Share

Cápitulo 2

Author: Vih
last update publish date: 2025-09-21 09:56:48

Era isso que eu era pra ele. Uma foda boa. Uma distração.

— Bom saber que ainda sou melhor. — Fingi força, mas por dentro me sentia pequena. Ridícula.

— E você, o que tá fazendo aqui?

— Trouxe o Bono pro banho.

— Aquela bola de pelo nojenta? — Ele torceu o nariz, lembrando a alergia. Mais um motivo pra nunca ir na minha casa.

— Que eu amo de... — Não terminei. Fui interrompida pela buzina do carro de Matthew.

Ele saiu, sorrindo, sem notar a tensão no ar.

— E aí, cara.

Misa apenas acenou, o semblante travado. Olhou pra mim de novo.

— Pelo visto, alguém dormiu na sua casa.

Cuspi o veneno com um sorriso debochado.

— Misa, você é o único aqui que dorme com duas ao mesmo tempo.

Ele riu.

— Tá reclamando?

— Não. — Mas queria. — Só tô deixando claro algo que você insiste em ignorar.

E então me virei, antes que minha garganta traísse a fachada, e segui até o carro de Matthew.

O caminho inteiro sigo em silêncio, perdida nos meus próprios pensamentos enquanto finjo sorrir para os comentários de Matthew sobre as propagandas toscas que aparecem nas placas da cidade. Ele ri, se diverte. Eu sorrio. Mas estou ausente.

Por dentro, estou em pedaços.

Misa foi o meu primeiro. Meu primeiro homem, meu primeiro vício, minha primeira ilusão. Eu tinha 15. Ele, quase 18. Nos conhecemos no primeiro ano do ensino médio. Não houve namoro, flores, mãos dadas no corredor. Só quartos escuros, toques escondidos, mentiras bem contadas. Ele tirou minha virgindade como quem rouba um segredo. E eu deixei. Deixei porque acreditava que um dia ele me escolheria. Porque era mais fácil me iludir do que aceitar que talvez eu fosse só uma pausa confortável na vida dele.

Quando ele se formou e foi para Columbia, eu acreditei que tudo ia mudar. Em vez disso, ele conheceu July. A namorada perfeita. A morena linda de família rica, sempre com um sorriso pronto para as fotos de campanha do pai dele. Enquanto isso, eu continuava nos bastidores — na sombra, no quarto, no silêncio. Ele dizia que era passageiro, que nem transavam direito, que ela era só uma peça na estratégia do pai. E eu... eu acreditei. Eu sempre acreditei.

Mas agora... agora eu me pergunto: por que ela?

Por que ela tem o título e eu tenho os segredos?

Por que ela pode segurá-lo em público, e eu só posso tocá-lo quando ninguém vê?

Ele escolheu a July. E essa escolha me fere de um jeito que eu não consigo mais disfarçar.

Talvez porque, no fundo, eu sempre soube que ele nunca me escolheria de verdade.

E mesmo assim, eu continuo gostando dele.

E continuo me odiando por isso.

— Por que toda vez que você se encontra com o Misa seu humor vira do avesso? – Matthew pergunta, sem rodeios.

Eu hesito. Ele merece uma resposta, mas como se explica o inexplicável?

— É complicado. – digo, saindo do carro. O sol me cega por um segundo, como se o mundo quisesse me lembrar que existe luz, mesmo quando tudo dentro de mim parece cinza.

— Talvez o complicado eu entenda.

— Acredito que não. – Sorrio, mas é um sorriso vazio. Daqueles que a gente treina na frente do espelho pra fingir que está tudo bem.

Entramos no campus e seguimos para a sala de projeto gráfico. A aula seria uma distração bem-vinda, mas mesmo assim meu peito pulsa com aquela inquietação surda. Emma já está lá com Lotte, animadas discutindo ideias. São minhas melhores amigas desde o primeiro semestre, e ainda assim, nunca contei tudo a elas. Nem sei se conseguiria. Nem sei se quero.

— Bom dia. – Matthew cumprimenta e se senta.

— O Jones não chegou ainda? – pergunto, mais por manter a conversa do que por real interesse.

