LOGINA Noiva do Rei Lobo Aurora Valença nunca imaginou que conheceria o próprio marido no altar. Para impedir que a frágil paz entre dois territórios desmorone, ela é obrigada a se casar com Kael Draven, o temido Rei Lycan — um homem que nunca viu e sobre quem conhece apenas histórias. No dia do casamento, Aurora caminha até ele com o rosto escondido sob um véu, decidida a cumprir seu dever sem entregar também o próprio coração. Então ela pronuncia o “sim”. Kael ergue o véu. E congela. Porque ele conhece aqueles olhos verdes. Aurora, porém, olha para o homem diante dela e não reconhece absolutamente nada. Agora, presa a um casamento que jamais escolheu, ela está determinada a construir uma vida que ainda pertença a si mesma. O que Aurora não sabe é que, por trás da frieza do rei com quem se casou, existe um passado que Kael nunca conseguiu esquecer — e uma verdade que ele não sabe como revelar sem arriscar perdê-la. Quanto mais os dois se aproximam, mais difícil se torna separar obrigação de desejo, passado de presente e destino de escolha. Porque Kael pode ser um desconhecido para Aurora. Mas Aurora nunca foi uma desconhecida para ele.
View MoreEu deveria estar chorando.
Era o que esperavam de uma noiva.
Minha mãe havia chorado quando se casou. Minha avó também. Minha irmã mais velha precisara refazer a maquiagem três vezes antes de conseguir atravessar as portas que a levariam ao próprio casamento.
Eu, porém, estava diante do espelho havia tempo demais, olhando para uma mulher vestida de branco que se parecia comigo e, ao mesmo tempo, não parecia.
O vestido era bonito. Irritantemente bonito.
O tecido claro acompanhava meu corpo antes de cair em uma saia longa, trabalhada com bordados delicados que haviam levado semanas para serem terminados. Meus cabelos castanhos estavam presos apenas o suficiente para acomodar o véu, deixando parte dos cachos cair pelas minhas costas.
Tudo havia sido preparado para que eu parecesse uma noiva.
Faltava apenas que eu me sentisse como uma.
— Não faça isso.
Encontrei os olhos de minha mãe pelo reflexo.
Helena estava alguns passos atrás de mim. Havia passado a manhã inteira ocupando as mãos: ajeitando uma dobra que não precisava ser ajeitada, verificando meus cabelos, conferindo flores, chamando criadas que não precisavam ser chamadas.
Agora, porém, estava imóvel.
— Fazer o quê?
— Pensar em fugir.
Quase sorri.
— Eu não estava pensando em fugir.
Ela ergueu uma sobrancelha.
Suspirei.
— Não seriamente.
— Aurora.
— Eu disse que não era seriamente.
Dessa vez, um pequeno sorriso apareceu em seus lábios, mas desapareceu depressa.
Nós duas sabíamos que eu não iria.
Não porque não quisesse.
Havia imaginado a estrada mais de uma vez nas últimas semanas. Um cavalo, poucas roupas, dinheiro suficiente para atravessar a fronteira. Talvez um nome diferente em algum lugar onde ninguém conhecesse Valença, Draven ou os acordos feitos por homens sentados diante de mapas.
Mas fantasias eram fáceis quando não carregavam consequências.
Se eu recusasse aquele casamento, não seria apenas uma filha desobedecendo ao pai.
A aliança entre nossos territórios já era frágil. Antigas feridas haviam sido cobertas, não curadas. O casamento deveria transformar um acordo escrito em algo mais difícil de romper.
E, se falhasse...
Eu conhecia a palavra que todos evitavam pronunciar diante de mim.
Guerra.
Abaixei os olhos para o buquê entre minhas mãos.
— Você ainda pode desistir — minha mãe disse.
Olhei para ela pelo espelho.
Dessa vez, não havia qualquer sorriso.
— Posso?
Helena demorou um pouco para responder.
Foi resposta suficiente.
Virei-me para ela.
— Então não diga isso.
A dor atravessou seu rosto.
Imediatamente me arrependi do tom, mas não das palavras.
Minha mãe se aproximou.
— Eu só queria que você tivesse tido uma escolha.
— Eu também.
Ela segurou minhas mãos.
