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Um beijo que não aconteceu

Author: Batistad
last update publish date: 2026-08-06 10:05:11

POV: Valentina

As luzes morreram no instante em que as portas do elevador se fecharam.

O impacto da escuridão arrancou o ar dos meus pulmões.

O elevador deu um solavanco brusco, e meu salto perdeu o apoio. Antes que eu atingisse o chão, uma mão firme envolveu minha cintura e me puxou contra um corpo quente.

Damon.

Meu ombro bateu em seu peito. A outra mão dele encontrou meu braço, estabilizando-me.

“Respira.”

A voz surgiu perto demais.

“Eu estou respirando.”

“Isso parece mais uma tentativa de estrangular o ar.”

A iluminação de emergência acendeu em um vermelho fraco, tingindo o espaço estreito. Consegui distinguir a linha de sua mandíbula, o brilho de seus olhos e a maneira como seu braço ainda permanecia ao redor da minha cintura.

Meu corpo percebeu antes de mim.

Calor.

Força.

O perfume escuro que eu já associava a pensamentos inconvenientes.

“Pode me soltar.”

“Pode ficar de pé?”

“Posso.”

Damon afrouxou o braço lentamente.

Devagar demais.

Sua palma deslizou alguns centímetros pela lateral do meu corpo antes de se afastar, e o toque deixou um rastro quente sob o tecido.

Eu me endireitei.

O elevador não se moveu.

Apertei o botão do térreo. Nada.

Depois o da abertura das portas.

Nada outra vez.

“Perfeito”, murmurei.

Damon acionou o interfone.

“Segurança, elevador executivo parado entre os andares vinte e dois e vinte e três.”

Uma voz metálica respondeu que a queda de energia atingira parte do hotel e que a equipe técnica já estava a caminho.

“Quanto tempo?”

“Entre quinze e vinte minutos, senhor Castellani.”

Damon agradeceu e se recostou contra a parede espelhada.

“Vinte minutos sozinha comigo.”

Cruzei os braços.

“Sobreviverei.”

“Essa confiança toda quase me ofende.”

“Você prefere que eu entre em pânico?”

“Prefiro que admita que já imaginou ficar presa comigo em lugares menores.”

Soltei uma risada sem humor.

“Seu ego não cabe neste elevador.”

“Meu ego cabe em qualquer lugar. Algumas outras partes exigem espaço.”

Fechei os olhos por um segundo.

“Você consegue passar cinco minutos sem transformar uma frase em obscenidade?”

“Consigo.”

Esperei.

Damon sorriu.

“Mas não vejo vantagem.”

Eu deveria ignorá-lo.

Era o que sempre fazia.

Ria das cantadas, chamava-o de mulherengo, seguia em frente. Uma dinâmica simples. Segura.

Só que depois da noite anterior, nada parecia tão seguro.

Eu ainda lembrava a mensagem que surgira no telefone de Henrique. Ainda via a inicial. Ainda sentia a culpa em seu rosto.

E, pior, ainda lembrava da voz de Damon no meu ouvido.

Um dia você vai deixar de rir.

“Está pensando em mim”, ele disse.

“Estou pensando em como pedir ajuda sem parecer desesperada.”

“Mentira.”

“Você é insuportável.”

“Você aperta o polegar contra o indicador quando está preocupada.”

Olhei para minha mão.

Eu estava fazendo exatamente aquilo.

Soltei os dedos de imediato.

“Você analisa todas as mulheres desse jeito?”

A provocação saiu mais frágil do que pretendia.

Damon não respondeu de imediato.

O silêncio mudou alguma coisa entre nós.

“Não.”

A resposta foi baixa.

Sem sorriso.

Sem piada.

Ergui os olhos.

Ele continuava encostado na parede, mas havia perdido a postura relaxada. Seu rosto parecia mais fechado sob a luz vermelha.

“Então por que faz isso comigo?”

Damon inclinou a cabeça.

“Você realmente não sabe?”

Meu coração bateu forte demais.

