LOGINCapítulo 2 — Celine narrando
Naquela noite, eu não consegui dormir direito. A ligação que havia recebido a atenção de Valquíria continuava presa na minha cabeça, principalmente pela maneira como ela havia mudado diante dos meus olhos. Eu estava acostumada a vê-la irritada, arrogante, impaciente e até cruel, mas nunca tinha visto medo nela. Valquíria era o tipo de mulher que parecia acreditar que poderia controlar tudo ao seu redor. Ela não abaixava a cabeça para ninguém. Não aceitava ser contrariada. Não demonstrava fraqueza. Por isso, vê-la tremendo enquanto segurava o telefone tinha me deixado inquieta. Passei boa parte da madrugada olhando para o teto, tentando convencer a mim mesma de que aquilo não tinha nada a ver comigo. Talvez fosse apenas algum problema financeiro. Talvez fosse uma dívida que ela pudesse resolver. Talvez, no dia seguinte, tudo estivesse normal novamente. Eu queria acreditar nisso, porque a ideia de alguma coisa ruim acontecer me assustava. Mas nada ficou normal. Na manhã seguinte, percebi logo que o silêncio da mansão estava diferente. Até Margo, que normalmente acordava reclamando da temperatura do quarto, do café ou de alguma mensagem que havia recebido, estava estranhamente quieta. Eu estava na cozinha preparando o café quando ouvi um carro parar diante da casa. Olhei pela janela e vi um veículo preto estacionando próximo à entrada principal. Dois homens desceram. Não pareciam funcionários, nem conhecidos da família. Usavam roupas escuras e tinham uma postura séria que me fez sentir um arrepio. Voltei rapidamente para a bancada. Alguns segundos depois, ouvi a campainha. Valquíria apareceu na cozinha antes mesmo que eu tivesse tempo de perguntar quem era. — Celine, continue trabalhando. — Quem chegou? Ela me lançou um olhar duro. — Eu fiz uma pergunta? Baixei os olhos. — Não. — Então faça o que mandei. Ela saiu. Fiquei parada por alguns segundos, tentando controlar a curiosidade. Ouvi a porta principal sendo aberta e, logo depois, vozes masculinas ecoaram pelo corredor. Não conseguia entender tudo, mas o tom era suficiente para perceber que não se tratava de uma visita amigável. Continuei preparando o café, porém minha atenção estava voltada para o corredor. — Nós não vamos sair daqui sem uma resposta — ouvi um dos homens dizer. Meu coração acelerou. Valquíria respondeu em voz baixa. — Eu já falei que estou providenciando. — Você está falando isso há semanas. — Eu preciso de mais tempo. — Tempo acabou. Parei de mexer na panela. Não deveria estar ouvindo. Eu sabia disso. Mas meu corpo não obedecia. Aproximei-me discretamente da porta da cozinha e fiquei escondida atrás da parede. — A senhora sabe o que acontece quando uma dívida desse tamanho não é paga — disse o homem. Dívida. A palavra fez meu estômago se contrair. — Eu sei — Valquíria respondeu. — Então sabe também que a mansão será tomada. Olhei para o corredor. A mansão. Tudo aquilo poderia ser perdido? — Não vou entregar minha casa — Valquíria disse. — A senhora não tem escolha. — Eu tenho. — Então encontre o dinheiro. Houve silêncio. — Quanto tempo? — ela perguntou. — Pouquíssimo. Os homens foram embora alguns minutos depois. Voltei imediatamente para a cozinha e tentei agir como se não tivesse ouvido nada. Pouco tempo depois, Valquíria entrou. Ela estava pálida. — Você ouviu alguma coisa? Meu coração disparou. — Não. Ela ficou me encarando por alguns segundos. — Ótimo. Depois subiu as escadas. Eu terminei de preparar o café, mas não conseguia tirar aquela conversa da cabeça. Durante o café da manhã, Margo percebeu que a mãe estava diferente. — Mãe, o que aconteceu? — Nada. — Você está estranha. — Estou apenas cansada. Margo franziu a testa. — Você está preocupada com dinheiro? Valquíria imediatamente a encarou. — Por que pergunta isso? — Porque ouvi você falando com alguém ontem. — Não é assunto seu. Margo ficou irritada. — Como não é assunto meu? Se alguma coisa acontecer com a nossa casa, eu preciso saber. Valquíria respirou fundo. — Nada vai acontecer. — Promete? — Prometo. Mas eu percebi que ela