FAZER LOGINALEXIA DINIZ
A porta da sala se abriu, e um homem ainda mais impressionante do que nas fotos entrou na sala. Alto, imponente, com uma presença que preenchia o ambiente, ele exalava uma aura de poder e mistério que era quase palpável. Seus cabelos escuros, ligeiramente desalinhados, emolduravam um rosto de traços fortes e olhos intensos. Ele parou abruptamente ao me ver, seus olhos arregalados, fixos em mim com uma expressão de choque quase palpável, como se tivesse visto um fantasma. O tempo pareceu congelar, o ar da sala se tornando espesso. Seus olhos escuros, cravaram-se nos meus como se tentasse desvendar um enigma. — Alexia? — A voz rouca, carregada de uma emoção estranha e indefinível, escapou de seus lábios, quase um sussurro. — É um prazer conhecê-lo pessoalmente, senhor Mancini — respondi, estendendo a mão para um cumprimento profissional, embora a estranha e intensa reação dele me deixasse profundamente intrigada. Ele não pegou minha mão, continuou a me encarar, o choque em seus olhos dando lugar a uma intensidade confusa, quase beirando a fúria. A fisionomia dele se alterou, um misto de dor e raiva moldando seus traços. Sua mandíbula estava tensa, os punhos cerrados ao lado do corpo. O que estava acontecendo? Por que ele me olhava daquele jeito, com tal intensidade, como se eu fosse a materialização de algo terrível que ele jamais esperava ver? A atmosfera na sala mudou drasticamente, tornando-se pesada e carregada de uma tensão que eu não conseguia compreender. Bento e Artturo também pareciam chocados, trocando olhares nervosos, como se estivesse testemunhando algo inacreditável. Matteo finalmente quebrou o silêncio, sua voz, agora mais controlada, mas ainda áspera, era como um trovão distante. — O que você está fazendo aqui? — Ele perguntou, seus olhos ainda fixos em mim, uma pontada de acusação nítida em seu tom. — Sou a nova modelo da Mancini Starlight senhor, estou aqui porque fui chamada — respondi, minha voz um pouco vacilante, tentando manter a calma diante daquela hostilidade inesperada. Meu coração acelerou. Aquela recepção estava longe do que eu esperava. Ele riu, um riso amargo e sem humor, que fez meus pelos se arrepiarem. — Você não deveria estar aqui! — As palavras saíram como lâminas, cortando o ar e me atingindo em cheio. Cada sílaba carregada de uma dor e um rancor que eu não conseguia decifrar. Artturo interveio, sua voz tentando suavizar a atmosfera. — Matteo, por favor, contenha-se. Você está assustando a senhorita Lexie. Ela é uma das nossas contratações mais promissoras. — Havia um tom de advertência na voz do advogado. — Promissora? Você não sabe o que está dizendo, Artturo. Ela é um erro. — Ele balançou a cabeça, descrença e fúria em seu olhar. Minha mente girava. Um erro? Como assim? Eu não o conhecia. Não fazia a mínima ideia do motivo de tanta raiva. Aquela reação era completamente incompreensível para mim. Era como se ele estivesse me confundindo com outra pessoa, ou me julgando por algo que eu não tinha ideia do que era. Comecei a pensar que talvez, os rumores falsos que meu ex-namorado havia espalhado na minha antiga empresa no Brasil tivessem me seguido até aqui. Era a única explicação possível para tanta hostilidade de alguém que eu acabara de conhecer. Ele devia ter ouvido as mentiras e estava me julgando por elas. — Eu não sei do que o senhor está falando. — menti, sentindo um calafrio percorrer minha espinha. A confusão se misturava ao medo. — Você sabe sim! — Ele deu um passo em minha direção, e eu recuei instintivamente. — Matteo, pare! — Bento se levantou, colocando uma mão no ombro do amigo. — Não me toque, Bento! — Matteo se desvencilhou bruscamente. — O que diabos você estava pensando ao contratá-la? Você não leu o currículo dela direito? Você não fez uma pesquisa mais aprofundada? Artturo e Bento pareciam genuinamente confusos e chocados com a explosão do Matteo. — Eu contratei a melhor candidata, Matteo. O currículo dela é impecável. Ela é perfeita para o que buscamos. Não havia nada que indicasse qualquer problema. — Bento falou tentando se defender. — Não importa! — Matteo