FAZER LOGINStella Hayes
Quando ele disse que tinha vinte e um anos, franzi a testa. Ele era dois anos mais novo do que Brandon e um ano velho do que eu… mas não parecia. O tal Dominic tinha uma presença tão marcante, tão firme, que era difícil acreditar que fosse apenas um ano mais velho do que eu. Fora a aparência em si. Não que ele fosse feio, ao contrário, era muito bonito e charmoso. Mas ainda assim, não parecia ter essa idade. A primeira coisa que reparei foi no olhar dele, calmo, profundo, como se me enxergasse além da superfície. Depois, no porte: elegante, seguro, maduro. Cada movimento seu enquanto falava, e me olhava, sorria, gesticulava, vinha acompanhado de uma serenidade quase intimidadora, como alguém que sempre sabia o que estava fazendo. Não dava pra negar: ele era bonito. Muito bonito. E diferente de qualquer homem que eu já tinha conhecido. A gente se sentou à mesa. O jantar começou meio tenso, com sorrisos forçados e aquele tipo de conversa que servia só para quebrar o silêncio. Mas logo o assunto real veio à tona: a possível união entre mim e… Dominic. Eles falavam com naturalidade, como se fosse só mais uma negociação. Apoio financeiro, contratos, alianças estratégicas. Como se eu fosse parte do pacote. Irina, é claro, aproveitou para se exibir, toda sorridente, cheia de sugestões para mostrar como eu era uma “boa escolha”. — Stella é muito obediente, sabe? Discreta, reservada. Vai fazer um ótimo papel de esposa, eu garanto. — disse ela, me lançando um olhar que parecia mais uma ameaça velada para que eu não a contrariasse. Não que eu pretendesse fazer isso. Lembrava bem da conversa no quarto do Nolan após ser acusada de seduzi-lo.Ela continuava — Já falamos sobre isso em casa, mas acredito que seja importante enfatizar isso a você, Dominic. Você, como homem, deve estar de acordo que Stella não deve trabalhar fora de casa, afinal, você é um homem bem-sucedido, não há necessidade dela ter o próprio dinheiro. Mas principalmente, acho que ela não deve se envolver com outros homens.
Em meio a um gole de bebida em sua taça de vinho branco, Irina olhava para mim com um meio sorriso sugestivo e malicioso, me fazendo entender exatamente a que se referia.
Ela estava deixando claro que, por mais que eu amasse o Brandon, e ele a mim, eu deveria ficar bem longe dele, ou teria problemas. Eu engoli em seco. Senti o rosto queimar. Que tipo de mãe, mesmo uma madrasta, se orgulhava em colocar a enteada como uma boneca obediente numa prateleira? Mas o que mais me surpreendeu foi a resposta do Dominic. Ele olhou para todos à mesa, depois voltou o olhar para mim. Com voz firme, mas suave, falou: — Não tenho a intenção de limitar a liberdade da Stella. Não me importo com a vida pessoal dela. Apenas quero que evite escândalos na mídia para não afetar minha empresa. Se ela quiser trabalhar, posso oferecer uma posição na empresa. E quanto à vida íntima… isso deve ser uma escolha dela, não uma obrigação. Naquele instante, senti algo dentro de mim se quebrar. Um tipo de resistência silenciosa, que vinha me mantendo fria e distante. Aquele homem… ele me enxergava como gente. Não como uma moeda de troca. Nem como um fardo. Ele me olhava como se esperasse uma resposta da minha parte, mas eu não disse nada. Fiquei quieta pelo resto da noite, apenas observando. A cabeça girava. Era tudo tão irreal — eu, sentada ali, em um jantar que selaria meu destino. Entre um gole de água e outro, pensei em Brandon. No que a gente tinha vivido. Nos planos que fizemos. Assim que tudo terminou, me despedi educadamente, tentando disfarçar a ansiedade que borbulhava por dentro. Peguei meu celular e mandei mensagem. Stella: Preciso falar com você. Urgente. Nenhuma resposta. Mas eu insisti. Stella: Por favor, Brandon. Só alguns minutos. Stella: Me responde. Esperei. E esperei. A tela do celular permaneceu fria, muda. Sem uma resposta, sem um sinal. Depois de quase uma hora, ele finalmente respondeu: Brandon: