MasukCapítulo 2
Quando o táxi parou em frente a casa, ela ainda ficou um breve momento dentro do carro antes de sair. Levou a mão ao peito e apertou o medalhão que pertenceu ao pai. Fazia apenas um mês que ele tinha morrido, mas entrar naquela casa sem saber que o encontraria lá dentro ainda lhe causava uma sensação estranha. Agradeceu ao motorista, saiu e caminhou até a entrada. Assim que entrou, encontrou Verônica no meio da sala. A madrasta estava em pé diante do sofá, com os braços cruzados e uma expressão tão dura que Chloe parou antes de fechar a porta. — Onde você estava? — Fui ao banco resolver sobre os documentos do papai e acabei passando mal. Precisei ir ao hospital. — Hospital? — Minha pressão baixou. Uma funcionária ficou preocupada e insistiu para que eu procurasse um médico. Verônica se aproximou lentamente. — Você saiu desta casa às oito da manhã. — Eu sei. — E levou horas para ir ao banco e ao hospital? Chloe franziu levemente a testa, sem entender a desconfiança. — Fizeram alguns exames. Precisei esperar os resultados e depois chamei um táxi. — Com quem você estava? — Com ninguém. — Não minta para mim. Chloe respirou fundo. — Eu não estou mentindo, Verônica. Tenho os papéis do hospital na bolsa. Posso mostrar. Em vez de tranquilizá-la, a resposta pareceu irritá-la ainda mais. — Acha que sou idiota? — Claro que não. — Então me diga com quem você estava. — Eu já disse. Não estava com ninguém. Por um instante, a lembrança de Roger atravessou sua mente. Mas aquilo não era estar com um homem. — Sua vadia. Chloe arregalou os olhos, chocada. — Verônica... — Seu pai está morto há apenas um mês e você já está passando o dia fora de casa sabe-se lá fazendo o quê com homem por aí. — Não! Eu jamais faria isso. Eu fui ao banco e depois ao hospital. Só isso. — Mentirosa! — Eu não estou mentindo. Eu juro. Verônica ergueu a mão esquerda tão rapidamente que Chloe não teve tempo de se mexer. As costas da mão atingiram seu rosto com violência. Perdeu o equilíbrio e caiu ao lado do sofá. Ficou desnorteada, tentando compreender o que havia acabado de acontecer. Depois, sentiu uma ardência intensa na bochecha. Colocou a mão no rosto e ergueu os olhos marejados. — Por quê? Verônica a encarava de cima, sem qualquer sinal de arrependimento. — Para aprender a não sair desta casa sem me dizer onde vai. — Eu só fui resolver as coisas do meu pai... — Seu pai morreu, Chloe! Ela estremeceu com as palavras bruscas ditas com tanto ódio. Elas doeram muito mais que o tapa. — Não fala assim... — E quer que eu fale como? Ele morreu. Acabou. Chorar pelos cantos não vai trazê-lo de volta. As lágrimas que Chloe tentava controlar desceram sem controle. — Eu sei que ele morreu. — Então comece a se comportar como alguém que sabe. Baixou a cabeça e fechou os dedos ao redor do medalhão. Verônica percebeu o movimento. — Ainda está usando isso? — Era do papai. — Eu sei. O olhar da madrasta permaneceu fixo no medalhão. — Tire. Chloe empalideceu. — Por quê? — Porque estou mandando. Verônica estendeu a mão. Chloe se afastou. — Não. Silêncio. Verônica estreitou os olhos. — O que você disse? Chloe estava com medo. Mesmo assim, segurou o medalhão com força. — Por favor... não tira isso de mim. Pode ficar com qualquer outra coisa dele, mas não com o medalhão. Ele sempre usava. Eu lembro dele com isso desde que era criança — sentiu a voz falhar e se calou por um breve momento. — É tudo o que eu quero guardar. Verônica ficou calada, olhando para ela e Chloe teve certeza de que seria agredida novamente. Para seu alívio, a mulher abaixou a mão. — Patética. Não respondeu. Era melhor, não. — Levante. Ela obedeceu. Assim que ficou em pé, Verônica segurou seu queixo e virou seu rosto para observar a bochecha atingida. Chloe fez uma pequena careta quando os dedos pressionaram a região dolorida. — Vai ficar uma marca feia. Chloe tentou puxar o rosto, mas Verônica não permitiu. — Enquanto isso não desaparecer, você não sai desta casa. — Mas ainda tenho