não parecia acreditar na própria promessa. Margo voltou a mexer no celular. — Porque eu não vou perder minha vida por causa de uma dívida. Valquíria não respondeu. — Eu não vou morar em qualquer lugar — Margo continuou. — Não vou estudar em outro lugar, não vou parar de viajar e não vou deixar de comprar minhas coisas. — Margo… — Eu estou falando sério, mãe. — Chega. — Você precisa resolver isso. Valquíria apertou os lábios. Eu permaneci em silêncio, servindo o café. Era estranho ouvir Margo falar daquela maneira enquanto eu estava ali. Ela falava sobre perder a mansão como se perder a casa fosse o fim do mundo. Eu sabia que aquela vida luxuosa era importante para ela, mas não conseguia compreender como alguém poderia colocar objetos, viagens e roupas acima de tudo. Talvez porque eu nunca tivesse tido nada disso. Talvez porque, para mim, uma casa simples já seria suficiente. Depois do café, Margo subiu. Valquíria ficou sozinha na sala. Eu pensei em falar com ela. Talvez fosse melhor perguntar diretamente o que estava acontecendo. Afinal, se aquela casa fosse perdida, eu também não teria para onde ir. Aproximei-me devagar. — Valquíria? Ela estava olhando alguns papéis sobre a mesa. — O que você quer? — Posso perguntar uma coisa? Ela não levantou os olhos. — Depende. — Eu ouvi os homens falando sobre uma dívida. Ela parou de mexer nos papéis. — Você estava escutando? — Eu não quis escutar. Mas ouvi. Valquíria finalmente levantou o rosto. — E daí? — Eu só queria saber se estamos com problemas. Ela soltou uma risada amarga. — Estamos? — Sim. — Desde quando você se importa? Fiquei sem resposta. — Eu moro aqui também. Assim que falei aquilo, percebi que havia cometido um erro. Valquíria se levantou lentamente. — Mora aqui? — Sim. — Não confunda as coisas, Celine. — Eu não quis dizer… — Você está aqui porque eu permito. Senti meus olhos arderem. — Eu sei. — Então não venha querer se colocar no mesmo lugar que minha filha. — Eu nunca quis isso. — Quer sim. Sempre quis. — Não é verdade. — Desde criança você olha para tudo que Margo tem. — Eu só queria entender o que está acontecendo. — Você não precisa entender nada. Ela passou por mim, mas parou antes de sair. — E faça o favor de não comentar essa dívida com Margo. — Eu não contaria. Valquíria me encarou. — Você fala demais quando está nervosa. Depois saiu. Fiquei sozinha na sala. Passei as mãos pelo rosto. Eu não queria discutir. Só queria saber se estava segura. Mas, naquele momento, comecei a perceber algo estranho. Valquíria estava desesperada. E uma pessoa desesperada podia tomar decisões que normalmente jamais tomaria. Passei o restante da manhã trabalhando em silêncio. Enquanto limpava a sala, ouvi o telefone de Valquíria tocar novamente. Ela estava no escritório. A porta estava quase fechada, mas sua voz atravessava a madeira. — Eu não tenho esse dinheiro. Silêncio. — Eu preciso de mais tempo. Outra pausa. — Não, ela não pode ser envolvida. Meu coração acelerou. Quem era “ela”? Aproximei-me um pouco, mas ouvi os passos de Valquíria se aproximando da porta. Corri para longe. Fingi estar limpando um quadro. A porta abriu. Valquíria apareceu com o telefone na mão. Quando me viu, ficou imóvel. — O que você está fazendo? — Limpando. Ela olhou para o pano na minha mão. Depois para mim. E então aconteceu algo que me deixou desconfortável. Ela me observou dos pés à cabeça. Não como uma madrasta olhando para uma filha. Não como uma mulher olhando para uma empregada. Foi diferente. Como se estivesse avaliando alguma coisa. Como se estivesse calculando. — Celine. — Sim? Ela continuou me encarando. — Você já pensou em trabalhar fora? Estranhei. — Trabalhar? — Sim. — Eu sempre quis. — E se fosse um trabalho que pagasse muito bem? Meus olhos se iluminaram. — Seria ótimo. Valquíria inclinou a cabeça. — Você faria qualquer coisa para sair daqui? A pergunta me pegou desprevenida. — Eu… faria o possível para ter minha própria vida. Ela ficou em silêncio. Por um instante, achei que finalmente estivesse preocupada comigo. — Eu quero estudar pintura — falei, sem