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TH

Author: Amanda Nunes
last update Petsa ng paglalathala: 2026-11-06 00:50:08

Visão do TH

Eu já tinha levado tiro, sentido meu próprio sangue escorrer entre os dedos e enterrado pessoas que conhecia desde moleque. Já tinha enfrentado inimigos e acordado sem saber se conseguiria levantar.

Mas nada chegava perto da sensação de olhar para o celular de Fernanda no chão e não saber onde ela estava.

— Passa tudo de novo — ordenei.

CK ergueu os olhos.

— TH…

— Tudo!

Davi tentou explicar a sequência dos acontecimentos, mas minha raiva explodiu.

— Você devia ter protegido ela!

— Eu sei que falhei — respondeu, sem recuar.

Agarrei sua camiseta.

— Levaram ela na sua frente!

— TH! — CK tentou me afastar.

— Se acontecer alguma coisa com ela…

— Solta ele! — Lucas gritou.

Parei.

Meu olhar encontrou o dele. Estava com os olhos vermelhos e as mãos tremendo.

— Ela correu porque me viu — disse. — Se eu não tivesse voltado…

— Não foi sua culpa.

— Ela estava entrando no carro!

— Lucas, olha pra mim. Ela correu porque você é irmão dela. Faria isso de novo. A culpa é de quem levou sua irmã, não sua.

Ele começou a chorar. Soltei Davi e passei a mão pelo rosto.

Eu também estava perto de desabar.

Meu celular vibrou.

Tá difícil respirar agora?

CK tomou o aparelho antes que eu respondesse.

— É isso que querem. Você desesperado.

— EU TÔ DESESPERADO!

O silêncio tomou conta do lugar.

— Eu não sei onde ela está — falei mais baixo. — Não sei quem está com ela. Não sei se está machucada.

Márcia se aproximou e segurou meu braço.

— Traz minha filha de volta.

Olhei para aquela mãe.

Quis prometer que a encontraria imediatamente, mas já tinha prometido coisas demais que não podia controlar.

— Vou fazer tudo que puder.

Era a única promessa honesta.

Visão da Fernanda

Eu precisava descobrir quanto tempo havia passado.

A luz que entrava por uma fresta alta estava mais fraca. Talvez fosse fim de tarde. Minha cabeça ainda doía, mas a tontura tinha diminuído.

Observei o cômodo: paredes de reboco, uma cadeira, um colchão fino, um balde e uma janela pequena protegida por uma estrutura metálica.

Não era muito, mas eu precisava guardar tudo.

Ouvi cachorros, motos e um barulho metálico que se repetia de tempos em tempos. Também havia um som grave e prolongado que não consegui identificar.

Então ouvi duas vozes do lado de fora.

— Ele tá maluco.

— Óbvio. Já mandou gente pra tudo quanto é lado.

Meu coração acelerou.

TH.

— E o hospital?

— O amigo dele acordou.

ND estava vivo.

A porta abriu. O homem de boné entrou e deixou uma garrafa de água no chão.

— Bebe.

— Quero ir ao banheiro.

— Depois.

— Se vocês querem me manter viva, preciso de água e banheiro.

Ele me encarou.

— Enfermeira agora?

— Técnica — corrigi automaticamente.

Conferi se a garrafa estava lacrada e bebi um pouco.

— Onde estou?

Nenhuma resposta.

— Renan? Vini? Léo?

Ao ouvir o último nome, ele virou o rosto.

— Fica quieta.

— Samuca?

Dessa vez, ele me olhou diretamente. Guardei a reação, sem tirar conclusões.

— Quem é você? — perguntei.

— Alguém que você devia parar de irritar.

Aquela voz me parecia familiar. Eu tinha certeza de que já a ouvira antes, mas não conseguia lembrar onde.

Visão do ND

A médica, a enfermeira e CK tinham recomendado que eu permanecesse deitado.

Eu não estava obedecendo.

— Se você cair, vou deixar no chão — CK avisou.

— Mentira.

TH entrou pouco depois.

— Preciso do nome — exigiu.

— Senta primeiro.

Ele me olhou, mas acabou sentando.

Expliquei que havíamos tratado duas etapas como se fossem uma só: quem alterou o recado para mudar a rota de TH e quem confirmou a localização depois da mudança.

— A localização passou por um intermediário antes de chegar à rede de Léo — contei.

— Quem?

Falei o nome.

TH ficou imóvel.

