INICIAR SESIÓNNa manhã seguinte, Alina acordou sem saber exatamente como havia conseguido dormir.
A cabeça latejava. Os olhos estavam inchados, e a maquiagem borrada da noite anterior ainda deixava pequenas manchas sobre a fronha. Durante alguns segundos, ela ficou encarando o teto do quarto, tentando acreditar que tudo não passara de um pesadelo.
Então viu a caixa branca sobre a cômoda.
Dentro dela estava o vestido que usara na festa.
O vestido que escolhera para conhecer oficialmente a família do homem que amava.
O vestido que agora carregava a lembrança do pior dia da sua vida.
Ela se levantou devagar, abriu a caixa e passou a mão sobre o tecido delicado. Em outro momento, teria cuidado para que ele não amassasse. Agora, apenas fechou a tampa e a empurrou para o fundo do armário.
Nunca mais queria olhar para aquilo.
Quando saiu do quarto, encontrou dona Ester na cozinha preparando café.
A senhora tentou sorrir.
— Dormiu um pouco?
Alina fez que sim, mesmo sabendo que a avó perceberia a mentira.
— Você precisa comer.
— Não estou com fome.
— E acha que a dor vai diminuir se você parar de viver?
Alina permaneceu calada. Sentou-se à mesa e aceitou a xícara de café que a avó colocou diante dela.
O silêncio entre as duas era confortável. Dona Ester nunca a pressionava a falar.
Mas aquele momento de paz durou pouco.
Alguém bateu à porta.
As duas se entreolharam.
— Deve ser ele — Alina murmurou, sentindo o estômago revirar. — Eu não quero vê-lo.
Dona Ester caminhou até a entrada.
Quando abriu a porta, encontrou um homem alto, vestido com um terno impecável, segurando uma pasta de couro nas mãos.
— Bom dia. A senhorita Alina Vilar está?
A senhora franziu a testa.
— Quem deseja?
— Meu nome é Augusto. Sou secretário particular da senhora Donatella Armani. Vim entregar uma mensagem.
Alina se levantou imediatamente.
— Eu não tenho nada para conversar com aquela família.
O homem não pareceu ofendido.
— A senhora Donatella imaginou que diria isso. Ainda assim, pediu que eu lhe entregasse este envelope.
Ele estendeu um envelope preto, grosso, fechado com um discreto selo dourado.
Alina não fez menção de pegá-lo.
— Diga à sua patroa que ela pode rasgar isso e jogar no lixo.
Augusto manteve a calma.
— Ela também disse que a senhorita recusaria. E pediu que eu acrescentasse uma informação.
Alina cruzou os braços.
— Qual?
— A conversa não é sobre o senhor Gael.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Então é sobre o quê?
— Sobre a saúde de sua avó.
O rosto de dona Ester perdeu a cor.
Alina avançou um passo.
— O que a saúde dela tem a ver com a família Armani?
Augusto baixou o olhar por um instante.
— A senhora Donatella sabe que dona Ester precisa realizar uma cirurgia cardíaca o quanto antes. Também sabe que o tratamento é muito caro.
Alina sentiu o sangue gelar.
Ela nunca havia contado aquilo para Gael.
Na verdade, escondeu a situação até mesmo de muitos amigos. O diagnóstico havia chegado poucas semanas antes, e ela vinha trabalhando em dobro para conseguir juntar dinheiro.
— Como ela descobriu isso?
— A senhora Donatella costuma obter todas as informações de que precisa.
Alina sentiu um misto de medo e indignação.
— Isso é uma ameaça?
— Não. É um convite.
Augusto colocou o envelope sobre a mesa.
— A senhora Donatella deseja conversar pessoalmente. Apenas isso.
— Eu não vou.
— A decisão é sua. Mas ela pediu que eu lhe dissesse que algumas oportunidades aparecem apenas uma vez na vida.
Alina soltou uma risada sem humor.
— Curioso... ontem a família dela fez questão de me mostrar exatamente o contrário.
O secretário apenas fez uma leve reverência e caminhou em direção à saída.
Antes de entrar no carro, voltou-se para ela.
— Estarei aguardando no endereço indicado até as três da tarde.
Ele foi embora.
Alina ficou alguns segundos olhando pela janela, até que dona Ester colocou a mão em seu ombro.
— Não vá.
— Eu também não quero.
A senhora fitou o envelope.