perceber que estava revelando demais. — Quero trabalhar com isso. Ter meu próprio espaço. Talvez uma pequena casa. Valquíria soltou um sorriso que não alcançou os olhos. — Uma pequena casa. — Sim. — Você é muito sonhadora. — Talvez. — Sonhos não pagam contas. A frase me atingiu. — Eu sei. Ela passou por mim. — Continue trabalhando. Fiquei observando enquanto ela se afastava. Alguma coisa naquela conversa não parecia certa. Não era apenas o fato de ela ter perguntado sobre trabalho. Era a maneira como havia me olhado. Como se eu fosse alguma coisa que ela pudesse usar. Tentei afastar aquele pensamento. Talvez eu estivesse exagerando. Talvez estivesse apenas assustada por causa da dívida. No fim da tarde, fui para o meu quarto e peguei meu caderno de desenhos. Sentei perto da janela e comecei a desenhar a paisagem do lado de fora. Precisava respirar. Precisava voltar a ser eu mesma. Meu lápis começou a deslizar pelo papel. Uma árvore. Um caminho. Uma mulher caminhando para longe. Novamente, liberdade. Era sempre assim. Eu desenhava aquilo que não conseguia viver. Quando terminei, fiquei olhando para o desenho. — Um dia — murmurei. — Eu vou conseguir. Foi quando ouvi passos no corredor. A voz de Valquíria chegou até mim. — Margo, venha aqui. Abri a porta alguns centímetros. — O que foi, mãe? — Precisamos conversar. — É sobre a dívida? Meu coração apertou. Valquíria respondeu baixo: — Sim. — Você vai resolver? — Eu vou dar um jeito. — Como? Houve um longo silêncio. Então Valquíria disse algo que não consegui ouvir direito. Margo respondeu: — Você está falando sério? Fechei os olhos. Não sabia o que estava acontecendo. Mas sabia que meu nome tinha sido mencionado. E, quando abri a porta um pouco mais, vi Valquíria olhando diretamente para o corredor. Para o meu quarto. Para mim. O olhar dela não era mais de raiva. Era calculista. Frio. E naquele instante, pela primeira vez, senti medo daquela mulher de uma maneira diferente. Eu não sabia o que ela estava planejando. Não sabia o tamanho daquela dívida. Não sabia quem estava cobrando. Só sabia que, depois daquele dia, alguma coisa havia mudado. E, sem perceber, comecei a ter a sensação de que talvez a dívida de Valquíria não fosse ser paga com dinheiro.📖 Capítulo 125 — Celine narrandoAquela última mensagem não saía da minha cabeça.“Você está procurando pelo homem errado.”As palavras pareciam ter sido escritas dentro da minha mente, repetindo-se sem parar enquanto Adalberto dirigia de volta para casa.Eu segurava o celular com tanta força que meus dedos estavam doloridos.Ao meu lado, Helena permanecia em silêncio.Ela parecia tão assustada quanto eu.Adalberto dirigia em alta velocidade, mas sem perder a atenção da estrada. Gabriel e Henrique vinham logo atrás.Ninguém estava tranquilo.A ameaça havia voltado.E, dessa vez, parecia saber exatamente o que estávamos fazendo.— Adalberto — chamei.— Estou ouvindo.— Você acha que eles vão tentar pegar a prova?— Acho que sim.— Então talvez seja isso que eles estejam procurando.Ele apertou o volante.— É o que eu estou pensando.Olhei para Helena.— Meu pai sabia que isso aconteceria?Ela ficou alguns segundos em silêncio.— Augusto sabia que, depois da morte dele, aquelas pessoas
📖 Capítulo 124 — Adalberto narrandoEu fiquei encarando Helena enquanto o silêncio daquela biblioteca parecia ficar cada vez mais pesado.Ela havia acabado de dizer que conhecia a pessoa daquela gravação.Uma pessoa que estivera naquela reunião com Augusto.Uma pessoa que Celine conhecia.Uma pessoa que, segundo Helena, continuava viva.Eu não tinha mais paciência para meias verdades.Já havíamos perdido tempo demais seguindo pistas incompletas, ouvindo histórias pela metade e descobrindo segredos somente quando alguém era encurralado.Dei um passo à frente.— Chega, Helena.Ela levantou os olhos.— Adalberto…— Você vai me dizer o nome.— Eu preciso explicar primeiro.— Não.Minha voz saiu firme.— Primeiro você vai dizer quem é. Depois explica tudo.Celine estava ao meu lado, segurando minha mão com força.Eu sentia o quanto aquela situação estava mexendo com ela.Por isso mantive minha voz controlada.— Você já escondeu demais dela. Augusto morreu. Pessoas desapareceram. Silas qua