— Tem certeza?

— Do repasse, sim. Do envolvimento direto no atentado, não.

Expliquei que Renan aparecia próximo de quem recebeu a informação, mas não como origem da localização. Havia uma corrente de contatos, e ainda não sabíamos quem tinha planejado cada etapa.

— E você disse que um está perto de nós.

— Uma das pessoas dessa corrente continuou circulando perto do nosso grupo.

Repeti o nome da pessoa.

TH ficou incrédulo.

— Não faz sentido.

— Talvez não. Mas não escolha uma conclusão só porque combina com sua raiva.

Ele se levantou.

— Fernanda sumiu!

— E você quer encontrá-la ou quer alguém para matar?

O silêncio respondeu por ele.

Expliquei que quem sequestrou Fernanda provavelmente queria justamente vê-lo fora de controle.

— Precisamos olhar para as pessoas que se movimentaram hoje — continuei. — Quem sabia do plantão, da casa da tia e da rotina dela?

CK entendeu imediatamente.

— Vou cruzar essas informações.

Pela primeira vez desde que TH entrou, vi seu pensamento superar a raiva.

Visão do TH

Voltei ao local do sequestro com Davi.

Ele mostrou onde Fernanda havia corrido, onde a bolsa caiu e onde o celular foi encontrado.

Perto do meio-fio, notei um pequeno objeto metálico.

Era uma cruz minúscula, parte da pulseira dela.

— Pode ter caído durante a luta — Davi observou.

— Pode. Não vamos transformar possibilidade em certeza.

Uma senhora que estava na porta de casa disse ter visto o carro. Era escuro e tinha uma das luzes traseiras defeituosa. Segundo ela, seguiu em direção à parte baixa da região.

CK encontrou imagens de duas câmeras. O veículo aparecia em ambas, mas desaparecia depois de uma área com pouca cobertura.

Pedi que comparasse o trajeto com o ponto de onde alguém poderia ter fotografado Fernanda na noite do meu atentado.

Havia uma sobreposição numa região específica.

Antes que eu conseguisse avançar, outra mensagem chegou:

Tá aprendendo a pensar. Ela ia gostar.

Meu sangue gelou.

— Quem está mandando isso sabe como Fernanda fala comigo — observei.

— Ou alguém está contando nossas conversas — CK respondeu.

A possibilidade de um vazamento interno voltou a pesar.

Visão da Fernanda

Consegui sair do quarto para ir ao banheiro.

O corredor era estreito, com uma escada à direita e duas portas fechadas. O cheiro de graxa era forte. Também senti fritura e pão recém-assado.

Pela janela pequena do banheiro, vi parte de uma placa:

...NORTE.

Não era suficiente para identificar o lugar.

Na volta, passei a mão discretamente pela parede e deixei um fio solto da barra da minha blusa preso numa quina áspera.

Quando retornei ao quarto, examinei minha pulseira. A cruz tinha desaparecido durante a luta. Ainda restavam pequenas peças metálicas.

Arranquei uma delas e escondi na roupa.

Na próxima oportunidade, deixaria outra pista.

Eu não era investigadora, mas sabia que qualquer informação podia ajudar.

Mais tarde, ouvi os homens conversando.

— Amanhã cedo muda ela.

Meu sangue gelou.

— Pra onde?

— Ainda não sei. Ele tá chegando perto.

Quando dois homens entraram, um deles exigiu minha pulseira. Entreguei o que restava, mas a pequena peça que havia escondido continuou comigo.

— TH tá chegando perto, né? — provoquei.

O homem parou por um instante.

Foi uma reação pequena, mas suficiente para me mostrar que eu tinha tocado num assunto importante.

— Dorme — ordenou.

— Qual seu nome?

Ele saiu sem responder.

Aquela voz familiar continuava me incomodando.

Visão do TH

Às quatro e dezessete da manhã, CK apareceu com uma informação nova.

— Encontramos um imóvel dentro da região de sobreposição. Pertence a um parente de alguém ligado a uma das pontas da investigação.

— A Fernanda pode estar lá?

— É possível, mas ainda não temos confirmação.

O veículo aparecia numa via compatível com o acesso à região. Também havia registros de contatos recentes entre o proprietário do imóvel e Vini.

ND pediu cautela.

— Não entre no primeiro lugar só porque está desesperado.

Eu odiava admitir, mas ele tinha razão.