— Pessoas como essa mulher nunca fazem nada sem interesse.
Alina pegou o convite e o abriu.
Dentro havia apenas um cartão com um endereço e uma frase escrita à mão.
"Você perdeu sete anos por causa da minha família. Talvez seja hora de receber algo em troca."
Ela amassou o papel.
— Ela acha que pode comprar qualquer pessoa.
Dona Ester segurou sua mão.
— E não pode?
Alina respirou fundo.
— Não a mim.
No entanto, ao longo do dia, aquelas palavras não saíram de sua cabeça.
Ela tentou trabalhar no ateliê. Tinha uma tela renascentista parcialmente restaurada, uma encomenda importante que precisava ser entregue até o fim da semana.
Mas suas mãos tremiam.
Pegava um pincel e, segundos depois, o colocava de volta sobre a bancada.
Seu celular permanecia desligado.
Ela sabia que, assim que ligasse, encontraria dezenas de mensagens de Gael.
Perto do meio-dia, decidiu conferir as notícias na internet pelo computador do ateliê.
Arrependeu-se imediatamente.
Em todos os portais havia fotos da festa.
"Herdeiro do Grupo Armani anuncia casamento com Serena Bastos."
"Quem é a jovem misteriosa que deixou a festa chorando?"
"Fontes afirmam que Gael Armani mantinha um relacionamento secreto antes do noivado."
Algumas matérias a chamavam de amante.
Outras diziam que ela havia tentado se aproximar da família por interesse.
Alina fechou a página com as mãos trêmulas.
— Eles vão destruir você — dona Ester disse baixinho.
Ela tentou responder, mas o telefone da casa tocou.
A senhora atendeu.
Do outro lado da linha, a voz era conhecida.
— Dona Ester? Aqui é o Gael. A Alina está aí?
A idosa endureceu a expressão.
— Não ligue mais para esta casa.
— Por favor, eu só preciso falar com ela.
— Você já falou o suficiente.
— Eu amo a sua neta.
Dona Ester apertou o aparelho com força.
— Se isso é amor, eu agradeço a Deus por ela ter descoberto a verdade antes de se casar.
A senhora desligou sem esperar resposta.
Alina abaixou a cabeça.
— Ele continua ligando?
— Desde cedo.
Ela não comentou nada.
Às duas da tarde, ainda estava decidida a ignorar o convite de Donatella. Porém, ao entrar no quarto da avó, encontrou a senhora sentada na cama, segurando escondido uma pasta com exames médicos.
Dona Ester tentou guardá-la rapidamente.
Foi tarde demais.
Alina pegou os papéis e começou a ler.
Os valores do tratamento eram ainda maiores do que ela imaginava.
Consultas.
Cirurgia.
Internação.
Medicamentos.
Ela levou a mão à boca.
— Por que a senhora escondeu isso de mim?
— Porque você já estava preocupada demais.
— Nós não temos esse dinheiro.
Dona Ester sorriu com tristeza.
— Dinheiro a gente dá um jeito.
Alina ficou olhando os exames.
Lembrou-se do envelope.
Lembrou-se da frase escrita por Donatella.
Talvez seja hora de receber algo em troca.
Ela odiava aquela mulher.
Odiava os Armani.
Mas amava sua avó mais do que qualquer orgulho.
Sem dizer uma palavra, foi até o quarto, trocou de roupa e pegou a bolsa.
Dona Ester levantou-se imediatamente.
— Aonde você vai?
Alina desviou o olhar.
— Resolver um assunto.
— Você vai encontrar aquela mulher, não vai?
Ela não respondeu.
— Alina, escuta o que eu estou dizendo. Não aceite nada deles.
A jovem abraçou a avó.
— Eu prometo que não vou me vender.
— Então não vá.
Ela beijou a testa da senhora.
— Eu preciso entender por que ela me chamou.
Quarenta minutos depois, o carro de Augusto atravessava os portões de uma propriedade que Alina nunca tinha visto antes.
Não era a mansão onde ocorrera a festa.
Era um lugar ainda mais antigo, cercado por jardins impecáveis e esculturas de mármore.
— Onde estamos? — perguntou.
— Na residência particular da senhora Donatella.
Augusto abriu a porta do carro.
— Ela está esperando.
Alina entrou.
Uma governanta a conduziu por um longo corredor até uma biblioteca iluminada pela luz da tarde.
