LOGINAURORADescobri que meu marido era péssimo em organizar uma surpresa.Não porque ele não soubesse guardar segredo.Kael sabia.Esse era justamente o problema.O restante do palácio, não.Dois dias depois de encontrar a primeira peônia aberta na estufa, saí do quarto dos gêmeos depois do café e encontrei três baús no corredor.Parei.Os baús também.Ou, mais precisamente, os dois criados que os carregavam pararam.Ficamos nos encarando.Olhei para o primeiro homem.Depois para o segundo.Depois para os baús.— Bom dia.— Majestade.Os dois responderam juntos.— O que é isso?O mais jovem abriu a boca.O outro falou primeiro:— Baús.Respirei fundo.— Eu percebi.Silêncio.— Para quê?O homem olhou para o companheiro.O companheiro olhou para ele.Foi uma conversa inteira sem palavras.— Armazenamento — respondeu finalmente.— Armazenamento.— Sim, Majestade.— No corredor da ala real?— Temporariamente.Cruzei os braços.— Naturalmente.Nenhum dos dois se mexeu.Apontei.— Podem contin
AURORANa manhã seguinte, decidi que não investigaria o mapa.A decisão durou até o café.— Você vai sair hoje?Kael ergueu os olhos da xícara.— Vou.— Para onde?— Tenho algumas coisas para resolver.Passei manteiga no pão.— Onde?— No reino.Olhei para ele.— Que resposta específica.— Você perguntou.— E você não respondeu.Kael tomou um gole como se aquela conversa não fosse absolutamente ridícula.Elara estava sentada entre nós, concentrada em destruir uma fruta com os dedos. Cassian, do outro lado, mergulhava um pedaço de pão numa pequena tigela de iogurte e observava o resultado com profundo interesse científico.— É sobre o mapa? — perguntei.— Não.Estreitei os olhos.— Você respondeu rápido demais.— Porque a resposta é simples.— Então o mapa é outra coisa.Ele ficou em silêncio.Sorri.— Entendi.— Você não entendeu nada.— Entendi que existem pelo menos duas coisas.Kael pousou a xícara.— Aurora.— Kael.— Coma.— Não mude de assunto.— Não estou mudando. Estou tentand
AURORATrês dias depois do primeiro Festival das Primeiras Flores, encontrei uma fita rosa presa numa das rodas da carruagem real.Não fazia ideia de como chegara ali.Talvez tivesse sido amarrada por alguma criança durante a festa. Talvez tivesse se prendido quando voltamos ao palácio. Talvez Elara tivesse roubado de algum lugar e encontrado uma forma misteriosa de fazê-la chegar até a carruagem.A terceira possibilidade me pareceu a mais provável.Segurei a fita entre os dedos enquanto um dos homens responsáveis pelas carruagens terminava de verificar as rodas.Estava amassada, suja numa das pontas e havia perdido quase todo o laço.Mesmo assim, sorri.— Majestade?Levantei os olhos.— Pode deixar.O homem olhou para a fita.— Na roda?— Por enquanto.Ele teve a sensatez de não perguntar.Saí das cocheiras com a sensação de que o festival ainda se recusava a terminar.Acontecia em toda parte.Havia pétalas secas nos cantos do pátio, uma faixa verde presa torta demais numa das janela
AURORAQuando deixamos a praça, Elara tinha perdido uma flor do vestido, Cassian estava sem uma das meias e Kael ainda carregava pétalas nos cabelos.Considerei um sucesso absoluto.O sol já havia desaparecido atrás dos telhados havia algum tempo. As lanternas que passamos semanas planejando estavam acesas sobre a praça e pelas ruas próximas, pequenas luzes douradas balançando sob as fitas coloridas. A música continuava atrás de nós, menos intensa do que durante a tarde, mas ainda suficientemente viva para alcançar a carroça enquanto nos afastávamos.Virei para olhar uma última vez. Não dava para ver tudo. Apenas pedaços de uma celebração inesquecível. As luzes, as barracas, pessoas ainda dançando e celebrando, a fonte quase desaparecida sob a montanha de flores. Meu peito se encheu outra vez.Kael percebeu. Ele estava sentado diante de mim, Cassian adormecido contra o peito dele.— Não chore de novo — avisou.— Eu não estou chorando — murmurei.— Está pensando em chorar.— Isso nem e
AURORALevamos menos de três minutos para perder Elara.Não de verdade.Eu precisava deixar isso claro.Ela estava a menos de dez passos de nós, perfeitamente visível, cercada por quatro guardas que fingiam com admirável competência não estar cercando uma criança de vestido rosa.Ainda assim, eu havia soltado sua mão por tempo suficiente para cumprimentar uma mulher e, quando voltei a olhar, minha filha estava diante da barraca dos brinquedos de madeira.— Kael.— Eu vi.— Ela—— Eu vi, Aurora.Elara segurava um pequeno cavalo.O artesão estava agachado diante dela enquanto o menino que eu vira atrás da barraca observava com um sorriso tímido.— Valo — Elara declarou.Parei.Kael virou lentamente o rosto para mim.— Não.— Não diga nada.— Eu não disse.— Seu rosto disse.— Meu rosto é assim.Tomas, que vinha alguns passos atrás com Matteo, ouviu.Naturalmente.— Valo?Fechei os olhos.— Não comece.— Isso está ficando hereditário.— Tomas.— Só observei.Elara nos viu.Ergueu o brinq
AURORAElara não queria ficar parada.Esse foi o primeiro problema do Festival das Primeiras Flores.Não as carroças.Não os comerciantes.Não os guardas.Não as dezenas de decisões que haviam ocupado as últimas semanas.Minha filha.— Elara.Ela girou.A saia rosa abriu ao redor das pernas pequenas e depois caiu novamente, fazendo as flores bordadas desaparecerem por um instante entre as pregas.— Bonita!— Muito bonita. Agora venha aqui.Ela correu para o outro lado do quarto.Suspirei.O vestido havia sido ideia de Clara.Naturalmente.Eu pedira apenas alguma coisa confortável, bonita e adequada para uma criança que passaria boa parte do dia correndo. Clara interpretara isso como uma missão pessoal e aparecera no palácio dois dias antes com o vestido pronto.O tecido era rosa, num tom suave sem ser pálido, com uma saia leve que terminava pouco abaixo dos joelhos. Pequenas flores coloridas haviam sido bordadas à mão ao longo da barra e subiam em grupos menores pelo corpete: amarelas







