LOGINA maçaneta gira com firmeza. Ele entra. Fecha a porta com um clique seco, e tranca — de novo. Já virou um ritual. Um ritual imprudente, impulsivo, que nos arrasta feito correnteza. Eu nem preciso olhar para saber que é ele. O ar muda. O ambiente muda. Até a luz parece mais quente.
O cheiro do seu perfume amadeirado preenche minha minúscula salinha antes mesmo que ele diga uma palavra. Uma mistura de madeira queimada com algo frio, cortante. Meu coração dá um salto involuntário no peito. E lá está ele — impecável. Camisa branca Giorgio Armani justa nos ombros largos, paletó cinza de caimento perfeito, e aquele olhar. Aqueles malditos olhos cor de gelo que sempre me encaram como se soubessem de algo que nem eu sei.
Ele não fala nada. Só me observa em silêncio, os olhos dançando do meu rosto para o decote discreto da minha blusa. Há algo diferente naquele olhar. Não é só desejo. É uma sombra, um lampejo quase imperceptível de algo mais fundo — uma dor antiga? Um pedido mudo? Não sei. E odeio não saber.
Ele se aproxima devagar, empurra minha cadeira com um toque leve no braço e se senta na beirada da mesa, como quem já sabe que vai tomar o que quer.
— Misa... — digo, com um tom de advertência.
— Que foi? — ele sorri de canto, como se eu fosse só um jogo que ele já aprendeu a vencer.
Eu respiro fundo, tentando recuperar alguma sanidade. Mas ele já está ali, tão perto, os dedos deslizando pelo meu ombro nu, a barba roçando de leve na minha pele. O calor do seu corpo parece irradiar direto para o meu abdômen.
— Não vai acontecer de novo. — Tento manter firmeza na voz, mas até eu ouço a hesitação.
— Isso o quê? — Ele se inclina, mordiscando o canto da minha boca. Um arrepio me atravessa.
— A última vez quase custou meu estágio. — Recuo um pouco, embora meus olhos o desafiem. — Minha chefe nos flagrou, lembra?
— Seu chefe sou eu. — sussurra no meu ouvido, com aquele tom que é veneno e vício.
— Você é só o filho do dono. — digo, seca, cruzando os braços. — Isso não te dá imunidade pra fazer o que quiser.
Ele ri, mas é um riso cínico.
— Futuro dono, você quer dizer. E, tecnicamente, com mais influência que sua coordenadora.
Pego um lápis na mesa e começo a mordê-lo, tentando focar em qualquer coisa que não seja o jeito como ele me olha. Meu corpo inteiro está em alerta, em combustão. Mas minha cabeça... minha cabeça está exausta.
— Esse estágio só existe porque você quis me manter por perto. — encaro ele. — E porque meu pai gostou da ideia. Achou que seria ótimo eu “começar a levar o Direito a sério”, como ele disse. — Faço aspas com os dedos, sarcástica. — Só que a verdade é que ele odiou quando percebeu que eu não queria seguir os mesmos passos dele.
Misa me observa em silêncio por alguns segundos. Seu olhar endurece. Ele nunca soube o que fazer com minha vulnerabilidade — é como se qualquer menção a sentimentos fosse um insulto.
— Então por que aceitou? — ele pergunta, quase frio.
— Porque eu sou burra. — digo, rindo sem humor. — Porque, no fundo, achei que talvez você quisesse me ver aqui por... sei lá, por algo além do sexo escondido.
Ele levanta, se aproxima de novo. Os olhos ardem, mas há algo neles — um pedido abafado, uma vontade interrompida.
— Você sabe que eu quero. — diz, baixo. E, por um segundo, parece sincero.
Mas sinceridade não basta. Não mais.
— Não. Eu sei que você quer transar. — digo, encarando firme. — E isso é diferente.
Ele se inclina sobre mim, a respiração acelerada.
— Para de provocar.
— Me obrigue. — sussurro, e nesse instante, eu também me traio. Porque eu quero. Deus, como eu quero.
