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NÓS ÉRAMOS TRÊS 2

last update publish date: 2026-09-03 06:09:12

NÓS ÉRAMOS TRÊS

Parte 2

A noite se instalou lentamente sobre Águas Profundas, cobrindo os campos com uma escuridão azulada enquanto as luzes da casa principal se acendiam uma após outra.

O vento perdera a força, deixando apenas o farfalhar suave das árvores próximas ao lago e o som distante dos animais sendo recolhidos pelos últimos trabalhadores.

Dentro da mansão, porém, ninguém conseguia retomar a rotina.

Bianca havia preparado o jantar, mas a comida permanecia praticamente intocada
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  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    O TESOURO SOB A FIGUEIRA 2

    Durante alguns segundos, Dante não ouviu o vento atravessando a copa da figueira, o ruído distante dos homens de Salvatore verificando o perímetro ou a voz de Valentina solicitando que ninguém tocasse nos documentos antes que fossem fotografados. Seu olhar permanecia preso ao nome escrito pela mão de Mirela, como se as letras pudessem mudar caso esperasse tempo suficiente. Não mudaram. O nome continuava ali, abaixo da anotação sobre uma morte forjada, e aquilo atingiu uma parte dele que julgava enterrada havia anos. Elena permaneceu ao seu lado sem tocá-lo. Conhecia suficientemente Dante para perceber que o homem diante dela não precisava ser amparado antes de compreender o que estava acontecendo. A respiração dele tornara-se lenta demais, controlada de maneira quase artificial, enquanto o maxilar permanecia rígido e a mão direita se fechava até as articulações perderem a cor. Pela primeira vez desde que Elena o conhecera, Dante parecia não ter uma resposta, um plano ou

  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    O TESOURO SOB A FIGUEIRA

    O amanhecer encontrou Elena desperta antes mesmo que a primeira faixa de claridade atravessasse completamente as cortinas do quarto. Durante alguns minutos, permaneceu imóvel, com a cabeça apoiada sobre o peito de Dante, ouvindo a respiração profunda dele e os primeiros sons da Fazenda Águas Profundas despertando além das paredes. Ao longe, um galo cantou entre os galpões, algum trabalhador abriu uma porteira e o rangido metálico chegou abafado pela distância, seguido pelo ronco de um trator sendo ligado próximo aos campos. O quarto ainda conservava o calor da noite e o perfume dos dois misturado ao aroma discreto da madeira dos móveis, mas o que mais chamou a atenção de Elena foi a ausência de qualquer urgência dentro dela. Não procurara a porta ao abrir os olhos. Não calculara quantos passos precisaria dar até a janela. Não despertara assustada ao perceber um homem dormindo ao seu lado. Seu corpo permanecia relaxado sob o lençol, e aquela constatação trouxe uma emoção tão prof

  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    A ÚLTIMA CARTA DE MIRELA 2

    A frase escrita no rodapé teria passado despercebida se Elena não tivesse voltado à mesa para recolher as páginas. Dante já falava ao telefone com Salvatore, pedindo que ninguém se aproximasse do antigo casarão antes de uma nova avaliação do perímetro, enquanto Lorenzo tentava reconstruir mentalmente a localização exata da figueira e Isadora permanecia sentada, ainda afetada pelas palavras da mãe. Elena dobrou a primeira folha com cuidado, passou os dedos pela borda da segunda e, quando alcançou a última, percebeu uma linha quase escondida junto à margem inferior. A tinta estava mais clara, como se Mirela tivesse acrescentado aquela advertência depois de terminar a carta. Seus olhos percorreram as palavras uma vez. Depois outra. O frio que sentiu não vinha da noite que se infiltrava pelas janelas. Mirela não escrevera uma advertência genérica. Conhecia Gael suficientemente bem para saber que, quando sua estrutura começasse a ruir, alguém tentaria transformar a queda dele

  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    A ÚLTIMA CARTA DE MIRELA

    A casa mergulhara num silêncio diferente quando os três irmãos se sentaram diante das cartas de Mirela. Não era o silêncio provocado pelo medo de um ataque nem aquele vazio pesado que costumava acompanhar as notícias sobre Gael. Havia alguma coisa quase solene no ambiente, como se Águas Profundas tivesse compreendido que naquela noite precisava apenas acolher. A lareira lançava uma luz quente sobre a sala, fazendo pequenas sombras dançarem nas paredes de pedra e destacando o brilho gasto da fita que mantinha os envelopes unidos. Do lado de fora, o vento percorria os campos e tocava suavemente as vidraças, enquanto o perfume de café recém-passado ainda permanecia no ar. Bianca havia recolhido a louça do jantar e levado Matteo para o quarto depois de confirmar que ele dormia profundamente. Salvatore e Valentina haviam se retirado para permitir privacidade à família, e Dante permanecia numa poltrona distante, sem participar diretamente. Elena sabia que ele estava ali porque a pres

  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    NÓS ÉRAMOS TRÊS 2

    NÓS ÉRAMOS TRÊS Parte 2 A noite se instalou lentamente sobre Águas Profundas, cobrindo os campos com uma escuridão azulada enquanto as luzes da casa principal se acendiam uma após outra. O vento perdera a força, deixando apenas o farfalhar suave das árvores próximas ao lago e o som distante dos animais sendo recolhidos pelos últimos trabalhadores. Dentro da mansão, porém, ninguém conseguia retomar a rotina. Bianca havia preparado o jantar, mas a comida permanecia praticamente intocada sobre a mesa. Isadora estava sentada diante de Lorenzo, observando-o com uma intensidade que alternava incredulidade, raiva, saudade e uma curiosidade dolorosa. Elena permanecia ao lado da irmã, enquanto Dante ocupava uma cadeira um pouco mais distante, consciente de que aquele momento pertencia principalmente aos três irmãos. Salvatore estava próximo de Isadora, mas não a tocava. Apenas mantinha a presença silenciosa que aprendera a oferecer sempre que percebia que ela precisava saber que n

  • A SOBREVIVENTE VENDIDA PELO SANGUE, ESCOLHIDA PELO DESTINO    NÓS ÉRAMOS TRES

    A Fazenda Águas Profundas surgiu no horizonte quando o fim da tarde já derramava tons dourados e avermelhados sobre os campos, mas Elena não experimentou o alívio que costumava sentir ao reconhecer as cercas, os pastos extensos e a linha brilhante do lago entre as árvores. Durante toda a viagem de volta, a pequena caixa de Mirela permaneceu sobre suas pernas, protegida por seus braços como se carregasse algo vivo, enquanto a fotografia dos três irmãos estava guardada no bolso interno de sua jaqueta. Dante dirigia em silêncio ao seu lado, respeitando a necessidade que ela demonstrara de organizar pensamentos que pareciam grandes demais para caber dentro de si, e Lorenzo seguia no banco traseiro, igualmente calado. Algumas vezes, Elena ergueu os olhos para o retrovisor e encontrou o olhar dele. Não precisavam dizer nada. Cada vez que isso acontecia, uma nova lembrança parecia se mover dentro dela, ainda incompleta, mas mais próxima. Quando os portões da fazenda se abriram, porém, u

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