MasukInclinei minha cabeça devagar, dando a ela cada milésimo de segundo para sentir minha aproximação. Quando meus lábios finalmente tocaram os dela, o mundo exterior desmoronou.
O beijo foi inicialmente suave. Seus lábios eram incrivelmente macios, e ela estava imóvel, tensa, sem saber como fazer. Eu os massageei com os meus, com uma paciência que nem sabia que possuía. Minha mão soltou a dela e subiu até seu rosto, acariciando sua mandíbula, incentivando-a a relaxar. Ela começou a responder. Seus lábios moveram-se contra os meus, desajeitados, inocentes e absolutamente intoxicantes. Era o beijo mais puro e mais ardente que já tinha experimentado. Ela se soltou, suas mãos saíram da bancada e se agarraram às lapelas do meu terno, como se estivesse se afogando e eu fosse seu salva-vidas. E então, algo mudou. Um pequeno gemido saiu de sua garganta. Quebrei o beijo por um segundo ofegante, me afastei uns centímetros, olhei nos olhos dela e dei uma mordidinha de leve no seu lábio inferior. — Não geme assim, coelhinha — sussurrei, meu fôlego quente contra sua pele. — Se continuar, vou perder o controle. Um sorriso lento e provocante surgiu nos lábios dela. Agarrei sua cintura com as duas mãos e puxei ela contra mim de uma vez; não havia mais um milímetro de espaço entre a gente. Ela se encaixou perfeitamente, um suspiro preso escapando quando nossos corpos colidiram. Voltei a beijá-la, dessa vez com a língua, sem nenhuma cerimônia, dominando completamente sua boca. Era um beijo de posse, e ela correspondia com a mesma intensidade, as mãos subindo do meu terno para se enterrar nos meus cabelos, puxando com uma urgência que me deixou tonto. Quando nos separamos, ambos estávamos sem ar. Nossas testas se tocaram, e nossas respirações ofegantes ecoaram na cozinha silenciosa. Seus olhos estavam ainda fechados, seus lábios vermelhos, marcados pelos meus. Ela estava desorientada, transformada. O assobio agudo da chaleira irrompeu como um alarme, nos arrancando brutalmente da nossa bolha. Ela se afastou de um salto, levando as mãos à boca, tentando disfarçar o que acabara de acontecer. Seus olhos piscaram rápido antes de se voltarem para a porta. Me afastei, ajustando meu terno, recompondo minha expressão para a máscara de homem sério. Mas alguma coisa dentro de mim havia mudado para sempre. A caça terminara; a conquista, de verdade, começara. Peguei a chaleira, desliguei o fogo e comecei a preparar o chá com mãos firmes, como se nada tivesse acontecido. — Melhor levar isso para eles. Antes que venham nos procurar — disse, minha voz de volta ao tom contido, mas com um brilho nos olhos que só ela podia ver. Ela me olhou, ainda atordoada, e pegou o bule que enchi. Nossos dedos se tocaram novamente, e outra centelha percorreu a nós dois. Bruna saiu primeiro, de cabeça baixa, tentando conter a tempestade que eu havia despertado nela. Fiquei para trás por um momento, sozinho na cozinha, levando os dedos aos meus lábios, ainda sentindo o gosto dela. A respiração ainda estava um pouco acelerada, o sangue cantando nas veias. Aquele beijo tinha sido mais intenso do que qualquer noite de libertinagem que já tivesse tido. Um sorriso lento e verdadeiro surgiu em meu rosto. Agora, o jogo tinha começado de verdade. Ajustei o nó da gravata, alisei o tecido do terno e expirei fundo, expulsando o último resquício do homem real para trazer de volta a farsa. "Patrick Lisboa" estava de volta, com sua postura contida e seu sorriso polido. Abri a porta da cozinha e segui pelo corredor, o som das vozes na sala crescendo a cada passo. Ao entrar, o cenário era quase cômico. Bruna estava sentada rigidamente no sofá, o bule de chá na mesa à sua frente. Suas mãos estavam firmemente entrelaçadas no colo. Ela não olhava para ninguém; a fixação em sua xícara vazia era quase patética. — Patrick, voltou! — a voz da minha madrasta cortou o ar. — Foi tão gentil em ajudar a futura noivinha. Sentei-me ao lado de Bruna, mantendo uma