LOGIN
A chuva caía sobre Nova Iorque como se o céu tivesse decidido desabar naquela noite, as gotas batiam contra as enormes janelas do escritório de Valentina Moreau, criando um ruído constante que preenchia o silêncio do ambiente. Do vigésimo oitavo andar, as luzes da cidade pareciam pequenos pontos dourados espalhados pela escuridão, enquanto os carros deslizavam pelas avenidas molhadas como rios de luz vermelha e branca.
Sentada atrás da sua mesa, Valentina esfregou os olhos cansados e voltou a observar o projeto aberto no computador, já se passava das onze da noite. Mais uma vez. Não era a primeira vez que passava horas extras no escritório e provavelmente não seria a última. Aos vinte e cinco anos, ela era proprietária da Moreau Design Luxury, uma empresa especializada em decoração e design de interiores para clientes milionários. Não tinha herdado fortuna, nem recebido ajuda de ninguém para chegar onde estava, tudo o que possuía havia sido conquistado através de trabalho. Muito trabalho. Por isso recusava-se a deixar qualquer oportunidade escapar. O telemóvel vibrou sobre a mesa, valentina olhou para o ecrã, o nome da madrasta apareceu. Sophie Moreau. Uma pequena ruga surgiu entre suas sobrancelhas, Sophie nunca ligava àquela hora. Nunca. Ela atendeu imediatamente. - Sophie? Do outro lado houve silêncio. Silêncio suficiente para fazer seu estômago apertar. - Sophie? A voz da mulher finalmente surgiu trémula, quebrada chorando. - Valentina... A jovem levantou-se da cadeira. - O que aconteceu? - É o seu pai. O coração dela acelerou. - O que tem ele? Outro silêncio. Outro segundo que pareceu durar uma eternidade, então veio a frase. A frase que dividiria sua vida em duas partes, a vida antes dela e a vida depois dela. - Seu pai morreu. O mundo pareceu congelar, os sons desapareceram, a chuva desapareceu, a cidade desapareceu, tudo desapareceu. Restaram apenas aquelas três palavras ecoando dentro da sua cabeça. Seu pai morreu. Seu pai morreu. Seu pai morreu. Valentina não sabia quanto tempo ficou parada, talvez segundos, minutos. Quando voltou a si, percebeu que Sophie continuava falando, explicando alguma coisa, acidente, hospital, médicos, mas nada parecia fazer sentido, seu pai não podia estar morto. Não assim, não daquela forma, tinham conversado há apenas três dias, ele parecia perfeitamente saudável, parecia feliz, normal. - Vou para casa - disse ela finalmente. E desligou. --- O funeral aconteceu três dias depois, o céu permanecia cinzento, pesado, como se a própria natureza estivesse de luto. Valentina permaneceu imóvel durante toda a cerimónia, recebeu condolências, agradeceu, sorriu educadamente, mas por dentro sentir-se vazia. Seu pai sempre fora uma presença constante em sua vida, nem sempre perfeito, nem sempre disponível, mas constante e agora não estava mais ali. Quando as últimas pessoas começaram a sair do cemitério, um homem aproximou-se, alto vestido com um elegante fato preto, cabelos grisalhos, expressão séria, Valentina nunca o tinha visto antes. - Senhorita Moreau. Ela ergueu os olhos. - Sim? - Meu nome é Lorenzo Bianchi. A forma como pronunciou o nome chamou sua atenção, Italiano sem dúvida. - Posso ajudá-lo? O homem observou o túmulo por alguns segundos. - Seu pai pediu que eu a procurasse caso alguma coisa lhe acontecesse. Valentina sentiu um desconforto imediato. - Desculpe? - Há algo que precisa saber. - Sobre o quê? O homem voltou o olhar para ela. - Sobre quem realmente era seu pai. --- Duas horas depois, Valentina encontrava-se sentada numa sala privada de um hotel luxuoso, Lorenzo estava diante dela, uma pasta repousava sobre a mesma, o ambiente parecia cada vez mais estranho, cada vez mais errado. - Meu pai era empresário. - Sim. - Dono de uma empresa de importação. - Sim. - Então porque fala como se existisse algo mais? Lorenzo suspirou durante alguns segundos pareceu procurar as palavras certas, depois abriu a pasta, retirou vários documentos, fotografias, papéis antigos, contratos. Valentina observou tudo sem entender, até que Lorenzo colocou uma fotografia diante dela, a imagem mostrava seu pai muito mais jovem ao lado de vários homens, todos vestidos de fatos escuros, todo com expressão perigosamente sérias. No centro da fotografia estava um homem que ela reconheceu imediatamente, mesmo sem nunca tê-lo visto pessoalmente. Dante Moretti, o famoso empresário italiano, billionário, CEO, presença constante em revistas de negócios. Valentina piscou várias vezes, confusa. - O que significa isso? Lorenzo manteve-se calmo. - Seu pai não era apenas empresário. - Do que está falando? - Ele trabalhou durante anos para a Família Moretti. O sangue pareceu desaparecer do rosto dela. - Não. - Sim. - Isso