LOGINPOV: Ghost
Silas Rocha entrou na capela sem colete, acompanhado por apenas um homem. Era uma concessão calculada. Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos raspados e uma queimadura que subia pelo pescoço. Augusto Ferraz vinha atrás, magro, envelhecido e com as mãos presas.
— Seus homens usaram nossos coletes na emboscada — disse Ghost. — Dê-me uma razão para não considerar isso uma declaração de guerra.
Silas sentou-se sem convite.
— Porque três dos meus também foram mortos por homens usando o seu crânio. Alguém quer dois clubes ocupados demais para olhar a terceira mão. Encontrei o médico tentando fugir por uma rota controlada pelos Abutres.
Augusto ergueu os olhos para Aurora.
— Você se parece com Helena.
Aurora permaneceu junto de Isadora e Sofia.
— Diga como ela morreu.
O médico engoliu em seco.
— Sua mãe tinha câncer avançado, mas respondia ao tratamento. Descobriu que Rafael financiava os sobreviventes dos Corvos e ameaçou denunciá-lo. Ele pediu que eu aumentasse a dose de morfina. Eu recusei. Na noite da morte, encontrei o acesso venoso alterado e Rafael ao lado da cama.
— Então foi ele — disse Aurora.
— Eu não vi a aplicação. Quando confrontei Rafael, ele ameaçou minha família e me obrigou a falsificar o laudo. Depois, Antonio Moretti descobriu o financiamento e tentou extorqui-lo. Os Corvos atacaram a sede dos Renegados; Antonio morreu, e eu fugi com Risco.
Ghost sentiu o passado se rearranjar de forma repulsiva.
— Meu pai sabia que Rafael sustentava os Corvos e decidiu lucrar com o segredo.
Augusto assentiu.
— Antonio planejava vender os nomes dos sobreviventes. Rafael soube e mandou matá-lo durante o ataque.
Caio avançou um passo.
— Está confessando cumplicidade em duas mortes e espera sair daqui?
— Espero que mantenham minha filha viva. Rafael a encontrou há seis meses. Obriga-me a tratar os homens do Projeto Fênix.
Silas colocou um telefone sobre a mesa. Havia uma fotografia recente da filha de Augusto presa num quarto.
— Recebi isso junto com uma proposta — explicou Silas. — Se eu matar Ghost, Rafael devolve territórios que os Corvos perderam. Recusei. Parte dos meus homens não.
A mesa decidiu uma trégua de setenta e duas horas para encontrar a refém e atacar a clínica. Aurora quis participar, mas Ghost a levou para o corredor antes que a discussão começasse.
— Você não irá — disse Ghost.
— Augusto é a única testemunha sobre minha mãe. A filha dele está ameaçada por causa do meu pai.
Ghost deixou a voz endurecer:
— Exatamente por isso você não consegue avaliar o risco sem emoção.
— E você consegue? Rafael ordenou a morte do seu pai.
Ghost aproximou-se, contendo a voz.
— Não. A diferença é que reconheço minha falta de objetividade e deixei Marco comandar a operação.
Aurora se calou. Ele esperava nova resistência, mas ela perguntou:
— O que devo fazer enquanto vocês estiverem fora?
— Ficar com Sofia, ajudar Isadora a preparar a entrega de Augusto à polícia depois que resgatarmos a filha e não sair do complexo.
Aurora manteve a voz firme:
— Você sempre transforma preocupação em ordem.
— Estou tentando melhorar lentamente para não assustar os historiadores.
Ela quase sorriu. Ghost tocou a placa de metal presa à corrente que Aurora passara a usar sob a camisa.
— Isto não significa que me pertence — advertiu Aurora.
— Eu sei.
Aurora voltou ao ponto central:
— Seu olhar não sabe.
A honestidade a respeito do desejo seria uma forma de risco, mas Ghost estava cansado de fingir indiferença.
— Desde que entrou armada naquela sala, penso em você mais do que deveria. Quando desaparece do meu campo de visão, conto portas e homens até encontrá-la. Quando discute comigo, metade de mim quer encerrar a discussão e a outra metade quer mantê-la falando apenas para descobrir até onde vai. Isso não é propriedade, Aurora. É uma obsessão que estou tentando não transformar numa jaula.