A aula passa. A cabeça não. Ela está em outro lugar, em outro toque, em outra lembrança.

No almoço, o convite para a boate me pega desprevenida.

— Ué, você não vai conosco na Pub? – Lotte pergunta.

Eu travo. A Pub. O mesmo lugar onde ele agora vai com ela. Ele, que odiava agito. Mas July ama uma pista de dança. E ele... Ele ama agradar o pai.

— Eu já tinha me esquecido. – minto. Tudo em mim é fingimento quando se trata dele.

Mas vou. Não por empolgação, mas por orgulho. Talvez por desejo de provocar. Ou só pra tentar me convencer de que eu ainda tenho algum controle nessa história.

Me despeço deles e sigo até a cafeteria. O chá gelado refresca a garganta, mas não a alma. Atravesso o Central Park com pressa e chego cedo ao estágio. A recepcionista fofoqueira acena, e tudo que consigo pensar é: “Ela viu”. Ela viu eu e ele. No banheiro. Como explicar aquilo?

Pego o elevador e vou direto para minha sala. Preciso trabalhar. Preciso esquecer. Preciso parar de amar alguém que só me ama no escuro.

Penduro a bolsa, abro o notebook, tento focar nos relatórios da Patinsk. Mas então... a porta se abre, sem aviso. Já preparo um olhar furioso para a chefe, mas congelo ao vê-lo.

Misa.

Ali, parado, como se nada tivesse acontecido.

Como se ele não fosse a razão da minha confusão.

Como se meu coração ainda não estivesse implorando por uma resposta que ele nunca vai dar.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Fim

    E o Misa estava ali.Sentado na poltrona ao meu lado, postura mais ereta do que meses atrás, as mãos apoiadas nos braços da cadeira, os movimentos ainda cuidadosos, mas firmes. Ele ria, participava, se inclinava para frente quando queria dizer algo. Vez ou outra, sua mão encontrava a minha — um toque breve, automático, como se o corpo dele já soubesse onde era casa.Em algum momento, percebi que o burburinho foi diminuindo.Não porque alguém pediu silêncio.Mas porque o Misa se levantou.Demorou alguns segundos. Ele apoiou o peso com calma, respirou fundo, ajustou o equilíbrio. Meu coração disparou na mesma velocidade do primeiro dia em que o vi sair da cama sozinho. Instintivamente, fiz menção de levantar junto, mas ele apertou minha mão de leve.Deixa.Ele deu dois passos à frente, ficando no centro da sala. Pigorreou, claramente nervoso — o que arrancou um sorriso imediato da Emma.— Ih… — ela murmurou. — Lá vem coisa.Misa respirou fundo outra vez e apoiou a mão no encosto do sofá

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Capitulo 205

    Kate observava a cena. E, quando nossos olhares se cruzaram, ela fez algo que, meses atrás, eu jamais imaginei: sorriu para mim. Um sorriso pequeno, mas carregado de significado.— Eu tentei resistir — ela disse, quase como uma confissão. — Juro que tentei. Mas esses dois… — balançou a cabeça, rendida. — Eles não deixam.Eu ri, aliviada. Porque aquele perdão não tinha vindo por palavras ou explicações. Veio pelo caminho mais simples e mais poderoso: o amor pelos gêmeos.Aiden caminhou até o Misa.Houve um segundo de silêncio — não constrangedor, apenas carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito. Então Aiden estendeu a mão, e Misa apertou. Não como empresários. Não como herdeiros. Mas como homens que dividiam algo muito maior do que uma empresa.— Feliz Natal, irmão — Aiden disse, e a palavra ainda parecia nova na boca dele.— Feliz Natal — Misa respondeu, com um sorriso que misturava surpresa e aceitação. — Que bom que você veio.— Eu não perderia — Aiden respondeu. — Já é trad

