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Capítulo 3

Autor: Rafa Cabral
last update Data de publicação: 2023-05-22 02:13:29

Na manhã seguinte, mesmo após a péssima noite, acordo bem cedo a fim de não me atrasar. Tomei um banho quente e me vesti da melhor maneira possível, com uma calça e blazer social preto e uma camisa rosa claro, definitivamente não tinha roupa para me parecer com a Alison. Fiz uns ovos mexidos, comi rapidamente e sai. Enquanto trancava a porta, a sra. Davis apareceu atrás de mim, a mulher que devia ter uns 60 anos, com o cabelo meio grisalho e meio ruivo, me olhou da cabeça aos pés e franziu o cenho.

— Senhorita Keen, espero que esteja indo trabalhar para pagar o aluguel, caso contrário considere-se despejada. — ela praticamente cuspiu as palavras.

— Sim sra. Davis, estou indo para o meu primeiro dia no novo emprego e prometo a senhora que quando receber pagarei o aluguel; mas agora preciso ir antes que eu chegue atrasada. — respondi sorrindo enquanto descia as escadas correndo, evitando aumentar a conversa. Ela não era uma mulher fácil, mas eu sabia que ela tinha perdido o marido e o filho num acidente e acabou sozinha, podia imaginar o que esse tipo de trauma causa nas pessoas.

Juntei algumas moedas e conseguiria pagar a passagem de ônibus, mas não conseguiria pagar o café do sr. Bresson. Para não decepcionar o meu chefe no "primeiro dia" optei por ir de bicicleta e comprar o café. O prédio ficava na quinta avenida, próximo ao Empire State Building, por isso as ruas estavam bem movimentadas àquela hora. Comprei o café puro e sem açúcar numa lanchonete próxima ao prédio e entrei no edifício, com pressa, porém com cuidado para não derramar o café.

— Bom dia sr. Hopkins, como vai? — falei passando a passos largos pela porta e tentando evitar o contato visual. A moça na recepção acenou com um sorriso e retribui.

— Bom dia Alison, eu sou o Roger. — quase gritou o porteiro depois que passei por ele e congelei. Eu não tinha como saber que hoje era o Roger que ficaria na portaria. E por quê ele não disse o sobrenome? Me virei para ele e notei o homem de meia idade em pé com um sorriso tímido, esperando que eu o reconhecesse.

— Ah! Desculpe estou com tanta pressa que não percebi que era você. — sorri. — Um ótimo dia para você Roger.

— Está de bom humor hoje. — ele deu um sorriso malicioso e eu percebi que deveria tomar cuidado. Minha irmã sempre preferiu a atenção de homens que pudessem pagar coisas para ela, mas não se importava em atrair atenção dos outros que não podiam.

Apenas acenei e me dirigi ao elevador apertando o botão para o 18° andar. O elevador estava cheio e eu temi que alguém conhecesse Alison e decidisse puxar algum assunto, para mim eram todos desconhecidos, mas por sorte todos pareciam ocupados demais para prestar atenção em mim.

Aquele andar tinha duas salas, além da mesa da secretária, onde me deparo com a Jessy, uma garota de cabelos e lábios tingidos de vermelho carmim e um óculos com armação retangular e preta. Ela me recebeu com um caloroso sorriso.

— Bom dia Alison! Se divertiu ontem?

— Bom dia Jessy, não... — fiquei confusa com sua pergunta e tentei soar despreocupada.

— Ah que pena, sabe que sempre fico ansiosa pra ouvir suas aventuras. — ela ajeitou o óculos e se inclinou como se fosse contar um segredo. — O sr. Bresson está te esperando, ele está furioso porque você não entregou aquele relatório ainda.

— Então é melhor eu ir andando antes que ele fique furioso por eu estar atrasada também. — ela me olhou de cima abaixo e levantou as sobrancelhas antes que eu saísse dali. Jessy e Alison eram próximas, não me surpreenderia ela descobrir, mas preferia tentar evitar, qualquer conversa poderia ser ouvida.

