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Capítulo 02 — Tudo Começa A Pesar — Parte 01

last update تاريخ النشر: 2026-09-25 03:07:23

Depois de deixar a mansão, Salvatore Rinaldi entrou no carro e seguiu para a empresa que administrava parte dos negócios da família em Berlim. A manhã já estava movimentada quando chegou ao prédio, localizado no distrito de Charlottenburg, uma região bastante movimentada de Berlim, onde homens de confiança dos Rinaldi trabalhavam diariamente para manter tudo funcionando. Salvatore cumprimentou alguns funcionários pelo caminho e entrou no elevador sem perder tempo. Ainda pensava na conversa que tivera durante o café da manhã, principalmente na insistência de Enrico em encontrar uma mulher para que pudesse se casar novamente. Aquilo começava a se tornar irritante.

Salvatore entrou em seu escritório e deixou o paletó sobre uma cadeira antes de se aproximar da mesa. Havia uma quantidade considerável de documentos esperando por sua atenção, incluindo relatórios financeiros, contratos que precisavam ser analisados e informações sobre algumas operações que estavam sendo conduzidas por homens de sua confiança. Salvatore tentou concentrar-se no trabalho, mas, enquanto abria o primeiro relatório, a voz do avô Enrico voltou à sua cabeça.

“Não custa nada tentar”.

Salvatore respirou fundo e balançou a cabeça. Custava. Talvez não em dinheiro, tempo ou esforço, mas custava emocionalmente. Não queria começar a conhecer mulheres simplesmente porque Enrico havia decidido que dez anos eram suficientes para que encontrasse uma nova esposa. Não entendia por que todos pareciam acreditar que sua vida precisava ser modificada apenas porque não havia outra mulher ao seu lado. Sabia que, dentro da Máfia, um homem de negócios precisava estar casado para aparentar ser alguém respeitável, só que não queria isso.

Pegou uma caneta e começou a fazer algumas anotações no relatório à sua frente. Durante alguns minutos, conseguiu se concentrar nos números, mas logo voltou a pensar na conversa.

— Ridículo... — murmurou para si mesmo. — Totalmente ridículo...

Não precisava de outra esposa. Não precisava de alguém entrando em sua casa, interferindo em sua rotina ou tentando compreender uma vida que poucos conseguiam realmente entender. Sua existência já era complicada demais. Havia os negócios, os homens que trabalhavam para a família, os acordos que precisavam ser mantidos e os problemas que apareciam praticamente todos os dias. Não via sentido em acrescentar um casamento àquela lista.

Salvatore assinou alguns documentos e chamou um de seus funcionários para levar a papelada ao setor responsável. Quando o homem saiu, se levantou e caminhou até a janela. A cidade se estendia, movimentada e indiferente aos problemas particulares de um homem que carregava um dos sobrenomes mais conhecidos dentro de seu círculo.

Por mais que tentasse afastar o pensamento, Beatrice voltou à sua memória. Salvatore não costumava fazer isso durante o trabalho. Havia aprendido, ao longo dos anos, a separar suas lembranças de suas responsabilidades. Porém, naquela manhã, a conversa sobre casamento havia mexido em algo que permanecia adormecido.

Beatrice fora sua esposa. Não era apenas uma mulher que havia passado por sua vida. Era alguém com quem havia dividido uma parte importante de sua existência. A morte de Beatrice tinha sido trágica e inesperada, deixando uma marca que nenhum dos dez anos seguintes conseguira apagar completamente. Salvatore não pretendia viver eternamente preso àquela lembrança, mas também não acreditava que precisava apagar Beatrice para continuar vivendo. Salvatore simplesmente não queria outra pessoa. Voltou para a mesa e abriu outro documento.

— Não vou me casar novamente... — disse em voz baixa. — Não mesmo...

Era uma decisão que tomara há muito tempo e que nunca sentira necessidade de questionar. Talvez Enrico não compreendesse isso. Talvez Giacomo acreditasse que estava preocupado demais com o filho para perceber que a insistência poderia produzir justamente o efeito contrário. Quanto mais pressionassem Salvatore, mais decidido ficaria a não ceder. Pouco depois, seu telefone tocou. Salvatore atendeu sem tirar os olhos do relatório.