Por alguns segundos, fomos apenas nós duas naquele quarto. Não uma futura rainha e a mulher que a preparava para uma aliança. Apenas mãe e filha.
— Não deixe que tirem tudo de você — ela murmurou.
Franzi a testa.
— O que quer dizer?
— Seu nome vai mudar. Sua casa vai mudar. Haverá pessoas lhe dizendo como uma rainha deve falar, sentar, sorrir e até respirar. — Os dedos dela apertaram os meus. — Escute quando precisar. Aprenda o que for necessário. Mas continue sendo você.
Engoli o nó que surgiu na garganta.
Talvez eu fosse chorar, afinal.
— Vou tentar.
— Não. — Ela tocou meu rosto. — Faça.
Soltei uma pequena risada.
— Agora sei de onde herdei isso.
— Certamente não foi de seu pai.
Dessa vez, nós duas sorrimos.
Durou pouco.
Helena pegou o véu.
Quando o tecido caiu sobre meus cabelos e depois diante do meu rosto, o mundo perdeu um pouco da cor. Eu conseguia enxergar através dele, mas tudo parecia distante, suavizado pela camada branca entre mim e o restante da vida.
Toquei a renda com a ponta dos dedos.
— Ele realmente não poderá me ver?
— Não até depois dos votos.
Uma antiga tradição Lycan.
Eu havia aprendido muitas delas nas últimas semanas. Mais do que gostaria.
— E eu também não poderei vê-lo.
— Não.
Maravilhoso.
Eu me casaria primeiro.
Descobriria o rosto de meu marido depois.
— Talvez seja melhor — murmurei.
— Aurora...
— Se ele tiver três olhos, pelo menos já será tarde demais para correr.
Minha mãe tentou não rir.
Falhou.
— Por favor, não diga isso perto do sacerdote.
— Não prometo nada.
Uma batida soou à porta.
O sorriso dela desapareceu.
O meu também.
Era hora.
As portas se abriram e o murmúrio do grande salão diminuiu até se transformar em silêncio.
Por um instante, não consegui me mover.
Havia gente demais.
Nobres, representantes das duas famílias, oficiais, membros da corte. Rostos conhecidos misturados a tantos outros que eu jamais vira. Flores claras acompanhavam o corredor, velas ardiam em suportes altos e a luz da manhã atravessava as grandes janelas, refletindo no piso de pedra.
Todos haviam vindo assistir à paz ser selada.
Na forma de uma mulher de branco.
Respirei fundo.
Então comecei a caminhar.
Um passo.
Depois outro.
O som de meus passos parecia alto demais.
Não olhei para os convidados.
Olhei para ele.
O homem diante do altar.
Meu futuro marido estava de costas para mim.
Mesmo à distância, era impossível não notar sua presença. Era alto, de ombros largos, vestido quase inteiramente de preto. Havia prata discreta nos detalhes da roupa e uma coroa escura sobre os cabelos.
Kael Draven.
O Rei Lycan.
Eu conhecia histórias sobre ele.
Todos conheciam.
Algumas falavam de um rei justo. Outras, de um guerreiro impiedoso. Havia quem pronunciasse seu nome com respeito e quem baixasse a voz antes de fazê-lo.
Nenhuma daquelas histórias me dizia como seria dividir uma mesa com ele.
Ou um quarto.
Ou uma vida.
Quanto mais eu me aproximava, mais consciente ficava de minha própria respiração.
Ele ainda não havia se virado.
Quando finalmente parei ao seu lado, senti primeiro o calor de sua presença.
Depois o silêncio.
Kael moveu ligeiramente a cabeça em minha direção.
Não o suficiente para que eu visse seu rosto através do véu.
Não dissemos nada.
O sacerdote começou.
Ouvi meu nome.
Ouvi o dele.
Ouvi palavras sobre dever, união, linhagens e paz.
Respondi quando precisava responder.
Respirei quando me lembrava de fazê-lo.
Até que chegou a pergunta que transformaria tudo o que existira antes dela em passado.
— Aurora Valença, aceita tomar Kael Draven como seu legítimo esposo?
Meus dedos apertaram o buquê.
Eu poderia dizer não.
Tecnicamente.
Uma palavra.
