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Capítulo 4

Autor: Cláu
last update Data de publicação: 2026-09-20 21:58:44

A frase de Marco permaneceu suspensa no ar, por um instante, ninguém falou, ninguém se moveu.

O escritório parecia ter mergulhado numa espécie de silêncio irreal, Valentina continuava segurando a pequena chave dourada enquanto observava os dois homens à sua frente.

Primeiro Marco.

Depois Dante.

Depois Marco novamente.

Os dois pareciam ter acabado de ver um fantasma e aquilo não fazia qualquer sentido. Até aquele momento, ela acreditava que o objecto encontrado entre os pertences do pai era apenas uma peça importante de algum segredo.

Agora percebia que era muito mais do que isso.

Muito mais. Porque homens como Dante Moretti não se abalavam facilmente, pelo menos era essa a impressão que ele transmitia.

Durante a invasão da mansão, durante os disparos, durante a ameaça dos sequestradores, seu rosto permanecera praticamente inalterado, mas a simples visão daquela chave havia provocado uma reação.

Pequena, quase imperceptível, mas ainda assim, uma reação e isso era suficiente para despertar todos os alarmes dentro da cabeça de Valentina.

- Que cofre? - perguntou finalmente.

Marco abriu a boca, mas Dante respondeu antes.

- Não importa.

Valentina soltou uma risada seca.

- Engraçado.

- O quê?

- Toda vez que faço uma pergunta importante, ninguém quer responder.

- Algumas respostas colocam pessoas em perigo.

- E algumas mentiras fazem exatamente a mesma coisa.

Os olhos escuros dele encontraram os dela, durante alguns segundos, longos segundos, Valentina recusou-se a desviar o olhar.

Aquela era uma batalha silenciosa, uma disputa de vontades e ela não pretendia recuar, não diante dele e nem diante de ninguém.

Dante foi o primeiro a quebrar o contacto visual, virou-se para Marco.

- Quantos homens capturamos vivos?

Marco pareceu entender imediatamente a mudança de assunto.

- Dois.

- Quero nomes.

- Já estamos trabalhando nisso.

- Trabalhem mais rápido.

A ordem foi dada com naturalidade, sem elevar a voz, sem agressividade, mas o efeito foi imediato.

Marco assentiu.

- Entendido.

Então saiu do escritório e os demais seguranças acompanharam-no.

Poucos segundos depois restavam apenas quatro pessoas no cômodo, Valentina, Sophie, Dante e um homem enorme parado junto à porta, provavelmente um guarda-costas.

O silêncio tornou-se novamente desconfortável, Sophie observava tudo com evidente nervosismo. A pobre mulher parecia incapaz de acompanhar a velocidade com que os acontecimentos se desenrolavam, o que era compreensível.

Menos de uma semana antes, sua maior preocupação provavelmente envolvia flores para o funeral, agora estava cercada por mafiosos armados.

Valentina respirou fundo, depois voltou ao assunto principal.

- Quero saber o que significa esta chave.

- Não.

- Não é um pedido.

- Também não é uma exigência válida.

A resposta fez sua irritação crescer.

- Meu pai deixou isso para mim.

- Eu sei.

- Então tenho o direito de saber.

- Tem o direito de sobreviver.

- Pare de falar como se eu fosse uma criança.

- Então pare de agir como uma.

A frase caiu entre eles como uma bomba, Sophie arregalou os olhos.

Valentina sentiu o sangue ferver. Ninguém, absolutamente ninguém falava com ela daquela forma.

- Repita.

A voz dela saiu perigosamente baixa, Dante permaneceu impassível.

- Você ouviu.

- Não sabe nada sobre mim.

- Sei mais do que imagina.

- Não.

- Sim.

- Nem sequer me conhece.

- Conheço.

Aquilo a fez congelar por um momento, apenas por um momento, mas suficiente. Porque havia algo estranho naquela resposta, algo genuíno, algo que não parecia uma provocação.

- O que quer dizer?

- Exatamente o que ouviu.

- Nunca nos vimos antes.

- Não pessoalmente.

Valentina estreitou os olhos.

- Então investigou minha vida.

- Sim.

A resposta veio sem vergonha, sem constrangimento, sem arrependimento, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

- Você é louco.

- Talvez.

- Isso não é normal.

- Minha vida raramente é normal.

- Então preciso que compreenda uma coisa.

- Estou ouvindo.

- Não me interessa quem você é.

O olhar dele permaneceu fixo nela.

- Certo.

- Não me interessa seu dinheiro.

- Certo.

- Não me interessa sua influência.

- Certo.

- E definitivamente não me interessa esse contrato ridículo.

Pela primeira vez uma pequena sombra atravessou os olhos dele, algo rápido mas real.

- Entendi.

- Ótimo.

- Ótimo.

Valentina cruzou os braços.

Mas, apesar da aparente vitória, algo a incomodava, porque Dante parecia tranquilo demais. Homens acostumados a controlar tudo geralmente reagiam mal quando contrariados, mas ele não, parecia esperar. Como alguém que conhecia uma informação que ela ainda desconhecia e isso a deixava muito inquieta.

