FAZER LOGINDamon
Acordo com uma fisgada aguda no ombro, uma dor quente e incisiva, como se alguém tivesse cravado uma lâmina incandescente bem no centro da articulação e girado sem qualquer pressa. O incômodo vem acompanhado de um latejar persistente, pulsante, que se espalha pelo braço e sobe até o pescoço, roubando qualquer resquício de conforto que o sono poderia ter deixado. O teto do quarto ainda está mergulhado na penumbra, as cortinas pesadas bloqueando a luz agressiva do deserto lá fora. O ar está carregado, denso, impregnado com o cheiro da noite que ainda não terminou completamente. Mal dormi. Algumas horas quebradas, superficiais, dessas que não descansam porra nenhuma. Mas, honestamente, não me importo. Valeu cada segundo. Cada gemido abafado, cada toque, cada corpo quente se contorcendo sob o meu. As garotas eram boas demais — bonitas, famintas, ansiosas para dizer que tiveram um pedaço da lenda. Se entregando fácil, sorrindo como se fosse um privilégio absurdo serem escolhidas, como se existisse algum tipo de significado naquilo. Não existe. Nunca existiu. Me sento na ponta da cama devagar, soltando o ar pelos dentes enquanto o ombro protesta com mais intensidade. Minha respiração sai pesada, irregular, e meu corpo inteiro carrega os vestígios da noite: cheiro de cigarro grudado na pele, suor seco, perfume feminino doce demais misturado ao ar abafado do quarto. Passo a mão pelo rosto, sentindo a aspereza da barba e o cansaço acumulado nos músculos. Lá fora, do outro lado da porta, vozes. A de Nick se destaca, alta, despreocupada, misturada com risadas femininas — agudas, provocantes, irritantes àquela hora. Eles ainda estão nessa. Provavelmente espalhados pela sala, transformando o lugar em um maldito motel improvisado. Não é novidade… mas ainda assim me incomoda. Aqui dentro, não. Meu quarto é outra coisa. Meu quarto não é extensão de festa, nem playground para ilusão barata. Nenhuma mulher dorme aqui. Nenhuma fica. Nenhuma acorda ao meu lado achando que isso significa algo além do que foi: uma noite, um corpo, um descarrego de tensão. Não existe espaço para expectativa dentro dessas paredes. Nunca vai existir. Estendo o braço com cuidado até o móvel ao lado da cama, ignorando o puxão incômodo no ombro, pego o celular e ligo para Nick. Chama uma, duas vezes… ele atende rindo, como se o mundo fosse uma piada contínua. — Se livra delas. Não quero ver ninguém quando sair daqui… — Cobra, acordado já? — ele responde, a voz carregada de diversão. — Não quer uma rodada de sexo matinal, não? As meninas ainda estão aqui, praticamente implorando… — Eu disse pra se livrar delas — corto, seco, sem elevar o tom, mas deixando claro o suficiente. O silêncio do outro lado dura um segundo a mais do que o normal. — Tá falando sério? — Se você e Elliot quiserem continuar essa putaria, levem elas pra um motel ou pra casa de vocês. — Minha voz desce um tom, firme, afiada. — Eu não quero essas vadias aqui quando eu sair do quarto. Entendeu? Mais um breve silêncio. Ele sabe reconhecer quando não tem espaço pra discutir. — Beleza… beleza. Já entendi. Vou cair fora com o Elliot. Desligo antes que ele tente prolongar a conversa. Jogo o celular de volta no móvel e me levanto, sentindo o ombro reclamar mais uma vez, como se estivesse me lembrando de que ainda não estou inteiro. Caminho até o banheiro com passos pesados, empurrando a porta e fechando atrás de mim. Giro o registro do chuveiro e, segundos depois, a água quente despenca sobre meu corpo como uma cortina espessa. Inclino a cabeça