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Capítulo 01 — Uma Proposta Inesperada — Parte 02

last update Fecha de publicación: 2026-09-25 03:04:54

Na manhã seguinte, a mansão dos Rinaldi estava silenciosa quando Salvatore terminou seu café da manhã. O sol atravessava as grandes janelas da sala de refeições, iluminando parcialmente a longa mesa de madeira escura, enquanto os empregados recolhiam discretamente os pratos e as xícaras. Salvatore havia acordado cedo, como fazia praticamente todos os dias, e pretendia seguir para seu escritório assim que terminasse de revisar alguns documentos que recebera durante a noite. Não esperava, entretanto, que seu avô Enrico e seu pai Giacomo ainda estivessem sentados à mesa quando se levantou.

Salvatore percebeu imediatamente pelos olhares dos dois que o assunto da noite anterior ainda não havia terminado.

Salvatore segurou a xícara de café por alguns segundos antes de colocá-la sobre o pires. Enrico permanecia sentado na cabeceira da mesa, enquanto Giacomo folheava distraidamente um jornal que claramente não estava lendo. Nenhum dos dois parecia disposto a deixar aquela conversa para outro momento. Salvatore soltou um suspiro discreto e voltou a se sentar, embora sua expressão demonstrasse que não estava particularmente satisfeito com aquilo.

— Pelo jeito, vocês estavam esperando que eu terminasse o café para voltarmos ao mesmo assunto de ontem... — comentou Salvatore. — Querem mesmo insistir nisso?

Giacomo ergueu os olhos azuis do jornal e lançou um olhar rápido para Enrico antes de encarar o filho Salvatore.

— Seu avô e eu conversamos depois que você foi dormir... — Giacomo iniciou. — Achamos que seria melhor falar com você novamente, mas desta vez sem descobrir a conversa por acaso...

— Não há necessidade de falar novamente... — respondeu Salvatore. — Minha resposta continua sendo a mesma...

Enrico apoiou as duas mãos sobre a mesa e observou o neto com atenção. Diferentemente da noite anterior, não parecia irritado com a resistência de Salvatore. Havia algo calculado em sua expressão, como se tivesse passado parte da madrugada pensando em uma maneira melhor de conduzir aquela conversa.

— Você respondeu que não quer se casar novamente... — disse Enrico. — Eu ouvi e respeito sua posição... Mas isso não significa que o assunto precise ser encerrado depois de uma única conversa...

— Para mim, significa... — Salvatore estava se irritando. — Por que essa insistência?

— Salvatore, você está reagindo como se estivéssemos tentando obrigá-lo a subir em um altar amanhã... — Enrico comentou. — Não é bem assim...

— Porque vocês estão falando em procurar uma esposa para mim... — Salvatore queria encerrar aquele assunto de vez. — Não entendem que essa é uma decisão minha?

— Estamos falando em procurar alguém que possa conhecer você... — corrigiu Enrico. — Existe uma diferença...

Salvatore soltou uma risada baixa, sem humor, e passou uma das mãos pelo queixo. Não conseguia entender por que os dois insistiam tanto naquela questão. Havia problemas muito mais importantes para a família naquele momento, e não via razão para transformar sua vida pessoal em uma prioridade. Além disso, depois de dez anos vivendo sozinho, não sentia que estivesse sofrendo por isso. Beatrice fazia parte de seu passado, mas também fazia parte de quem havia se tornado. Não pretendia simplesmente preencher o espaço que a morte deixara.

— Eu não estou procurando ninguém... — afirmou. — Queria que respeitassem isso...

— Talvez não esteja... — disse Giacomo. — Mas isso não significa que nunca mais vai querer alguém....

Salvatore voltou os olhos verdes para o pai Giacomo. Estava sendo demais.

— E se eu nunca quiser? — Salvatore bateu na tecla. — Não acham que é um direito meu?