Eu ri por reflexo.

O olhar dele desceu até minha boca.

Desta vez, ele não acompanhou minha brincadeira.

“Pare de rir.”

“Por quê?”

“Porque estou tentando não fazer uma coisa que complicaria muito a nossa vida.”

O ar no elevador ficou pesado.

Meus braços descruzaram lentamente.

“Que coisa?”

Damon deu um passo.

Meu corpo recuou antes que eu decidisse, até minhas costas encontrarem a parede.

Ele parou a uma distância mínima.

Não me tocou.

Aquilo foi pior.

A proximidade dele transformou cada respiração em esforço. Eu conseguia ver um pequeno corte perto de seu queixo, sentir o calor que vinha de sua pele, observar o movimento de sua garganta quando engoliu em seco.

“Você sabe”, ele murmurou.

“Não sei.”

“Outra mentira.”

A mão dele subiu.

Por um segundo, achei que tocaria meu rosto.

Mas seus dedos pararam ao lado da minha cabeça, apoiando-se no espelho.

Damon estava me cercando sem realmente me prender.

Havia espaço para eu sair.

Eu não saí.

“Você deveria se afastar”, falei.

“Provavelmente.”

“Você está noivo.”

“Você também.”

O lembrete deveria ter destruído o momento.

Não destruiu.

A imagem de Henrique escondendo o telefone atravessou minha mente, mas não trouxe a culpa que eu esperava. Trouxe apenas um vazio irritante.

Damon aproximou o rosto.

Minha respiração falhou.

Seus olhos permaneceram nos meus, como se esperassem uma ordem, uma recusa, qualquer coisa que justificasse o próximo movimento.

“Diga para eu parar.”

Eu devia ter dito.

Em vez disso, perguntei:

“Você pararia?”

“Com você?” Seu maxilar se contraiu. “Se pedisse, sim.”

A resposta atingiu um lugar inesperado.

Porque Damon, o homem que todos chamavam de irresponsável, estava me oferecendo escolha.

Henrique tomava decisões e depois me informava.

Damon provocava até meus pensamentos perderem a ordem, mas esperava.

O espaço entre nossas bocas diminuiu.

Um centímetro.

Talvez menos.

Meu corpo inteiro se inclinou para ele antes que meu orgulho conseguisse reagir.

Damon percebeu.

Seus olhos escureceram.

A mão livre tocou minha cintura, leve, quase perguntando.

O contato despertou uma onda de calor que desceu pelo meu ventre.

Imaginei sua boca na minha.

Não um beijo educado.

Não os beijos familiares e previsíveis de Henrique.

Imaginei Damon me beijando como falava: sem medo, sem delicadeza falsa, como se quisesse arrancar de mim todas as verdades que eu escondia.

Meus lábios se entreabriram.

Ele se aproximou.

O nariz dele roçou o meu.

A respiração quente atingiu minha boca.

Então Damon parou.

Seu corpo ficou rígido.

Por um instante, pensei que estivesse brincando comigo.

Mas havia algo quase doloroso em sua expressão.

Ele fechou os olhos, respirou fundo e afastou a mão da minha cintura.

Depois deu um passo para trás.

O frio ocupou imediatamente o espaço entre nós.

“Damon?”

As luzes do elevador voltaram.

Fortes.

Brancas.

Cruéis.

Ele passou a mão pelo cabelo e virou o rosto, como se precisasse olhar para qualquer coisa que não fosse eu.

“Você vai se casar com Henrique.”

Minha garganta apertou.

“Eu sei.”

As portas se abriram no vigésimo terceiro andar.

Damon segurou a porta e esperou que eu saísse primeiro.

Nenhuma provocação.

Nenhum sorriso convencido.

Apenas distância.

Atravessei o corredor com as pernas estranhamente fracas.

Quando me virei, ele ainda estava dentro do elevador.

Nossos olhos se encontraram.

As portas começaram a fechar.

E foi naquele instante que compreendi o que mais me assustava.

Eu não queria que Damon tivesse parado.

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