Duas horas depois.

A mansão finalmente estava vazia, a polícia havia aparecido. Perguntas foram feitas, relatórios preenchidos, mas para surpresa de Valentina, ninguém parecia disposto a investigar profundamente o ocorrido.

Aquilo a perturbou.

Porque uma invasão armada deveria provocar muito mais agitação, mais interesse, mais consequências. No entanto, tudo parecia excessivamente controlado, como se alguém estivesse movendo peças nos bastidores.

E ela suspeitava exatamente quem era esse alguém.

Agora encontrava-se novamente no escritório, sozinha ou quase. Sophie tinha ido descansar, os policiais tinham partido.

Os seguranças de Dante permaneciam espalhados pela propriedade, algo que ela não autorizara, mas que aparentemente ninguém se preocupava em discutir.

A jovem observou a pequena chave dourada, pensativa, seu pai deixara aquilo para ela. Se aquela chave existia, então existia um cofre e existia algo guardado nele.

Algo suficientemente importante para ser escondido.

A questão era: Onde?

Valentina levantou-se da cadeira, começou a observar o escritório com atenção, casa estante, cada gaveta, cada móvel, seu pai sempre fora organizado, meticoloso, nada ficava fora do lugar.

Talvez houvesse alguma pista, alguma referência ou anotação, durante quase uma hora ela procurou sem sucesso, até que percebeu algo estranho, uma fotografia. Uma fotografia antiga colocada sobre uma estante, seu pai aparecia sorrindo ao lado de um prédio, um banco.

Valentina aproximou-se, pegou a moldura, virou-se e encontrou algo escrito atrás, uma única palavra: Manhattan. Seu coração acelerou, porque aquilo era estranho.

Muito estranho.

O pai nunca escreveria algo tão óbvio, todos sabiam que o banco ficava em Manhattan. Então por que escrever aquilo?

Ela continuou examinando mais atentamente e então percebeu, havia números muito pequenos, quase invisíveis, uma sequência, um endereço.

Valentina sentiu um arrepio. Era uma pista, definitivamente uma pista.

Seu pai deixara aquilo para ela.

O endereço parecia pertencer a uma agência bancária privada, exclusiva e discreta. Exatamente o tipo de lugar onde alguém esconderia documentos importantes ou segredos.

Ela pegou imediatamente o telemóvel, precisava verificar, precisava descobrir, mas antes que pudesse pesquisar, a porta do escritório abriu-se. Valentina ergueu os olhos encontrou Dante novamente, como se aquele homem tivesse desenvolvido o hábito irritante de aparecer sem avisar.

- Você devia aprender a bater à porta.

Ele observou a fotografia em sua mão, depois a expressão dela e então sorriu. Não um sorriso verdadeiro, mas algo próximo, o suficiente para fazê-la desconfiar imediatamente.

- Encontrou alguma coisa.

Não era uma pergunta, era uma afirmação.

Valentina escondeu a fotografia atrás das costas.

- Não.

- Mentira.

- Não é da sua conta.

- Provavelmente é.

- Sai do meu caminho.

Ela tentou passar, mas Dante moveu-se para bloquear a saída, não de forma agressiva, apenas firme.

Irritantemente firme.

- Valentina.

- O quê?

- Não vá.

Ela ficou imóvel.

- Como sabe para onde vou?

- Porque finalmente encontrou a pista.

O coração dela acelerou, ele sabia.

Claro que sabia.

Maldição.

Ele sabia.

- Você está me seguindo?

- Não.

- Então como sabe?

- Porque seu pai era previsível.

- Não fale dele como se o conhecesse.

O olhar de Dante escureceu.

- Eu o conhecia.

A resposta saiu tão carregada de algo que ela não conseguiu identificar que ficou sem palavras, raiva, dor, culpa, talvez tudo ao mesmo tempo.

Então ele deu um passo.

- Escute com atenção.

- Não.

- Escute.

- Não recebo ordens suas.

- Aquela chave não abre apenas um cofre.

Valentina congelou completamente, o escritório pareceu ficar menor, mais silencioso, mais frio.

- O que quer dizer?

Dante observou-a durante alguns segundos, como se estivesse decidindo quanto revelar, quanto esconder, quanto arriscar e então respondeu.

- O que está dentro daquele cofre é o motivo pelo qual seu pai foi assassinado.

O mundo pareceu parar, seu coração falhou uma batida, depois outra. Ela encarou Dante tentando processar as palavras, tentando encontrar alguma mentira, alguma manipulação

Mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, o telefone dele começou a tocar, Dante atendeu imediatamente, escutou durante alguns segundos, seu rosto tornou-se perigosamente sério, muito mais sério do que antes, muito mais sombrio, então desligou.

E quando voltou a olhar para ela, a notícia em seus olhos era tão ruim que Valentina sentiu o estômago afundar antes mesmo de ouvi-la.

- Alguém acabou de invadir o banco.

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