— Fale... — a voz de Salvatore era imperativa. — Pode dizer...

Do outro lado da linha, um dos homens responsáveis por uma negociação em andamento começou a explicar uma situação que exigia sua aprovação. Salvatore ouviu atentamente, fez algumas perguntas e deu as instruções necessárias. O trabalho continuava sendo o único lugar onde conseguia organizar os pensamentos com facilidade. Quando desligou, recostou-se na cadeira.

A conversa havia durado apenas alguns minutos, mas fora suficiente para lembrá-lo de que havia coisas mais importantes para resolver. Era assim que sempre funcionara. Problemas apareciam, encontrava soluções. Homens discordavam, negociava. Alguém ameaçava os interesses da família, lidava com a situação. Não havia necessidade de procurar uma mulher para complicar aquilo.

Um novo relatório chegou pouco depois. Salvatore analisou-o cuidadosamente, fazendo algumas observações nas margens enquanto o relógio avançava. O trabalho ocupou sua atenção durante quase uma hora, até que uma batida na porta interrompeu o silêncio.

— Entre... — Salvatore ordenou. — A porta está aberta...

— Senhor Rinaldi, trouxe os documentos que pediu... — um dos seus homens entrou carregando uma pasta. — Estão todos aqui...

— Deixe sobre a mesa... — Salvatore apontou. — Nesse canto...

O homem colocou a pasta adiante. Ali, havia documentos de todos os tipos que precisavam ser analisados.

— Há mais alguma coisa? — o homem perguntou. — Precisa de algo mais?

— Não... — Salvatore pensou por um instante. — Pode ir...

Quando ficou sozinho novamente, abriu a pasta e começou a verificar os documentos. Era exatamente o tipo de tarefa que preferia. Havia fatos concretos, números, nomes e decisões que dependiam de sua avaliação. Não existiam sentimentos envolvidos. Não existia uma mulher que precisasse conhecer. Não existia casamento. Não existia discussão. Salvatore quase sorriu diante do próprio pensamento.

— Muito melhor assim... — Salvatore deu um suspiro de alívio. — Não quero problemas...

Continuou trabalhando até o final da manhã. A insistência de Enrico não havia desaparecido de sua cabeça, mas conseguira colocá-la em segundo plano. Ainda assim, sabia que o assunto voltaria quando retornasse para casa. Seu avô Enrico não desistiria. Giacomo provavelmente tentaria conversar novamente. E Salvatore teria de repetir a mesma resposta quantas vezes fossem necessárias.

Não queria outra esposa. Não queria começar uma nova vida ao lado de outra mulher. Sua vida estava organizada da maneira que desejava, mesmo que Enrico acreditasse que havia algo faltando.

Salvatore terminou de assinar o último documento e encostou-se na cadeira. Olhou para o relógio e percebeu que ainda faltavam algumas horas para o almoço. Poderia continuar trabalhando sem qualquer dificuldade. Talvez fosse justamente isso que seu avô Enrico considerava um problema. Trabalhava demais. Passava tempo demais sozinho. Não dava espaço para ninguém.

Mas Salvatore não via aquilo como um problema. No seu conceito, era apenas a vida que escolhera depois de perder Beatrice. Uma vida na qual aprendera a depender de si mesmo e a não esperar que outra pessoa viesse preencher aquilo que havia sido perdido.

Levantou-se novamente e caminhou até a janela. Dessa vez, não pensou em Beatrice. Pensou apenas em Enrico. O velho provavelmente estava planejando alguma coisa naquele exato momento. Salvatore conhecia o avô Enrico e sabia que aquela insistência não terminaria com uma simples conversa durante o café da manhã.

— Pode tentar o quanto quiser... — murmurou, olhando para a cidade. — Não vai me fazer mudar de ideia...

Um sorriso discreto apareceu em seu rosto. Pela primeira vez naquela manhã, sentiu-se verdadeiramente tranquilo. Poderiam insistir. Poderiam apresentar argumentos. Poderiam tentar convencê-lo de que precisava reconstruir a própria vida. Mas Salvatore Rinaldi tinha uma certeza. Não pretendia se casar novamente.

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