LOGINA casa era tão grande que eu continuava com a sensação de que, se me perdesse ali dentro, só me encontrariam na próxima temporada de um reality show, provavelmente já eliminada, porque ninguém teria paciência de procurar por mim. Márcia, a governanta, andava devagar, explicando cada cômodo com uma calma de quem conhecia aquele lugar como a palma da mão, e eu… bem, eu mal lembrava o caminho de volta pra cozinha.
— Aqui é o quarto dos pequenos — disse ela, abrindo uma porta branca que parecia ter sido polida cinco minutos antes.
Entrei e quase deixei escapar um “uau”. O quarto era literalmente digno de revista de decoração, mas a versão vida real, com um toque generoso de caos infantil. Brinquedos pelo chão, roupas largadas como se fugissem de algum monstrinho do armário, meias perdidas num nível que eu jurava ouvir gritos de socorro vindo delas.
— Eles não gostam muito que mexam no espaço deles — explicou Márcia, entregando-me uma prancheta com folhas plastificadas. — Essa é a rotina. Horários de lanche, tarefas, momentos de descanso, atividades. O senhor Monteiro gosta de tudo organizado.
A forma como ela disse “senhor Monteiro” quase exigia que eu fizesse uma reverência. O nome parecia carregar um peso, um status, um “se prepare porque ele não aceita menos do que perfeito”. E pior… combinava com o homem.
— Ele gosta mesmo, né? — murmurei, passando os olhos pela rotina.
— Ele exige. — Márcia suspirou. — E exige muito. Mas não se preocupe, você se adapta rápido.
“Adapta rápido.” Claro. Eu, Eliza, sobrevivente de mudanças caóticas, recém-chegada na cidade, encarando um castelo cujo dono parecia ter sido treinado para achar defeito até na sombra das pessoas.
— Esse quarto era pra ser só do Lucas, mas eles gostam de ficar juntos. O quarto da Alice é o do lado, mas eles quase não usam — ela explicou.
Aquilo acendeu um alerta silencioso dentro de mim. O “quase não usam” não era sobre mania infantil. Era sobre necessidade. Sobre medo. Sobre apego.
Quanto mais Márcia falava, mais eu entendia que aqueles dois pequenos tinham o olhar de quem já perdeu mais do que qualquer criança deveria perder.
Seguimos para o banheiro, impecável mas cheio de bancadas lotadas. Depois, o closet, gigantesco, lotado de roupas caríssimas, a ponto de realmente merecer seu próprio CEP.
De volta a sala de brinquedos, a sala tão abastecida que poderia sustentar uma pequena creche. Lucas e Alice me observavam com a cautela de dois animaizinhos ariscos, sempre grudados um no outro, sempre atentos a cada movimento meu. Eu era o território desconhecido, a estranha, a recém-chegada que talvez fosse embora como as outras.
— Eles são bons, viu? — Márcia disse antes de sair. — Só… quietos. Você vai pegando o jeitinho deles.
E me deixou ali. Com duas crianças desconfiadas. E uma casa inteira me testando.
Respirei fundo, arregacei as mangas, e decidi que, se fosse pra eles fugirem de mim, então pelo menos fugiriam em um ambiente organizado.
Comecei pelo quarto: juntei brinquedos, dobrei roupas, tirei um carrinho debaixo da cama (ele quase me derrubou quando tentei puxá-lo), arrumei a escrivaninha, endireitei travesseiros… tudo com cuidado, sem mexer demais, sem tocar no que parecia importante pra eles. Eu queria deixar arrumado, não militarizado.
Depois, enfrentei a sala de brinquedos. Ali sim foi guerra. Bonecos jogados, pecinhas de montar até dentro do puff, carrinhos posicionados como se tivessem parado no meio de um trânsito imaginário. Organizei tudo por cor, tamanho e tipo, se isso era capricho ou autodefesa, só Deus sabe.
Às três, preparei o lanche seguindo religiosamente a rotina: fruta, fibras, carboidrato leve, leite ou suco natural. Lucas e Alice comeram em silêncio absoluto. Sem desviar muito o olhar da comida. Sem sequer arriscar uma piadinha infantil. Eu tentava sorrir, ser gentil, fazer comentários leves… e eles se encolhiam, como se qualquer palavra pudesse virar problema.
Era uma casa grande demais para tanto silêncio.
Quando deu seis e vinte, estávamos todos na sala. As crianças no tapete assistindo desenho, eu no sofá, atualizando a Ângela via mensagens e dando aquela conferida básica na rotina do dia seguinte.
Mas então a porta abriu.
E o mundo dos pequenos desabou num segundo.
Lucas e Alice ficaram rígidos, ageitaram a postura. Ombros encolhidos. Olhos fixos na TV, sem piscar. O tipo de modos que ninguém deveria ter diante do próprio pai.
