LOGIN— Talvez. Ela fechou os olhos por um instante. — Eu queria apagar hoje. — Não precisas de apagar. — Preciso. — Porquê? — Porque dói. — Eu sei. — Quero acordar amanhã e não sentir nada. — Talvez não consigas. Ela abriu os olhos. — Isso era para me animar? — Não. — És péssimo nisso. — Estou a tentar. — Então tenta melhor. — Está bem. — Pensei por alguns segundos. — Amanhã vai doer menos. Ela ficou em silêncio. — Como sabes? — Porque nada permanece igual para sempre. Silver observou-me por alguns segundos. — Tu já tiveste o coração partido? A pergunta apanhou-me desprevenido, pensei na minha primeira vida. No funeral. No túmulo. Naquele vazio que carreguei. — Já. Ela pareceu surpresa. — Muito? — Muito. — E sobreviveste? — Estou aqui. Ela sorriu tristemente. — Então talvez eu também sobreviva. — Vais. — Prometes? — Prometo. Silver ficou quieta. Depois de alguns segundos, perguntou: — Tu tens namorada? Meu corpo ficou imóvel. — Não. — Não? — Não. — P
Fiquei sentado na poltrona ao lado da cama, observando Silver dormir. Durante alguns minutos, o quarto permaneceu completamente silencioso. Kimberly tinha ido para o seu plantão no hospital, deixando-me encarregado de ficar de olho nela. Eu não me importava. Na verdade, não havia lugar onde preferisse estar naquele momento. Silver estava segura, era o suficiente. Ainda assim, vê-la daquele jeito mexia comigo. Ela tinha passado a noite inteira a chorar por Adrien. O homem que, na outra vida, a tinha matado. Eu sabia da verdade. Sabia que aquilo que ela descobrira naquela noite era apenas uma pequena parte do que Adrien e Elsa eram capazes de fazer. Mas não podia simplesmente chegar até ela e contar tudo, Silver precisava descobrir por si mesma. Precisava ter a oportunidade de tomar as próprias decisões. Não queria ser mais uma pessoa a controlar a vida dela. Adrien já tinha feito isso, eu não faria o mesmo. Silver mexeu-se na cama, fiquei imediatamente atento. Ela franziu a testa
Franzi a testa. — O quê? — A minha casa. As minhas roupas. Tudo. Fiquei em silêncio. Silver apontou para o próprio cabelo. — Até isto. — O teu cabelo? — Ela sempre dizia que o meu cabelo era lindo. — Soltou uma risada triste. — Agora eu cortei. — Passou os dedos pelos fios negros. — Não quero mais parecer a pessoa que eu era. Aquela frase chamou a minha atenção. — O que aconteceu contigo hoje, Silver? Ela olhou para mim. Por um instante, os seus olhos pareceram completamente lúcidos. — Eu descobri que algumas pessoas que amamos não merecem o lugar que damos a elas. — Depois voltou a chorar. — E eu odeio isso. — O quê? — Porque ainda o amo. — A confissão saiu como um soluço. — Mesmo depois de tudo, eu ainda o amo. — Abracei-a. Silver agarrou-se a mim com força. — Eu queria odiá-lo. — Eu sei. — Seria mais fácil. — Sim. — Mas quando ele disse que me amava… — Ela fechou os olhos. — Eu quis acreditar. Fiquei em silêncio, deixando-a chorar. Depois de alguns minutos, tentei
Assim que desliguei a chamada, ergui o pulso e olhei para as horas. Ainda faltavam quase duas horas para o meu plantão no hospital. Levantei-me da cama imediatamente, troquei o pijama por uma roupa confortável e saí do quarto às pressas. Enquanto descia as escadas, encontrei Cole a subir. Ele parou ao ver-me tão apressada. — Vais para o hospital cedo? Pensei que o teu plantão fosse mais tarde. — E é, mas a Silver ligou-me. Ela não está bem. Preciso de ir buscá-la a um bar. — Aconteceu alguma coisa? — Acho que sim. Ela não me explicou direito, mas estava a chorar. E a Silver nem sequer gosta de álcool. Se ela está num bar a beber sozinha, é porque alguma coisa muito séria aconteceu. Eu ainda tentava imaginar o que poderia ter acontecido. Silver nunca faria aquilo sem motivo. Ela podia estar triste, irritada ou chateada, mas nunca tinha sido o tipo de pessoa que procurava um bar para esquecer os problemas. Cole aproximou-se. — Eu levo-te. — Não precisas. Podes ficar a dormir. —
Eu não sabia para onde estava a conduzir, sabia apenas que precisava de distância. Do apartamento de Adrien. Daquele beijo. Da expressão dele quando percebeu que eu tinha visto. Das mentiras que saíam da sua boca com uma facilidade assustadora. E, principalmente, precisava de distância de mim mesma. As minhas mãos apertavam o volante enquanto as lágrimas continuavam a escorrer pelo meu rosto. Eu limpava-as com as costas da mão, mas outras apareciam logo depois. Eu ainda o amava. Era essa a parte que mais doía. Podia odiá-lo naquele momento. Podia querer nunca mais olhar para ele. Podia ter retirado o anel e dito que não haveria casamento. Mas o amor não desaparecia simplesmente porque alguém nos magoava. Seis anos. Seis anos da minha vida entregues àquele homem. Seis anos de memórias que, de repente, pareciam contaminadas por uma pergunta que eu não conseguia afastar: Quanto daquilo tinha sido verdadeiro? Parei num semáforo e olhei para o anel que ainda estava na minha mão. Eu
Eu não conseguia respirar. Fiquei parado no meio da rua, observando o carro de Silver desaparecer ao longe. Ela tinha ido embora. Tinha realmente ido embora. E, pela primeira vez desde que a conheci, eu não sabia como fazê-la voltar. — Merda! Dei um soco no teto do carro. A dor percorreu os meus dedos, mas não me importei. Silver não podia fazer aquilo comigo. Não depois de seis anos. Não depois de tudo o que eu tinha feito. Passei a mão pelos cabelos e comecei a andar de um lado para o outro. Precisava pensar. Precisava encontrar uma solução. Ela ainda me amava. Eu sabia disso, ela própria tinha dito. Então havia uma maneira de fazê-la voltar. Tinha de haver. Mas, quanto mais pensava, mais uma realidade começava a esmagar-me. O casamento estava a um mês. Um mês. E eu já tinha construído a minha vida em torno daquele casamento. A mansão que comprei para os meus pais. Fechei os olhos. Eu tinha comprado aquela casa contando com o dinheiro que viria depois do casamento. O empréstimo