Uma única palavra e talvez todo aquele salão mergulhasse no caos.
Pensei em minha mãe.
Em Valença.
Nas famílias que jamais saberiam quem começara a guerra, apenas quem não voltara dela.
E pensei em mim.
Na promessa que havia feito diante do espelho.
Podiam mudar minha casa.
Não levariam tudo.
Ergui o queixo.
— Aceito.
Minha voz não tremeu.
O sacerdote voltou-se para Kael.
— E você, Kael Draven, aceita tomar Aurora Valença como sua legítima esposa?
Silêncio.
Um segundo.
Talvez dois.
Meu estômago se contraiu.
Então ouvi sua voz pela primeira vez.
Grave. Baixa. Controlada.
— Aceito.
Não sabia por que aquela única palavra fez um arrepio percorrer meus braços.
O sacerdote prosseguiu, mas quase não ouvi.
Marido.
Eu tinha um marido.
E ainda não sabia seu rosto.
— Diante das leis do reino e das antigas tradições Lycan, declaro-os marido e mulher.
O ar pareceu ficar mais pesado.
O sacerdote ergueu uma das mãos.
— E, pelo costume de sua linhagem, o rei pode agora contemplar o rosto de sua rainha.
Meu coração bateu uma vez, forte demais.
Kael se virou para mim.
Completamente.
Pela primeira vez, fiquei diante dele sem nada além de uma fina camada de tecido nos separando.
Ele levantou a mão.
Seus dedos alcançaram a borda do véu junto ao meu rosto.
Houve uma pequena pausa.
Como se esperasse.
Não recuei.
Então ele ergueu o tecido.
O véu deslizou sobre meu rosto, deixando o ar frio tocar minha pele.
Por algum motivo, mantive os olhos baixos.
Vi primeiro o preto de suas roupas. Os detalhes escuros e prateados. A linha de seus ombros.
Ridículo.
Eu já havia me casado com aquele homem.
Olhar para ele deveria ser a parte fácil.
Respirei fundo e ergui o rosto.
Kael era mais jovem do que algumas histórias me haviam feito imaginar.
E mais bonito do que eu gostaria.
Cabelos escuros e curtos, traços fortes, mandíbula marcada. Havia algo severo nele mesmo em completo silêncio, como se o controle não fosse apenas um hábito, mas parte de sua própria natureza.
Então encontrei seus olhos.
E alguma coisa aconteceu.
Não comigo.
Com ele.
A mão que ainda segurava meu véu ficou imóvel.
A expressão de Kael mudou.
Foi mínimo.
Tão pequeno que talvez ninguém naquele salão tivesse percebido.
Mas eu estava perto o suficiente.
Vi.
A frieza desapareceu de seus olhos por um instante.
Surpresa.
Depois alguma coisa mais profunda.
Alguma coisa que eu não soube reconhecer.
Kael me encarou.
Não como um homem examinando pela primeira vez o rosto da mulher com quem acabara de se casar.
Como se procurasse alguma coisa nele.
Meu coração acelerou.
— Minha rainha... — murmurou.
As palavras saíram baixas, quase para ele mesmo.
Franzi levemente a testa.
Seus olhos continuaram presos aos meus.
Especialmente aos meus olhos.
E naquele primeiro instante diante do homem que agora era meu marido, tive uma sensação impossível de ignorar.
Kael Draven estava olhando para mim como se eu não fosse uma desconhecida.