Donatella Armani estava sentada diante da lareira, tomando chá como se nada tivesse acontecido na noite anterior.
Ela ergueu os olhos ao ver a jovem.
— Eu sabia que você viria.
Alina permaneceu em pé.
— Não vim porque confio na senhora. Vim porque quero entender por que está se metendo na minha vida.
Donatella fez um gesto para a cadeira à sua frente.
— Sente-se.
— Prefiro ficar assim.
A matriarca não insistiu.
— Imagino que já tenha descoberto que sua avó precisa de uma cirurgia urgente.
Alina sentiu o corpo enrijecer.
— Não use minha avó para me manipular.
— Eu não estou manipulando você. Estou oferecendo uma solução.
Ela abriu uma pasta que estava sobre a mesa e empurrou alguns documentos na direção da jovem.
Alina olhou sem compreender.
Era um contrato.
— O que é isso?
Donatella sustentou seu olhar.
— Uma proposta.
— Que proposta?
A mulher cruzou as mãos sobre a mesa, mantendo a mesma expressão serena.
— Quero que você se case com um dos meus netos.
Alina arregalou os olhos.
Por um instante, pensou que tivesse ouvido errado.
— Desculpe... o quê?
— Você ouviu muito bem.
— A senhora enlouqueceu?
Donatella ignorou a pergunta.
— Em troca, todas as despesas médicas da sua avó serão pagas. Além disso, você receberá uma quantia suficiente para reconstruir sua vida.
Alina deu um passo para trás.
— Se a senhora acha que eu vou me casar com o Gael depois do que aconteceu...
— Não estou falando de Gael.
O silêncio tomou conta da biblioteca.
Donatella levantou-se devagar e caminhou até a enorme janela.
Sem olhar para Alina, pronunciou um nome que ela jamais tinha ouvido antes.
— Estou falando de Caetano Armani.
Alina franziu a testa.
— Quem é Caetano Armani?
A matriarca finalmente se virou.
Seus olhos, antes frios, carregavam uma estranha preocupação.
— O homem que deveria estar no lugar de Gael... e o único capaz de salvar esta família da própria ruína.
A mensagem permaneceu gravada na parede."O verdadeiro inimigo acaba de entrar no santuário."Alina sentiu um frio percorrer o corpo.Caetano imediatamente se colocou ao lado dela.— Onde está Otávio?Ninguém respondeu.Laura já corria em direção à passagem por onde as marcas de sangue desapareciam.— Fechem todas as saídas!Os agentes se espalharam pela câmara.Helena permaneceu imóvel diante da inscrição.Samuel observava a porta fechada.Nicolas parecia perdido em pensamentos.— Ele não foi levado.Todos olharam para ele.— Como sabe? — perguntou Laura.Nicolas apontou para as marcas no chão.— O sangue começa aqui.Não há marcas de arrasto.Não há pegadas diferentes.Não há sinais de luta.Ele olhou para a porta lateral.— Otávio saiu andando.Caetano franziu a testa.— Ferido?— Talvez.Ou fingindo estar.Laura imediatamente compreendeu.— Uma encenação.Nicolas assentiu.— Ele queria que acreditássemos que alguém o levou.Alina sentiu o estômago revirar.— Mas quem?Nicolas olho
A última frase da mulher caiu sobre a câmara como uma sentença."O Arquivo não aceitará a guardiã. E poderá destruir ambos."Alina sentiu os dedos de Caetano apertarem os seus.Ele não recuou.Não tentou soltá-la.Nem procurou uma saída.Apenas permaneceu ao lado dela.A mulher de cabelos grisalhos observava os dois com atenção.— Você não precisa aceitar esse destino.Caetano respondeu antes que Alina pudesse falar.— Eu não estou aqui por causa do destino.A mulher ergueu uma sobrancelha.— Então por quê?Ele olhou para Alina.— Porque escolhi ficar.A resposta provocou um silêncio profundo.Alina sentiu os olhos arderem.Depois de tudo o que haviam enfrentado, aquela frase simples significava mais do que qualquer declaração grandiosa.A mulher desviou o olhar.— É justamente isso que será testado.Os seis descendentes permaneceram ao redor do mosaico.Cada um ocupava uma posição correspondente a uma das antigas famílias.Alina reconheceu alguns símbolos.Outros permaneciam desconhe