Ela respirou devagar.
Aurora ergueu o queixo e retomou a palavra:
— Não diga coisas assim antes de sair para uma operação perigosa.
— Por quê?
Aurora manteve a voz firme:
— Porque parece uma despedida e porque me faz querer pedir que fique.
Ghost apoiou a testa na dela.
— Peça.
— Não. Davi está vivo porque vocês foram buscá-lo. A filha de Augusto merece a mesma escolha.
Ele partiu uma hora depois. A clínica desativada ficava na serra, cercada por mata. Marco coordenou a entrada, Caio desarmou dois guardas e os Abutres cobriram a estrada. Encontraram a refém viva, mas também encontraram vinte coletes dos Renegados falsificados e caixas de munição com números de lote retirados do arsenal do clube.
Na volta, Ghost ligou para Sofia. Aurora atendeu.
— Estamos bem — disse Ghost. — A moça está viva.
O silêncio do outro lado durou um segundo.
— Eu sabia que conseguiria — respondeu Aurora, com a voz carregada de alívio.
— Mentira. Você considerou dez desastres por minuto.
Aurora ergueu o queixo e retomou a palavra:
— Foram doze, mas não quero alimentar seu ego.
Ghost sorriu pela primeira vez desde que saíra. Então Marco mostrou o registro de retirada da munição. A senha utilizada pertencera a Reaper, seu vice-presidente.
POV: CaioBeatriz Leme correu como mãe.Foi isso que a tornou fácil de prever e difícil de odiar naquele momento específico.Caio a viu pela primeira vez na estrada de serviço atrás do mercado, dirigindo um carro roubado com uma imprudência que não combinava com a mulher fria da casa de vidro. Ela cortou uma curva, quase bateu em um caminhão de entrega e continuou sem reduzir. Quem olhasse de longe veria fuga. Caio via desespero.Tainá, no banco ao lado dele, também via.— Álvaro sabe que ela viria por aqui — disse.— Então onde está a armadilha?Sofia respondeu pelo rádio:— Tenho dois veículos sem placa parados perto da entrada de serviço do condomínio. E uma van da Fundação Recomeçar saindo pelos fundos.— Clara está na van — Tainá falou.Caio acelerou.— Beatriz ainda não viu.— Vai ver.Como se a estrada obedecesse à frase, o carro de Beatriz freou bruscamente ao avistar a van. Ela abriu a porta antes mesmo de estacionar direito e correu para o meio da rua.— Clara!A van não par
POV: TaináO beijo aconteceu onde não deveria.Não houve música, silêncio perfeito, chuva delicada ou tempo suspenso. Houve fumaça, vidro quebrado, gente ferida, rádio chiando e dona Lúcia gritando que alguém precisava tirar entulho da porta antes que ela mesma fizesse “com a coluna ruim e ódio suficiente”.Tainá estava no corredor lateral da sede, lavando fuligem das mãos em uma torneira externa. A água escorria preta pelos dedos. Caio apareceu com uma toalha limpa, ficou ao lado e não falou nada por quase um minuto.O silêncio dele já não parecia ausência.Parecia cuidado tentando não invadir.— Você está me olhando como se eu fosse quebrar — ela disse.— Estou te olhando como se você tivesse quase explodido.— Tecnicamente, foi o muro.— Não ajuda.Tainá pegou a toalha. Os dedos deles se tocaram. Um toque pequeno, comum, ridículo para tudo que já tinham enfrentado. Ainda assim, a pele dela pareceu lembrar antes da cabeça.Caio percebeu e retirou a mão devagar.Ela não deixou.Segur