Ocupado Curta, seca, uma palavra só. Nem sequer mencionou meu nome. Doeu. Mas ainda assim, tentei insistir. Liguei. Ele não atendeu. Foi aí que eu cometi a tolice. Peguei um táxi e fui até o apartamento que ele costumava alugar. Não tinha certeza do que faria. Parte de mim queria respostas. Outra parte… só queria vê-lo. Precisava ter certeza de que tudo isso, esse casamento arranjado, essa sensação de estar vendida, ainda podia ser evitado. Ao chegar no prédio onde ficava o apartamento dele, toquei a campainha diversas vezes, mas nada de ser atendida. Bati na porta. Nada. Ninguém atendia. Colei o ouvido na porta na tentativa de tentar ouvir algo lá dentro, mas nada. Parecia não haver ninguém em casa. Saí de lá, mas não queria voltar para casa. Estar sob o escrutínio da Irina, diante de seu falatório, além de não querer estar perto do Nolan. Só de pensar nisso, me dava ânsia de vômito. Peguei um táxi e pedi que o motorista apenas dirigisse, até que eu lhe dissesse para parar. Fui observando as ruas de Detroit iluminadas pelos postes e me sentindo cada vez mais agoniada, confusa. Sem saber bem o que queria fazer. Até que avistei uma boate e pedi ao motorista para parar. Desci do carro, paguei a corrida e segui em direção à entrada do lugar. Enquanto caminhava, esbarrei em um casal que estava aos amassos. Quase transando em público. — Me desculpe, eu… — Mas quando olhei para o rosto do homem que segurava firmemente na cintura da mulher loira, meu mundo desabou. Vi ele. Brandon. Com outra mulher. Rindo. Beijando. Como se eu nunca tivesse existido. — S...Stella? — quando percebeu que era eu, ficou pálido. — Sim, sou eu, seu cretino! Idiota! — Stella, se acalma. Eu posso… — ele soltou a mulher e tentou me tocar. — Pode o quê? Explicar? Não, você não pode, estou vendo o que está acontecendo. Não sou idiota! E não me toque! — afastei sua mão. As pessoas ao redor nos olhavam. Consigo ouvir toda a gente zombando de mim:Dominic Willians Meses depois… O sol estava se pondo em tons de dourado e laranja quando cruzei o jardim com o pequeno em meus braços. Havia algo sagrado naquele instante: a brisa leve balançando as folhas, o riso abafado de Stella vindo da varanda, e o som ritmado da respiração do meu filho adormecido encostado ao meu peito. O mundo parecia ter encontrado, finalmente, o seu eixo. Era como se todas as linhas tortas que nos trouxeram até aqui tivessem, enfim, formado um círculo perfeito. Um lar. Um recomeço. Meses se passaram desde o dia em que tudo mudou. Desde o sequestro. A loucura. A dor. Desde que Brandon foi preso, gritando como um homem que já havia perdido tudo antes mesmo de tentar tomar mais. Desde que Irina foi julgada e condenada por uma lista longa de crimes, de manipulação a tentativa de homicídio. Desde que Nolan foi localizado numa marina, tentando escapar do país em um barco clandestino, e acabou sendo extraditado em um avião militar. A justiça, embora tardia, che
Stella WilliansAs sirenes se aproximavam quando Dominic caiu nos meus braços. Ele estava pálido, fraco, com o sangue ainda escorrendo de um corte profundo na testa, mas mesmo assim, com um pequeno sorriso nos lábios ao me ver inteira. Um sorriso frágil, mas verdadeiro. Eu não conseguia parar de chorar. Não de medo, mas de alívio. De gratidão. Por ele estar ali. Por termos sobrevivido.Brandon estava inconsciente no chão, com o rosto parcialmente coberto de sangue, o corpo ainda armado, mas finalmente vencido. Todo o ódio que ele cultivou, toda a escuridão que havia engolido sua alma, terminava ali. Eu não sentia pena. Apenas um vazio. Um buraco fundo deixado por tanta dor, por tudo o que ele destruiu, por tudo que ele tentou nos tirar.Os policiais invadiram a cabana com violência, armas em punho, gritando instruções. As vozes eram duras, mas soaram como música nos meus ouvidos. Levantei as mãos devagar, ainda segurando Dominic com um braço, enquanto os paramédicos avançavam com agil