Meu coração apertou de um jeito que eu não esperava.
Rafael entrou primeiro, alto, impecável, postura perfeita, olhar cortante. Ele simplesmente preenchia a sala como se fosse dono do ar. Atrás dele, um homem sorridente. Simpático. Um contraste tão forte que até doeu.
— Boa tarde, campeões! — o homem disse.
Lucas levantou a mão timidamente. Alice abriu um sorriso e correu para abraçá-lo. E só pela reação, eu sabia: aquele sim era um porto seguro.
Rafael observou a cena, mas não disse nada. Seus olhos voltaram para mim, depois para o celular na minha mão. E então veio o ataque.
— Isso aqui é hora de trabalho, não de lazer.
Eu sorri educadamente, ativando meu modo “não vou brigar com meu chefe no primeiro dia”.
— As crianças estão assistindo ao desenho. Eu só estava conferindo a rotina de amanhã.
Ok, mentira. Mas a fofoca da Ângela não precisava entrar na conversa.
Ele estreitou os olhos. Caminhou um passo na minha direção.
— Já arrumou a sala de brinquedos? Estava uma zona aquele lugar.
Sério? Eu tinha passado quase meia hora lá dentro lutando contra um apocalipse de brinquedos.
— Sim, senhor. Tudo arrumadinho.
— E o quarto? Não quero ver roupa fora do lugar.
— Tudo no seu devido lugar — respondi com um sorriso impecável. — Fique à vontade para fazer a vistoria.
O ar perdeu temperatura. Eu e minha boca grande.
Os olhos dele brilharam de um jeito estranho, irritado, sim, mas também… curioso. Como se ele não estivesse acostumado a alguém que respondia. Como se eu fosse um erro de cálculo.
O amigo dele riu baixo, claramente se divertindo.
— Cara, pega leve — disse ele, vindo até mim e estendendo a mão. — Sou Henrique. Não liga pra ele, não. Rafael é insuportável, mas não morde.
Henrique tinha aquele jeito que deixava qualquer pessoa relaxada. Rafael… era o oposto absoluto disso.
Rafael revirou os olhos, ignorou o comentário, e então voltou a focar em mim. Ele deu mais um passo. Depois outro.
Eu continuei sentada, mas minha espinha estava reta como uma régua. Meu coração, no entanto, estava fazendo batuque de escola de samba.
Ele parou tão perto que eu senti o ar ao redor mudar.
Se inclinou ligeiramente, a voz baixa, firme, cortante:
— Não se acostume a falar comigo desse jeito.
E o problema não foi a frase.
Foi o tom.
Aquilo… não era só irritação.
Era outra coisa. Algo que eu ainda não sabia nomear. Algo que poderia ser muito pior.
Ou muito, muito melhor.
Rafael*Por alguns segundos, eu simplesmente fiquei olhando para ela. Talvez porque uma parte de mim ainda estivesse tentando acreditar.Eliza sorriu daquele jeito tímido que sempre me desmontava.Eu ainda tinha muito a aprender, e ela ainda tinha feridas que levariam tempo para cicatrizar. Mas, pela primeira vez, não parecia que estávamos lutando um contra o outro, estávamos do mesmo lado.Levei uma das mãos ao rosto dela e acariciei sua bochecha.— Então agora você é minha namorada?Ela revirou os olhos.— Eu disse sim neh.— Só estou confirmando.— Ta confirmado.Sorri, e ela riu. Aquele som aqueceu alguma coisa dentro de mim.Passei os braços ao redor de sua cintura e a trouxe para mais perto. Ela apoiou as mãos em meu peito, e por alguns instantes ficamos apenas nos olhando.Sem medo, sem dúvidas, sem a sensação de que um de nós precisava fugir.— Eu vou errar às vezes — admiti.— Eu também.— Mas a gente vai aprender junto.Ela assentiu.— E eu quero tentar confiar.Aquilo signi
Permanecemos abraçados por vários minutos.Eu não sabia exatamente quanto tempo tinha passado. Naquele momento, nem fazia diferença. Pela primeira vez desde que aquela conversa começou, eu não estava tentando me proteger. Não estava escolhendo palavras com cuidado nem procurando sinais de que precisava recuar. Apenas estava ali.Quando me afastei um pouco para enxergá-lo melhor, percebi algo que me surpreendeu.Os olhos de Rafael estavam vermelhos.Não era por minha causa apenas.Havia lágrimas ali também.— Você está chorando?Um sorriso pequeno apareceu em seus lábios.— Acho que sim.A resposta me arrancou uma risada suave, e aquilo pareceu aliviar um pouco a tensão que ainda restava no ambiente.Rafael abaixou os olhos por alguns segundos antes de voltar a me encarar.— Me desculpa por te fazer lembrar dele. Eu realmente não queria isso.Ele balançou a cabeça.— Eu sei.— Você sabe como começou essa minha vontade por controle?A voz saiu baixa, mas firme. Fiz que não com a cabeça,
