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Capitulo 7

last update publish date: 2026-01-23 13:47:18

Arthur Montenegro

Eu não consegui dormir nem um pouco. Encarei o teto como se ele pudesse me trazer respostas. A imagem da minha linda Lindsay parece que se desfazia pela tinta branca atrás da luz incandescente. O silêncio era gutural, mas não me relaxava, alguma coisa gritava na minha mente e eu não conseguia evitar. O que estava acontecendo comigo. Lívia.

O nome dela surgiu sem convite nem permissão, invadiu meus pensamentos e atrapalhou meu momento de silêncio solitário. Uma garota discreta, firme demais para quem deveria somente obedecer. Eu me odiei por pensar nela, ainda mais daquela forma. Pessoas não eram permitidas, eram distrações desnecessárias. Emoções eram erros de percurso e falhas irreparáveis. Eu não deveria me permitir falhar novamente.

Virei de um lado para o outro pela décima vez, mas nada estava adiantando. O sono não vinha e os pensamentos não desapareciam. Aquela sensação de peso no peito não ia embora.

Não era desejo, esse eu conhecia bem. Era bem mais simples, era físico, descartável, mas um sentimento perigoso demais. Era diferente de tudo que eu sentia até agora. Ela despertava algo em mim que havia adormecido a anos. Era desconfortável, uma inquietação que não vinha do corpo, mas de um lugar mais profundo. Eu não poderia permitir isso, essa sensação insana deixa os homens fragilizados e burros e eu não poderia cometer esse erro novamente.

Porém, eu havia cedido… eu permiti o jardim. Um lugar que tinha se tornado inóspito e perigoso. Qualquer presença ali traria de volta a minha dor, a morte da minha esposa. Não… Eu não poderia reviver tudo novamente.

Fiz isso somente pelo meu filho, os olhinhos dele inundado e afirmando que havia se divertido derreteu meu coração gelado, somente por ele. Mas a verdade é que a imagem vinha repetidas vezes na minha mente. Lívia correndo e brincando com Theo aqueceu meu peito, me tirou do limbo, me fez sentir novamente. A imagem de Lívia sentada no chão, ouvindo uma história sem sentido algum, prestando atenção como se nada no mundo fosse mais importante que aquela voz infantil. Lindsay fazia isso, daquela mesma forma, com a mesma entrega silenciosa.

Meu estômago revirou. Tive que me levantar da cama e ir até a cozinha tomar água. Comparações naquele momento eram injustas demais. Ao entrar no labirinto que era o corredor principal entre a sala e a cozinha, eu senti falta dela. Agora eu não consigo definir se de Lindsay ou de Lívia. Que loucura. Decidi que precisava de algo mais forte, fui até a adega e servi um copo com whisky e virei de uma vez. Sentei-me na varanda e fiquei observando o jardim e a imagem de Lindsay e Lívia começou a bagunçar na minha cabeça.

— Papai?

Ouvi uma voz infantil e arranquei-me da cadeira. Era como se eu tivesse visto um fantasma. Minhas mãos congelaram. Era Theo, ao meu lado, olhando na mesma direção que eu. Ele segurou minha mão e esperou que eu respondesse.

— O senhor não conseguiu dormir? — ele perguntou, já que eu não tinha dito uma única palavra.

Minhas mãos estavam suadas e meu corpo ficou estatelado. Pela primeira vez em muito tempo eu fiquei sem saber o que dizer e como reagir.

— Não, filhão. Papai está sem sono — virei-me e o peguei no colo — mas o que está fazendo aqui? A babá não deixou você dormindo no seu quarto?

— Sim, papai. Mas eu tive um pesadelo.

— Ainda bem que era só sonho, não é? Quer me contar como foi? Eu posso ir lá destruir esse monstro bobo para você — falei de forma mais sensível que eu conseguia, naquele momento minha luta era interna, mas pelo meu filho eu conseguia me transformar.

— Sonhei que a mamãe apareceu e mandou nossa babá embora. Eu não quero que ela vá embora, papai. Eu gosto da Lívia.

