INICIAR SESIÓNPOV: Aurora
Davi voltou ao clube quatro dias depois, pálido e orgulhoso da tipoia. A recepção organizada por Nina e Sofia transformou o salão numa mistura de festa familiar e reunião de segurança. Crianças corriam entre mesas, homens armados verificavam as janelas e dona Lúcia servia macarronada como se alimentar cinquenta pessoas fosse uma forma legítima de comando.
Aurora começou a entender por que os Renegados chamavam o clube de família. Não era uma metáfora delicada. Era um sistema de obrigações. Quando um membro era preso, alguém pagava advogado. Quando adoecia, a lista de turnos surgia antes do diagnóstico. Quando falhava, respondia perante a mesa. A lealdade oferecia abrigo, mas cobrava presença.
Davi pediu que Aurora se sentasse ao lado dele.
— Caio disse que eu agi como um idiota na estrada — contou o rapaz. — Também disse que sobreviver não apaga o erro.
— Caio possui o talento de transformar gratidão em reprimenda.
Davi retomou a palavra:
— Ele perdeu um irmão quando era prospect. Acho que vê o homem toda vez que um de nós faz alguma coisa estúpida.
Aurora olhou para o sargento de armas, que vigiava a porta enquanto fingia não ouvir.
— Então talvez a raiva dele seja uma forma pouco elegante de esperança.
Caio virou o rosto, mas ela percebeu que a frase o alcançara.
Sofia chamou Aurora ao escritório. As transferências marcadas pelos centavos formavam uma espiral de vinte e uma empresas e terminavam numa conta ligada a uma clínica desativada. Isadora conseguira o prontuário de Helena por ordem judicial. O médico responsável, Augusto Ferraz, constava como morto havia quinze anos, embora nenhum corpo tivesse sido identificado.
— O mesmo padrão de Risco — disse Aurora. — Homens declarados mortos no incêndio dos Corvos.
— Meu irmão vai odiar isto — respondeu Sofia. — Augusto era amigo do nosso pai. Tratava os membros sem fazer perguntas.
— Por que Rafael teria um laudo que aponta para ele?
Sofia acrescentou seu ponto:
— Talvez Helena tenha descoberto algo. Você se lembra dos últimos meses dela?
Aurora fechou os olhos. Lembrou-se da mãe falando ao telefone em voz baixa, de uma visita de um homem com pasta médica e de uma discussão em que Rafael quebrara um copo.
— Ela queria me mandar para estudar fora. Dizia que Santa Augusta estava ficando pequena demais. Na época, pensei que falava da doença.
No salão, Lobo e dois membros antigos questionavam a presença de Aurora. Ela ouviu quando um deles a chamou de “dívida de cabelo bonito”. Antes que Sofia interviesse, Aurora entrou na roda.
— Se querem discutir minha utilidade, façam isso olhando para mim — disse Aurora. — Encontrei a trilha das transferências, salvei os arquivos e impedi que a polícia levasse quatro de vocês. Não desejo usar o colete nem ocupar a mesa. Contudo, enquanto meu nome estiver nos documentos e minha vida na lista de execução, participarei da investigação.
Lobo apertou a mandíbula.
— Respeito não se exige aqui.
— Concordo. Por isso apresentei fatos, não uma exigência.
Torque soltou uma gargalhada.
— Ela acabou com você sem levantar a voz, Lobo. Aceite antes que fique mais caro.
O constrangimento se desfez. Lobo estendeu a mão.
— Aurora Valente, você tem minha palavra de que a casa vai protegê-la enquanto lutar ao lado dela.
Ela apertou a mão dele.
A resposta de Aurora veio firme:
— E você tem a minha de que não vou usar a proteção para evitar perguntas difíceis.
Naquela noite, Ghost levou Aurora ao telhado do galpão principal. Dali, as luzes da cidade pareciam distantes, e o ronco das oficinas se tornava quase tranquilo.
— Lobo não oferece a palavra com facilidade — disse Ghost.
— Descobri que homens de colete apreciam cerimônias, embora finjam ser alérgicos a sentimentos.
Ghost manteve a voz baixa e controlada:
— Cerimônias lembram que uma escolha tem testemunhas.
