Compartilhar

Capítulo 2

Autor: Redleaves

Se eu soubesse desde o nascimento como essa história terminaria, jamais teria me aproximado dele.

Mas despertei para a verdade apenas agora.

Vinte e cinco anos haviam gravado Renato em cada parte do meu ser. Eu o amava. De verdade. E, em algum lugar sob todas aquelas camadas de sentimentos, eu acreditava que ele também me amava — só não da mesma forma que eu o amava.

Descobrir tão tarde que eu não era o destino dele, mas apenas uma parada ao longo do caminho, não era uma tragédia.

Era uma piada cruel.

E estava acontecendo comigo.

A voz da governanta interrompeu meus pensamentos.

— Donna, o que gostaria de almoçar? Vou pedir que preparem imediatamente.

Refleti por um instante.

— Faça o que o Don gosta de comer. Vou levar para ele no clube.

Renato administrava a maior parte dos negócios a partir do escritório que mantinha lá.

Precisávamos conversar.

A governanta saiu, e eu permaneci imóvel. Minha mão repousou instintivamente sobre o ventre.

Havia uma criança ali.

Nosso filho.

Na história original, Gianna perde o bebê.

Durante um encontro entre os membros da organização, os homens de Renato insistem para que ele cante um dueto com Noemi.

Naturalmente, uma canção de amor.

Gianna entra no salão bem naquele momento.

Tomada pelo ciúme, ela perde o controle, agarra os cabelos de Noemi e levanta a mão para esbofeteá-la.

Renato a empurra com força.

Tanta força que ela sofre um aborto espontâneo.

Depois disso, o ódio dela se torna absoluto.

Consumido pela culpa, Renato transfere Noemi para o setor de armazéns, mantendo-a o mais longe possível de sua vista.

Mas toda aquela sequência existia apenas para favorecer Noemi.

A perda do bebê.

A transferência.

A separação.

A reconciliação posterior.

Tudo havia sido cuidadosamente planejado para tornar o reencontro dos dois ainda mais emocionante.

Ao pensar nisso, senti uma dor surda atravessar meu abdômen.

Apertei o punho contra o ventre.

Eu não acreditava que o livro precisasse determinar o final da minha vida.

Vinte e cinco anos.

Um filho dele crescendo dentro de mim.

Eu acreditava que podia mudar o destino.

Por favor...

Não me decepcione, Renato.

Às onze horas, a governanta trouxe a marmita com um sorriso caloroso.

— Donna, vocês dois são o casal mais dedicado que já conheci. Todo mundo sente inveja da relação de vocês.

Assenti em silêncio.

No fundo, pensei:

Deus...

Espero que você esteja certa.

Dirigi até o clube e segui diretamente para o escritório de Renato.

Ao passar pelo bar, procurei Noemi com os olhos.

Ela não estava lá.

Uma sensação desagradável se instalou em meu peito.

Empurrei a porta do escritório.

E parei imediatamente.

Renato e Noemi estavam sentados lado a lado diante da enorme mesa de mogno.

Tão próximos que seus ombros quase se tocavam.

Sobre a mesa havia uma pequena marmita em formato de cachorro, dessas vendidas em barracas de rua.

Pela aparência, continha espaguete à bolonhesa.

Noemi ria.

A cabeça levemente inclinada para baixo.

O sorriso brilhante e despreocupado.

Renato a observava da mesma forma que alguém observa algo precioso.

Algo que lhe traz felicidade.

Então ele levou a mão ao bolso do peito.

Retirou o lenço que eu havia escolhido para ele.

O mesmo lenço que combinava perfeitamente com aquele terno porque fui eu quem o comprou.

Com extrema delicadeza, limpou o canto da boca dela.

Droga.

Parecia uma pintura.

Deixei escapar uma risada curta e gelada.

Os dois se viraram imediatamente.

Renato congelou.

Ainda inclinado na direção dela.

A mão suspensa no ar.

Os olhos fixos em mim como se tivesse sido petrificado.

A situação era tão absurda que desta vez eu realmente ri.

Renato recuperou a compostura quase instantaneamente.

Sua expressão tornou-se sombria e cautelosa.

Olhei para o lenço em sua mão.

Ergui uma sobrancelha.

E não disse uma única palavra.

Então meus olhos pousaram em Noemi.

Ela se levantou às pressas.

Rápido demais.

A mão atingiu a marmita.

O salto prendeu em alguma coisa.

Ela perdeu o equilíbrio e caiu pesadamente.

Todo o conteúdo da refeição foi despejado sobre seu colo.

