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Capítulo 1 — Celine narrando
Eu aprendi a acordar antes do sol nascer. Não porque gostasse das manhãs silenciosas ou porque tivesse escolhido aquela rotina para mim, mas porque, naquela casa, meu dia começava muito antes do dia das outras pessoas. Quando o relógio marcava cinco e meia da manhã, eu já estava de pé, arrumando a cama estreita do pequeno quarto que ficava no fundo da mansão, onde eu morava desde que meu pai morreu. O quarto não era exatamente ruim, mas também não parecia pertencer àquela casa. Não havia luxo, não havia decoração sofisticada, nem aquelas cortinas enormes que cobriam as janelas dos quartos de Margo. Havia apenas uma cama simples, um pequeno guarda-roupa, uma escrivaninha antiga e uma janela que dava para os fundos da propriedade. Era o suficiente para mim. Pelo menos era o que eu repetia todos os dias para conseguir continuar. Prendi meu cabelo comprido em um coque, vesti um vestido simples e desci silenciosamente para a cozinha. A mansão ainda estava mergulhada no silêncio quando comecei a preparar o café da manhã. O cheiro de café fresco logo tomou conta do ambiente, seguido pelo aroma dos pães que coloquei no forno. Depois, organizei as frutas, preparei os ovos e deixei tudo pronto sobre a grande mesa da sala de jantar. Aquela mesa tinha espaço para doze pessoas, embora quase nunca houvesse mais de três sentadas nela. E, mesmo sendo uma das pessoas daquela família, eu raramente ocupava uma cadeira. Meu lugar era de pé. Eu aprendi isso cedo. Enquanto arrumava os pratos, ouvi passos descendo a escada e soube imediatamente quem era. Margo apareceu alguns minutos depois, ainda com o rosto sonolento, usando um robe de seda claro e chinelos que provavelmente custavam mais do que todas as minhas roupas juntas. Seu cabelo estava perfeitamente arrumado, mesmo depois de acordar, e ela carregava o celular na mão enquanto descia os degraus olhando para a tela. Ela passou por mim sem sequer me cumprimentar. — Meu café. Olhei para a mesa. — Já está pronto. Margo se sentou e começou a mexer no celular. Pouco depois, Valquíria apareceu. Minha madrasta estava sempre impecável. Usava roupas caras, maquiagem perfeitamente feita e joias discretas, mas valiosas. Ela tinha o tipo de aparência que fazia as pessoas acreditarem que era uma mulher sofisticada, elegante e de família tradicional. Quem a conhecesse superficialmente jamais imaginaria a forma como ela tratava a própria enteada. — Bom dia, minha filha — disse ela, beijando a cabeça de Margo. — Bom dia, mãe. Fiquei parada perto da mesa, segurando a bandeja vazia. Valquíria sequer olhou para mim. — Celine, depois que terminarmos, você precisa limpar os quartos do andar de cima. E não esqueça de organizar o closet de Margo. Ela vai sair hoje à tarde e precisa encontrar tudo em ordem. — Claro. Era sempre assim. Margo tinha compromissos. Eu tinha tarefas. Margo escolhia o que vestir. Eu lavava e organizava as roupas. Margo fazia compras. Eu carregava as sacolas. Margo tinha festas, viagens, restaurantes e amigos. Eu tinha a cozinha, os quartos, os banheiros e o jardim. Tínhamos a mesma idade, mas parecia que havíamos nascido em mundos diferentes. Às vezes eu me perguntava como aquilo tinha acontecido. Como duas meninas que cresceram na mesma casa podiam ter destinos tão diferentes. A resposta era simples: Margo era filha de Valquíria. Eu era apenas a filha do homem que Valquíria havia amado enquanto ele tinha dinheiro e status para oferecer. Meu pai. Só de pensar nele, meu coração apertava. Eu ainda conseguia me lembrar do jeito como ele sorria quando me encontrava depois da escola. Lembrava de suas mãos grandes bagunçando meu cabelo, da voz grave dizendo que eu era sua pequena artista, mesmo quando minhas pinturas eram apenas rabiscos infantis. Ele foi a primeira pessoa que acreditou em mim. E talvez por isso sua morte tenha deixado um vazio tão grande. Eu tinha apenas oito anos quando ele morreu. Um acidente de carro em uma estrada distante levou embora o homem que era meu mundo inteiro. Depois daquele dia, eu nunca mais fui a mesma. Lembro de ter ficado esperando por ele na sala durante horas, sem