algumas papeladas do papai para resolver. — Vai resolver depois. — Alguns têm prazo... — Eu disse que não vai sair! — disse com um tom mais brando. Chloe se calou imediatamente. Verônica soltou seu rosto. — Não quero ninguém perguntando quem fez isso com você. Foi somente então que Chloe compreendeu. Verônica não estava preocupada com o machucado. Estava preocupada que alguém o visse. — Entendeu? — Sim. — Vá para o seu quarto. Pegou a bolsa e andou até à escada. — E Chloe? Ela parou e olhou para trás. — Da próxima vez que sair sem me avisar, não vai ser apenas um tapa. O medo percorreu seu corpo. Assim que entrou no quarto, fechou a porta e encostou as costas nela. Tentou controlar o choro, mas não conseguiu. As lágrimas vieram acompanhadas de soluços que ela abafou com a mão, com medo de ser ouvida. Caminhou até o espelho e afastou os cabelos do rosto. A bochecha estava vermelha e começava a inchar. Tocou a região com a ponta dos dedos e rapidamente afastou a mão por causa da dor. Durante toda a sua vida, enquanto o pai esteve presente, ela nunca imaginou que pudesse sentir medo de estar dentro da própria casa. Sentou na cama e retirou o medalhão, passou o polegar sobre o brasão gravado. — Eu queria tanto que você estivesse aqui, pai... Fechou os olhos e deixou as lágrimas caírem. Algum tempo depois, quando o choro diminuiu, uma lembrança atravessou seus pensamentos. Um copo quente sendo colocado em suas mãos... "Você está tremendo..." Abriu os olhos. Lembrou do guarda-chuva, do ombro de Roger ficando molhado e da maneira como ele abriu a porta do táxi para ela. Lembrou, principalmente, que ele ofereceu ajuda várias vezes, mas não insistia nenhuma vez quando ela recusava. "Cuide-se, Chloe. E coma alguma coisa." Um sorriso muito pequeno apareceu em seus lábios apesar das lágrimas. Não fazia ideia de onde ele morava, quem era ou se voltaria a vê-lo algum dia. Deitou e apertou o medalhão contra o peito. O sorriso desapareceu aos poucos, mas a lembrança continuou...Capítulo 33Marta observava as rosas brancas do jardim quando Caleb passou pela varanda. A governanta estava tão concentrada que nem percebeu sua aproximação.— Está planejando arrancar todas as flores antes do almoço? — brincou ele, parando ao seu lado.— Estou escolhendo as mais bonitas para o casamento. Roger sempre gostou dessas rosas, e quero que estejam presentes na cerimônia. — Marta examinou um botão que começava a se abrir. — Mas ainda não entendi como Ryan resolveu casar o próprio pai enquanto ele está em coma.Caleb disfarçou o desconforto:— Se Thomas confirmou que é possível, imagino que esteja tudo certo.— Isso eu sei. O que não entendo é tanta pressa. — Ela se virou para ele, estreitando os olhos. — Você sabe de alguma coisa que eu não sei?— Sei que tenho uma reunião com Ryan daqui a dez minutos e que, se me atrasar, vou ouvir reclamações pelo resto do dia.Marta soltou uma risada, percebendo a tentativa de escapar da conversa.— Pode fugir, Caleb. Mas ainda vou desco
Capítulo 32Na manhã seguinte, Ryan chegou cedo ao escritório e procurou o número de Thomas Bennett, advogado da família Larson, há quase vinte anos. Enquanto aguardava o atendimento, abriu a gaveta onde guardava os documentos mais importantes do pai.— Bom dia, Thomas. Preciso conversar com você sobre uma procuração que meu pai assinou alguns anos atrás, antes de uma viagem internacional.— Lembro perfeitamente desse documento — respondeu o advogado. — Foi uma das procurações mais abrangentes que preparei para Roger. Aconteceu alguma coisa?Ryan encontrou a pasta que procurava e começou a examinar as primeiras páginas.— Meu pai continua em coma, mas surgiu uma situação que exige uma decisão pessoal importante. Preciso saber se posso representá-lo em um casamento.Do outro lado da linha, Thomas ficou em silêncio por alguns segundos.— Casamento? Roger pretende se casar?— Digamos que existe uma mulher que ele gostaria muito de ter ao lado dele. E precisamos resolver uma situação deli