Ghost entregou-lhe uma pequena placa de metal com o crânio coroado, sem as faixas do clube.
— Não é um remendo nem uma declaração de posse. É um sinal para qualquer Renegado de que você tem passagem e proteção.
Aurora passou o polegar pelo desenho.
— Caio chamou isto de marca dos Renegados.
— Caio dramatiza quando está emocionado.
Aurora escolheu as palavras antes de continuar:
— Ele ficaria ofendido com essa acusação.
Ghost se aproximou. A cidade desapareceu da atenção dela.
— Eu também preciso lhe contar sobre Augusto Ferraz — disse Ghost. — Foi amigo do meu pai e médico do clube. Na noite do incêndio, desapareceu com registros que poderiam explicar quem atirou em Antonio Moretti.
— Você acha que ele matou minha mãe?
Ghost retomou o ponto com objetividade:
— Acho que Rafael queria que acreditássemos nisso. A diferença importa.
Aurora segurou a placa com força.
— Se meu pai usou a morte dela para construir esta guerra, eu mesma o entregarei.
— E se ele disser que fez tudo para protegê-la?
Aurora respirou fundo antes de se manifestar:
— Proteção sem escolha é apenas uma prisão com uma justificativa bonita.
Ghost tocou o rosto dela, devagar o bastante para que pudesse recuar. Aurora não recuou. O polegar dele passou junto ao seu lábio, e a respiração de ambos mudou.
O rádio de Ghost interrompeu o momento.
Marco informou que Silas Rocha, presidente dos Abutres, estava no portão e exigia uma conversa. Ele trazia um presente: Augusto Ferraz, vivo e algemado.
POV: CaioBeatriz Leme correu como mãe.Foi isso que a tornou fácil de prever e difícil de odiar naquele momento específico.Caio a viu pela primeira vez na estrada de serviço atrás do mercado, dirigindo um carro roubado com uma imprudência que não combinava com a mulher fria da casa de vidro. Ela cortou uma curva, quase bateu em um caminhão de entrega e continuou sem reduzir. Quem olhasse de longe veria fuga. Caio via desespero.Tainá, no banco ao lado dele, também via.— Álvaro sabe que ela viria por aqui — disse.— Então onde está a armadilha?Sofia respondeu pelo rádio:— Tenho dois veículos sem placa parados perto da entrada de serviço do condomínio. E uma van da Fundação Recomeçar saindo pelos fundos.— Clara está na van — Tainá falou.Caio acelerou.— Beatriz ainda não viu.— Vai ver.Como se a estrada obedecesse à frase, o carro de Beatriz freou bruscamente ao avistar a van. Ela abriu a porta antes mesmo de estacionar direito e correu para o meio da rua.— Clara!A van não par
POV: TaináO beijo aconteceu onde não deveria.Não houve música, silêncio perfeito, chuva delicada ou tempo suspenso. Houve fumaça, vidro quebrado, gente ferida, rádio chiando e dona Lúcia gritando que alguém precisava tirar entulho da porta antes que ela mesma fizesse “com a coluna ruim e ódio suficiente”.Tainá estava no corredor lateral da sede, lavando fuligem das mãos em uma torneira externa. A água escorria preta pelos dedos. Caio apareceu com uma toalha limpa, ficou ao lado e não falou nada por quase um minuto.O silêncio dele já não parecia ausência.Parecia cuidado tentando não invadir.— Você está me olhando como se eu fosse quebrar — ela disse.— Estou te olhando como se você tivesse quase explodido.— Tecnicamente, foi o muro.— Não ajuda.Tainá pegou a toalha. Os dedos deles se tocaram. Um toque pequeno, comum, ridículo para tudo que já tinham enfrentado. Ainda assim, a pele dela pareceu lembrar antes da cabeça.Caio percebeu e retirou a mão devagar.Ela não deixou.Segur