A sala do CEO era bem espaçosa, havia uma pequena recepção onde ficava uma mesa, provavelmente minha; dois sofás e poltronas e uma mesa com café e biscoitos. A decoração basicamente eram quadros de algum artista local e vasos de plantas, as paredes todas em branco gelo, deixavam o ambiente parecido a recepção de um hospital, tudo estava impecavelmente limpo. As janelas enormes de vidro tinham vista para o centro de Manhattan, e eram elas que davam ao ambiente um ar mais arejado. Havia uma divisão com uma porta que provavelmente era o escritório oficial do presidente da empresa.

Peguei o telefone conforme a instrução da Alison e deixei uma mensagem para o sr. Bresson.

— Bom dia sr. Bresson, já estou no escritório, Jessyca disse que o senhor estava me esperando. — ele não respondeu, mas minutos depois a porta do escritório se abriu e quem saiu de lá me deixou apenas sem palavras.

O chefe de Alison, Viktor Bresson aparentava ter uns 30 anos, era mais alto que eu com meus 1,65m, tinha uma barba bem aparada sobre o rosto perfeitamente esculpido e os cabelos castanhos e lisos penteados para a lateral formando um topete, tinha olhos castanhos intensos e usava uma roupa social que devia ter sido feita exclusivamente para ele e provavelmente foi. Não era só a beleza que chamava atenção, ele tinha uma certa imponência que o fazia ser notado. Esbanjava masculinidade e poder.

Era o tipo de homem que faria qualquer mulher derreter em questão de segundos e eu não estava alheia a essa sensação, eu sabia lidar com homens bonitos, mas havia algo diferente... Talvez por que ele não era advogado? Bem, ao menos era provisório. Alison me avisou sobre isso, mas eu não dei crédito, conheço os gostos da minha irmã e para ela qualquer homem com dinheiro é gostoso e bonito.

— Tem três relatórios atrasados, um deles é da semana passada e eu soube que ontem saiu mais cedo. Se continuar assim, terá que achar outro emprego, Alison, isso não é uma brincadeira e pode ter certeza que tem muitos que queriam estar no seu lugar. — a voz dele me fez arrepiar, mesmo sendo um tom de voz firme e irritado. Ele estava brigando comigo e ainda assim não consegui me concentrar nesse fato. Limpei a garganta, apesar de também precisar de um lencinho para...

— Eeh... bom dia sr. Bresson, e-eu vou terminar isso ainda hoje não se preocupe.— minhas mãos tremiam, juntamente com minha voz. Se alguém perguntasse eu diria que era o nervosismo por fingir ser outra pessoa.

— É sua última chance, Alison. — assim que ele se virou para sua sala me lembrei do café.

— Ah! O seu café senhor Bresson. — falei estendendo a mão com o copo térmico e me certificando que ainda estava quente, ele olhou para o copo e depois para mim antes de pega-lo da minha mão. Não disse sequer um obrigado.

Soltei um suspiro de alívio assim que ele voltou para a sala dele e ao mesmo tempo notei a máquina de café na sala, eu não precisava ter comprado o café, me sentei frustrada na cadeira de Alison me perguntando o que deu em mim, sempre fui séria e responsável no trabalho não alguém que quase gagueja, que as pernas ficam bambas e que sente arrepios ao ouvir a voz de alguém. Senti meu rosto ruborizar na mesma hora em que entendi que eu estava completamente atraída por ele, mas isso não devia acontecer, ele ainda era o meu... o chefe da minha irmã. Precisava me controlar e agir com responsabilidade. E claro, parar de levantar suspeitas.

Mesmo com as lentes de contato incomodando meus olhos, terminei os relatórios antes do almoço, eram bem mais fáceis que a documentação necessária para um julgamento, e entreguei para o sr. Bresson assim que ele saiu novamente da sala, olhou para os papéis surpreso, passando as folhas e depois olhou para mim, arqueando a sobrancelha, sorri orgulhosa do meu trabalho, mas ele não disse uma única palavra, apenas assentiu e deixou a sala.

Olhei para o relógio e percebi que era o horário do almoço. Jessy me esperava para almoçar, fomos até um restaurante perto do prédio, no caminho ela não parava de falar, foi até difícil acompanhar. Só ao chegar me lembrei que estava sem dinheiro.

— Desculpa Jessy, vou almoçar em casa, estou sem dinheiro. — comentei olhando dentro da bolsa para dar veracidade a cena.

