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last update Fecha de publicación: 2023-03-13 02:55:31

As pessoas riam e conversavam despreocupadamente enquanto eu encarava o celular, sem que percebessem minha crescente apreensão. Olhava fixamente para a foto da pegada, e a imagem do imponente lobo marrom ecoava em minha mente. Contudo, mesmo considerando o tamanho desse lobo, suspeitava que a pata em questão não lhe pertencia. Parecia ser de um animal ainda maior.

Caramba, será possível que exista um lobo ainda maior nesta floresta?

Logo, as lendas sobre homens que se transformavam em feras e eram exilados para a floresta me ocorreram. Se essas lendas fossem verídicas, então as histórias sobre criaturas demoníacas que se alimentavam de sangue humano também poderiam ser reais.

Rio sozinha, achando graça da minha própria imaginação. Isso não pode ser real. Deve haver uma explicação lógica para tudo isso.

Decido procurar na internet por informações sobre "lobos gigantes na floresta de Vila Legal".

Para minha surpresa, os únicos resultados que encontro são relatos de moradores sobre encontros com criaturas gigantes, lendas e histórias intrigantes. Deparo-me com uma foto embaçada de um imponente lobo preto e um calafrio percorre meu corpo, pois esse lobo é pelo menos duas vezes maior que o lobo marrom. Além disso, encontro fotos de pegadas idênticas às que capturei e vídeos de lobos correndo atrás de algo entre as árvores, algo similar ao que me seguiu hoje.

Essas coincidências todas são difíceis de ignorar. Seria possível que tudo isso fosse apenas uma brincadeira de mau gosto perpetrada por algum entediado? Sinceramente, só pode ser. A sensação de desamparo começava a se instalar, enquanto a realidade perturbadora se impunha diante de mim.

Algo dentro de mim diz que tudo isso é verdade e que cometi o pior erro da minha vida ao entrar naquela floresta.

Minha cabeça começa a doer, e sinto tudo girar. "Por favor, agora não!", penso inutilmente.

Sempre tenho fortes dores de cabeça e tontura. Geralmente, elas vêm acompanhadas de uma visão estranha que me causa pesadelos por semanas. Sinto o ar faltar nos meus pulmões e meu coração acelerar. É como se estivesse prestes a entrar em pânico.

Olho para a porta da casa e vejo uma poça de sangue. "Agora não, por favor", peço mentalmente para que as visões desapareçam. Seguro o pingente do meu colar, e ele queima meus dedos, fazendo-me soltá-lo rapidamente. Geralmente, meu pingente esquenta durante essas visões e ataques, mas nunca dessa maneira.

Vejo pegadas de sangue indo em direção ao muro que vai em direção à floresta. Começo a sentir o cheiro forte de sangue e a ouvir os gritos de pavor do papai. Cubro meus ouvidos com as mãos e começo a recitar o cântico antigo que minha mãe me ensinou quando eu era criança. Ele sempre faz essas imagens irem embora. Fecho os olhos e canto com mais convicção, mas sinto como se meu corpo estivesse flutuando. Abro os olhos e percebo que estou na sala de estar. Vejo minha mãe caída sem vida no chão, com a garganta cortada e os olhos abertos e cinzentos, sem vida.

— Não, não! – Afasto-me e sinto minhas costas baterem na parede. – Não pode ser!

Um som alto vem do topo da escada, e consigo ouvir os gritos de Sarah. Seguro meu colar com força e começo a oração que a vovó havia nos ensinado quando éramos crianças. Sinto meus olhos arderem, e a pedra em meu colar esquenta, queimando minha mão. O cheiro de pele queimada me dá náuseas, mas isso só me faz segurar o colar com mais força. Fecho os olhos e sussurro os versos finais da oração.

— Você está bem, querida? – Escuto a voz doce de mamãe. Abro os olhos e a vejo me olhar assustada. Sua mão toca meu rosto. – Nossa, você está quente e suando frio. Seus olhos estão vermelhos, e você está pálida.

Solto meu colar e suspiro aliviada. Os olhos de mamãe tremem, seu olhar está focado na minha pedra. Percebo que ela mudou de cor, está rosa escuro e brilhante. Aos poucos, ela volta à sua tonalidade preta normal.

Às vezes, durante as minhas visões ou ataques, ela muda de cor, mas nunca havia ficado rosa escuro. Por algum motivo, sinto que algo vai acontecer.

— Você teve outra visão? – Seus olhos se arregalam ao ver minha mão queimada. – Vamos, vou cuidar disso.

Ando até a sala de estar e me sento na poltrona. Depois de alguns minutos, minha mãe surge na sala com uma caixa de primeiros socorros. Estendo minha mão e divago em meus pensamentos enquanto meu ferimento é limpo.

— Prontinho, terminamos. - mamãe fala, enfaixando minha mão. Ela ri da minha expressão confusa. - Você sempre teve uma grande tolerância à dor, nem mesmo sente quando faço curativos.

Sorrio timidamente. Entre todos da minha família, sempre fui a mais sortuda em relação à saúde. Nunca fiquei doente, nem mesmo com um resfriado. Nunca quebrei um osso, e meus ferimentos cicatrizavam rapidamente. Sarah costumava dizer que eu era uma mutante, pois até minha tolerância à dor era grande.

— Então, minha filha. - mamãe solta um longo suspiro. - Sua pedra brilhou de uma forma diferente hoje. Aconteceu alguma coisa?