berrou, a raiva transbordando de seus olhos. — Ela é alguém que eu não quero ver! Ela não devia ter pisado aqui! Aquelas palavras me atingiram como um raio. O desespero começou a tomar conta de mim. Aquele homem me odiava com uma intensidade que eu jamais havia presenciado, e sem nenhum motivo aparente que eu pudesse entender. Bento, visivelmente desconfortável, tentou intervir novamente. — Matteo, talvez haja um engano. — Não há engano, Bento! — Matteo o interrompeu, sua voz baixa e perigosamente calma. — Ela é exatamente quem eu penso que é. E a partir de agora, ela não trabalha mais para a Mancini Starlight. O contrato dela está cancelado. Minha mandíbula caiu. Eu acabei de chegar, acabei de iniciar uma nova fase na minha vida, e em poucos minutos, tudo estava desmoronando diante dos meus olhos. A dor em seu rosto era tão profunda quanto a fúria. Ele estava agindo como se eu tivesse cometido um crime hediondo. — O quê? Você não pode fazer isso! — Exclamei, a incredulidade e a raiva começando a se misturar ao meu medo. — Eu posso e eu farei. Eu sou o CEO desta empresa. E eu decido quem entra e quem sai. E você está fora. Agora saia da minha sala. Saia da minha empresa. E não ouse aparecer na minha frente novamente. — Ele apontou para a porta, sua voz tremendo de raiva contida. As lágrimas começaram a se formar em meus olhos, mas eu me recusei a deixá-las cair. Eu não daria a ele a satisfação de me ver desmoronar. Eu não iria perder mais um trabalho devido a acusações falsas a meu respeito. Será possível que mesmo longe do maldito do Lúcio, sua assombração ainda pairava no ar. Ele me difamou e isso vai me perseguir eternamente. — Não sei qual é o seu problema comigo, senhor Mancini, e francamente, não me importa. Mas não admitirei ser maltratada nesta empresa. Quer me demitir? Ótimo! Então pague a indenização. Com licença, meu horário já terminou. Qualquer coisa fale com meu advogado. Sem esperar por mais palavras, dei meia-volta e saí correndo da sala, deixando para trás o silêncio atordoado de Bento e Artturo e o olhar gélido de Matteo Mancini. O corredor parecia se estender infinitamente, e eu só queria chegar ao meu apartamento, ao meu porto seguro, e me esconder daquela realidade brutal que havia desabado sobre mim.MATTEO MANCINI Um ano havia se passado. Doze meses não apenas no calendário, mas na tapeçaria de nossas vidas, doze meses de descobertas emocionantes, de reaproximação cuidadosa, de um amor familiar que florescia resiliente, em meio às cicatrizes ainda visíveis do passado. Hoje, nossa casa não era apenas um lar; era um epicentro de alegria vibrante, um santuário adornado com balões coloridos que dançavam ao vento suave, fitas reluzentes que espalhavam brilhos pelo ambiente e o irresistível, doce aroma de bolo de aniversário que pairava no ar. Hoje, celebramos o primeiro ano de vida do meu pequeno sol, Pietro. A sala era um mosaico de sorrisos genuínos e vozes animadas, um coro de felicidade que aquecia a alma. Minha mãe, Suzana, irradiava uma felicidade contagiante, seus olhos marejados de uma emoção profunda enquanto segurava Pietro no colo. Ela o embalava suavemente ao som de um "Parabéns pra você" desafinado, cantado por todos, que o fazia soltar gargalhadas gostosas, um som que
MATTEO MANCINI O burburinho do restaurante, um mosaico de risadas, o tilintar de talheres e o murmúrio de conversas, era uma melodia familiar e reconfortante em meio ao nosso domingo em família. Robert ria abertamente de uma das histórias de Suzana sobre a minha infância. Pietro, em sua cadeirinha alta, batucava animadamente na bandeja com um pedaço de pão, seus olhos brilhando de curiosidade para tudo ao redor. Alexia e eu trocamos sorrisos cúmplices e olhares carregados de significado, apreciando a leveza, a felicidade e a quase irreal normalidade daquele momento. Era um retrato da vida que tanto lutamos para reconstruir, um mural de paz erguido sobre as ruínas de um passado tempestuoso. De repente, um silêncio sutil, quase imperceptível para a maioria, pareceu se instalar à nossa volta, embora o barulho constante do restaurante permanecesse inalterado para os outros. Uma estranha sensação me invadiu, como uma corrente de ar frio em um dia quente. Senti um olhar fixo em nós, e in
