... talvez ele estivesse certo. Talvez esse casamento fosse uma jogada que eu devesse assumir. Brandon não estava pronto. Nunca esteve. E agora, ali na minha frente, estava uma mulher que, por algum motivo que eu ainda não compreendia, mexia comigo. Tomei fôlego, endireitei a postura e sorri com a calma de quem tinha tudo sob controle, mesmo que não tivesse. — Sou Dominic Brandon... Podem me chamar por Dominic. Tenho quaren... tenho vinte e um anos. Era uma mentira, claro. E uma grande. Mas além de eu estar em forma, o que me fazia não parecer tão velho quanto realmente era, naquele instante, não era só sobre negócios. Era sobre um sentimento estranho que me invadiu do nada, como se a vida estivesse me oferecendo uma chance que eu nem sabia que queria. Stella ainda não havia dito uma palavra, mas eu já sentia que havia algo ali. Algo que ia além do interesse comercial. Algo que talvez mudasse tudo. E, pela primeira vez em anos, eu estava disposto a correr o risco.Dominic Willians Meses depois… O sol estava se pondo em tons de dourado e laranja quando cruzei o jardim com o pequeno em meus braços. Havia algo sagrado naquele instante: a brisa leve balançando as folhas, o riso abafado de Stella vindo da varanda, e o som ritmado da respiração do meu filho adormecido encostado ao meu peito. O mundo parecia ter encontrado, finalmente, o seu eixo. Era como se todas as linhas tortas que nos trouxeram até aqui tivessem, enfim, formado um círculo perfeito. Um lar. Um recomeço. Meses se passaram desde o dia em que tudo mudou. Desde o sequestro. A loucura. A dor. Desde que Brandon foi preso, gritando como um homem que já havia perdido tudo antes mesmo de tentar tomar mais. Desde que Irina foi julgada e condenada por uma lista longa de crimes, de manipulação a tentativa de homicídio. Desde que Nolan foi localizado numa marina, tentando escapar do país em um barco clandestino, e acabou sendo extraditado em um avião militar. A justiça, embora tardia, che
Stella WilliansAs sirenes se aproximavam quando Dominic caiu nos meus braços. Ele estava pálido, fraco, com o sangue ainda escorrendo de um corte profundo na testa, mas mesmo assim, com um pequeno sorriso nos lábios ao me ver inteira. Um sorriso frágil, mas verdadeiro. Eu não conseguia parar de chorar. Não de medo, mas de alívio. De gratidão. Por ele estar ali. Por termos sobrevivido.Brandon estava inconsciente no chão, com o rosto parcialmente coberto de sangue, o corpo ainda armado, mas finalmente vencido. Todo o ódio que ele cultivou, toda a escuridão que havia engolido sua alma, terminava ali. Eu não sentia pena. Apenas um vazio. Um buraco fundo deixado por tanta dor, por tudo o que ele destruiu, por tudo que ele tentou nos tirar.Os policiais invadiram a cabana com violência, armas em punho, gritando instruções. As vozes eram duras, mas soaram como música nos meus ouvidos. Levantei as mãos devagar, ainda segurando Dominic com um braço, enquanto os paramédicos avançavam com agil
Stella WilliansEu estava exausta.O dia tinha sido uma montanha-russa de emoções e revelações. A prisão de Irina não tinha trazido a paz que eu esperava. Pelo contrário, Dominic ainda estava desaparecido, e o buraco em meu peito crescia a cada minuto.Voltei para casa tarde, na esperança de encontrar algum sinal dele. Mas o quarto estava vazio. Nenhum bilhete. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal.Foi quando meu telefone tocou.Número privado.Atendi com o coração na garganta.— Alô?Ruídos. Estática.— …Stella… sou eu…— Dominic?! Onde você está?! Eu…— Ele vai até você… foge… Stella… foge agora!A linha caiu.— Dominic?! DOMINIC?! — gritei, mas era inútil.Corri para a porta, mas já era tarde.Brandon entrou como uma tempestade. Despenteado. Descontrolado. E com uma arma na mão.— Você destruiu tudo. — disse ele, trancando a porta atrás de si. — Por que você escolheu ele, Stella? Por que não eu?— Brandon, por favor… — comecei a recuar. — Pensa no bebê…— O BEBÊ?! — ele gritou. — Você ac
Dominic Willians O som da maçaneta girando ecoou, me deixando em alerta, pois se bem me lembrava, eles disseram que era o tal chefe que viria. Meus olhos, ainda pesados pelo sangue seco em minha testa, se ergueram devagar. Os mesmos dois homens enormes de antes abriram a porta e deram passagem para alguém que vinha por trás deles. O som dos sapatos ecoando no chão sujo fez meu estômago revirar. Mas não mais do que a imagem dele diante dos meus olhos.Brandon.Ali estava ele. Com o mesmo ar presunçoso que sempre teve e eu conhecia bem, os cabelos perfeitamente penteados, a postura ereta de quem acreditava estar no controle absoluto de tudo.— Olha só — disse ele, caminhando lentamente até mim, como se observasse uma peça rara de um museu. — O pai do herdeiro. O pai amoroso, atencioso, agora… assim. Rendido. Amarrado como um animal. — tinha sarcasmo em cada palavra que saía de sua boca.— Brandon… — minha voz saiu rouca. — Por quê?Ele riu. Um riso seco, curto. Frio.— Você ainda tem a
Dominic Willians O som dos sapatos batendo contra o piso frio ecoava pelo corredor estreito. Meus passos estavam apressados, o coração martelava no peito e minhas mãos estavam úmidas de ansiedade. Eu não dormia há horas. Desde a prisão de Irina, tudo dentro de mim gritava por Dominic. O vazio que ele deixou com seu silêncio era insuportável. E agora, mais do que nunca, eu sabia que ele não estava desaparecido por acaso.Ele havia tentado me contar algo no hospital. Algo sério. Mas preferiu respeitar meu momento ao lado do meu pai. E eu, cega pela dor, não percebi que talvez aquela fosse minha única chance de impedi-lo de caminhar direto para a armadilha.— Dominic… onde você está? — sussurrei, quase sem voz, ao sair do carro diante do prédio onde Adam mantinha seu pequeno escritório particular. Ele havia me enviado o e-mail com tudo o que entreguei à polícia para que Irina fosse presa, mas agora eu precisava dele de novo. Não para provas, mas para ação.Toquei a campainha três vezes.
Stella Willians A cada palavra dita pelos policiais, tentando fazer eu me acalmar, só fazia com que eu me irritasse mais. Eu já estava ficando desesperada, sem saber mais o que dizer para convencê-los a me escutar. Pela primeira vez, mostrei parte dos documentos que Adam me enviou, porém, agora, depois de muito eu reclamar, o delegado veio até mim. O delegado, visivelmente desconfiado, chamou dois investigadores para acompanharem o caso. — Se a senhora estiver certa... isso é grave. — ele disse. — Estou. E ela vai fugir. Preciso impedir isso. Corri para o hospital. Meu pai ainda permanecia em estado grave, mas estável. Eu apenas precisava vê-lo nesse momento. Entrei no quarto dele, dei um beijo em sua testa e sussurrei: — Prometo que vou cuidar disso, pai. Vou honrar o seu nome. Irina não estava lá, mas soube, por uma enfermeira, que havia passado no hospital e saído há pouco tempo. Disse que iria até o escritório resolver “pendências”. Meus instintos se acenderam como alarme