Antes mesmo que a marmita terminasse de rolar pelo chão, Renato já estava ao lado dela.

Ajudou-a a se levantar.

E começou a limpar suas roupas.

Apertei com força a marmita que trazia nas mãos.

Virei-me.

E fui embora.

Eu possuía dignidade demais para repetir o espetáculo histérico que a Gianna da história original havia protagonizado.

Dobrei à direita no final do corredor e fui até o escritório de Luca, o gerente dos armazéns.

Ao me ver entrar, ele se levantou imediatamente.

— Donna. Desejava falar comigo?

Sentei-me na cadeira dele e abri minha marmita.

Na verdade, eu estava com fome.

Desde cedo vinha me alimentando apenas de ansiedade.

Além disso...

Agora eu comia por dois.

Luca permaneceu ao lado da mesa, observando-me com uma expressão completamente perplexa.

Quando terminei de almoçar, limpei os lábios com um guardanapo e disse casualmente:

— Sei do seu acordo com os fornecedores sul-americanos. Espere minha ligação. Precisamos conversar.

Ele assentiu, dividido entre a confusão e o pânico.

Renato me encontrou menos de um minuto depois.

— Gianna, o que está fazendo aqui? Por que está almoçando neste escritório?

Levantei os olhos para ele.

— Você pode almoçar com a bartender, mas eu não posso almoçar com outro homem?

A cabeça de Renato virou instantaneamente na direção de Luca.

Luca parecia estar avaliando seriamente a possibilidade de se ajoelhar ali mesmo.

Renato o observou por alguns segundos.

Ao que tudo indicava, concluiu que ele não representava qualquer ameaça.

Então voltou-se para mim e disse friamente:

— Não faça escândalo. Conversaremos em casa.

Levantei-me.

Coloquei o guardanapo usado dentro da marmita vazia.

E a empurrei na direção dele.

— Limpe isso.

Passei por ele sem sequer lançar um segundo olhar.

Renato permaneceu imóvel.

Observando minhas costas como se estivesse vendo uma pessoa completamente diferente.

E estava.

Porque ele nunca tinha visto esse lado de mim.

Não daquela forma.

Eu sempre fora gentil.

Paciente.

Compreensiva.

Infinitamente calorosa.

Porque eu o amava.

Mas aquilo já não tinha mais sentido.

Afinal...

O sangue da família Milano corria em minhas veias.

Meu pai era Ricardo Milano.

O Don da família Milano.

E ele sempre me ensinou uma única regra:

"Olho por olho."

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 12

    Oito meses depois, dei à luz uma menina.Meu pai a segurava com as duas mãos, como se ela fosse feita de algo extremamente frágil.Seus olhos estavam suaves.De um jeito que eu só havia visto quando ele olhava para mim.Observei os dois.Aquele homem que carregava tantas décadas de vida.E aquela pequena recém-chegada ao mundo.Então senti meu coração se encher de uma felicidade simples e genuína.Eu havia mudado o final.Saí da trajetória daquela bala.Salvei minha filha.A vida é assim.Às vezes, a coragem é o preço da sorte.E até mesmo das feridas podem nascer asas.Meu pai devolveu a bebê para meus braços.Os dedinhos dela se fecharam em torno dos meus.Um gesto instintivo.Um reflexo natural.O menor aperto possível.Então ela sorriu.Aquele sorriso enrugado, desajeitado e absolutamente sincero de um recém-nascido.Inclinei-me e encostei minha bochecha na dela.No canto da visão, por um breve instante, percebi uma figura parada na porta.Quando tentei olhar

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 11

    No dia seguinte, os documentos assinados chegaram.A assinatura de Renato estava borrada nas extremidades, como se algo tivesse caído sobre a tinta antes que ela secasse.Soltei um longo suspiro.Finalmente havia acabado.O alívio foi tão grande que acabei me esquecendo completamente de Luca.Ele, por outro lado, não se esqueceu de mim.Os relatórios continuaram chegando.— O Don demitiu Noemi hoje.Pouco depois:— Noemi foi confrontá-lo. Chorou, reclamou e falou durante um bom tempo. O Don ficou distraído o tempo todo. Quando ela terminou, ele perguntou o que ela havia dito. Depois lembrou que a tinha demitido e mandou os seguranças acompanhá-la para fora.Mais tarde:— Noemi interceptou o Don quando ele estava voltando para casa. Ele me mandou dar uma lição nela. Descobri que ela implora quando fica sem saída.Respondi imediatamente, ordenando que ele parasse de me enviar aqueles relatórios.Mas, quanto à outra promessa, Renato cumpriu sua palavra.Ele passou a fazer pa

