LOGINDesde pequena, Selene aprendeu a conviver com o silêncio cruel do próprio irmão. Kael, o herdeiro mais temido da alcateia, sempre a manteve distante, frio e inacessível, como se a simples presença dela fosse um erro que ele precisava suportar. Enquanto todos recebiam proteção, carinho e orgulho, Selene cresceu cercada por olhares de pena, sussurros maldosos e perguntas sem resposta. Ela nunca entendeu o motivo daquela rejeição, nunca compreendeu por que Kael desaparecia sempre que ela se aproximava, por que seus olhos escureciam de dor e desejo contido, ou por que ele parecia lutar diariamente contra algo dentro de si. Mas tudo muda na noite do seu décimo oitavo aniversário, sob a luz da lua sangrenta, durante a cerimônia que revelaria o destino de cada lobo da alcateia, Selene finalmente ouve o rugido da fera que vive dentro de Kael. Uma única palavra, capaz de destruir tudo o que ela acreditava conhecer.“Companheira.” Companheiros destinados são almas criadas pela Deusa da Lua para ficarem juntas por toda a eternidade, um vínculo sagrado, inquebrável, impossível de negar. Mas como aquilo podia acontecer entre irmãos? Desesperado para esconder a verdade, Kael afasta-se ainda mais, mergulhando em um silêncio brutal. Porém, quanto mais tenta fugir dela, mais o destino os empurra um para o outro. E quando segredos enterrados começam a vir à tona, Selene descobre que sua vida inteira foi construída sobre mentiras perigosas. Ela não é quem pensa ser, e Kael nunca foi realmente seu irmão. Agora, entre guerras de alcateias, profecias antigas e inimigos que desejam separá-los a qualquer custo, os dois precisarão decidir se irão lutar contra o destino ou se entregar ao vínculo proibido que ameaça incendiar seus corações. Porque algumas almas nascem conectadas pela lua e quando o destino as reivindica, nem o mundo inteiro consegue separá-las.
View MoreA primeira vez que ouvi meu coração quebrar, eu tinha apenas oito anos, não foi um som real, ninguém além de mim poderia ouvi-lo. Não houve sangue, gritos ou lágrimas naquele instante, apenas o silêncio. Um silêncio pesado e sufocante que caiu sobre mim quando Kael soltou minha mão diante de toda a alcateia e se afastou como se eu fosse algo impuro, algo errado, algo que ele não suportava tocar por muito tempo.
Eu me lembro perfeitamente daquela noite, a fogueira central queimava alta no meio da aldeia, iluminando os rostos felizes dos membros da alcateia Black Moon, o cheiro de carne assada misturava-se ao perfume húmido da floresta depois da chuva, e as crianças corriam entre as mesas enquanto os adultos riam e bebiam, tudo parecia quente, vivo, familiar. Tudo, menos eu. Kael estava ao meu lado até poucos segundos antes, eu segurava sua mão com força porque odiava multidões e porque, naquela época, ele ainda era o único lugar onde eu me sentia segura. Ele tinha quinze anos e já era maior do que quase todos os guerreiros da alcateia. Forte, silencioso e assustadoramente bonito, mesmo tão novo, todos o admiravam, todos o respeitavam, eu também. Talvez mais do que deveria. Mas então um dos anciões se aproximou sorrindo e disse algo que eu nunca esqueci. “Vocês dois parecem filhos da própria Deusa da Lua. Kael protege essa menina como se ela fosse destinada a ele.” Naquele instante, os dedos de Kael endureceram ao redor dos meus, seu corpo inteiro ficou tenso. E então ele soltou minha mão tão rápido que parecia ter sido queimado pelo meu toque, lembro-me do olhar dele desesperado, com pânico e raiva. Uma mistura tão intensa que mesmo uma criança foi capaz de perceber que havia algo profundamente errado. — Nunca diga isso outra vez — ele rosnou para o ancião. A música ao redor parou, as conversas cessaram e todos olharam para nós. E eu fiquei ali, pequena e confusa, tentando entender o motivo de Kael estar olhando para mim como se eu fosse o pior dos pecados. Naquela noite, ele não voltou para casa, nem na noite seguinte, nem na outra. Depois disso, tudo mudou, Kael começou a desaparecer sempre que eu entrava em algum lugar, parou de jantar conosco, parou de falar comigo. Se eu tentava abraçá-lo, ele se afastava, se eu chorava, ele fingia não ouvir. E quanto mais eu crescia, mais cruel aquela distância se tornava. Eu não entendia, passei anos tentando entender. Havia noites em que eu ficava sentada no parapeito da janela do meu quarto observando a floresta escura, esperando ver Kael voltando do treinamento. Às vezes eu o via ao longe, atravessando as árvores como uma sombra enorme e silenciosa. Meu coração disparava imediatamente, como se apenas enxergá-lo já fosse suficiente para me fazer respirar melhor, mas então ele levantava os olhos, nossos olhares se encontravam e ele