LOGINPOV - SCARLETT
Finalmente consegui entrar na fortaleza de Jasper. Um sorriso sombrio e cheio de propósito surgiu nos meus lábios. Eu estava pronta. Preparada. Sabia exatamente o que tinha que fazer. Vestida totalmente de preto — tecido leve e escuro que me fazia desaparecer na penumbra —, eu me misturava às sombras do quarto dele como se fizesse parte delas. Cada movimento calculado, cada respiração controlada, cada passo em silêncio absoluto. Ninguém havia me visto passar. Ninguém sabia que eu estava ali. Mas… o cheiro do ambiente. O cheiro DELE. Aquilo mexeu com a minha loba de um jeito estranho, perigoso, que eu não esperava. Era forte, envolvente, uma mistura de madeira, terra úmida e algo selvagem que parecia gritar com a minha própria essência. Sem perceber, fui me aproximando da cama, do travesseiro onde ele dormia, e quase o levei ao rosto, como uma tola, como se precisasse sentir mais daquilo. “Merda! Que porra eu tô fazendo?” — pensei, afastando-me bruscamente, sentindo a raiva subir. Minha loba rosnou dentro de mim, inquieta, agitada, querendo mais daquilo. Revirei os olhos, ignorando-a com todas as minhas forças. Eu tinha uma missão. Eu tinha um objetivo a cumprir. Nada iria me desviar. Então a porta se abriu de repente. Meu corpo entrou em alerta imediato: músculos tensos, mão já fechada em torno do cabo da adaga escondida na cintura. Mas não era ele. Uma garota loira entrou, iluminada pela luz fraca do corredor, sorrindo para si mesma, despindo o vestido com as mãos enquanto caminhava para o interior do aposento. Quando ela fez menção de estender a mão para acender a luz do abajur… Eu me movi rápido como uma sombra. A agarrei por trás, pressionando-a contra mim. Ela tentou gritar, mas tampei sua boca com força, impedindo qualquer som. Com a outra mão, puxei o pequeno dardo tranquilizante e cravei fundo em seu pescoço, sem dó nem piedade. Em segundos, o corpo dela amoleceu completamente nos meus braços, pesado, inerte. — Boa noite… — murmurei, fria, sem sentir absolutamente nada. Por sorte, eu tinha levado aquele dardo como precaução. Caso Jasper trouxesse companhia. Caso ele fugisse. Agora… não tinha mais obstáculos. Ótimo. Arrastei a garota até um aposento vazio ao lado, deixei-a jogada no chão, amordacei-a com um pedaço de tecido e tranquei a porta. Ela só acordaria horas depois, com uma dor de cabeça terrível e muita vergonha. Problema dela. Voltei para o quarto de Jasper, fechando a porta. Esperei. As luzes da festa dançavam do lado de fora, atravessando as frestas da cortina grossa, e o som abafado de música e vozes alegres chegava fraco até ali. O clã dele comemorava, enquanto eu me escondia no canto mais escuro, próxima à porta, silenciosa e paciente como uma predadora à espera da presa. Então, minha loba começou a se agitar de novo. Mas dessa vez foi diferente. Ela corria dentro de mim. Saltava. Gemia de ansiedade. Como um cachorro que reencontra o dono depois de uma eternidade. “Tá louca?”. Rosnei mentalmente para ela, sentindo uma raiva queimar no peito. “Você esqueceu o por quê estamos aqui?” Ela não me ouvia. Ela só sentia. Então ouvi passos. Firmes. Decididos. Pesados no chão de madeira. Ele. Meu coração disparou no peito de uma forma absurda, dolorosa, forte demais. Errado. Tão errado. Minhas mãos suaram frio. Eu nunca ficava assim. Nunca. Já tinha lutado, já tinha me infiltrado em lugares piores, já tinha matado antes, sem pestanejar, sem sentir nada que não fosse foco e dever. Mas aquilo… Aquilo era diferente. Como se todo o meu ser reconhecesse algo que a minha mente jurava odiar. Quando a porta se abriu, o cheiro dele me atingiu como uma droga forte, correndo direto para o sangue, para os ossos, para cada parte de mim. Pesado. Intenso. Viciante. Dominador. Minha loba uivou alto dentro da minha cabeça, uma palavra, uma verdade, uma sentença que eu não queria ouvir: “COMPANHEIRO” “Droga!”. Trinquei os dentes, sentindo o ódio se misturar com o desespero. Sem pensar, dominada pela fúria, pelo medo e pela negação, deixei a raiva tomar conta de tudo. Arremessei a adaga na direção da sombra que entrava. Sem precisão. Sem controle. Apenas pura vontade de ferir, de matar, de acabar com aquilo antes que me consumisse. Ele desviou. Rápido. Mortal. Imponente. Merda! Antes que eu pudesse reagir, ele se jogou sobre mim. Me agarrou com força. Implacável. Como se eu fosse nada em comparação a ele. E foi aí que tudo desabou dentro de mim. Minha loba… simplesmente se rendeu. Deitou-se de barriga para cima. Aceitou o toque. Implorou por mais. “NÃO!”