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Capítulo 2

Author: Bagel
Já era tarde quando voltei para a mansão, mas eu não tinha vontade nenhuma de dormir.

Comecei a apagar, metodicamente, qualquer vestígio de mim.

Os ternos sob medida de Santino, que eu havia desenhado com tanto cuidado, os bonecos de pelúcia que costurei à mão para as crianças, os retratos de família que pintei com minhas próprias mãos…

Joguei tudo, um por um, em sacos de lixo pretos.

Ao mesmo tempo, pedi ao mordomo que cancelasse todos os bailes beneficentes e eventos sociais do mês seguinte.

— Alessia, que diabos você está fazendo? — A voz profunda e fria de Santino veio da porta.

Me virei. Ele afrouxava a gravata com uma das mãos, enquanto as crianças vinham logo atrás.

Seus olhos escuros estavam cheios de impaciência, a testa profundamente franzida.

— Por que a mamãe está pegando as minhas coisas?! — Sofia chorou, correndo até mim.

Quando viu seu coelho de pelúcia favorito — aquele que eu havia costurado à mão — sendo enfiado em uma caixa de papelão, seu rosto ficou vermelho de raiva e ela soltou um grito agudo.

Leo também me lançou um olhar hostil e exigiu em voz alta:

— Você precisa desafiar o papai com esse teatrinho ridículo?

O olhar afiado e frio de Santino caiu sobre mim, como se estivesse olhando para uma mulher histérica fazendo cena.

— Como Donna da família Genovese, você realmente vai fazer birra por algo tão trivial e nos transformar em motivo de piada?

— Não estou fazendo birra — respondi, encarando-o, com a voz sem emoção.

— Você está mentindo! — Sofia apontou para mim. — Você só está com ciúmes porque a tia Jessy recebe todo o carinho do papai! É por isso que você está pegando nossas coisas, só para fazer a gente olhar para você! Você é muito má!

— Quando eu crescer um pouco mais, vou me mudar para o apartamento da tia Jessy — disse Leo, segurando firme a mão da irmã e gritando comigo. — E nunca mais vou voltar para te ver!

Santino não fez nada para impedir aquelas palavras cruéis, apenas me observou com uma expressão fria.

— Chega. — Ele falou calmamente, com seus longos dedos girando distraidamente o anel de sinete manchado de sangue em sua mão.

— Tenho disputas de território para resolver. Jogue fora o que quiser. Só não faça escândalo. Aja com a dignidade que uma Donna deve ter.

No momento em que a porta se fechou, minhas lágrimas finalmente caíram no carpete.

Meu coração parecia esmagado, e cada respiração era uma pontada de dor.

Como eles podiam não saber da dedicação que eu coloquei naqueles presentes?

Furei meus dedos incontáveis vezes fazendo aquele coelho e passei três noites sem dormir aperfeiçoando cada detalhe daquelas roupas e pinturas.

Enxuguei as lágrimas de qualquer jeito e olhei para o caos ao meu redor.

De repente, uma risada vazia escapou dos meus lábios.

Não se preocupe, eu nunca mais manteria aquela dignidade ridícula.

Não nesta vida.

Desde que Santino assinou os papéis do divórcio, eu havia parado de administrar a casa.

Não acordava mais antes do amanhecer para passar as camisas dele, nem passava horas na cozinha preparando seu expresso matinal.

Não desperdiçava mais minha energia preparando os almoços orgânicos das crianças, nem me preocupava com as dietas complexas de Sofia ou a agenda de atividades de Leo.

Todos aqueles deveres de uma esposa e mãe dedicada, que antes eram minha única missão, agora estavam abandonados.

No início, ninguém na mansão sequer percebeu que algo estava errado.

Afinal, eu era dispensável na maioria das situações.

Só quando a rotina de Santino entrou em desordem — suas camisas sob medida aparecendo todas amassadas, suas refeições completamente fora do seu gosto.

Só quando Leo fez uma birra porque seu projeto escolar havia sido deixado de lado.

Só quando Sofia não conseguiu encontrar suas fitas de cabelo combinando para a festa de aniversário de uma colega.