ia embora. Sempre embora. Como se fugir de mim fosse a única coisa que o mantivesse vivo. Os anos passaram assim, dolorosos, confusos, solitários. A alcateia inteira percebia o modo como Kael me evitava, e as pessoas começaram a fazer o que fazem de melhor, criar histórias cruéis. Alguns diziam que eu era amaldiçoada, outros sussurravam que Kael me odiava por causa da morte da nossa mãe, que morreu logo depois do meu nascimento. Havia ainda os que acreditavam que eu trazia fraqueza para a linhagem do Alfa. Porque eu nunca fui como os outros lobos, enquanto os jovens da alcateia despertavam seus instintos cedo, eu permanecia… vazia. Sem loba, sem ligação, sem nada, eu era um erro dentro de um mundo onde erros não sobreviviam por muito tempo. E ainda assim, apesar de tudo, Kael continuava me observando.Sempre, mesmo quando fingia indiferença, mesmo quando me tratava com frieza, mesmo quando me destruía aos poucos. Eu sentia seus olhos sobre mim, na sala de jantar, nos treinos, nas cerimônias, como um predador vigiando cada passo meu. Como alguém tentando desesperadamente controlar algo monstruoso dentro de si. Mas eu era jovem demais para entender, ingênua demais para perceber. Foi apenas anos depois, na noite do meu décimo oitavo aniversário, que o verdadeiro horror começou. Aquela noite ainda vive dentro de mim como uma cicatriz aberta, a lua estava vermelha, não parcialmente avermelhada, completamente vermelha. Os anciões chamavam aquilo de Lua de Sangue, um evento raro que acontecia quando a Deusa desejava revelar verdades escondidas. Toda a alcateia se reuniu na clareira sagrada para minha cerimônia de despertar, embora poucos realmente acreditassem que algo aconteceria comigo. Eu conseguia ouvir os sussurros: “Ela não tem loba.” “Talvez seja humana.” “Uma vergonha para a linhagem do Alfa.” Cada palavra atravessava minha pele como vidro, mas nada doía mais do que Kael. Ele estava parado perto das árvores, distante de todos, vestido inteiramente de preto. Seus braços estavam cruzados diante do peito e seu rosto permanecia mergulhado em sombras, frio, intocável. Ainda assim, meus olhos insistiam em procurá-lo, sempre ele. A cerimônia começou, os anciões cantaram em volta da fogueira enquanto eu permanecia descalça no centro da clareira, tentando ignorar o nervosismo esmagando meu peito. O vento ficou mais forte, as árvores começaram a balançar violentamente e então uma dor absurda atravessou meu corpo. Eu caí de joelhos, gritei, senti algo rasgando minhas veias por dentro. Ouvi murmúrios assustados ao redor, mas nada se comparou ao que aconteceu depois. Um rugido ecoou pela floresta, profundo, primitivo, animal. Todos se viraram imediatamente para Kael, seu corpo tremia, os olhos dourados brilhavam de maneira sobrenatural. E havia dor no rosto dele, uma dor tão brutal que quase parecia desespero, então sua loba falou. Não. Ela não falou, ela reivindicou. A palavra atravessou a clareira como um trovão. “Companheira.” O mundo inteiro parou, o vento cessou, os anciões empalideceram e meu coração simplesmente deixou de bater, porque companheiros destinados não escolhem, a Deusa escolhe. É um vínculo sagrado entre duas almas criadas uma para a outra, irreversível, eterno. Mas Kael era meu irmão, meu irmão... Lembro do horror estampado no rosto das pessoas, das mulheres cobrindo a boca em choque, dos guerreiros se afastando lentamente, do silêncio grotesco que tomou conta da clareira. E lembro principalmente de Kael, ele me encarava como um homem condenado, como alguém que passou anos lutando contra um destino impossível… e finalmente perdeu. Então ele fugiu, transformou-se diante de todos e desapareceu floresta adentro. E eu fiquei ali, sozinha, quebrada, sem entender se aquilo era uma maldição ou o começo da verdade mais cruel da minha vida. Naquela mesma noite, descobri que nada do que vivi era real, meu pai não era meu pai. Minha mãe guardava segredos que morreram com ela. E Kael… Kael nunca foi realmente meu irmão, mas às vezes acho que essa foi a parte menos assustadora, porque o verdadeiro terror começou quando percebi que uma parte de mim nunca quis que ele fosse. E isso deveria ter me destruído, talvez tenha destruído, porque desde aquela noite, algo dentro de mim acordou também. Algo antigo, algo selvagem, algo que sussurra meu nome no escuro enquanto a lua observa cada um dos meus passos. Agora a alcateia está dividida, há aqueles que acreditam que nosso vínculo é sagrado, e há aqueles que preferem nos ver mortos antes que a profecia se cumpra. Porque existe uma profecia, sempre existiu. Uma profecia sobre a filha da lua sangrenta, sobre o Alfa marcado pela morte e sobre um amor capaz de destruir alcateias inteiras. Meu nome é Selene Valemont, e esta não é uma história de amor. É a história de como o destino me transformou na ruína de um homem e ele na minha.