Ele me puxa para o colo dele com uma urgência quase desesperada. Suas mãos deslizam para minhas coxas, apertando com força, e sua boca encontra a curva do meu pescoço como se estivesse faminta. Um gemido escapa dos meus lábios, e meus dedos já estão no zíper da calça dele.
Mas mesmo ali, no meio da excitação, há algo errado. Há silêncios demais entre os nossos toques. Há raiva junto com o prazer. Há orgulho nos nossos gemidos.
Eu o encaro quando ele rasga minha calcinha com brutalidade e geme em resposta.
— A gente é um desastre. — digo, arfando.
— E mesmo assim, você continua vindo. — ele rosna, os olhos cravados nos meus.
— E você continua me trancando aqui dentro. — rebato, enquanto ele me deita sobre a mesa e puxa minha saia para cima.
Não somos sinceros. Não somos corajosos. Somos apenas dois imaturos orgulhosos que confundem desejo com presença, que fingem que não se importam — enquanto imploram, em silêncio, para que o outro fique.
Olhei para o canto da tela do notebook e os números pareciam me sorrir: 17:59. Um minuto. Um único e precioso minuto até o expediente acabar. Respirei fundo, sentindo o peso de um dia inteiro de silêncio forçado entre os cubículos e do nó apertado que estava preso no meu peito desde que entrei naquele elevador com ele.
E o Misa estava ali.Sentado na poltrona ao meu lado, postura mais ereta do que meses atrás, as mãos apoiadas nos braços da cadeira, os movimentos ainda cuidadosos, mas firmes. Ele ria, participava, se inclinava para frente quando queria dizer algo. Vez ou outra, sua mão encontrava a minha — um toque breve, automático, como se o corpo dele já soubesse onde era casa.Em algum momento, percebi que o burburinho foi diminuindo.Não porque alguém pediu silêncio.Mas porque o Misa se levantou.Demorou alguns segundos. Ele apoiou o peso com calma, respirou fundo, ajustou o equilíbrio. Meu coração disparou na mesma velocidade do primeiro dia em que o vi sair da cama sozinho. Instintivamente, fiz menção de levantar junto, mas ele apertou minha mão de leve.Deixa.Ele deu dois passos à frente, ficando no centro da sala. Pigorreou, claramente nervoso — o que arrancou um sorriso imediato da Emma.— Ih… — ela murmurou. — Lá vem coisa.Misa respirou fundo outra vez e apoiou a mão no encosto do sofá
Kate observava a cena. E, quando nossos olhares se cruzaram, ela fez algo que, meses atrás, eu jamais imaginei: sorriu para mim. Um sorriso pequeno, mas carregado de significado.— Eu tentei resistir — ela disse, quase como uma confissão. — Juro que tentei. Mas esses dois… — balançou a cabeça, rendida. — Eles não deixam.Eu ri, aliviada. Porque aquele perdão não tinha vindo por palavras ou explicações. Veio pelo caminho mais simples e mais poderoso: o amor pelos gêmeos.Aiden caminhou até o Misa.Houve um segundo de silêncio — não constrangedor, apenas carregado de tudo o que ainda não tinha sido dito. Então Aiden estendeu a mão, e Misa apertou. Não como empresários. Não como herdeiros. Mas como homens que dividiam algo muito maior do que uma empresa.— Feliz Natal, irmão — Aiden disse, e a palavra ainda parecia nova na boca dele.— Feliz Natal — Misa respondeu, com um sorriso que misturava surpresa e aceitação. — Que bom que você veio.— Eu não perderia — Aiden respondeu. — Já é trad