Os funcionários corriam de um lado para o outro, como baratas tontas, completamente incapazes de reproduzir o cuidado meticuloso que a Donna sempre ofereceu com naturalidade.

A mansão estava um caos, por dentro e por fora.

Quando Santino empurrou a porta do meu quarto, eu estava encostada na janela, lendo um antigo livro de história da arte.

A luz do corredor desenhava sua silhueta.

— Até quando você vai continuar com essa farsa? — Ele permaneceu na porta, sem entrar.

Fechei o livro e olhei para ele, com o olhar calmo e vazio.

— Isso não é uma farsa.

— Então, por que você abandonou todos os seus deveres como Donna?

O cheiro masculino de charutos e pólvora que sempre o acompanhava — um cheiro que eu antes desejava — agora só me causava náusea.

— Ainda está fazendo cena por causa da Jessy?

— Não estou fazendo cena. — Deixei o livro de lado. — Simplesmente não vou mais fazer isso.

Santino avançou, sua mão grande batendo com força no encosto da minha cadeira.

— Me dê um motivo.

— Estou cansada.

— Tem gente de sobra nesta família. Deixe que uma das mulheres, ansiosas para ocupar meu lugar, faça isso.

Me lembrava perfeitamente de como, na minha vida passada, coloquei cada parte de mim nessa família.

Os menus para o estômago sensível dele tinham de ser preparados por mim. A lama e as manchas de seus casacos — feitos de materiais delicados que não podiam ser lavados na máquina — tinham que ser cuidadosamente limpos com minhas próprias mãos.

Eu me esforcei para contratar os melhores tutores para as aulas de etiqueta deles. Cheguei até a desinfetar pessoalmente cada canto da sala de brinquedos para que não ficassem doentes.

E o que eu recebi em troca? Santino guardava toda a sua ternura para Jessy.

As crianças se tornaram completamente dependentes dos sorrisos doces da “tia Jessy”.

E eu? Fui deixada para morrer queimada em ruínas frias.

— Alessia. — A voz dele baixou, tornando-se gelada. — Se você tem um problema comigo, diga na minha cara. Não fique jogando esses joguinhos como uma mulher sem classe.

Soltei um sorriso autodepreciativo.

— Já te disse: não estou jogando. Eu só…

Antes que eu pudesse terminar, a porta do escritório foi aberta com força.

Leo e Sofia entraram furiosos, seus rostos pequenos distorcidos pela raiva.

— É porque a mamãe não quer trabalhar, né? — A voz de Sofia cortou.

— Queremos que a tia Jessy seja nossa nova mãe! Ela brinca com a gente de coisas novas e divertidas!

Leo completou em voz alta:

— A tia Jessy é mais bonita que você, mais inteligente que você e um milhão de vezes melhor que você! É ela que merece o papai. Ela deveria ser a verdadeira Donna!

Santino apenas me encarou, como se esperasse que eu cedesse, que implorasse pelo perdão dele como sempre fiz.

Mas eu apenas respirei fundo e disse suavemente:

— Se vocês a acham tão maravilhosa, então a tragam para a mansão. Eu não tenho objeção.

O ar no escritório congelou instantaneamente.

Sua expressão escureceu.

— Tem certeza? — perguntou, enfatizando cada palavra enquanto segurava meu pulso.

Doía, mas me soltei, com palavras firmes e claras:

— Absoluta.

— Papai, vamos! — Sofia puxou a roupa de Santino, impaciente.

— Quero que a tia Jessy venha morar aqui agora! Aposto que ela vai me comprar as coisas mais caras!

— Quando a tia Jessy estiver aqui, não precisaremos mais de você! Você pode ir para onde quiser. A família Genovese não precisa de você!

Santino me lançou um último olhar profundo. Ao ver que eu permanecia completamente imóvel, sem nem piscar, ele soltou um bufar frio, se virou, levando as duas crianças vitoriosas.

Fiquei imóvel, ouvindo os passos deles se afastarem, até encostar na porta e escorregar até o chão frio.

Em breve, eles teriam exatamente o que queriam.

E eu finalmente estaria livre desse Don, de sua família… e da vida que me sufocava.
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