POV: CaioCaio ouviu a explosão pelo rádio antes de ver a fumaça.O som atravessou o canal e rasgou tudo que ele tinha acabado de conseguir segurar. Núcleo São Pedro estava salvo. As crianças respiravam no banco de trás da van de Lobo. As mulheres choravam, vivas, sendo encaminhadas para a rota de Marisa. Por dois minutos, ele achou que o pior tinha passado.Então a sede da Rede Helena explodiu na tela de Sofia.E Tainá estava lá.O velho Caio assumiu o volante dentro dele.Gritou para correr, derrubar porta, arrancar Tainá do lugar, colocá-la em qualquer quarto trancado e matar o mundo do lado de fora. O velho Caio tinha respostas rápidas, brutais, confortáveis. Quase sempre erradas.Ele apertou o rádio.— Tainá, relatório.A voz dela veio com estática, tosse e firmeza.— Explosão externa. Provável carro-bomba pequeno ou cilindro no muro. Sem queda estrutural. Aurora comigo. Sofia ferida leve no braço. Marisa bem. Dona Lúcia xingando, então viva.O ar voltou, mas não inteiro.— Onde
POV: TaináA Rede Helena não queimou de uma vez.Queimou em pontos.Uma denúncia falsa no abrigo antigo. Um princípio de incêndio na Casa Três. Um carro suspeito parado perto da escola de uma criança protegida. Uma viatura que não devia saber endereço nenhum. Mensagens anônimas chegando a mulheres que haviam trocado de nome. O Argos não atacava como gangue. Atacava como doença espalhada pelo sangue.Tainá ficou na central da sede com três telefones, dois mapas e a sensação de que cada segundo perdido podia custar uma vida.Aurora estava ao lado dela, comandando com uma calma que parecia impossível. Sofia rastreava acessos. Marisa ligava para padarias, vizinhas, entregadores e mulheres que sabiam mais da rua do que qualquer câmera. Isadora gritava com autoridades no viva-voz. Ghost distribuía Renegados. Caio estava na rua, seguindo o plano dela.Aquilo ainda parecia errado e certo ao mesmo tempo.Ele seguir.Ela comandar.— Casa Três evacuada — Sofia informou. — Incêndio controlado. Se
POV: CaioCaio queria quebrar o pen drive.Queria esmagar o pequeno objeto preto sob a bota, reduzir plástico e metal a pó, jogar tudo no lixo e fingir que Álvaro Nassar não tinha passado tempo suficiente estudando sua cabeça para nomear um arquivo de Projeto Sargento.Não quebrou.Entregou a Isadora.Depois entregou a Tainá a escolha que realmente importava.— Você não precisa ler isso comigo.Estavam na sala de análise da sede, horas depois da operação no Cemitério São Dimas. Otávio fora levado sob custódia. As vítimas resgatadas recebiam atendimento. Clara estava em local protegido, sem saber ainda que a guerra mudara de forma ao redor dela. Beatriz exigira notícias e não recebera detalhes. Álvaro permanecia invisível, como todo homem poderoso que mandava outros sangrarem antes dele.Tainá ficou diante da mesa onde Sofia preparava o arquivo em um notebook isolado.— Você também não precisa ler sozinho.— Pode ter fotos suas.— Eu sei.— Pode ter coisa feita para te machucar.— Eu s
POV: TaináO Cemitério São Dimas não parecia assustador de fora.Tinha muros altos, árvores antigas e uma capela pequena perto da entrada principal. As lápides brancas se alinhavam em silêncio respeitável, como se ali repousassem apenas histórias encerradas. Tainá sabia melhor. Lugares de morte também podiam esconder gente viva.A noite estava úmida. A terra cheirava a chuva antiga. Os Renegados se posicionaram antes do primeiro carro funerário chegar. Ghost e Marco cobriam a entrada de serviço. Silas e dois Abutres vigiavam a passagem lateral. Sofia coordenava câmeras de uma van sem identificação. Isadora estava a três quadras, com policiais de confiança e um mandado que ainda dependia de flagrante para não desmoronar diante de algum juiz comprado.Caio ficou com Tainá no muro norte.Não porque ela precisasse dele como sombra. Porque aquele era o melhor ponto para reconhecer o padrão que Beatriz descrevera.— Portão lateral abre primeiro — Tainá sussurrou. — Se for igual à Santa Mart