entender por que os adultos choravam e ninguém me dizia que ele não voltaria. Quando finalmente compreendi, alguma coisa dentro de mim se quebrou. Valquíria mudou depois do funeral. No começo, ela ainda fingia carinho. Dizia que cuidaria de mim, que meu pai havia confiado minha vida a ela e que eu jamais ficaria desamparada. Eu acreditei. Crianças acreditam nas promessas dos adultos. Mas os anos passaram. O carinho desapareceu. As palavras gentis desapareceram. E, quando Margo cresceu, a diferença ficou ainda mais evidente. — Celine. A voz de Valquíria me trouxe de volta ao presente. — Sim? Ela apontou para a xícara vazia sobre a mesa. — Café. Peguei a garrafa e servi. — Obrigada — disse Margo, sem levantar os olhos do celular. Valquíria então me encarou. — Depois do café, quero que você vá ao mercado. Faltam algumas coisas para o jantar. — Está bem. — E não demore. — Não vou demorar. Ela continuou me olhando. — Você sabe que tem muita sorte, não sabe? Fiquei em silêncio. — Estou falando com você, Celine. — Sei. — Então demonstre um pouco mais de gratidão. Você tem um teto, comida e uma cama para dormir. Muitas pessoas não têm nada disso. Baixei os olhos. Eu conhecia aquele discurso. Sempre que eu demonstrava cansaço, tristeza ou qualquer vontade de fazer algo por mim mesma, Valquíria lembrava que eu deveria agradecer. — Eu sou grata. Ela soltou uma risada curta. — Às vezes não parece. Margo finalmente levantou os olhos do celular. — Ela vive reclamando. Olhei para ela. — Eu não reclamo. — Não precisa falar. Sua cara fala por você. Engoli a resposta que queria dar. Não valia a pena. Eu havia aprendido que discutir com Margo só piorava as coisas. Valquíria voltou a falar: — E outra coisa, Celine. Não quero você se comportando como se fosse filha desta casa. Meu coração apertou. Eu já tinha ouvido aquilo antes, mas nunca deixava de doer. — Eu nunca fiz isso. — Então continue assim. Ela se levantou. — Você mora aqui porque eu permito. Nunca se esqueça disso. Fiquei parada enquanto as duas saíam da sala. Quando ouvi os passos desaparecerem pelo corredor, respirei fundo. Eu queria chorar. Mas não chorei. Meu pai havia me ensinado que eu era mais forte do que imaginava. Talvez ele estivesse errado em muitas coisas, mas naquela eu queria acreditar que estava certo. Passei a manhã trabalhando. Limpei os quartos, organizei o closet de Margo, troquei as roupas de cama, limpei os corredores e desci para cuidar do almoço. A mansão era enorme, e às vezes eu tinha a sensação de que passava o dia inteiro caminhando de um lado para o outro sem realmente chegar a lugar algum. Perto do meio-dia, Margo apareceu na cozinha. — Celine, você viu meu vestido azul? — Está no seu closet. — Eu procurei e não encontrei. — Eu coloquei na segunda gaveta. Ela abriu a gaveta, encontrou o vestido e ficou alguns segundos olhando para ele. — Poderia ter colocado em outro lugar. — Você pediu para eu organizar por cor. — Eu mudei de ideia. Suspirei discretamente. — Tudo bem. Ela me encarou. — Você sempre foi assim? — Assim como? — Quietinha. Dei de ombros. — Acho que sim. Margo sorriu de um jeito estranho. — Deve ser horrível não ter personalidade. Ela saiu antes que eu respondesse. Fiquei olhando para a porta. Talvez eu realmente fosse quieta. Mas não era porque não tinha personalidade. Era porque havia aprendido que, naquela casa, quanto menos eu falasse, menos problemas teria. Depois do almoço, finalmente consegui alguns minutos sozinha. Subi para o meu quarto, fechei a porta e retirei debaixo da cama a pequena tela que eu havia escondido na noite anterior. Meu coração sempre acelerava quando eu fazia aquilo. Pintar era meu segredo. Meu pequeno pedaço de liberdade. Coloquei a tela sobre a escrivaninha e peguei o pincel. Não tinha materiais caros. Usava tintas simples que comprava escondido quando conseguia guardar algum dinheiro. Algumas já estavam quase acabando, mas eu fazia tudo render. Comecei a pintar. Era uma janela aberta. Do outro lado, havia um campo enorme sob um céu azul. Nenhuma parede. Nenhuma porta fechada. Nenhuma pessoa dizendo o que eu deveria fazer. Apenas liberdade. Enquanto pintava, esqueci a mansão. Esqueci Valquíria. Esqueci