para trás, deixando a água escorrer pelo rosto, pela barba, pelos ombros tatuados, descendo pelo peito marcado de cicatrizes antigas — lembranças permanentes de cada luta, cada erro, cada vitória arrancada na base da violência. Quando a água atinge o ombro lesionado, o impacto arranca um grunhido baixo da minha garganta. Arde. Pressiona. Mas, aos poucos, transforma a dor em algo mais suportável, mais controlável. Fecho os olhos e respiro fundo. O calor solta um pouco da tensão dos músculos, engana o corpo por alguns minutos, faz parecer que está tudo sob controle. Mas eu sei melhor. Isso é só uma trégua curta. A dor vai voltar, mais cedo ou mais tarde, e quando voltar, vai cobrar caro. E eu não tenho espaço pra isso. A imprensa não pode nem desconfiar. Se essa merda vaza, viro alvo fácil. Carne fresca. Vão entrar no ringue comigo com os olhos brilhando, sentindo o cheiro de fraqueza como tubarão na água. E eu não lutei tudo que lutei pra virar presa de ninguém. Abro os olhos devagar, encarando o vapor que começa a tomar conta do espelho. Eu não sou presa. Sou o cara que quebra, não o que é quebrado. Sou predador.DamonO vento da noite sopra leve, trazendo o cheiro de carvão queimando e carne assando lentamente na churrasqueira. As risadas do pessoal da Cobra ainda ecoam lá fora, altas, bagunçadas, vivas. Alguém grita alguma piada idiota, outro reclama do jogo de cartas, e Ernesto provavelmente está exagerando alguma história como sempre faz. O som mistura com música baixa vindo da área externa, criando aquela sensação estranha de normalidade que eu nunca imaginei fazer parte da minha vida.Mas aqui dentro, na varanda iluminada apenas pela luz amarelada que escapa da cozinha, tudo parece mais calmo. Mais lento.Melinda dorme no sofá, encolhida de lado, a cabeça apoiada em uma almofada macia, uma das mãos repousando sobre a barriga arredondada, onde nossa filha se mexe preguiçosamente de vez em quando. Fico parado observando as duas por alguns segundos longos demais, incapaz de desviar o olhar. É impossível não sorrir.Ela é o lar que eu nunca pensei que teria.Por tanto tempo, achei que o pass
Dois anos. Dois anos se passaram, e às vezes ainda é difícil acreditar que tudo isso é real.Um ano em que Damon me pediu em casamento e nos casamos no mesmo dia. O sol de Las Vegas está se pondo devagar, tingindo o céu com tons de laranja e rosa, enquanto o cheiro de churrasco invade o quintal da nossa nova casa. A risada de Hina ecoa do outro lado, enquanto ela e Sally discutem sobre quem faz o melhor, as duas completamente competitivas, como sempre. Ernesto e Natalie estão se beijando descaradamente perto da piscina, e Elliot tenta convencer Frank a pular na água vestido. Eu observo tudo com uma mão sobre a barriga já arredondada, sentindo a nossa garotinha se mexer. Damon diz que ela chuta quando sente cheiro de comida, o que, segundo ele, é um traço meu.Sinto o calor, o barulho, a vida pulsando ao redor e me pego sorrindo sozinha. Há dois anos, eu nunca imaginaria estar aqui, cercada de pessoas que se tornaram a minha família. Pessoas que viram o pior e o melhor de mim e,