Stella WilliansEu estava exausta.O dia tinha sido uma montanha-russa de emoções e revelações. A prisão de Irina não tinha trazido a paz que eu esperava. Pelo contrário, Dominic ainda estava desaparecido, e o buraco em meu peito crescia a cada minuto.Voltei para casa tarde, na esperança de encontrar algum sinal dele. Mas o quarto estava vazio. Nenhum bilhete. Nenhuma mensagem. Nenhum sinal.Foi quando meu telefone tocou.Número privado.Atendi com o coração na garganta.— Alô?Ruídos. Estática.— …Stella… sou eu…— Dominic?! Onde você está?! Eu…— Ele vai até você… foge… Stella… foge agora!A linha caiu.— Dominic?! DOMINIC?! — gritei, mas era inútil.Corri para a porta, mas já era tarde.Brandon entrou como uma tempestade. Despenteado. Descontrolado. E com uma arma na mão.— Você destruiu tudo. — disse ele, trancando a porta atrás de si. — Por que você escolheu ele, Stella? Por que não eu?— Brandon, por favor… — comecei a recuar. — Pensa no bebê…— O BEBÊ?! — ele gritou. — Você ac
Dominic Willians O som da maçaneta girando ecoou, me deixando em alerta, pois se bem me lembrava, eles disseram que era o tal chefe que viria. Meus olhos, ainda pesados pelo sangue seco em minha testa, se ergueram devagar. Os mesmos dois homens enormes de antes abriram a porta e deram passagem para alguém que vinha por trás deles. O som dos sapatos ecoando no chão sujo fez meu estômago revirar. Mas não mais do que a imagem dele diante dos meus olhos.Brandon.Ali estava ele. Com o mesmo ar presunçoso que sempre teve e eu conhecia bem, os cabelos perfeitamente penteados, a postura ereta de quem acreditava estar no controle absoluto de tudo.— Olha só — disse ele, caminhando lentamente até mim, como se observasse uma peça rara de um museu. — O pai do herdeiro. O pai amoroso, atencioso, agora… assim. Rendido. Amarrado como um animal. — tinha sarcasmo em cada palavra que saía de sua boca.— Brandon… — minha voz saiu rouca. — Por quê?Ele riu. Um riso seco, curto. Frio.— Você ainda tem a
Dominic Willians O som dos sapatos batendo contra o piso frio ecoava pelo corredor estreito. Meus passos estavam apressados, o coração martelava no peito e minhas mãos estavam úmidas de ansiedade. Eu não dormia há horas. Desde a prisão de Irina, tudo dentro de mim gritava por Dominic. O vazio que ele deixou com seu silêncio era insuportável. E agora, mais do que nunca, eu sabia que ele não estava desaparecido por acaso.Ele havia tentado me contar algo no hospital. Algo sério. Mas preferiu respeitar meu momento ao lado do meu pai. E eu, cega pela dor, não percebi que talvez aquela fosse minha única chance de impedi-lo de caminhar direto para a armadilha.— Dominic… onde você está? — sussurrei, quase sem voz, ao sair do carro diante do prédio onde Adam mantinha seu pequeno escritório particular. Ele havia me enviado o e-mail com tudo o que entreguei à polícia para que Irina fosse presa, mas agora eu precisava dele de novo. Não para provas, mas para ação.Toquei a campainha três vezes.
Stella Willians A cada palavra dita pelos policiais, tentando fazer eu me acalmar, só fazia com que eu me irritasse mais. Eu já estava ficando desesperada, sem saber mais o que dizer para convencê-los a me escutar. Pela primeira vez, mostrei parte dos documentos que Adam me enviou, porém, agora, depois de muito eu reclamar, o delegado veio até mim. O delegado, visivelmente desconfiado, chamou dois investigadores para acompanharem o caso. — Se a senhora estiver certa... isso é grave. — ele disse. — Estou. E ela vai fugir. Preciso impedir isso. Corri para o hospital. Meu pai ainda permanecia em estado grave, mas estável. Eu apenas precisava vê-lo nesse momento. Entrei no quarto dele, dei um beijo em sua testa e sussurrei: — Prometo que vou cuidar disso, pai. Vou honrar o seu nome. Irina não estava lá, mas soube, por uma enfermeira, que havia passado no hospital e saído há pouco tempo. Disse que iria até o escritório resolver “pendências”. Meus instintos se acenderam como alarme