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Capítulo 204

    Becah correu primeiro. Não correu: marchou. E esticou os braços.— Vovó.Minha mãe derreteu. Meu pai ficou parado por um segundo, como se alguém tivesse apagado o chão.— Você tá enorme… — ele disse, a voz saindo mais baixa do que ele planejou.Liam veio logo depois e agarrou a barra do casaco do meu pai com a confiança de quem não sabe o que é rancor.Eu vi o rosto do meu pai mudar. Não foi um sorriso completo, ele e ainda era meio reseoso quando vinha aqui em casa.A última chegada me deu um choque silencioso.Elisa — mãe do Misa — entrou com um casaco claro, cabelo arrumado com uma simplicidade bonita, e ao lado dela um homem que eu não conhecia: o novo namorado. Ele tinha um sorriso contido, jeito de quem fala baixo e olha nos olhos. Elisa parecia… diferente. Mais viva. Mais dona de si. O divórcio do Antony não tinha sido só papel; tinha sido um resgate.— Feliz Natal, queridos — ela disse, me abraçando com carinho, depois indo direto nas crianças como se aquele fosse o centro do

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Capítulo 203

    Já é Natal.Essa constatação me atravessa enquanto observo a cidade pela janela do apartamento do Misa. Nova York lá embaixo parece outra coisa nessa época do ano: luzes quentes recortando o frio, vitrines exageradas, pessoas embrulhadas em casacos longos e cachecóis grossos, como se todo mundo estivesse tentando se proteger não só do inverno, mas do próprio cansaço do ano.Aqui em cima, o cheiro de pinheiro natural da árvore invade a sala de pé-direito alto. O apartamento de dois andares do Misa nunca pareceu tão vivo. Não é mais aquele espaço silencioso, quase solene, de antes. Agora há brinquedos espalhados, risadas ecoando pela escada em espiral, marcas de mão no vidro e uma sensação constante de casa — algo que, por muito tempo, eu achei que não saberia mais reconhecer.As crianças estão com dois anos.Dois anos.Às vezes ainda me assusto com isso.Becah corre pela sala usando um vestido de veludo verde-escuro, meia-calça grossa branca e um casaquinho de lã creme que escolhi com

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Capítulo 202

    Voltar para casa foi mais difícil do que sair do hospital.O apartamento continuava o mesmo: dois andares, linhas retas, concreto aparente, vidro demais. Tudo feito para alguém que sempre gostou de espaço, altura, liberdade. Agora, cada detalhe parecia me provocar. O degrau entre a sala e a varanda. O corredor estreito perto da escada. O banheiro que precisou ser reformado às pressas.A cadeira de rodas rangia baixo quando eu me movimentava. Ainda não me acostumei com o som. Nem com a sensação de depender dela.Nem de depender de alguém.Margo tentava não deixar isso evidente, mas eu via. Via quando ela desacelerava o passo para caminhar ao meu lado. Quando organizava tudo de forma que eu não precisasse pedir ajuda — o copo já na altura certa, a porta já aberta, o caminho livre.Eu sempre fui o homem que resolvia.Agora, precisava aceitar ser cuidado.— Devagar — disse o fisioterapeuta, Daniel, um cara grande, voz firme, mãos seguras. — Controla o tronco primeiro.Eu estava preso a ba

  • A Outra do Meu Primeiro Amor   Capítulo 201

    O corredor da ala cirúrgica parecia interminável.Branco demais. Frio demais.O som ritmado dos passos dos médicos misturava-se ao bip distante das máquinas e ao eco abafado das conversas sussurradas. O relógio na parede marcava o tempo com crueldade, como se cada segundo tivesse consciência do que estava em jogo.Misa estava lá dentro.Abri e fechei as mãos várias vezes, sem perceber. Meus dedos estavam gelados, apesar do ar abafado do hospital. Eu não conseguia sentar por muito tempo, nem ficar em pé. Caminhava dois passos, voltava, encostava na parede, respirava fundo… e falhava.Emma estava à minha direita. Llote à esquerda. Nenhuma das duas dizia nada — e eu agradecia por isso. Às vezes, Emma segurava meu braço quando percebia que minhas pernas iam ceder. Llote mexia distraidamente no celular, não por interesse, mas para fingir normalidade.— Vai dar certo — Emma murmurou em algum momento, mais para mim do que para si mesma.Eu não respondi.Não conseguia.Minha cabeça estava pre

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status