Giacomo hesitou por alguns segundos, enquanto Enrico permaneceu em silêncio.

— Então essa será uma escolha sua... — respondeu finalmente. — Mas você precisa ter certeza de que é realmente isso que quer, e não apenas uma decisão tomada porque tem medo de permitir que alguém entre novamente na sua vida...

A expressão de Salvatore mudou levemente.

— Não tenho medo... — Salvatore esclareceu. — Já passei tempo demais sozinho...

— Eu não disse que tem... — Enrico insistiu. — É diferente...

— Mas foi o que insinuou... — Salvatore sentiu uma ponta de raiva. — Eu não sou surdo...

— Estou apenas tentando entender você... — Enrico falou. — É muito simples...

Salvatore recostou-se na cadeira e cruzou os braços. A conversa começava a tomar um rumo diferente daquele da noite anterior, mas continuava sendo igualmente incômoda. Seu pai Giacomo parecia genuinamente preocupado, enquanto Enrico demonstrava estar determinado a convencê-lo de que o casamento era uma questão que não poderia continuar sendo ignorada.

— Vocês acham que eu estou vivendo errado porque não tenho uma mulher ao meu lado? — disse Salvatore. — É isso?

Enrico negou lentamente com a cabeça. Não estava sendo simples explicar o óbvio.

— Não... Acho que você se acostumou demais com uma vida que não deixa espaço para outra coisa... Você trabalha, cuida dos negócios, resolve os problemas da família e volta para casa... No dia seguinte, tudo começa novamente... — Enrico coçou o queixo. — Isso pode funcionar durante algum tempo, mas não acredito que seja suficiente para um homem passar o resto da vida...

— Está descrevendo exatamente a vida que escolhi... — Salvatore deixou claro. — Não pretendo mudar isso...

— E talvez seja hora de descobrir se ainda é a vida que deseja... — Enrico disse. & Não custa tentar...

Salvatore permaneceu calado. Aquelas palavras fizeram-no pensar por alguns instantes, embora não demonstrasse isso. Enrico tinha uma maneira irritante de transformar uma imposição em uma pergunta que parecia razoável. Salvatore sabia que o avô paterno não estava tentando humilhá-lo ou diminuir sua capacidade de tomar decisões. Pelo contrário. Enrico acreditava sinceramente que estava fazendo o que considerava melhor para Salvatore para a família. Mas isso não tornava a ideia mais aceitável.

— Vocês estão preocupados com os negócios? — perguntou Salvatore. — Se é isso, podem falar diretamente...

— Não estou falando de negócios — respondeu Giacomo. — É outra coisa...

— A família sempre fala de negócios... — Salvatore se ajeitou na cadeira. — Ou coisas similares...

— Desta vez não... — Giacomo parecia seguro. — Estamos discutindo algo razoável...

Giacomo fechou o jornal e deixou-o sobre a mesa. A batalha se estenderia durante muito tempo e deveriam ter paciência.

— Seu avô está pensando no futuro da família, mas eu também estou pensando em você... — Giacomo se preocupava com Salvatore. — Não quero que, daqui a vinte anos, olhe para trás e perceba que passou todo esse tempo trabalhando porque não quis dar uma oportunidade para a própria vida...

Salvatore desviou o olhar esverdeado para a janela. Do lado de fora, os jardins da propriedade começavam a receber os primeiros funcionários responsáveis pela manutenção. Por alguns segundos, ficou observando o movimento através do vidro antes de voltar a atenção para os dois homens.

— E o que vocês esperam que eu faça? — Salvatore encarou ambos irado. — Que aceite a decisão de vocês?

Enrico respondeu com calma. Precisava usar de muito tato com o neto para convencê-lo de que aquilo era uma saída confortável.

— Apenas aceite conhecer algumas pessoas... — Enrico sugeriu. — Não custa nada...

Salvatore imediatamente estreitou os olhos verdes. Apertou as pontas das unhas contra as palmas, sentindo uma grande dor.