POV: CaioCaio ouviu a explosão pelo rádio antes de ver a fumaça.O som atravessou o canal e rasgou tudo que ele tinha acabado de conseguir segurar. Núcleo São Pedro estava salvo. As crianças respiravam no banco de trás da van de Lobo. As mulheres choravam, vivas, sendo encaminhadas para a rota de Marisa. Por dois minutos, ele achou que o pior tinha passado.Então a sede da Rede Helena explodiu na tela de Sofia.E Tainá estava lá.O velho Caio assumiu o volante dentro dele.Gritou para correr, derrubar porta, arrancar Tainá do lugar, colocá-la em qualquer quarto trancado e matar o mundo do lado de fora. O velho Caio tinha respostas rápidas, brutais, confortáveis. Quase sempre erradas.Ele apertou o rádio.— Tainá, relatório.A voz dela veio com estática, tosse e firmeza.— Explosão externa. Provável carro-bomba pequeno ou cilindro no muro. Sem queda estrutural. Aurora comigo. Sofia ferida leve no braço. Marisa bem. Dona Lúcia xingando, então viva.O ar voltou, mas não inteiro.— Onde
POV: TaináA Rede Helena não queimou de uma vez.Queimou em pontos.Uma denúncia falsa no abrigo antigo. Um princípio de incêndio na Casa Três. Um carro suspeito parado perto da escola de uma criança protegida. Uma viatura que não devia saber endereço nenhum. Mensagens anônimas chegando a mulheres que haviam trocado de nome. O Argos não atacava como gangue. Atacava como doença espalhada pelo sangue.Tainá ficou na central da sede com três telefones, dois mapas e a sensação de que cada segundo perdido podia custar uma vida.Aurora estava ao lado dela, comandando com uma calma que parecia impossível. Sofia rastreava acessos. Marisa ligava para padarias, vizinhas, entregadores e mulheres que sabiam mais da rua do que qualquer câmera. Isadora gritava com autoridades no viva-voz. Ghost distribuía Renegados. Caio estava na rua, seguindo o plano dela.Aquilo ainda parecia errado e certo ao mesmo tempo.Ele seguir.Ela comandar.— Casa Três evacuada — Sofia informou. — Incêndio controlado. Se
POV: CaioCaio queria quebrar o pen drive.Queria esmagar o pequeno objeto preto sob a bota, reduzir plástico e metal a pó, jogar tudo no lixo e fingir que Álvaro Nassar não tinha passado tempo suficiente estudando sua cabeça para nomear um arquivo de Projeto Sargento.Não quebrou.Entregou a Isadora.Depois entregou a Tainá a escolha que realmente importava.— Você não precisa ler isso comigo.Estavam na sala de análise da sede, horas depois da operação no Cemitério São Dimas. Otávio fora levado sob custódia. As vítimas resgatadas recebiam atendimento. Clara estava em local protegido, sem saber ainda que a guerra mudara de forma ao redor dela. Beatriz exigira notícias e não recebera detalhes. Álvaro permanecia invisível, como todo homem poderoso que mandava outros sangrarem antes dele.Tainá ficou diante da mesa onde Sofia preparava o arquivo em um notebook isolado.— Você também não precisa ler sozinho.— Pode ter fotos suas.— Eu sei.— Pode ter coisa feita para te machucar.— Eu s
POV: TaináO Cemitério São Dimas não parecia assustador de fora.Tinha muros altos, árvores antigas e uma capela pequena perto da entrada principal. As lápides brancas se alinhavam em silêncio respeitável, como se ali repousassem apenas histórias encerradas. Tainá sabia melhor. Lugares de morte também podiam esconder gente viva.A noite estava úmida. A terra cheirava a chuva antiga. Os Renegados se posicionaram antes do primeiro carro funerário chegar. Ghost e Marco cobriam a entrada de serviço. Silas e dois Abutres vigiavam a passagem lateral. Sofia coordenava câmeras de uma van sem identificação. Isadora estava a três quadras, com policiais de confiança e um mandado que ainda dependia de flagrante para não desmoronar diante de algum juiz comprado.Caio ficou com Tainá no muro norte.Não porque ela precisasse dele como sombra. Porque aquele era o melhor ponto para reconhecer o padrão que Beatriz descrevera.— Portão lateral abre primeiro — Tainá sussurrou. — Se for igual à Santa Mart