. Gritei dentro de mim, lutando contra a minha própria carne. “EU PREFIRO MORRER DO QUE ISSO!” Me debati com toda a força que tinha, chutei, tentei me soltar, exigindo que ele me largasse, que ele desaparecesse, que ele morresse. Mas quanto mais eu lutava, quanto mais eu me mexia… Mais meu corpo roçava no corpo dele. Mais eu sentia o calor que saía da pele dele. E então… senti. Senti a excitação dele. Pura. Forte. Inconfundível. E, para a minha absoluta e eterna desgraça… Senti a minha também. Minha loba tinha virado a minha inimiga. Ela o queria. Eu o odiava. Eu nunca o aceitaria. Não importava o que o destino, ou a lua, ou qualquer lei maldita dissesse. Preferia andar sobre brasas. Me jogar de uma ponte. Sofrer todas as dores do mundo. Qualquer coisa. Menos pertencer a ele. Então ele estendeu a mão e acendeu a luz fraca do abajur. Prendi a respiração. O corpo dele… forte, definido, a camisa aberta revelando o peito largo e desenhado… iluminado pela luz baixa, parecia uma obra-prima perigosa. Cada detalhe visível, cada músculo marcado. Os óculos escuros escondiam seus olhos. Eu não conseguia ler suas intenções. Não conseguia saber o que ele pensava, o que ele sentia. E isso me irritava mais do que tudo. Tudo nele me puxava. Tudo nele me desafiava. Tudo nele parecia feito para mim, da forma mais torturante possível. Mas eu não ia ceder. Não ao destino. Não a ele. E, principalmente… Não ao meu próprio instinto traidor. Me debati ainda mais, rosnando baixo: — Vou matar você… Vou fazer você sofrer lentamente! O semblante dele permaneceu sério, inabalável. Ele se inclinou mais, o peso do seu corpo me prendendo ainda mais ao colchão. — Quer sentir o que eu sinto, companheira? — perguntou com a voz fria, carregada de uma intensidade que me fez tremer. — Não sou sua companheira! — cuspi as palavras, sentindo seu olhar intenso mesmo através das lentes escuras dos óculos. E então ele se inclinou ainda mais, sua respiração quente batendo diretamente no meu pescoço, arrepiando cada centímetro da minha pele. — Ainda não… — sussurrou, baixo, perigoso, contra a minha pele — …mas vou mudar isso. Antes que eu pudesse reagir ou gritar, senti o impacto doloroso e ao mesmo tempo eletrizante de suas presas cravando fundo na carne do meu pescoço. Uma corrente elétrica percorreu todo o meu corpo, da cabeça aos pés, ligando a minha alma diretamente à dele. Minha loba gemeu, completamente dominada, rendida ao vínculo que acabava de ser selado. Eu me contorci, tentando resistir, tentando quebrar algo que já era inevitável… mas foi inútil. Ele passou a língua sobre a ferida, selando-a, gravando sua marca em mim para sempre. Me tornando sua.POV — DESCONHECIDO Entre as pedras jazia um corpo: o de Boris, o vampiro. O sol ainda não havia nascido. O ar era gélido, e as águas do mar batiam contra ele, ferido e com ossos fraturados, como se não esperassem nem um segundo para consumi‑lo. Mas, contra todas as expectativas, ele abriu os olhos — verdes como esmeraldas. Seu corpo estava todo arrebentado, o rosto coberto de feridas. A beleza de outrora dera lugar a uma visão sombria e assustadora. Começou a se arrastar para longe da água. Conforme a noite avançava, os ossos quebrados iam se encaixando lentamente, um a um. A sua capacidade de cura sobrenatural trabalhava, mas ainda levaria tempo até que ele recuperasse a força total — especialmente enquanto não se alimentasse. Quando finalmente conseguiu ficar de pé e caminhar mancando pelas ruas já quase madrugada, as pessoas se afastavam ao vê‑lo, horrorizadas. Antes, ele atraía olhares; agora, só causava medo. E Boris não se importou nem um pouco. A descoberta que fi
Fiquei olhando para o vazio, para o lugar onde Boris estivera, como se ainda esperasse que ele aparecesse ali. Uma tristeza profunda tomou conta de mim, um luto silencioso por tudo o que se perdeu. Jasper estava ao meu lado, no chão firme, ofegante e cansado, coberto de lama e arranhões — mas vivo. Ele me puxou para perto, mesmo sob aquela chuva fria e implacável. Segurou‑me com força contra o seu peito, como se eu fosse a única coisa que existisse, a única coisa que realmente importava no mundo. Olhou‑me nos olhos com tanto amor que chegava a doer no peito só de receber aquele olhar. — Por quê? Por que me escolheu, e não ele? — perguntou suavemente, a voz embargada, enquanto segurava o meu rosto entre as suas mãos grandes, ásperas e cheias de feridas. Suspirei, apertando as mãos sobre as coxas, ainda de joelhos no chão, tremendo por tudo o que tinha acontecido, por tudo o que vi e decidi. Olhei bem dentro daqueles olhos dourados que sempre me guiaram. Suspirei de novo, e