Becah correu primeiro. Não correu: marchou. E esticou os braços.— Vovó.Minha mãe derreteu. Meu pai ficou parado por um segundo, como se alguém tivesse apagado o chão.— Você tá enorme… — ele disse, a voz saindo mais baixa do que ele planejou.Liam veio logo depois e agarrou a barra do casaco do meu pai com a confiança de quem não sabe o que é rancor.Eu vi o rosto do meu pai mudar. Não foi um sorriso completo, ele e ainda era meio reseoso quando vinha aqui em casa.A última chegada me deu um choque silencioso.Elisa — mãe do Misa — entrou com um casaco claro, cabelo arrumado com uma simplicidade bonita, e ao lado dela um homem que eu não conhecia: o novo namorado. Ele tinha um sorriso contido, jeito de quem fala baixo e olha nos olhos. Elisa parecia… diferente. Mais viva. Mais dona de si. O divórcio do Antony não tinha sido só papel; tinha sido um resgate.— Feliz Natal, queridos — ela disse, me abraçando com carinho, depois indo direto nas crianças como se aquele fosse o centro do
Já é Natal.Essa constatação me atravessa enquanto observo a cidade pela janela do apartamento do Misa. Nova York lá embaixo parece outra coisa nessa época do ano: luzes quentes recortando o frio, vitrines exageradas, pessoas embrulhadas em casacos longos e cachecóis grossos, como se todo mundo estivesse tentando se proteger não só do inverno, mas do próprio cansaço do ano.Aqui em cima, o cheiro de pinheiro natural da árvore invade a sala de pé-direito alto. O apartamento de dois andares do Misa nunca pareceu tão vivo. Não é mais aquele espaço silencioso, quase solene, de antes. Agora há brinquedos espalhados, risadas ecoando pela escada em espiral, marcas de mão no vidro e uma sensação constante de casa — algo que, por muito tempo, eu achei que não saberia mais reconhecer.As crianças estão com dois anos.Dois anos.Às vezes ainda me assusto com isso.Becah corre pela sala usando um vestido de veludo verde-escuro, meia-calça grossa branca e um casaquinho de lã creme que escolhi com
Voltar para casa foi mais difícil do que sair do hospital.O apartamento continuava o mesmo: dois andares, linhas retas, concreto aparente, vidro demais. Tudo feito para alguém que sempre gostou de espaço, altura, liberdade. Agora, cada detalhe parecia me provocar. O degrau entre a sala e a varanda. O corredor estreito perto da escada. O banheiro que precisou ser reformado às pressas.A cadeira de rodas rangia baixo quando eu me movimentava. Ainda não me acostumei com o som. Nem com a sensação de depender dela.Nem de depender de alguém.Margo tentava não deixar isso evidente, mas eu via. Via quando ela desacelerava o passo para caminhar ao meu lado. Quando organizava tudo de forma que eu não precisasse pedir ajuda — o copo já na altura certa, a porta já aberta, o caminho livre.Eu sempre fui o homem que resolvia.Agora, precisava aceitar ser cuidado.— Devagar — disse o fisioterapeuta, Daniel, um cara grande, voz firme, mãos seguras. — Controla o tronco primeiro.Eu estava preso a ba
O corredor da ala cirúrgica parecia interminável.Branco demais. Frio demais.O som ritmado dos passos dos médicos misturava-se ao bip distante das máquinas e ao eco abafado das conversas sussurradas. O relógio na parede marcava o tempo com crueldade, como se cada segundo tivesse consciência do que estava em jogo.Misa estava lá dentro.Abri e fechei as mãos várias vezes, sem perceber. Meus dedos estavam gelados, apesar do ar abafado do hospital. Eu não conseguia sentar por muito tempo, nem ficar em pé. Caminhava dois passos, voltava, encostava na parede, respirava fundo… e falhava.Emma estava à minha direita. Llote à esquerda. Nenhuma das duas dizia nada — e eu agradecia por isso. Às vezes, Emma segurava meu braço quando percebia que minhas pernas iam ceder. Llote mexia distraidamente no celular, não por interesse, mas para fingir normalidade.— Vai dar certo — Emma murmurou em algum momento, mais para mim do que para si mesma.Eu não respondi.Não conseguia.Minha cabeça estava pre







