LOGINEle ergueu uma das minhas mãos e beijou-me os dedos. — Só quero que te lembres de que a tua vida não pode continuar a pertencer-lhes, mesmo que estejas a lutar para que paguem pelo que fizeram. Eles já te tiraram demasiado. Não lhes entregues também tudo aquilo que ainda podes viver. As palavras atingiram-me com mais força do que eu esperava. Durante tanto tempo, concentrara-me naquilo que precisava de fazer para destruir a vida que Adrien e Elsa tinham construído à custa das minhas ilusões, que quase me esquecera de imaginar o que faria depois. A vingança tornara-se o centro dos meus pensamentos, o ponto para onde tudo convergia. Cada passo que dava parecia ter como objetivo aproximar-me do momento em que os veria enfrentar as consequências. Mas Cole tinha razão numa coisa: eu não podia permitir que o meu futuro se resumisse a eles. Não queria passar a vida a acordar todas as manhãs a pensar em Adrien. Não queria que o nome de Elsa continuasse a ter poder para me roubar a paz. Q
— Não tens de apagar esses sentimentos à força — disse Cole. — E não tens de fingir que nunca o amaste só porque ele te magoou. Baixei os olhos. Era precisamente esse o problema. Eu queria que fosse fácil odiar Adrien, mas os sentimentos não desapareciam apenas porque a razão finalmente compreendia aquilo que o coração se recusara a aceitar. — Tenho medo de continuar presa a ele — confessei. — Não quero passar o resto da minha vida a olhar para trás, a pensar no que poderia ter sido se ele me tivesse amado de verdade. Cole ficou quieto por um momento. — E o que queres agora? A pergunta obrigou-me a levantar os olhos. O que eu queria era complicado. Queria justiça. Queria que Adrien e Elsa pagassem pelo que tinham feito. Queria libertar-me das recordações da minha primeira vida. Queria voltar a confiar nas pessoas sem sentir que estava a cometer um erro. Queria descobrir se ainda era capaz de construir alguma coisa bonita depois de ter perdido tanto. E, por mais assustador que
Mas escolhera também confiar em Elsa como amiga. Não esperava que ela me amasse da mesma maneira que eu a amava, mas esperava, pelo menos, que respeitasse a amizade que construíramos. Ela não me devia fidelidade romântica. Devia-me honestidade, respeito e lealdade. Devia-me a consideração mínima que se espera de alguém que se apresenta como a nossa melhor amiga. E traíra-me em todos esses aspetos. — Quero que acompanhem também Elsa — respondi, regressando ao presente. — A investigação às irregularidades financeiras da fundação está a avançar. Se ela estiver envolvida em mais alguma atividade criminosa, quero que as autoridades tenham acesso a provas concretas. Hudson assentiu. — E se descobrirmos alguma coisa que possa colocar um deles em perigo imediato? — Nesse caso, não devem intervir. Deixe com que eles se machuquem. — Há mais alguma coisa, senhora? — perguntou Hudson. Olhei para ele com firmeza. — Sim. Quero relatórios regulares, mas não permitas que esta operaç
Observei Adrien afastar-se até desaparecer por completo do meu campo de visão. Durante alguns segundos, permaneci imóvel, com os olhos fixos na porta do escritório, como se uma parte de mim ainda esperasse que ele voltasse, que dissesse alguma coisa capaz de mudar tudo o que acontecera entre nós. Era ridículo, eu sabia. Depois de tudo o que Adrien me fizera passar, depois de descobrir que o homem com quem pretendia casar me usara enquanto mantinha uma relação com outra mulher, ainda existia uma parte de mim que reagia à sua presença como se os seis anos que passáramos juntos não tivessem sido uma mentira cuidadosamente construída. Talvez fosse essa a parte de mim que mais odiava. Eu queria acreditar que o amor desaparecia no instante em que descobríamos a verdadeira natureza da pessoa que amávamos. Queria que a desilusão fosse suficiente para apagar os sentimentos, que a raiva ocupasse todos os espaços antes preenchidos pela esperança e que a lembrança dos meus sofrimentos torna
— Silver, eu sei que te magoei. — Não. Sabes que me traíste. Sabes que terminámos o noivado. Sabes que estou zangada contigo. Mas não sabes o que é olhar para trás e perceber que os momentos que julgavas felizes talvez nunca tenham significado a mesma coisa para a outra pessoa. Não sabes o que é questionar cada promessa, cada gesto de carinho e cada palavra de amor, porque já não consegues distinguir o que era verdadeiro daquilo que te diziam para te manter por perto. A voz dela manteve-se controlada, mas os dedos apertaram ligeiramente a borda da secretária. — Eu confiava em ti, Adrien. Não confiava apenas no homem com quem pretendia casar. Confiava na pessoa a quem entreguei os meus medos, os meus planos e uma parte enorme da minha vida. Tu sabias disso e, ainda assim, escolheste fazer-me de idiota. Baixei os olhos. — Lamento. — O teu arrependimento não me devolve nada. — Eu sei. — E não muda o que sinto por ti agora. Ergui lentamente o rosto. — O que sentes por
O olhar dela percorreu-me o rosto, procurando algum sinal de que estivesse a exagerar, de que aquelas palavras fossem apenas uma ameaça dita por um homem dominado pela raiva. Mas não sorri, nem desviei os olhos. Estava decidido. — Estás a falar a sério? — perguntou ela. — Nunca falei tão a sério sobre nada. — E achas que matá-la vai resolver o quê? — Vai impedir que volte a fazer mal a alguém. — Ou vai destruir a tua vida de uma maneira que ainda não consegues compreender. Soltei uma breve expiração, sem humor. — A minha vida já está destruída. — Não. A tua vida está cheia das consequências das tuas próprias escolhas. Isso é diferente. Senti a frase como uma bofetada, mas não a contestei. Silver recostou-se na cadeira. — A Elsa cometeu crimes, deixe que ela seja investigada e responsabilizada. Se te traiu, acaba qualquer relação que ainda tenhas com ela. Afasta-te. Deixa de a proteger. Mas não me venhas dizer que vais matá-la para impedir que faça mal a alguém, c







