Mag-log inAhmedO cheiro foi a primeira coisa que me arrancou do torpor. Fumaça. Pesada. Quente. Inconfundível. Uma onda espessa e acre que invadiu minhas narinas e garganta, fazendo meus pulmões arderem. Não era o aroma familiar do incenso queimando, nem o suave perfume das especiarias que costumavam flutuar pelos corredores do palácio. Este era um odor de destruição, de madeira consumida e tecido carbonizado, que me fez prender a respiração num reflexo automático.Abri os olhos, pesados e embaçados pela névoa, e o teto do quarto dançava em tons de laranja e cinza. Chamas lambiam as vigas de madeira escura, projetando sombras fantasmagóricas pelas paredes. O ar estava denso, quase sólido, e a cada inspiração parecia sugar a umidade de meus lábios. Por um instante, a beleza era quase hipnótica — a dança hipnotizante das chamas, a forma como a luz bruxuleante transformava o quarto em uma pintura abstrata de calor e fumaça. Minha mente, ainda presa nas teias do sono, demorou a processar o que meu
Maria ClaraNaquele instante eu soube que a tormenta não ficaria apenas nas palavras. Quando Ahmed me puxou pelos corredores silenciosos do palácio, a fúria nos olhos dele era chama viva — mas havia outra coisa ali: a ânsia de me ter de volta, inteira, como antes de todos nos odiarem.Fechamos a porta do quarto com um estalo que reverberou como um trovão no peito. A meia-luz das velas escarlates tornou cada sombra sinuosa, como se os móveis dançassem em antecipação. Ele me empurrou suavemente até o dossel de veludo, tirou o turbante com um gesto brusco e varreu as rugas do meu rosto com as mãos grandes, intensas.— Preciso sentir sua pele contra a minha — murmurou, a voz grave trepidando no ar.Meu corpo reagiu antes da mente ordenar qualquer coisa. Era tão bom sentir o perfume dele — mistura de especiarias e madeira — invadir meu corpo, lembrando-me que, mesmo quando tudo desmorona, havia ali alguém disposto a reconstruir cada pedaço.— Eu também preciso de você — sussurrei, deixand
AhmedAs colunas brancas da sala do Conselho se erguiam como testemunhas silenciosas do que estava prestes a acontecer.O cheiro do incenso tradicional queimava lento, carregando o peso da ancestralidade. Sentados em semicírculo estavam os onze homens que moldavam o destino da Casa Al-Rashid — todos em túnicas nobres, todos homens que conheciam a arte de sorrir com a boca e cravar a adaga com os olhos.E no centro, como uma serpente recém-desperta, estava Khalid.Vestia branco, como se a pureza lhe pertencesse. Mas eu via além. Via a ganância escorrendo pelos cantos de sua fala. Via a raiva mal contida que lhe moldava os ossos.— A linhagem está em risco — ele dizia, diante de todos. — O povo murmura. Os aliados questionam. O Oriente observa com inquietação o que se passa aqui.— Que risco? — perguntei com frieza, mesmo sabendo aonde ele queria chegar.Khalid sorriu, lento.— Sua esposa, Ahmed. Ou devo dizer… sua “escolhida contratual”. Ele nem precisou dizer as palavras. Todos en
Maria ClaraO palácio, antes um cárcere dourado onde os luxos mascaravam a ausência de liberdade, transformou-se insidiosamente. Depois, virou um refúgio estranho, um lugar onde a segurança vinha acompanhada de uma inquietude velada, como se a cada cômodo, a cada corredor, uma verdade incômoda estivesse à espreita. Agora… parecia uma armadilha prestes a desabar sobre mim, as paredes sussurrando segredos sombrios, o ar carregado de uma tensão sufocante.Eu sentia nas paredes frias e imponentes, que pareciam encolher-se a cada dia, aprisionando-me ainda mais em suas sombras. No jeito como os guardas, antes meras figuras de vigilância, evitavam meus olhos, um brilho de apreensão ou cumplicidade em seus desvios. No silêncio sussurrado das criadas, um coro de segredos inaudíveis, mas perceptíveis, que pairava no ar como uma névoa. No aperto constante no peito, uma opressão que não era física, mas da alma, o prenúncio de um perigo iminente. Havia algo errado. Muito errado. A grandiosidade d
KhalidO deserto tinha seu próprio som, uma melodia austera tecida pelo silêncio árido. Era uma canção de vastidão, onde cada grão de areia parecia sussurrar segredos antigos, carregados pelo vento cortante que varria a paisagem implacável. E, em meio a essa sinfonia de desolação, havia a sede. Sempre a sede. Uma presença constante, uma chama invisível que ardia na garganta, lembrando a cada respiração a fragilidade da vida diante da imensidão implacável da natureza. O ar quente, quase tangível, dançava em miragens distantes, enganando os olhos com promessas de oásis que nunca se concretizavam.Mas eu não estava mais sedento de água. Estava sedento de justiça. Ou melhor… de vingança.O sol causticante do deserto batia impiedosamente sobre minha pele, mas a sede que me consumia não era a de água. Era a sede por algo que o tempo não curaria, algo que a areia não enterraria: a sede de justiça. Ou, sendo mais honesto comigo mesmo, a sede de vingança. Cada batida do meu coração ecoava o no
AhmedO vento do deserto estava mais quente naquele dia. Mas o que queimava minha pele não era o sol — era a fúria.Meu pai entrou em meus aposentos sem bater, como sempre fazia quando queria impor autoridade.— Ela se foi — disse, seco. — Sua esposa. Fugiu como uma ladra.Virei-me com o coração tropeçando no peito.— Do que está falando?— Vi com meus próprios olhos. Saiu sem escolta, sem permissão. Depois de tudo que permitimos…Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu não acreditava. Maria Clara jamais faria isso. Não depois de tudo que vivemos. Não depois de…— Ela voltaria se estivesse em perigo — arrisquei.— Não. Ela fugiu após as acusações — disse ele, olhando-me nos olhos com frieza. — Fugiu depois de descobrir o que estávamos investigando. Isso a torna culpada.— Culpada? — rosnei. — Culpada de quê? De querer saber a verdade?— De trair o nome Al-Rashid.Fiquei em silêncio. Por fora, meu rosto era pedra. Por dentro, um terremoto.— Traga Ashyla — ele ordenou a um dos guardas.