— Algumas pessoas? — Salvatore não gostou daquilo. — Vocês falam como se escolher uma esposa fosse como trocar de roupa...

— Mulheres... — esclareceu Enrico. — Não estou dizendo que você deve escolher uma esposa qualquer... Quero que converse, conheça, veja se existe alguma possibilidade de construir algo com alguém...

— E quem vai escolher essas mulheres? Vocês? — Salvatore se sentia fora do sério. — Me poupem!

— Eu e seu pai podemos cuidar disso... — Enrico continuou dando as cartas. — Pensei um pouco...

Salvatore soltou o ar lentamente. A conversa estava tomando um rumo do qual não estava gostando.

— Então voltamos ao mesmo ponto... — Salvatore juntou as mãos sobre a mesa. — Eu deveria ter ficado deitado na cama hoje...

— Qual ponto? — Enrico quis saber. — Pode dizer?

— Vocês escolherem por mim... — Salvatore encarou os dois sem nenhuma satisfação. — Esse é o assunto principal...

Giacomo interveio antes que Enrico pudesse responder. Não desistiria tão fácil.

— Ninguém vai escolher sua esposa, Salvatore... — Giacomo elucidou. — Podemos apresentar algumas pessoas, mas a decisão final será sua...

— E se eu não quiser conhecer nenhuma? — Salvatore estava com vontade de revirar os olhos verdes. — Pretendem me obrigar?

Enrico inclinou-se ligeiramente para frente. Não pretendia encerrar o assunto tão cedo.

— Então me diga isso depois de conhecê-las pessoalmente... — Enrico insistiu mais uma vez. — Não custa nada tentar...

Salvatore ficou olhando para o avô Enrico, incrédulo. Uma briga familiar era o que menos pretendia no momento.

— Você realmente não pretende desistir, não é? — Salvatore suspirou. — Até eu dizer sim?

Enrico sorriu de maneira discreta. Não era homem de aceitar um não de quem quer que fosse.

— Você me conhece há quarenta e um anos... — Enrico sorriu cínico. — Sabe a resposta...

Apesar da irritação, Salvatore quase sorriu. Quase. Levantou-se da cadeira e ajeitou as mangas da camisa antes de pegar o relógio que havia deixado sobre a mesa.

— Tenho trabalho... — Salvatore esfregou as mãos. — Esse assunto não me interessa agora... Tenho coisas importantes para resolver...

— Sempre tem... — comentou Enrico. — Esse é o problema...

Salvatore lançou um olhar ao avô Enrico. O velho era teimoso demais. Enfrentou uma guerra intensa na Calábria e depois que a família imigrou para a Alemanha, continuava com a mesma determinação de antes.

— E é justamente por isso que os negócios continuam funcionando... — Salvatore se deixou sorrir durante alguns segundos. — Sei que não pretende me deixar em paz até me convencer do contrário...

Giacomo conteve um sorriso diante da resposta, mas Enrico apenas balançou a cabeça.

— Pense no que conversamos... — Enrico finalizou. — Apenas isso que peço...

Salvatore caminhou alguns passos e parou junto à porta da sala de refeições.

— Eu vou pensar... — Salvatore continuava sorrindo. — É só isso que posso dizer...

Enrico ergueu uma sobrancelha.

— Isso é um sim? — Enrico perguntou. — Posso ter esperanças?

— Não... — Salvatore olhou para os dois. — É apenas um jeito educado de encerrar a conversa...

Dessa vez, Giacomo não conseguiu esconder o sorriso. Salvatore deixou a sala logo depois, seguindo em direção ao escritório. Ainda não havia concordado com nada, e muito menos aceitara a ideia de procurar uma nova esposa. Porém, sabia que Enrico não desistiria facilmente.

E, conhecendo o avô como conhecia, Salvatore começava a desconfiar de que aquela insistência era apenas o começo.

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