é absurdo. - Gostaria que fosse. Valentina empurrou a fotografia para longe. - Meu pai não tinha ligação com criminosos. - Tinha. - Não. - Tinha. A firmeza da resposta destruiu qualquer possibilidade de discussão, o coração dela começou a bater mais rápido. - Está mentindo. - Não tenho motivo para mentir. - Então por que nunca ouvi falar disso? - Porque seu pai dedicou metade da vida a esconder a verdade. Valentina levantou-se abruptamente. - Esta conversa acabou. - Ainda não. - Acabou. - Não antes de conhecer a parte mais importante. Ela virou-se. - Não quero ouvir. - Seu pai assinou um acordo. A frase fez seus passos pararem. - O quê? - Há vinte anos. Valentina voltou lentamente. - Que acordo? Lorenzo pegou outro documento muito antigo, amarelado, assinado, selado. - Um pacto entre famílias. Ela sentiu uma sensação estranha percorrer sua espinha. - Não entendo. - Quando você nasceu, foi prometida ao herdeiro da Família Moretti. O silêncio tornou-se absoluto, Valentina ficou olhando para ele esperando. Esperando a continuação, a piada. Esperando qualquer coisa que transformasse aquilo numa brincadeira de mau gosto, mas ela nunca veio. - O quê? - Você ouviu corretamente. - Isso é ridículo. - Talvez. - Não estamos na idade média. - Concordo. - Ninguém promete uma criança em casamento. - Seu pai prometeu. Ela começou a rir, um riso nervoso, incrédulo. - Não. - Sim. - Não. - Sim. O homem empurrou o documento para perto dela, Valentina baixou os olhos, reconheceu imediatamente a assinatura. Era do pai, sem qualquer dúvida. Seu coração afundou. - Não... - O acordo continua válido. - Isso não pode ser legal. - Legalmente, não. - Então acabou. - Não para a Família Moretti. Ela ergueu os olhos. - O que quer dizer? Lorenzo demorou alguns segundos para responder. - Dante Moretti pretende cobrar o que foi prometido. --- Na mesma hora, do outro lado do oceano, Milão. O escritório ocupava o último andar de um arranha-céu iluminado, as janelas revelavam a cidade inteira, luxo, poder, dinheiro. Mas nada chamava mais atenção do que o homem sentado atrás da mesa, Dante Moretti observava os documentos espalhados diante dele, trinta e cinco anos, billionário, CEO e chefe organização criminosa mais poderosa da Itália. Seu olhar percorreu uma fotografia, a imagem de uma mulher, Valentina Moreau. Ele já conhecia aquele rosto, conhecia havia anos, muito antes de ela saber da s A porta abriu-se, Marco Romano entrou, braço direito de Dante, amigo de infância, homem em quem confiava mais do que em qualquer outra pessoa. - Lorenzo encontrou-a. Dante não desviou os olhos da fotografia. - E? - Ela não reagiu bem. - Era esperado. - Continua decidido? Finalmente Dante ergueu o olhar. - Sim. - Mesmo depois de todos estes anos? - Sim. - Ela vai resistir. - Eu sei. Marco aproximou-se da mesa. - E se recusar? Dante fechou lentamente a pasta. pois levantou-se, atravessou o escritório, parou diante da janela observando as luzes da cidade. Quando falou, sua voz saiu baixa, controlada, perigosamente calma. - Então vou convencê-la. Marco conhecia aquele tom, conhecia muito bem. Era o mesmo tom que precedia decisões capazes de mudar destinos. - Há algo que ainda não me disse - comentou Marco. Dante permaneceu em silêncio. - Por que ela? Mais alguns segundos passaram, então Dante respondeu. - Porque existe algo que Valentina Moreau ainda não sabe. Marco franziu a testa. - O quê? Dante voltou-se lentamente, seus olhos escuros pareciam esconder anos de segredos, anos de sangue e anos de mentiras. E quando finalmente falou, as palavras caíram como uma sentença. - A morte do pai dela não foi um acidente. E, naquele mesmo instante, o telefone sobre a mesa começou a tocar.A pergunta de Valentina ficou suspensa no ar, ninguém respondeu imediatamente e aquele silêncio foi mais cruel do que qualquer palavra. Porque, naquele momento, ela percebeu que talvez nunca tivesse conhecido realmente ninguém, nem seu pai, nem sua mãe, nem a própria história.A mulher diante dela, aquela que deveria ser uma desconhecida, mas carregava o título mais importante da sua vida, aproximou-se lentamente.- O nome dele era Gabriel Moreau.Valentina franziu a testa.- Moreau?A mãe assentiu.- Sim.- Então por que ele era chamado de meu pai?A mulher respirou fundo, parecia doloroso explicar.- Porque ele foi o homem que escolheu cuidar de você.A resposta não trouxe conforto, pelo contrário, aumentou a confusão.- Escolheu?A voz de Valentina tremeu.- O que isso significa?Dante permaneceu em silêncio próximo à porta, mas ela percebeu. Ele sabia daq