Fico boquiaberta. Minha mãe sempre negou que os brilhos da pedra tivessem relação com minhas visões, e até mesmo dizia que isso era algo comum, que não passava de minha ansiedade.

— Dessa vez foi diferente. Eu... Bem, não sei explicar. - minha voz sai esganiçada, e fecho os olhos, tentando me concentrar para evitar gaguejar novamente. - Não era uma simples visão, era como se eu estivesse lá, como se fosse uma versão do futuro. Não sei explicar com exatidão, mas não era como das outras vezes, em que me sinto em um sonho. Eu senti como se fosse real, mas de alguma forma senti como se aquilo fosse uma versão do futuro. Entende?

Para minha completa surpresa, ela não questionou nem fez qualquer comentário como das outras vezes. Mamãe suspirou, passou a mão em sua nuca e, por fim, olhou nos meus olhos.

— E o que você viu?

Fico alguns segundos em silêncio, reunindo coragem para contar sobre esse pensamento horrível. Antes que pudesse dizer alguma coisa, o grito de Anna ecoa pela sala, e a pequena entra aos prantos, esticando seus pequenos braços na minha direção. A pego no colo, e ela esconde a cabeça em meu ombro. Papai entra no cômodo ofegante, seu cabelo está bagunçado e suas roupas estão sujas de tinta.

— George! - minha mãe fala, entre risadas. - Parece que o carro de um palhaço te atropelou!

— A bomba do pula-pula estava com alguns problemas e, quando fui consertar... Bem... - ele aponta para o próprio corpo. - Ela explodiu, e eu caí em cima da mesa onde estavam as tintas que as crianças estão usando em suas pinturas.

Não contenho a risada e recebo um olhar duro do papai, que acaba rindo ao ouvir o som bizarro da minha risada.

— Anna estava perto e ficou assustada. - Ele fala envergonhado. - Desculpa, minha fil

ha. O papai está bem.

Anna olha para ele, seus pequenos olhos brilhando devido às lágrimas. Papai olha em direção à minha mão e eleva uma sobrancelha.

— Você pode explicar o motivo desse curativo gigantesco?

Seu tom de voz duro me deixa sem ação. Papai sempre foi um homem calmo e brincalhão, mas ele odiava me ver machucada, especialmente porque eu não tinha tanto cuidado como as outras pessoas, devido a essa minha falta de dor.

Mamãe pega Anna no colo e sorri para mim. Sinto meu corpo aliviar ao ver que ela tomou a frente da situação.

— Dessa vez, a culpa foi minha. - ela fala com uma voz envergonhada. - Sarah estava com as crianças, então resolvi pedir para que a Violet cuidasse de algumas coisas na cozinha. Só esqueci de avisar que a travessa estava quente, e a coitadinha acabou queimando sua mão.

A expressão de papai suaviza, e ele suspira. Eu até conseguia entender esse seu lado rabugento. Eu nunca tomava cuidado e acabava me metendo em situações bem complicadas, às vezes com riscos reais de morte. Mas depois que o Simon se foi... Bem, acho que passei a ter mais cuidado.

— Você deveria descansar. - ele fala, olhando para mim de forma estranha. - Você não me parece bem.

Sorrio de lado. Bem que eu estava precisando me deitar mesmo.

Agradeço por sua preocupação e subo até meu quarto.

(...)

Deitada em minha cama, sinto minha cabeça girar com tantas informações e teorias. Não aguentava mais ficar deitada, precisava fazer alguma coisa.

Reunindo coragem, decidi que era hora de ir até a floresta e investigar o que estava acontecendo. Olho para a lua cheia, e meu corpo se arrepia. Meu pai iria reprovar essa ideia, por isso pretendia fazer isso escondida, aproveitar a movimentação da festa para passar despercebida.

Saio de casa e, sem grandes dificuldades, consigo pular o muro. Minha atenção é fisgada por algo que não havia notado antes: algumas pedras verdes estão encostadas em nosso muro, intercalando entre uma pedra verde, uma vermelha e uma muito semelhante ao pingente do meu colar. Pego a pedra semelhante à do meu colar e, com a luz da lanterna, consigo notar várias diferenças em relação ao meu pingente. Era como se essa pedra fosse mais escura, velha e bruta.

Um som de uivo faz meu coração acelerar, e sem pensar duas vezes, pulo novamente o muro. Talvez devesse voltar amanhã.

Me aproximo de uma mesa e me sento, tiro a pedra do meu bolso e a observo, tentando entender o motivo de ela estar ali.

Sinto novamente aquela velha sensação de estar sendo observada. Olho em direção à cerca e me assusto ao ver um homem alto me encarando. Seus olhos são vermelhos, sua pele pálida, seu cabelo ruivo e suas roupas são pretas. Ele me observa como um animal prestes a atacar sua presa. Seu sorriso, por algum motivo, me incomoda profundamente, é como ver um monstro sorrir.

Crianças correm, tampando meu campo de visão da cerca. Quando olho novamente para o local, ele não está mais lá. Uma sensação de desespero invade meu corpo, deixando-me em estado de alerta, como se algo muito ruim estivesse prestes a acontecer.

Meus pensamentos se aceleram, e a sensação de desespero aumenta a cada instante, como se eu sentisse o perigo se aproximar, o mal ficar à espreita.

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