O sorriso de Otávio fez o sangue de Alina gelar.Durante alguns segundos, ninguém se moveu.Nem mesmo os homens do Conselho.Todos pareciam presos àquela revelação.Otávio continuava parado atrás deles, com as mãos tranquilamente cruzadas à frente do corpo.Não havia pressa em seus movimentos.Não havia medo.Era como se tivesse esperado aquele instante durante anos.Laura foi a primeira a reagir.Levantou a arma e apontou diretamente para ele.— Afaste-se de todos.Otávio soltou uma pequena risada.— Ainda acredita que pode controlar esta situação?— Eu posso prender você.— Pode tentar.Caetano se posicionou diante de Alina.— Não chegue perto dela.Otávio observou o gesto.Seu sorriso aumentou.— É exatamente isso que eu esperava de você.O protetor.O homem disposto a morrer por uma mulher que nem imagina o tamanho do poder que carrega.Alina sentiu a raiva superar o medo.— Você sabia de tudo.Otávio olhou para ela.— Quase tudo.— Você sabia sobre minha mãe?— Sim.— Sobre Loren
A voz continuava ecoando pela câmara.— Seu sangue... ou o homem que ama.Alina ficou imóvel.Por alguns segundos, o barulho dos disparos pareceu desaparecer.Só conseguia ouvir o próprio coração.Caetano segurou sua mão com força.— Não escute o que ele está dizendo.Ela virou o rosto.— Ele quer que eu escolha você.— Então não escolha.A resposta veio sem hesitação.Alina franziu a testa.— O quê?— Não dê a ele o que está pedindo.Caetano olhou diretamente para ela.— Ele quer controlar sua decisão. Se escolher qualquer uma das opções que ele ofereceu, estará jogando pelas regras dele.Alina respirou profundamente.Era exatamente isso.O inimigo não queria apenas o Arquivo.Queria vê-la quebrar.Queria transformar o sentimento que existia entre ela e Caetano em uma arma.Laura disparou contra dois homens que tentavam avançar pelo corredor.— Protejam a porta!Os agentes se posicionaram atrás das colunas.Os invasores não pareciam interessados em enfrentar todos eles.Avançavam em
A frase continuava brilhando no centro da sala."O guardião será escolhido pelo sangue... mas sua lealdade será decidida pelo coração."Ninguém parecia capaz de desviar os olhos daquelas palavras.Alina sentia o coração bater com força.Não por causa da ameaça.Nem pela presença de Nicolas.Era por causa de Caetano.Desde que tudo começara, ele permanecera ao seu lado sem exigir nada em troca.Quando ela teve medo, ele ficou.Quando ela descobriu verdades capazes de destruir tudo o que conhecia, ele não tentou decidir por ela.Quando poderia ter escolhido fugir, permaneceu.E agora aquela antiga mensagem parecia colocar justamente esse sentimento à prova.Nicolas continuava diante da projeção.Seu nome permanecia iluminado no chão.Nicolas Ferraz.Durante toda a vida, acreditara não possuir uma família.Agora descobria que carregava o sangue de uma linhagem que havia sido escondida do mundo.Mas a expressão em seu rosto não demonstrava orgulho.Demonstrava conflito.— Eu não quero iss
O som dos passos aumentava pelo corredor.Lento.Seguro.Sem qualquer tentativa de esconder a aproximação.Quem quer que estivesse vindo não tinha medo de ser ouvido.Laura permaneceu na entrada da câmara, arma em punho.Os agentes formaram uma linha atrás dela.Caetano aproximou-se de Alina.Renato, mesmo ferido, segurava a arma com a mão direita.Elias observava o corredor.Samuel permanecia diante das oito caixas.Ninguém parecia disposto a recuar.Então uma sombra surgiu na parede.Depois outra.Até que o homem apareceu.O sucessor do Regente entrou na câmara sem pressa.O mesmo homem que haviam encontrado na floresta.O mesmo rosto que Augusto reconhecera nas fotografias.Ele não trazia armas.Apenas um sobretudo preto e uma expressão tranquila.Parou a alguns metros da entrada.Seus olhos percorreram o ambiente.As estátuas.As caixas.O corpo de Davi.O mosaico.Por fim, encontraram Alina.Ele sorriu.— Então era verdade.Você realmente chegou até aqui.Caetano deu um passo à f