Margo. Esqueci que minha vida não era minha. Naquele momento, eu era apenas Celine. Uma garota com um pincel nas mãos e um sonho grande demais para caber naquele quarto pequeno. Quando terminei, fiquei olhando para a tela. Sorri. Talvez fosse uma coisa boba, mas eu queria acreditar que um dia aquelas pinturas poderiam me levar para longe dali. Eu queria estudar. Queria conhecer outras cidades. Queria ter meu próprio ateliê. Queria vender minhas pinturas e acordar sabendo que tudo o que eu tinha havia sido conquistado por mim. Mais do que qualquer coisa, queria liberdade. Não queria ser rica. Não queria viver em uma mansão. Eu só queria escolher minha própria vida. Estava guardando a tela quando ouvi passos no corredor. Rapidamente coloquei a pintura debaixo da cama. A porta se abriu sem que ninguém batesse. Era Valquíria. Ela me encarou. — O que está fazendo? — Nada. Ela entrou no quarto e olhou ao redor. — Espero que realmente não esteja perdendo seu tempo com essas coisas de pintura. — Não estou. — Ótimo. Ela se virou para sair, mas o celular começou a tocar. Valquíria olhou para a tela. O rosto dela mudou imediatamente. Ela não atendeu. O telefone parou. Poucos segundos depois, tocou novamente. Ela ficou pálida. Atendeu dessa vez, afastando-se alguns passos de mim. — Eu já disse que vou resolver. Fiquei imóvel. A voz do outro lado era baixa demais para eu entender. Valquíria apertou o celular com força. — Não precisa me ameaçar. Meu coração começou a bater mais rápido. Ela olhou para mim. Por um instante, nossos olhos se encontraram. E eu vi algo que nunca tinha visto naquele rosto. Medo. — Eu vou pagar — ela sussurrou. — Só preciso de mais alguns dias. A pessoa do outro lado falou novamente. Valquíria fechou os olhos. — Não. Por favor. Meu corpo ficou gelado. Ela desligou. O celular começou a tocar novamente quase imediatamente. Valquíria não atendeu. Apenas ficou olhando para a tela, respirando rápido. Então colocou o telefone no bolso e saiu do meu quarto sem dizer mais nada. Fiquei sozinha, tentando entender o que havia acabado de acontecer. Eu não sabia quem estava ligando. Não sabia quanto dinheiro ela devia. Não sabia por que aquela mulher, que sempre parecia tão poderosa, estava tremendo daquele jeito. Mas, pela primeira vez em muitos anos, senti que alguma coisa estava prestes a acontecer naquela casa. E, sem que eu pudesse imaginar, aquela dívida seria o começo da maior mudança da minha vida.📖 Capítulo 93 — Celine narrandoEu estava começando a desconfiar seriamente de Adalberto.Não era uma desconfiança ruim. Não tinha relação com medo, traição ou qualquer coisa que pudesse me fazer pensar que ele estava escondendo algo perigoso de mim. Era simplesmente aquela sensação persistente de que havia alguma coisa acontecendo pelas minhas costas e de que, por algum motivo, ele estava decidido a não me contar.E o pior de tudo era que ele estava péssimo em esconder.Naquela manhã, por exemplo, ele estava tomando café comigo e olhando o telefone a cada poucos minutos. Quando eu entrava no cômodo, ele mudava de tela. Quando eu perguntava sobre alguma coisa, respondia rápido demais. E, quando Henrique aparecia, os dois trocavam aqueles olhares que diziam claramente que existia uma conversa da qual eu não fazia parte.Eu apoiei a xícara sobre a mesa e fiquei observando Adalberto.Ele percebeu.— O que foi?— Nada.— Você está me olhando.— Estou.— Por quê?— Porque estou tentando d
📖 Capítulo 92 — Adalberto narrandoEu nunca imaginei que chegaria o dia em que uma simples conversa sobre flores, cadeiras e iluminação seria capaz de me deixar mais nervoso do que qualquer negociação empresarial que eu já tivesse enfrentado. Mas ali estava eu, parado diante de uma mesa coberta por papéis, olhando para uma lista de fornecedores que Henrique havia preparado, enquanto tentava decidir entre duas opções de decoração para o jardim.— Você está falando sério? — Henrique perguntou pela terceira vez.Levantei os olhos.— Sobre o quê?— Sobre isso tudo.Olhei novamente para os documentos.— Claro que estou.— Você está escolhendo flores.— E?— Você nunca escolheu uma flor na sua vida.— Tem uma primeira vez para tudo.Henrique soltou uma risada.— Eu ainda não acredito que estou vendo isso.Ignorei a provocação e voltei a analisar os papéis. Eu queria uma cerimônia íntima. Nada de exageros, nada de uma festa gigantesca, nada que transformasse aquele momento em um espetáculo