Capítulo 31Três dias depois, Chloe observava dois homens trabalhando perto dos estábulos quando Caleb se aproximou com uma prancheta debaixo do braço.— Está fiscalizando meus funcionários, senhorita?— Só estou curiosa. Aquele homem de camisa azul parece saber exatamente o que está fazendo.— E sabe. Trabalhou em fazendas antes de entrar para a segurança privada. O outro também tem experiência com cavalos. Ryan fez questão de contratar gente que não atrapalhasse o serviço.— Pelo menos você não vai precisar ensinar ninguém a segurar uma pá.— Ainda bem. Já tenho trabalho suficiente!Os dois riram. Desde a conversa no escritório, Ryan tomou todas as providências necessárias para proteger o pai. Os três profissionais chegaram à fazenda como funcionários recém-contratados. Dois trabalhavam com os peões, enquanto o terceiro ajudava no transporte de materiais e permanecia disponível para acompanhar Chloe quando necessário.Marta, naturalmente, quis saber por que Caleb precisava de tantos
Capítulo 30Chloe parou diante da porta do escritório e respirou fundo antes de bater. Precisava contar a Ryan o que aconteceu, mas não sabia como começar.— Entre! — Ryan respondeu.Ela abriu a porta e o encontrou sentado atrás da escrivaninha, examinando alguns papéis. Ele ergueu o rosto e sorriu.— Chloe? Pensei que já estivesse dormindo.— Podemos conversar?Ryan percebeu que havia algo errado pelo semblante sério dela. Deixou a caneta sobre a mesa e apontou para uma das poltronas.— Claro. Sente-se. Aconteceu alguma coisa com meu pai?— Não. Ele está bem. Pelo menos, por enquanto.A última frase fez Ryan franzir a testa.— O que quer dizer com isso?Chloe sentou, apertando o celular entre as mãos.— Hoje, depois da aula, passei naquela padaria onde costumava ir com seu pai. Quando saí, encontrei Verônica.— Minha mãe? — Ryan se surpreendeu. — Ela fez alguma coisa com você?— Fez. E preciso contar tudo, desde o começo.Relatou o encontro, as ofensas e o momento em que Verônica mos
Capítulo 29Chloe chegou à Fazenda Rei do Touro pouco depois das três da tarde. Estacionou o carro no lugar de costume e ficou alguns instantes atrás do volante, tentando recuperar a tranquilidade antes de descer.Ainda sentia o cheiro de poeira do sótão onde Verônica a manteve presa. A lembrança da arma apontada para seu corpo fazia seu estômago contrair.O pior, entretanto, não era o que a madrasta poderia fazer contra ela. Era saber que Roger estava em perigo.Chloe pegou a bolsa, verificou se o celular estava dentro e saiu do veículo. Precisava trabalhar, cumprir suas responsabilidades e, principalmente, não deixar que o medo a dominasse.Ao entrar na casa, encontrou Marta organizando algumas flores na sala.— Até que enfim, menina! Pensei que tivesse resolvido passear pela cidade inteira.Chloe tentou sorrir.— Acabei me demorando um pouco.— E comprou alguma coisa gostosa?Olhou para a sacola que ainda segurava. Os doces da padaria estavam ali, esquecidos desde o encontro com Ve
Capítulo 28Verônica desceu a escada depois de trancar Chloe no sótão e foi diretamente para a cozinha. Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e bebeu alguns goles, tentando organizar os pensamentos.Encontrar aquela ingrata na cidade foi uma surpresa, mas trazê-la para casa talvez não tivesse sido uma boa ideia. Se a garota não voltasse para a fazenda, alguém acabaria procurando por ela. E Verônica não pretendia ter a polícia batendo à sua porta.Colocou a garrafa sobre a mesa e começou a andar pela cozinha.Precisava resolver aquilo ainda naquela tarde.Foi então que se lembrou da conversa que teve com sua melhor amiga alguns dias antes. A fofoqueira sabia de praticamente tudo o que acontecia na cidade e adorava compartilhar as novidades.Segundo ela, Chloe estava trabalhando na Fazenda Rei do Touro. Roger Larson também havia voltado para lá, depois de meses internado no hospital. Continuava em coma, cercado de médicos, enfermeiros e todos os cuidados que sua fortuna podia pag