— O que há de errado com você, garota? — ela me puxou, fazendo com que a encarasse e em segundos abriu a boca num "o". — Você não é a Alison! — ela quase gritou ao constatar e eu gelei.

— O quê? Claro que sou a Alison! — não convenceria ninguém.

— A Alison nunca tem dinheiro pro almoço, mas ela nunca disse que iria almoçar em casa e muitos menos pediu desculpas por isso. — ela cruzou os braços. — Além disso a Alison jamais se vestiria assim. Me fala, quem é você?

— Eu sou a Alyssa, irmã gêmea da Alison. Eu estou desempregada e ela pediu que eu ficasse no lugar dela enquanto ela viaja para o Caribe com um homem rico, em troca eu poderia ficar com o salário dela.

— Nossa, ou você é maluca ou precisava mesmo do dinheiro.

— Eu realmente preciso do dinheiro. — falei sorrindo. Um garçom se aproximou para anotar os pedidos.

— Pede o que quiser, eu pago, considere uma cortesia. — ela sorriu ajeitando os óculos. — Sabe, no seu lugar eu faria o mesmo, apesar que eu não tenho uma irmã gêmea. Você e ela se dão bem? Quero dizer, somos amigas há um bom tempo e ela nunca me falou sobre você. — perguntou após o garçom sair.

— Um pouco na verdade. Quando éramos crianças, éramos muito próximas, mas aconteceram algumas coisas que nos afastaram e desde então nossa relação não é mais a mesma.

— Deve ter sido bem grave, para ela nunca ter te mencionado para mim. Posso perceber que são bem diferentes, você é mais séria e menos... Espontânea, tem certeza que isso vai funcionar? — concordei com a cabeça, mesmo incerta. — Bem, pode contar comigo quando precisar, se sou a melhor amiga da Alison, também posso ser da Alyssa.

Sorri, aliviada por ela não desejar contar a verdade e ter alguém com quem contar e ajudar na mentira.

— Obrigada Jessy.

Quando voltei do almoço, Bresson havia deixado mais uma pilha de papéis para revisão e relatório. Passei a tarde toda entretida com os papéis, atendendo telefone e organizando a agenda com os compromissos dele. Alison havia deixado uma bagunça enorme, relatórios atrasados, falhas nas planilhas e muitas outras coisas. Fiquei até mais tarde organizando tudo. Nunca pensei que fosse agradecer pelo meu supervisor do estágio ter me ensinado tudo isso, na época eu achava perda de tempo.

— Ainda está aqui? — sr. Bresson apareceu de repente e me assustou.

— Ahn sim, eu estava entretida arrumando toda a bagunça que a A... que eu deixei ontem. — sorri nervosamente tentando corrigir meu erro. — Estava precisando.

— Você está bem srta. Keen? Está agindo de forma estranha hoje, preencheu os relatórios e formulários tão rápido que me surpreendeu estarem bons, está usando roupas... Diferentes, me desejou um bom dia "normal" e me trouxe café sem eu precisar pedir. Até sua voz está diferente.

Engoli em seco, minhas mãos começaram a suar e tremer e não podia pensar demais numa resposta. Abaixei os olhos e comecei a arrumar os objetos na mesa, canetas, grampeador, folhas de papel, qualquer coisa que tirasse o foco de mim.

— Eeh, bem, é que estou tão feliz trabalhando aqui que decidi me dedicar mais para não perder a vaga, o senhor mesmo me alertou. — sorri tentando esconder o nervosismo. — E estou um pouco gripada, sabe como é, esse clima de Nova Iorque... — pigarreei para parecer mais real, mas ele não pareceu muito convencido. Senti meu rosto todo esquentar com a vergonha.

—... Certo. Então... Termine isso amanhã, está tarde. — Ele relaxou o cenho mas manteve a expressão séria.

— Certo. — falei e sorri colocando as mãos para trás.

Que belo começo! Só cometi alguns deslizes! — pensei ironicamente enquanto arrumava minhas coisas para ir embora. Se eu durasse uma semana nessa farsa, seria muito. Claramente não nasci para ser atriz, muito menos para interpretar alguém tão intenso como a Alison.

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