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 10

    Assim que o navio deixou o porto, chegou a minha vez de agir.— Renato, você me obrigou a fazer isso.Ajustei o travesseiro atrás das costas.— Você tem três minutos.Ele me encarou.— Um dos seus navios acabou de sair do cais. Dentro dele há um contêiner transportando armas que eu mandei embarcar clandestinamente.O silêncio tomou conta do quarto.— Assine os papéis e, quando o navio retornar ao porto, meus homens retirarão o contêiner antes que qualquer pessoa descubra sua existência.Minha voz permaneceu calma.— Se não assinar, faço apenas uma ligação para as autoridades portuárias.Renato ficou imóvel.Então falou entre os dentes cerrados:— Você denunciaria para o governo? Quebraria a omertà?Dei de ombros.— A omertà só funciona quando existe respeito mútuo.Olhei para ele.— Tudo o que estou pedindo é minha liberdade. Isso é o mínimo de consideração que alguém pode oferecer.Baixei os olhos para o relógio.— Dois minutos e meio.O rosto dele escureceu.— Vou

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 9

    Renato estava sentado na cadeira ao lado da minha cama de hospital.Seu olhar não parava de se desviar para minha barriga.E ele não fazia o menor esforço para esconder o sorriso que insistia em surgir em seus lábios.Estava completamente fora de si por descobrir que seria pai.Ali.Num quarto de hospital.Enquanto eu tentava me divorciar dele.Eu estava prestes a dizer alguma coisa quando a enfermeira entrou.— Desta vez, a senhora teve sorte. Vamos administrar uma medicação para ajudar a manter a gestação.Ela se aproximou para colocar o acesso intravenoso.Renato levantou-se imediatamente.Os olhos fixos na agulha que a enfermeira segurava.— Tome cuidado. Vá devagar.A enfermeira ficou nervosa.E errou a veia.O olhar de Renato escureceu instantaneamente.Como se ela tivesse cometido um crime imperdoável.— Eu disse para tomar cuidado.As mãos da enfermeira começaram a tremer.— Renato.Ele se virou na mesma hora.— Sim?Nem esperei terminar de pronunciar seu

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 8

    Agora chegava a parte em que Luca finalmente provaria seu valor.Marquei um encontro com ele em um restaurante próximo.Mal tínhamos nos sentado quando uma garçonete veio até nossa mesa para anotar o pedido.Nós dois levantamos o olhar ao mesmo tempo.Noemi.Ela tinha um segundo emprego. Pelo visto, ela realmente precisava do dinheiro.Instintivamente, ela tentou se virar e sair, mas se conteve. Voltou o rosto novamente, assumindo aquela expressão digna de alguém prestes a escrever um manifesto pessoal.Luca soltou um riso de desprezo.— Qual é a atuação dessa vez?Ela ergueu o queixo.— Donna, acho que seu comportamento está abaixo do que se espera de você.Olhei ao redor e apontei para mim mesma.— Eu?Ela assentiu, com uma expressão de mágoa estampada no rosto.Recostei-me na cadeira, relaxada.— Exatamente como? Continue. E, enquanto isso, vou querer um filé de costela.Ela piscou, segurando as lágrimas que ainda não estava pronta para deixar cair. Tinha controle su

  • A Vilã Quer o Divórcio   Capítulo 7

    Quando cheguei em casa, encontrei o pátio repleto de homens.Todos vestiam ternos pretos.Parecia que um bando de corvos havia pousado sobre o gramado da mansão.Eu mesma os havia convocado.Eram soldados da família Milano.Havia muitas coisas naquela história que eu podia aceitar.Mas não a destruição da família Milano.Se chegasse a esse ponto, eu derramaria meu próprio sangue para preservar o nome da família.Conduzi os homens para dentro e comecei a dar instruções.— Todos os vestidos do closet. Todas as joias. Todas as bolsas. Quero tudo embalado.— Esvaziem a adega. Levem absolutamente tudo.— Os quadros da sala de estar, do escritório e dos corredores. Retirem cada um deles com cuidado.A cada ordem, recebia a mesma resposta respeitosa.— Sim, senhorita.Continuei pensando, tentando me lembrar de tudo o que havia trazido para aquele casamento.Então me ocorreu mais uma coisa.— Há uma árvore de ginkgo no jardim dos fundos. Ela também vai.Um dos homens hesitou.

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status