— Minha filha voltou para casa.A voz atravessou a montanha e chegou até nós com uma clareza impossível. Não era uma voz distante, não parecia ter vindo da aldeia abaixo. Era como se tivesse sido pronunciada dentro da minha própria cabeça.Fiquei paralisada.A mulher continuava diante da casa de Alaric.O vestido branco movia-se suavemente com o vento. Os cabelos dourados caíam sobre os ombros, exatamente como eu me lembrava dos retratos que tinha visto escondida quando era criança. O rosto era delicado, quase sereno, e os olhos tinham aquele mesmo azul luminoso que eu carregava.Não podia ser outra pessoa.Era ela.Era Lyanna.Minha mãe.A mulher que todos disseram ter morrido quando eu nasci. A mulher cujo túmulo eu nunca tinha visitado porque Alaric sempre dizia que os restos dela tinham sido enterrados longe de Black Moon.A mulher que eu tinha passado dezoito anos imaginando apenas através
— Filha.A palavra atravessou o templo como um sopro vindo de um lugar que não pertencia ao mundo dos vivos.Fiquei imóvel.Kael apertou a minha mão.O contacto deveria ter-me tranquilizado, mas naquele momento até a presença dele parecia distante. Eu só conseguia olhar para o chão onde Darius tinha desaparecido. A rachadura havia fechado completamente. Não havia sangue, marcas ou qualquer vestígio de que alguém tivesse sido arrastado para dentro dela.Nada.Apenas as pedras negras e o símbolo circular que continuava brilhando sob os nossos pés.— O que foi isso? — perguntei.Ninguém respondeu.Olhei para Lucien, ele estava pálido. Foi a primeira vez que o vi realmente assustado, não preocupado, não surpreso.Assustado.— Lucien?Ele não tirava os olhos do chão.— Não deveria ter acontecido.Kael soltou a minha mão e aproximou-se dele.— O que não deveria ter acontecido?Lucien continuou em silêncio.— Responda.— Ela não deveria ter chamado por Selene.— Quem?Lucien levantou lentame
O mundo desapareceu debaixo dos meus pés. Não houve tempo para gritar, correr ou sequer procurar Kael. Num segundo, eu estava diante dele, vendo o sangue escuro escorrer pelo seu peito e as sombras se espalharem pelo chão como criaturas vivas, no seguinte, uma explosão de luz e escuridão atravessou a floresta inteira, tão violenta que senti o meu corpo ser arrancado do lugar. Árvores foram partidas ao meio, pedras levantaram-se do chão e o ar pareceu rasgar-se ao nosso redor. Ouvi vozes, ouvi alguém chamar o meu nome, ouvi Kael gritar alguma coisa que não consegui entender, mas tudo ficou distante, como se eu estivesse afundando num lago profundo. Tentei estender a mão na direção dele. Os meus dedos encontraram apenas o vazio. Então veio o silêncio. Um silêncio tão absoluto que, durante alguns segundos, não soube se ainda estava viva. Abri os olhos devagar, o céu estava diferente. Não havia árvores acima de mim, nem a lua de sangue, nem as nuvens pesadas que cobriam Black Moon na
Meu coração disparou tão forte que chegou a doer.O vento voltou a soprar violentamente entre as árvores enquanto aqueles homens permaneciam diante de nós como sombras vivas saídas de algum pesadelo. Todos eram altos, vestidos inteiramente de preto, com olhos negros iguais aos de Kael quando perdia o controle da corrupção. Mas havia uma diferença, os olhos deles não pareciam lutar contra a escuridão, pareciam aceitá-la. Meu corpo inteiro arrepiou.Kael deu um passo à frente imediatamente, posicionando-se completamente diante de mim. As sombras negras subiam lentamente por seus braços outra vez, vibrando como fumaça viva ao redor do corpo dele.Os homens sorriram, como se aquilo os divertisse.O que estava à frente inclinou levemente a cabeça ao observar Kael.— Faz anos desde a última vez que vi um descendente puro da linhagem Valemont.A voz dele era grave e estranhamente calma, perigosa.Kael não respondeu.Os músculos do maxilar dele estavam rígidos demais.Lucien permanecia imóvel












Bem-vindo ao Goodnovel mundo de ficção. Se você gosta desta novela, ou você é um idealista que espera explorar um mundo perfeito, e também quer se tornar um autor de novela original online para aumentar a renda, você pode se juntar à nossa família para ler ou criar vários tipos de livros, como romance, leitura épica, novela de lobisomem, novela de fantasia, história e assim por diante. Se você é um leitor, novelas de alta qualidade podem ser selecionados aqui. Se você é um autor, pode obter mais inspiração de outras pessoas para criar obras mais brilhantes, além disso, suas obras em nossa plataforma chamarão mais atenção e conquistarão mais admiração dos leitores.