DamonEnquanto caminho para o corredor que leva ao octógono, ouço o som da torcida aumentar em um rugido coletivo. O ar é quente, pesado e vivo. O chão vibra sob meus pés, e por um instante, fecho os olhos de novo.Penso nela. Na Melinda que sobreviveu, que enfrentou monstros, que ainda encontrou espaço para me amar. E penso que prometi que nunca mais ninguém a machucaria. As luzes estouram sobre mim. O som da multidão é ensurdecedor, vibra nos ossos, pulsa dentro da cabeça como um segundo coração. O nome dele ecoa junto com o meu, Roger Tigger . O desgraçado entra sorrindo, o mesmo sorriso cínico de sempre. Mas hoje… hoje é diferente.O árbitro nos chama para o centro, as luvas se tocam e eu encaro aquele rosto com a calma de uma fera paciente. Sinto o sangue circular quente, o ar frio queimando por dentro. A campainha soa e tudo desaparece.Ele vem primeiro, rápido. Um cruzado de direita que passa raspando o meu queixo. Eu desvio e ouço o zunido do golpe no ar. Respondo com um
Damon As luzes do vestiário são fortes demais, quase ofendem. Fico olhando para o reflexo distorcido no espelho, o suor já escorrendo mesmo antes de subir para o octógono. A adrenalina começa a bater, mas hoje ela vem misturada com algo que parece calma. Não é paz, exatamente. É foco.O som distante da torcida chega abafado, como se houvesse algodão nos meus ouvidos. Respiro fundo e penso em tudo o que aconteceu nos últimos meses, em cada merda, cada queda, cada erro. Penso em como quase perdi tudo. E em como, de alguma forma, encontrei ela no meio do caos. Melinda. Fecho os olhos e vejo o sorriso dela. Vejo o jeito que ela olha para mim, não como se eu fosse um lutador, ou um cara invencível, mas como se eu ainda tivesse conserto. E, caralho, talvez eu tenha. Por ela, eu tenho tentado.A terapia… nunca pensei que fosse dizer isso, mas não é tão ruim quanto imaginei. Não é fácil, também, eu sangro por dentro toda vez que abro a boca para falar das coisas que enterrei, mas o dia
Melinda O cheiro metálico do sangue que gruda no ar é do homem que tentou destruir a minha vida. Ele impregna minhas narinas, pesado, sufocante, se misturando ao gosto amargo do medo preso na minha garganta. Minha respiração ainda é um tropeço desajeitado, curta demais, rápida demais, como se meus pulmões tivessem esquecido o ritmo certo de funcionar. As mãos dele, grossas e trêmulas, brilham sob a luz fria do corredor, manchadas de vermelho. Damon me encara como se esperasse alguma palavra mágica que o fizesse recuar antes que ultrapasse uma linha sem volta. — Diga que quer ele morto e eu o mato agora — ele sussurra, a voz rasgada de raiva, tão baixa que parece mais perigosa. — Eu juro por tudo o que eu tenho, Mel. Eu o mato. Meu peito se aperta por dentro de um jeito doloroso. Aquele ímpeto violento dele me assusta profundamente, porque eu vejo que não é ameaça vazia. Damon faria. Sem hesitar. Sem remorso imediato. E, ao mesmo tempo, existe uma parte pequena, ferida e infantil den
Damon O volante range sob minhas mãos. O trânsito está completamente parado, um mar de luzes vermelhas refletindo no para-brisa, e tudo o que consigo pensar é que devia ter saído mais cedo. O rádio está desligado, o silêncio do carro só é quebrado pelo som distante das buzinas. Meu celular vibra no painel e o nome de Ernesto pisca na tela. Suspiro e atendo. — Onde diabos você tá, cara? — A voz dele vem alta, misturada com barulho de gente falando atrás. — Preso no trânsito — respondo, esfregando o rosto. — Parece que todo mundo resolveu sair ao mesmo tempo hoje. Ele ri, um riso debochado, típico dele. — É, o universo tem um senso de humor peculiar. — Faz uma pausa, e o tom muda para algo mais leve. — Natalie tá aqui comigo. Não entendo. — Ela tá aqui porque quis te dar espaço pra conversar com a Melinda. Foi ideia dela, aliás. Disse que vocês precisavam de um tempo sozinhos, sem plateia. Aperto mais o volante, sentindo o coração acelerar. — É... eu fui até lá. — Eu sei — el