📖 Capítulo 123 — Celine narrandoEu ainda estava tentando processar tudo o que havíamos descoberto quando Henrique colocou a gravação para tocar novamente.A voz masculina preencheu a pequena biblioteca.— Augusto acreditava que seria morto. E estava certo.Meu coração apertou.Eu permaneci imóvel, olhando para o gravador.Aquela voz não era do meu pai.Era de alguém que tinha participado daquela estrutura.Alguém que sabia o que estava acontecendo.Alguém que, aparentemente, conhecia detalhes que poderiam explicar por que meu pai havia sido assassinado.— Continue — pedi.Henrique apertou o botão.A gravação prosseguiu.— Silas nunca esteve no topo. Ele era apenas um homem que executava ordens. Recebia dinheiro, fazia ameaças e resolvia problemas para pessoas que jamais apareciam.Fechei os olhos.Então era verdade.Tudo aquilo que havíamos descoberto sobre Silas era apenas uma parte.— Quem estava acima dele? — perguntei, embora soubesse que ninguém ali poderia responder.A voz con
📖 Capítulo 122 — Adalberto narrandoAquela janela aberta continuava me incomodando.Havia alguma coisa errada naquela casa.Não era apenas o silêncio. Era a sensação de que alguém havia passado por ali pouco antes da nossa chegada e feito questão de deixar alguns sinais para trás.Fiz um gesto para Henrique e Gabriel.— Vamos entrar.Celine permaneceu ao meu lado.— Fique perto de mim — falei baixo.Ela assentiu.Entramos pela porta lateral.O interior da Fazenda Aurora estava coberto por uma camada fina de poeira, mas não o suficiente para esconder as marcas recentes no chão. Havia pegadas espalhadas pelo corredor e algumas gavetas abertas.Chegamos ao escritório.A primeira coisa que percebi foi que havia papéis por todos os lados.Documentos estavam espalhados sobre a mesa, alguns rasgados, outros amassados no chão.Alguém tinha procurado alguma coisa.E não tinha sido uma busca aleatória.Passei os olhos pelo cômodo.— Eles não mexeram em tudo.Henrique se aproximou.— Também per
📖 Capítulo 121 — Celine narrandoA mensagem continuava aberta na tela do celular quando entramos novamente no carro.“Vocês demoraram demais. Nós já estamos aqui.”Eu não conseguia parar de pensar naquela frase.Quem estava dentro da Fazenda Aurora?Como aquela pessoa sabia que nós estávamos indo para lá?E, principalmente, como poderia ter chegado antes de nós?Adalberto parecia ter entrado em um estado de concentração absoluta. Seu rosto estava sério, o olhar atento à estrada e uma das mãos permanecia firme no volante. Henrique seguia logo atrás com Gabriel, enquanto Helena estava no banco traseiro conosco.— Não vamos entrar de qualquer jeito — Adalberto disse. — Primeiro vamos observar.— E se eles estiverem destruindo as provas? — perguntei.— Por isso mesmo precisamos ser inteligentes.— Mas talvez não tenhamos tempo.Ele olhou rapidamente para mim.— Eu sei.Aquela resposta curta me fez perceber que ele também estava preocupado.Não era apenas a possibilidade de existir uma ar
📖 Capítulo 120 — Adalberto narrandoAssim que o áudio terminou, ninguém disse nada.A palavra Santa Aurora continuava ecoando na minha cabeça.Eu tinha aprendido, ao longo dos anos, que coincidências raramente existiam naquele mundo. Quando alguém escondia uma informação, havia um motivo. Quando alguém deixava uma pista, geralmente queria que determinada pessoa a encontrasse.E Augusto havia deixado aquela pista para Celine.O problema era descobrir exatamente onde ele queria que chegássemos.Henrique estava diante do computador, pesquisando tudo o que conseguia sobre Santa Aurora.— Existem três cidades com esse nome — ele informou.— Qual delas aparece relacionada ao Augusto?— Ainda estou verificando.Celine permanecia sentada ao meu lado, segurando a fotografia.Ela passava o polegar pelo rosto do pai.Eu sabia que aquela imagem despertava lembranças nela.— Ele esteve lá — disse Gabriel.Todos olhamos para ele.— Como você pode ter certeza?— Porque eu me lembro de uma viagem.H