Por alguns segundos, Valentina acreditou que estava sonhando, não havia outra explicação, porque a mulher diante dela não poderia existir, era impossível.Durante vinte anos, aquela pessoa tinha vivido apenas nas fotografias antigas, nas histórias incompletas do pai e nas lembranças vagas de uma infância que ela mal conseguia recuperar, aquela mulher pertencia a um passado doloroso, mas agora estava ali na sua frente, respirando, olhando para ela, chamando-a de filha.Valentina permaneceu parada no corredor, incapaz de dar um único passo, sua mente tentava negar aquilo, tentava encontrar alguma explicação lógica. Talvez fosse alguém parecido, talvez fosse uma armadilha, talvez fosse mais uma mentira, mas então a mulher aproximou-se da luz e Valentina viu os detalhes que nunca esqueceu, os olhos, o formato do rosto, a pequena marca próxima ao queixo que aparecia em todas as fotografias. Era ela, sua mãe.- Não...A palavra saiu como um su
A sala ficou completamente silenciosa, o tipo de silêncio que não era ausência de som, era presença de algo pesado demais para ser dito. Valentina continuava olhando para a tela do computador, incapaz de desviar os olhos, a voz da sua mãe ainda ecoava na sua cabeça."Se você está vendo isto, significa que eu não consegui voltar para você."Cada palavra parecia abrir uma ferida antiga, uma ferida que ela nem sabia que existia, mas não era apenas a voz dela que a tinha abalado, era o homem ao lado dela.O homem que aparecia na gravação, que olhava diretamente para a câmera como se soubesse exatamente quem assistiria àquela mensagem anos depois.Dante, ele havia reconhecido antes dela, a reação dele tinha sido imediata. Um segundo antes estava completamente controlado, no segundo seguinte, estava de pé, tenso, como alguém que acabara de ver algo impossível.Valentina virou-se lentamente para ele.- Quem é ele?Dante não res
Durante alguns segundos, Valentina esqueceu como respirar, a fotografia continuava caída no chão da sala do cofre, mas parecia pesar toneladas. Era apenas um pedaço de papel, uma imagem antiga, alguns rostos congelados no tempo, mas para ela, aquilo acabava de destruir tudo o que acreditava saber sobre a própria vida. Sua mãe estava morta, sempre esteve. Desde que Valentina tinha memória, aquela era a única certeza que carregava, sua mãe havia morrido quando ela era pequena. Era uma história repetida tantas vezes que deixou de ser uma lembrança e tornou-se uma verdade absoluta. Uma doença, uma morte rápida, um funeral, um túmulo, uma ausência que a acompanhou durante toda a infância. Mas aquela mulher na fotografia... Aquela mulher sorrindo ao lado de seu pai e Dante Moretti...Era ela. Era impossível não reconhecer, mesmo depois de tantos anos, mesmo depois de uma fotografia envelhecida. Valentina conhecia aquele rosto, conhecia aquele olhar, conhecia aquele sorriso. Era o
Por alguns segundos, Valentina não conseguiu reagir, a frase de Dante ficou presa na sua mente, repetindo-se de forma cruel.Alguém acabou de invadir o banco.Era impossível, não podia ser coincidência, não depois de tudo. Primeiro a morte do pai, depois a carta, depois a invasão da mansão.Agora o banco, o lugar onde, supostamente, estava guardado algo que poderia explicar tudo, algo que poderia revelar por que seu pai morrera. E, de alguma forma, alguém sempre parecia chegar antes dela.Sempre.Ela olhou para Dante, pela primeira vez desde que o conhecera, não havia apenas raiva no seu olhar, havia medo por ela, mas pela verdade que parecia estar cada vez mais próxima.- Como eles sabem? - perguntou.Dante guardou o telefone no bolso.- Essa é a pergunta certa.- Não estou perguntando isso.- Então qual é?Ela aproximou-se.- Como eles sabem que eu descobri o cofre?O silêncio entre eles respondeu antes das palavras, Dante ficou imóvel, Valentina percebeu. Ele sabia, talvez não dê t
A frase de Marco permaneceu suspensa no ar, por um instante, ninguém falou, ninguém se moveu.O escritório parecia ter mergulhado numa espécie de silêncio irreal, Valentina continuava segurando a pequena chave dourada enquanto observava os dois homens à sua frente.Primeiro Marco.Depois Dante.Depois Marco novamente.Os dois pareciam ter acabado de ver um fantasma e aquilo não fazia qualquer sentido. Até aquele momento, ela acreditava que o objecto encontrado entre os pertences do pai era apenas uma peça importante de algum segredo.Agora percebia que era muito mais do que isso.Muito mais. Porque homens como Dante Moretti não se abalavam facilmente, pelo menos era essa a impressão que ele transmitia.Durante a invasão da mansão, durante os disparos, durante a ameaça dos sequestradores, seu rosto permanecera praticamente inalterado, mas a simples visão daquela chave havia provocado uma reação.Pequena, quase imperceptível, mas ainda assim, uma reação e isso era suficiente para desper