MATTEO MANCINI O brilho do anel no dedo de Alexia era uma constante lembrança da promessa que fizemos sob o céu de Milão. Meu coração ainda acelerava ao pensar no momento do pedido. No entanto, a euforia do noivado logo deu lugar a uma nova realidade: os preparativos do casamento. Descobri que planejar um casamento, com uma família como a nossa, era uma orquestra caótica, porém maravilhosa, com um toque extra de amor e alegria. Minha mãe, Suzana, mergulhou de cabeça nos preparativos com um entusiasmo que só ela possuía, agora duplicado pela presença do neto. Parecia que ela havia esperado a vida inteira por esse momento. As discussões sobre listas de convidados, tipos de flores e cores de decoração transformaram a sala de estar do meu apartamento em um verdadeiro quartel-general de eventos, com Pietro muitas vezes no colo de alguém, alheio à agitação. Era lindo ver a energia dela, e mais lindo ainda era observar a interação com Robert. A cada dia, eu percebia o quanto eles estavam
MATTEO MANCINI O ar estava fresco, carregado com o cheiro suave da relva recém-cortada e o aroma distante das flores do Parco Sempione. O sol começava a se despedir, pintando o céu em tons de laranja que refletiam nas antigas muralhas do Castello Sforzesco. Meu coração batia em um ritmo descompassado, um tamborilar que rivalizava com a grandeza daquele momento. O anel, pesado e real em meu bolso, parecia queimar minha pele. Eu havia pensado em mil lugares, mas os jardins do castelo, com seus caminhos silenciosos e a imponente presença da história, pareciam o cenário perfeito. Era um lugar de fundações sólidas, como o futuro que eu queria construir com Alexia. Ela, alheia à minha tormenta interna, caminhava ao meu lado, os olhos fixos na beleza do crepúsculo. Seus cabelos soltos dançavam com a brisa, e seu sorriso iluminava o parque mais do que o próprio sol poente. — Este lugar é mágico, Matteo — ela suspirou, virando-se para mim. — É como se cada pedra contasse uma história.
MATTEO MANCINI Marcamos um encontro simples, íntimo, em nossa casa. Era o nosso santuário, o lugar onde havíamos construído nosso amor, celebrado nossa união e acolhido nosso filho. A manhã do dia marcado amanheceu com uma tensão quase palpável, uma eletricidade silenciosa percorrendo o ar de nosso lar, sufocando cada respiração enquanto esperávamos a chegada de Robert. Quando a campainha tocou, um arrepio percorreu minha espinha, e meu coração deu um salto hesitante, quase doloroso. Abri a porta e Robert estava parado na soleira, mais magro do que eu me lembrava, a pele ligeiramente pálida, o rosto marcado por noites mal dormidas e pela recente turbulência em sua vida, o divórcio amargo, a solidão que ele agora confessava, o peso de seus próprios segredos finalmente expostos. Suas mãos inquietas apertavam um pequeno presente embrulhado em papel azul-claro, quase amarrotado, como se estivesse segurando um pedaço frágil de sua própria esperança ou um pedido silencioso de redenção. S
MATTEO MANCINI — Eu sei, meu filho. Eu errei terrivelmente, eu te peço perdão por isso, do fundo do meu coração. — Ela pausou, buscando ar. — Eu comecei a trabalhar na casa da família de Robert quando eu era muito jovem, mal tinha dezoito anos. Eu tinha acabado de chegar do interior, sozinha, em busca de uma vida melhor. Eles eram muito ricos, poderosos. — Ela engoliu em seco, os olhos perdidos em alguma memória distante. — Robert não era como os pais. Ele era gentil, educado, sempre me tratava com respeito, diferente da mãe dele, que era muito fria e distante. Nós começamos a conversar. Pequenos momentos, na cozinha, no jardim. Ele era um homem bom, e eu era uma menina sozinha, ingênua, carente de afeto. Eu me apaixonei. — Minha garganta se apertou. Nunca imaginei minha mãe, tão forte e reservada, falando sobre paixão e vulnerabilidade. — Mas ele estava noivo, mãe. — Ela assentiu, as lágrimas escorrendo mais rápido. — Eu sabia que era errado, mas o coração da gente não escolhe,