Eu o encarei ainda mais confusa, aquilo não fazia sentido.Não tinha sido isso que eu quis dizer. Em nenhum momento eu pedi que ele fosse apenas meu chefe, que mantivesse distância ou que fingisse que não existia nada entre nós.— Eu te peço desculpas por ter me metido num assunto seu. Não vou fazer isso de novo.As palavras dele não vieram carregadas de raiva. Vieram carregadas de cansaço, e talvez por isso tenham me machucado mais.— Mas eu não disse que era para você ser só meu chefe.Rafael soltou o ar devagar e passou a mão pelos cabelos antes de se sentar na beirada da cama. Pela primeira vez desde que entrou naquele quarto, ele desviou os olhos dos meus.— Eu estou tentando entrar na sua vida, Eliza. Eu gosto de você. Não estou falando de alguns beijos escondidos quando ninguém está olhando. Não estou falando de uma coisa passageira.Ele ergueu os olhos novamente.— Eu quero você na minha vida de verdade. E queria fazer parte da sua também. Só que, para mim, isso significa esta
Eu falei com Rafael sobre o trabalho do Lucas, me deu vontade de abraça-lo, beija-lo, mas não podia, tenho que decidir o que quero primeiro, se eu poderei lidar com ele ou não.O resto da tarde foi tenso, como todos os ultimos dias, a falta que ele me faz é realmente bem perceptivel, talvez eu esteja sendo teimosa, ou talvez racional demais, mas é isso que preciso agora.Estava deitada na minha cama, mexendo no celular e Angela entrou no quarto.— Agora chega, você vai ter que falar comigo.— O que?— Desde segunda você está assim, triste, eu te pergunto o que aconteceu você fala nada, mas eu sei que você e o Rafael brigaramSuspirei.— Você e o Henrique andam conversando muito heim.— Não desvia do foco.Contei a ela sobre a nossa discussão, ele ter ido falar com Eduardo, a ligação, tudo.— Ele simplesmente... parou.Angela arqueou uma sobrancelha.— Parou o quê?— De vim atras de mim.Ela me observou por alguns segundos.— E isso te incomodou?Abri a boca para responder.Fechei.Ang
Eliza*Fiquei parada na biblioteca por alguns segundos depois que Rafael saiu.A porta fechou atrás dele e o silêncio pareceu maior do que deveria.Fiquei ali, as lagrimas cairam, eu precisava respirar, precisava pensar. Meu coração ainda estava acelerado, a marca no olho de Rafael em minha mente, a confirmação de que ele foi falar com Eduardo.Por que ele fez aquilo? Eu nunca tinha pedido ajuda. Nunca pedi que resolvesse algo, nem contei o que aconteceu ou o que Eduardo está fazendo agora, vindo atras de mim insistentemente. Nunca pedi que enfrentasse o Eduardo por mim.E mesmo assim ele foi. Tomando uma decisão sozinho. Achando que sabia o que era melhor.Meu peito apertou.Durante anos eu ouvi Eduardo dizer que estava me protegendo, que sabia o que era melhor, que fazia certas coisas porque me amava. No começo parecia cuidado, mas depois virou controle.E quando Rafael atravessava alguns limites, por mais diferentes que fossem as intenções, aquela memória despertava.Talvez fosse i
Respiro fundo e olho para Eliza parada em frente a porta.— É sobre o trabalho do Lucas.Levantei os olhos do notebook.— Sobre o que é o trabalho?— Profissão dos pais.Assenti pegando as folhas.— Eu mesmo ajudo ele hoje à noite.— TaEla permaneceu parada ali, parecia esperar que eu falasse algo.— É só isso?— Sim— Ok. Obrigado por avisar. Até mais tarde— AtéEntreguei as folhas pra ela e me virei, sai respirando fundo, minha vontade era agarrar e beijar ela até perder o folego.***No fim da tarde, quando cheguei em casa, encontrei as crianças e Eliza no lugar de sempre, Alice e Lucas vieram me dar um abraço como faziamos todos os dias agora, e Eliza apenas me olhou. Acenei um boa tarde pra ela e me voltei pra Lucas.— Vou tomar um banho ai fazemos seu trabalho ta?— Ta bomMais quieta que o normal.Eliza se levantou pegando sua bolsa no sofá.— Eu já vou indo.Assenti apenas e sai subindo as escadas, não vi como ela reagiu.Tomei um banho, me arrumei e desci, Lucas já estava c







