MasukOs gêmeosO galpão ainda cheirava a sangue quando Enrico deu a última ordem e os homens dele começaram a arrastar o corpo de Francesco pelo chão úmido da Sicília. Eu continuei parado por alguns segundos, olhando para o concreto manchado, ouvindo o som áspero das botas rasgando a quietude depois da violência. Aquele lugar estava acabado para Francesco, e para qualquer mentira que ele tivesse trazido com ele. Eu sabia disso. Caelan também. Mesmo assim, ninguém parecia pronto para sair de verdade. Quando a poeira baixou, quando os passos diminuíram e o silêncio começou a tomar conta do galpão, foi como se a cena inteira tivesse aberto uma ferida nova dentro de mim.Eu me chamo Connor Callahan, e naquela noite eu entendi que a nossa caça tinha acabado de mudar de alvo.Francesco estava morto. Mas não morto como o homem que o matou queria que ele fosse lembrado. Morto como alguém que, no último segundo, decidiu entregar a verdade antes de afundar de vez. A voz dele ainda estava presa na mi
EnricoA porta de aço bate atrás de nós com um estrondo seco que ecoa nas paredes úmidas do galpão abandonado. Não tem volta. Francesco cai de joelhos no concreto rachado do centro do cômodo, mãos amarradas atrás, respiração curta e olhos saltando de um canto pro outro como rato encurralado que finalmente sacou que a ratoeira fechou. O cheiro aqui é podre — ferrugem, mofo, mijo seco das últimas execuções. Perfeito pra ele.Não dou ordem pra segurar. Ainda não. Quero ver ele se mexer sozinho, sentir o pavor crescer. Connor fica três passos atrás à minha direita, mãos nos bolsos do paletó, cara de pedra. Caelan encosta no pilar de concreto sujo à esquerda, braços cruzados, mas os olhos já dizem que isso aqui é pessoal. Eles vieram pra assistir. Pra garantir. Mas o primeiro sangue? Esse é meu.Caminho devagar até ele, botas pesadas batendo no chão frio, cada passo marcando o relógio do fim dele. Ele tenta endireitar a postura, ombros pra trás, queixo erguido como se ainda fosse dono de a
Connor— Ele é meu.Não suavizo a voz. Não explico duas vezes. Digo direto e Caelan para onde está, me encarando com aquele olhar de quem já matou por menos. Ele analisa meu rosto centímetro por centímetro, procurando qualquer sinal de que eu estou blefando. Não acha nada. Atrás de mim, Viviane fica parada como uma estátua, postura militar, o vestido preto justo marcando cada curva controlada. O menino se agarra nas pernas dela, dedinhos apertando a meia-calça como se soubesse que o mundo lá fora quer ele morto. Meu filho. O único pedaço de mim que importa nessa merda toda.O ar da sala fede a charuto velho e couro molhado de chuva. Boston não perdoa fraqueza.— Tem certeza absoluta? — Caelan pergunta baixo, voz de quem testa o terreno antes de pisar.— Certeza total. É só você plhar o semblante do menino, ele é a minha cara. Ela não abriu as pernas pra mais ninguém depois de mim.Dou um passo pro lado pra ele ver o menino direito. Os olhos são iguais aos meus — cinza aço, frios desde
DonatelaA brisa da noite entra pela sacada aberta e desliza pela pele do meu ombro, fria e discreta, como se o vento respeitasse o silêncio que eu imponho a tudo ao meu redor. Eu permaneço imóvel, deitada de lado, nua sob o lençol de linho branco, que se estende perfeitamente liso até a beirada da cama, sem uma única dobra fora do lugar. Na minha casa, cada detalhe tem um lugar, até mesmo o caos que eu prefiro não mostrar em público. A cortina leve balança devagar, deixando a lua iluminar a cama, o chão de madeira escura e o espelho na parede, como se o quarto inteiro estivesse esperando que eu tome uma decisão. Eu viro levemente o rosto e meus olhos encontram Victório. Ele está dormindo, de costas, o peito subindo e descendo em um ritmo tranqüilo demais, como se nada que fez ou vai fazer importasse tanto assim. Um sorriso quase imperceptível toca meus lábios. Ele acha. Ele realmente acha que pode brincar comigo, que eu sou apenas uma peça conveniente na montagem dele, uma aliada
VivianeEu não aviso que estou chegando. Não ligo. Não preparo o terreno. Simplesmente atravesso. Os seguranças me acompanham em silêncio absoluto enquanto caminho pelos corredores do prédio de Connor, meus saltos ecoando de forma controlada, firme, como sempre foi… como eu sempre fui. Elegante. Intocável. Inabalável. Pelo menos por fora. Porque, por dentro… eu estou prestes a desmoronar, tão perto da borda que qualquer palavra a mais poderia me derrubar. A porta do escritório se abre sem que eu precise pedir, e eu entro sem hesitar, sentindo o olhar dele imediatamente sobre mim, pesado, curioso, como se ele precisasse decifrar cada detalhe do meu rosto antes mesmo que eu abrisse a boca. Connor se levanta parcialmente da cadeira, confuso. Ele não esperava. Claro que não. Eu nunca apareço assim. Nunca sem avisar. Nunca sem controle. E é exatamente isso que o desconcerta. — Viviane…? A voz dele carrega dúvida, mas também algo mais… algo atento, pe
Franscesco Eles estão demorando tempo demais. Essa história de ficar dependendo dos outros não está dando certo. Eu nem escuto mais falar dos Callahan.Bato com a mão firme em cima da mesa- Maldição! Não é possível que essa porra não possa andar com rápido, eu estou perdendo tudo. Era só precisava ter aceitado o casamento - Passo a mão no meu rosto, impacientes - era só ter dito sim para o Victorio. Agora nem ele mais se digna a me mandar uma porra de uma mensagem pelo celular.Eu encaro o telefone sobre a mesa como se ele fosse me responder por conta própria, como se bastasse pressionar o olhar para que a tela se acendesse, para que o aparelho soltasse algum sinal de vida, algum indício de que ainda existe alguém no mundo que entende quem eu sou, do que sou capaz. Mas não. Nada. Nenhuma ligação. Nenhuma confirmação. Nenhum movimento. Meus dedos batem na madeira, ritmados, impacientes, até que o som começa a me irritar mais do que o próprio silêncio. Cada tique‑tique eco