AuroraOs dias passaram depressa.Talvez porque a felicidade tenha esse defeito.Quando finalmente encontramos um lugar onde conseguimos respirar sem pressa, o tempo parece decidir correr.Conhecemos o vilarejo.Caminhamos pelas ruas estreitas entre casas de pedra e pequenas lojas.Comemos pão ainda quente comprado de uma senhora que insistiu em colocar mais dois dentro da cesta das crianças.Elara descobriu que gostava de flores amarelas.Cassian descobriu que qualquer coisa acompanhada de pão era melhor.Kael descobriu que não conseguia passar por uma loja sem verificar se eu precisava de alguma coisa.Eu descobri que queria voltar.Não imediatamente.Mas algum dia.Queria conhecer outras praias.Outras vilas.Outras estradas.Queria mostrar o mundo aos meus filhos.Queria que eles soubessem que havia lugares além das muralhas do palácio.E, ao mesmo tempo, descobri que queria voltar para casa depois.Aquela percepção me surpreendeu mais do que deveria.Porque, durante muito tempo, p
AuroraAcordei antes das crianças.Por alguns segundos, não soube onde estava.O quarto ainda estava mergulhado naquela luz azulada que antecedia o amanhecer. As cortinas se moviam com a brisa que entrava pela janela entreaberta, e, ao longe, o mar respirava.Era estranho como o som das ondas havia se tornado parte do silêncio.Uma onda.Depois outra.Depois outra.Constante.Calmo.Como se o mundo inteiro soubesse que não havia pressa.Virei o rosto.Kael ainda dormia.Estava de lado, voltado para mim, com uma das mãos repousando sobre o espaço vazio entre nós. Os cabelos escuros estavam bagunçados, e havia uma pequena linha entre suas sobrancelhas que só aparecia quando ele dormia profundamente.Fiquei olhando.Era uma coisa que eu fazia muito.Observá-lo quando ele não sabia.Talvez porque, durante muito tempo, Kael tivesse sido o homem que eu tentava entender.O rei.O marido que eu não conhecia.O homem frio que parecia esconder o mundo inteiro atrás dos olhos.Agora eu conhecia
AuroraAs crianças dormiram antes mesmo de chegarmos ao fim da refeição.Elara começou lutando contra o sono.Cassian nem tentou.Ele simplesmente apoiou a cabeça no braço de Kael enquanto comia um pedaço de pão e, alguns minutos depois, fechou os olhos.— Ele dormiu? — perguntei.Kael olhou para o filho.— Acho que sim.— Com comida na mão?— Sim.— Impressionante.Tentei esconder o sorriso.Elara ainda estava sentada ao meu lado.Os olhos pequenos já piscavam lentamente.— Não estou com sono.— Claro que não.— Não.— Você acabou de bocejar.— Foi a boca.Kael virou o rosto para esconder uma risada.Elara percebeu.— Papá.— Hum?— Não ri.— Não estou rindo.— Está.— Desculpe.Ela cruzou os braços.Três segundos depois, encostou a cabeça no meu ombro.— Mamá.— Sim?— Praia amanhã?Passei a mão pelos cabelos dela.— Amanhã.Ela fechou os olhos.— Tá.E dormiu.Fiquei alguns segundos olhando para ela.Tão pequena.Tão cansada.Com uma mecha de cabelo grudada na testa e uma das mãos
AURORADepois que vi o mar pela primeira vez, passei a ter dificuldade para olhar para qualquer outra coisa.Ele desaparecia atrás das colinas sempre que a estrada fazia uma curva mais fechada e, durante aqueles poucos segundos, eu sentia uma impaciência quase infantil. Então a carruagem contornava outra elevação e o azul surgia novamente, maior, mais próximo, ocupando um pedaço ainda mais absurdo do horizonte.Eu ainda não conseguia entender seu tamanho.Sabia, racionalmente, que o mar era imenso. Tinha visto mapas desde criança. Conhecia rotas comerciais que atravessavam águas distantes, ouvira histórias de embarcações e tempestades, sabia que existiam terras além daquele horizonte.Nada disso havia me preparado para vê-lo.Num mapa, o mar era uma mancha azul entre territórios.Diante de mim, parecia não terminar.Elara também havia desistido de sentar.Estava de joelhos sobre o banco, as mãos pequenas apoiadas na borda da janela, enquanto eu segurava a parte de trás de seu vestido






Bem-vindo ao Goodnovel mundo de ficção. Se você gosta desta novela, ou você é um idealista que espera explorar um mundo perfeito, e também quer se tornar um autor de novela original online para aumentar a renda, você pode se juntar à nossa família para ler ou criar vários tipos de livros, como romance, leitura épica, novela de lobisomem, novela de fantasia, história e assim por diante. Se você é um leitor, novelas de alta qualidade podem ser selecionados aqui. Se você é um autor, pode obter mais inspiração de outras pessoas para criar obras mais brilhantes, além disso, suas obras em nossa plataforma chamarão mais atenção e conquistarão mais admiração dos leitores.