As palavras de Theo me desmontaram por inteiro. O homem forte e autoritário tinha se tornado literalmente uma gelatina. Meus olhos inundaram e um nó se formou em minha garganta, mas eu não podia mostrar fraqueza na frente do meu filho, o que ele pensaria de um papai chorão.

— Filho… — pausei para que minha voz se recolocasse — a babá Lívia não vai a lugar nenhum, está bem? A não ser se ela seja má com você.

— Não, pai. Ela não é má. Ela é muito boa comigo e eu gosto dela.

— Então, está combinado. Amanhã ela estará aqui bem cedo para cuidar de você, mas para isso, você precisa dormir para ter bastante energia para brincar com ela. Está bem?

Ele assentiu e abraçou seu cobertor como sempre dormia, agarrado na cobertinha dele. Eu dei um beijo no meu garoto que pegou logo no sono. Não sei o que aquilo significava, mas eu tenho certeza de que era um sinal importante sobre os meus sentimentos para com a Lívia. Mas eu precisava calcular com cuidado os próximos passos da minha decisão, eu não podia mais errar. Deite-me e cochilei.

Levantei-me antes do dia clarear, me arrumei para o trabalho. Trabalho era meu refúgio. Onde eu era o CEO, onde tudo fazia sentido e as regras funcionam e eu era respeitado. Vesti o terno com precisão, impecável como sempre, ajeitei os punhos e conferi o relógio. Estava pronto. Arthur Montenegro, o homem que o mundo respeitava.

Ao passar pelo corredor, vi a porta do quarto de Theo entreaberta. Precisei conferir, por um impulso instintivo, quase irracional. Theo dormia profundamente agarrado no seu cobertorzinho velho que Lindsay tinha comprado para ele quando ainda era um bebê. Seu rosto estava relaxado, sem aquela tensão constante que eu já conhecia, parecia sorrir. Ele estava em paz, uma paz recente. E eu sabia exatamente quem era responsável por aquilo.

Meu peito apertou novamente. Aquela mulher estava desarmando a minha fortaleza, tijolo por tijolo, sem sequer perceber. E isso me aterrorizava, mais do que qualquer escândalo empresarial jamais poderia.

Fui para a empresa, entrei antes de todo mundo. Sentei-me na cadeira do escritório, revisei e-mails, fiz duas ligações internacionais, conferi alguns contratos. Mas não, nada disso funcionou, minha mente estava em outro lugar. Insistia em me levar até Lívia e a forma como ela me olhava profundamente, me despindo sem sequer encostar a mão em mim. Como ela havia me enfrentado sem medo, sem submissão, sem interesse aparente em agradar. Ela não queria nada de mim, pelo menos era o que suas atitudes diziam. Será que Lívia tinha algo escondido que eu não podia saber? Eu precisava pesquisar a vida dela. Seu jeito sensível, cuidadoso, calmo, a fazia muito mais perigosa.

Na hora do almoço dei uma olhada nas câmeras da casa e lá, na área externa, no jardim proibido, Theo corria de um lado para o outro, dando vida aquele lugar que eu tinha condenado ao silêncio. Lívia estava lá, atenta e cuidadosa, presente sem sufocar. Desviei o olhar da tela com irritação. Eu não precisava daquilo, não precisava dela. Isso iria passar, pessoas sempre passam, sentimentos sempre acabam. Eu só precisava manter distância, lembrar quem eu era e reforçar os limites.

Mas a verdade me trouxe para realidade novamente. Eu já tinha cruzado essa linha quando comecei a observar ao invés de ordenar. Fechei os olhos rapidamente sem conseguir decifrar o que sentia. Não era amor, era medo.

Medo de sentir, medo de perder, medo de descobrir que apesar de todo o controle, ainda havia um homem em mim, capaz de desejar uma vida que não fosse feita apenas de números, regras e silêncio.

Lívia Rocha não era a solução. Ela era um risco e pela primeira vez em toda minha vida eu não tinha certeza se queria evitá-lo.

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