— Quero o local observado. Sem invasão até termos informações suficientes.

Peguei o celular e abri a conversa com Fernanda. A última mensagem dela ainda estava ali.

Recebi isso agora.

Digitei que estava procurando por ela, mas sabia que não leria.

Mesmo assim, enviei.

ND me observava.

— Quando encontrar Fernanda, não transforma isso em motivo para prender ela mais.

A primeira vontade foi discordar.

Eu queria mantê-la perto, onde pudesse vê-la, protegê-la e ter certeza de que nada aconteceria.

Mas aquilo era justamente o que ela não queria.

— Eu vou querer fazer isso — admiti.

— Eu sei.

— Mas não posso.

— Não.

Respirei fundo.

Primeiro precisava encontrá-la.

Visão da Fernanda

Na manhã seguinte, os homens me tiraram do quarto.

Quando a porta externa abriu, a luz me fez piscar.

Do outro lado da rua, consegui ler uma fachada inteira:

AUTO NORTE.

Oficina.

Agora o cheiro de graxa e o barulho metálico faziam sentido.

Enquanto me conduziam até o carro, deixei a pequena peça de metal cair perto de uma rachadura no cimento.

Também ouvi uma campainha eletrônica e uma mulher anunciando pão quentinho.

Oficina Auto Norte. Uma padaria por perto. Cachorros. Muitas motos.

Repeti tudo mentalmente.

O carro começou a andar.

Eu não sabia para onde estavam me levando, mas tinha conseguido deixar mais uma pista.

Visão do TH

CK ligou pouco depois.

— Encontramos outra peça da pulseira.

Meu coração acelerou.

— É dela?

— O padrão é compatível. Foi encontrada perto de um ponto onde o veículo diminuiu a velocidade.

Fernanda estava deixando rastros.

Pedi que cruzasse o trajeto com imóveis ligados a Renan, Vini, Léo e às pessoas da investigação.

Mas o primeiro imóvel parecia vazio.

Talvez tivessem percebido que estávamos chegando perto.

— Ela foi movida — concluí.

ND assentiu.

— Então procure quem consegue organizar essa movimentação.

CK começou a levantar os contatos e os possíveis locais.

Eu precisava pensar como Fernanda, não apenas como o homem que queria encontrá-la.

Ela observava sons, cheiros, placas e detalhes que outras pessoas ignorariam.

— Não procure só o caminho do carro — ordenei. — Procure o que existe ao redor dos lugares por onde ele passou.

Visão da Fernanda

Naquele novo lugar, continuei observando.

Na segunda ida ao banheiro, contei os passos e percebi uma porta aberta no fim da escada. Lá embaixo havia uma mesa, chaves, dois celulares, uma mochila e um capacete com um adesivo que parecia ter as letras MR.

Não sabia o que significavam, mas guardei.

Mais tarde, fingi passar mal para observar melhor. Quando meu joelho cedeu, dois homens vieram me ajudar. Consegui enxergar novamente a mesa e os aparelhos.

Não era uma fuga, mas era informação.

Quando trouxeram comida, comi o suficiente para manter minhas forças.

Um homem mais velho entrou. Não usava máscara.

— Você é Fernanda.

— Se me sequestraram sem saber meu nome, estão pior do que pensei.

Ele sorriu.

— TH gosta mesmo de você.

— Pergunta pra ele.

— Ele está virando o mundo atrás de você.

— Problema dele.

O homem se sentou.

— Você está brava com ele?

Meu coração acelerou.

A pergunta não parecia casual.

— Minha relação não é assunto seu.

— Vocês estavam separados.

Meu sangue gelou.

Ele sabia que TH e eu estávamos afastados. Aquela informação não era algo que qualquer pessoa teria.

— Quem te contou?

Ele sorriu, satisfeito por eu ter reagido.

Percebi meu erro.

Não confirmaria mais nada.

Aquele homem sabia detalhes demais sobre minha vida e sobre TH. Talvez estivesse próximo da investigação. Talvez fosse justamente a peça que todos procuravam.

Mas eu ainda não tinha provas.

Respirei fundo e sustentei o olhar dele.

Eu precisava continuar observando, guardar cada detalhe e encontrar uma oportunidade.

Enquanto isso, TH procurava por mim.

E eu continuaria fazendo minha parte.

Não era propriedade de ninguém esperando ser resgatada.

Era Fernanda.

E ainda não tinha desistido de voltar para casa.

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