📖 Capítulo 91 — Celine narrandoEu estava no ateliê desde cedo quando ouvi alguém me chamando do lado de fora. Naquele momento, eu estava tão concentrada em uma das telas que demorei alguns segundos para perceber que Helena havia entrado.— Celine, tem uma senhora querendo falar com você.Levantei os olhos.— Quem?— Ela disse que conheceu seu pai. Falou que era amiga da família.Meu coração apertou imediatamente.— Ela disse o nome?— Dona Beatriz.O nome não me era completamente estranho, mas também não conseguia associá-lo a uma lembrança específica. Limpei as mãos em um pano e deixei o pincel sobre a mesa.— Pode pedir para ela entrar.Helena assentiu e saiu.Poucos segundos depois, uma mulher de cabelos grisalhos entrou lentamente no ateliê. Ela devia ter pouco mais de sessenta anos. Vestia roupas simples e elegantes e carregava uma pequena bolsa nas mãos.Assim que nossos olhos se encontraram, ela parou.Seus olhos ficaram marejados.— Meu Deus…— A senhora está bem?Ela sorriu
📖 Capítulo 90 — Adalberto narrandoEu sempre acreditei que problemas deveriam ser resolvidos rapidamente. Quanto mais tempo uma situação permanecesse sem resposta, maior seria a chance de alguém tentar se aproveitar dela. Durante muitos anos, essa maneira de pensar funcionou para mim. Eu analisava uma ameaça, identificava quem estava por trás dela e agia antes que o problema crescesse.Talvez por isso Henrique tenha estranhado quando, naquela manhã, entrei na sala de reuniões e não dei a ordem que ele esperava.— Temos um problema sério — ele disse, colocando uma pasta sobre a mesa.Olhei para o documento.— Qual empresa?— A Montenegro Logística.Abri a pasta.— O que aconteceu?— Um contrato antigo está sendo questionado por um dos nossos parceiros. Eles alegam que houve descumprimento de algumas cláusulas e estão exigindo uma indenização considerável.Levantei os olhos.— Quanto?Henrique falou o valor.Era alto.Não o suficiente para colocar a empresa em risco, mas alto o bastant
📖 Capítulo 89 — Celine narrandoAcordei naquela manhã com a sensação de que o dia já havia começado antes mesmo de eu abrir os olhos. Havia uma lista enorme de coisas esperando por mim: telas que precisavam ser finalizadas, molduras que ainda precisavam ser escolhidas, documentos da galeria que eu precisava revisar, reuniões para organizar, materiais que chegariam durante a tarde e uma quantidade quase absurda de decisões que, até pouco tempo atrás, eu jamais teria imaginado que precisaria tomar. Ainda assim, quando abri os olhos e encontrei a luz entrando pela janela, sorri. Pela primeira vez, aquela correria não era consequência de um problema. Era consequência de um sonho crescendo diante de mim.Levantei, tomei um banho rápido e desci para tomar café. Encontrei Adalberto sentado à mesa, com o telefone na mão e alguns documentos ao lado. Ele levantou os olhos assim que me viu.— Bom dia.— Bom dia.Ele me observou por alguns segundos.— Você dormiu?— Dormi.— Quantas horas?— Não
📖 Capítulo 88 — Adalberto narrandoEu já tinha participado de reuniões muito mais importantes do que aquela. Já havia entrado em salas onde milhões estavam em jogo, negociado contratos capazes de mudar o rumo de empresas inteiras e enfrentado homens que tentaram me intimidar sem conseguir sequer me fazer piscar. Eu conhecia a sensação de pressão. Sabia controlar o nervosismo, esconder qualquer insegurança e tomar decisões mesmo quando todas as circunstâncias estavam contra mim.Mas naquela manhã, sentado ao volante enquanto levava Celine até a galeria, percebi que existia uma coisa capaz de me deixar mais atento do que qualquer negociação.Ela.Celine estava sentada ao meu lado, olhando pela janela e apertando as mãos sobre o colo. Desde que saímos da propriedade, ela havia falado pouco. Não era o silêncio tranquilo que eu já conhecia nela. Era ansiedade.Olhei rapidamente para ela.— Você está nervosa.Ela continuou olhando pela janela.— Não estou.— Está.— Talvez um pouco.Sorri.