Jasper estava inclinado sobre mim, preocupado, verificando os meus ferimentos, mas de repente ele foi atingido com tanta força que foi chutado para longe, rolando na lama. Nossos olhos seguiram o movimento, e lá estava ele: Boris, parado, imóvel, olhando para nós dois com ódio mortal estampado no rosto. Jasper se pôs de pé imediatamente, apesar do cansaço e dos ferimentos. Então os dois começaram a se circular lentamente, como dois predadores antigos, prontos para o ataque final, analisando‑se em cada detalhe, cada movimento, cada respiração. Os olhos de Boris brilhavam num vermelho intenso, como sangue puro, cheios de raiva, decepção e uma sede de sangue que durava séculos. Já os olhos de Jasper, dourados e firmes, mostravam calma, verdade e determinação, apesar de tudo o que havia acontecido até ali. Ambos se olharam friamente, sem piscar, sem desviar o olhar. Era uma batalha de vontades antes mesmo de ser uma batalha física. — Hoje vou matar você, Jasper… e vou jogar a sua car
POV — SCARLETT Depois da reunião, finalmente vi Jasper parecer satisfeito: a empresa tinha recebido uma avaliação excelente da auditoria. Mas já era tarde da noite, e passamos o dia inteiro fechados no escritório. Quando saímos pela garagem do edifício e entramos no carro, a chuva caía com força, e os limpadores de para‑brisa trabalhavam sem parar. Estávamos na metade do caminho, num trecho cercado por floresta densa, quando resolvi falar sobre o que tinha acontecido no banheiro. — Jasper… — comecei. Mas ele franziu a testa antes mesmo que eu continuasse, e eu desviei o olhar para a estrada. E ali, no meio da escuridão, vi. Uma figura parada, imóvel, bem no centro da pista, a poucos metros de distância. Meu sangue gelou de uma vez, e um arrepio cortou todo o meu corpo. Eu o reconheci na hora. Era Boris. Ele virou o rosto na nossa direção, e os faróis o iluminaram por completo: pele branca como a neve, quase translúcida, cabelos negros grudados no rosto e no pescoço pela água.
POV — DESCONHECIDO Anos atrás... Sarah sabia que devia se afastar de James, mas a atração que sentia pelo vampiro era fora do comum. Era como se uma corrente invisível a puxasse sempre em sua direção; até a sua loba se agitava, arranhando‑a por dentro, pedindo por ele. Muito antes de sequer conhecer James, ela já o via em sonhos. No meio da madrugada acordava ofegante, com o coração disparado, como se tivesse corrido léguas para alcançá‑lo. E quando finalmente o viu pela primeira vez, quase caiu para trás — reconheceu‑o imediatamente, como se já o tivesse conhecido a vida inteira. Ela estava confusa: como poderia ter como companheiro um vampiro? Era algo proibido, e não conseguia sequer falar sobre isso com ninguém do clã. Mesmo assim, aquele ser de olhos verdes e cabelos dourados ocupava os seus pensamentos a cada instante. Por isso, quando James apareceu naquela noite, ela não hesitou. Saiu ao seu encontro sob o manto da escuridão — precisava estar com ele. Dessa vez, hav
Quando Jasper acordou, encontrou-me já completamente arrumada e pronta para sair. Ele piscou algumas vezes, surpreso, como se não esperasse me ver tão determinada. — Pelo jeito, você realmente quer ir comigo — comentou, rindo. Cruzei os braços e assenti. — Claro. Acho que vou ser sua secretária por alguns dias. O sorriso dele aumentou. — Tudo bem, não vou reclamar. O olhar de Jasper percorreu meu corpo com aquele brilho divertido que eu conhecia muito bem. — Na verdade, acho que vai ser bastante prazeroso ter uma secretária tão bonita ao meu lado. Revirei os olhos e bati de leve no braço dele. — Você consegue transformar qualquer situação em uma provocação? Ele riu enquanto caminhava em direção ao banheiro. — Desculpa… corrigindo. Vai ser muito bom ter uma secretária tão atenciosa comigo. — Melhor assim — respondi, mas ele já tinha entrado no banheiro. Pouco depois, ouvi o som do chuveiro. Sentei-me na cama, mas minha mente voltou imediatamente para o problema que ainda