distância respeitável, mas o sofá era pequeno o suficiente para que a barra do meu terno roçasse no vestido bege dela. — Não foi nada. A senhorita Bruna já tinha tudo sob controle — disse, minha voz o epítome da cortesia. — Apenas busquei umas colheres de sobremesa que estavam na gaveta. — A mentira saiu suave e convincente. Paula sorriu gentilmente, colocou a xícara no pires com um clique delicado e olhou para Bruna e depois para mim, seu rosto se abrindo em um sorriso. — Sabe de uma coisa, Miguel, Vera? — ela começou, sua voz melíflua cortando o ar. — Estou olhando para eles agora, sentados aqui... e que par lindo eles formam. Não acham? A tia da Bruna pareceu quase desmaiar de satisfação. — Sim! Realmente, são duas almas jovens tão... tão alinhadas com os valores da família. O senhor Miguel assentiu com gravidade, seu olhar crítico passeando de mim para Bruna, avaliando. — É a verdade. Um casal abençoado. Deus certamente uniu essas duas almas. Cada palavra era um prego no caixão da liberdade dela. E cada prego me enchia de um prazer obscuro e possessivo. Eles estavam literalmente me entregando o que eu mais queria. — Obrigado. Vocês são muito bondosos — eu disse, baixando a cabeça em falso agradecimento, interpretando perfeitamente o papel do noivo modesto. — A senhorita Bruna que é uma jovem de rara beleza e virtude. Sua família deve ter muito orgulho. A tia da Bruna sorriu, satisfeita. — Vocês realmente formam um belo casal, Patrick. Parecem feitos um para o outro. Arrisquei um olhar para Bruna. Ela estava corada, não de prazer, mas de angústia. Suas mãos estavam brancas de tão entrelaçadas. A visita, finalmente, chegou ao fim. As despedidas foram longas e cheias de promessas de novos encontros. Apertei a mão do senhor Miguel com firmeza, cumprimentei a senhora Vera com um leve aceno. Quando me virei para Bruna para a despedida formal, nosso último ato, segurei sua mão gelada por um segundo a mais do que o necessário. Ela mal conseguiu olhar para mim. — Até muito em breve, senhorita Bruna — disse eu, minha voz polida, mas com uma pressão nos dedos que transmitia uma mensagem completamente diferente: Você é minha. — Até... até logo — ela sussurrou, retirando a mão como se eu a queimasse. Saí da casa deles com a minha madrasta, me sentindo realizado.Caio Silva Rocha Nunca tinha sentido tanta raiva na minha vida. Estava jogado no sofá da sala da mansão, com uma garrafa de cerveja na mão e os olhos fixos em algum ponto da parede. Ao meu lado, Luan parecia tão furioso quanto eu. Já Patrick estava sentado na poltrona à nossa frente, bebendo calado, como se ficar de boca fechada fosse resolver alguma coisa. O relógio da parede marcava quase duas da manhã. Peguei mais uma cerveja no balde de gelo, arranquei a tampinha com os dentes e dei um gole longo enquanto lembrava em como Bruna tinha sido fria. Tão fria que parecia outra pessoa. Aquela coelinha que a gente conhecia, que sempre olhava pra gente com carinho, simplesmente não estava mais ali. — A gente perdeu. Perdermos a nossa Coelhinha... — falei, olhando pro teto e soltando uma risada seca, cheia de raiva. — Eu não vou suportar isso. Vou enlouquecer. Não tô brincando. Luan balançou a cabeça, encarando o n
Bruna Marques Assim que o Patrick passou pela porta da sacada e desapareceu na escuridão da árvore junto com Luan e Caio, me aproximei da porta de vidro com as mãos tremendo. Girei a tranca com pressa e fechei as cortinas. Minhas pernas perderam a força. Levei as mãos à boca, mas não consegui segurar o choro. Caí de joelhos ao lado da cama, sentindo toda aquela dor que eu vinha tentando engolir desabar de uma vez. Estava com tanta raiva, tanto medo, mas a verdade mais dolorosa de todas era que ver os três ali, de tão perto, tinha reacendido uma chama que eu estava tentando apagar a todo custo. Eu ainda amava aqueles três idiotas. Enxuguei as lágrimas com as costas das mãos, tentando respirar fundo enquanto os soluços altos e descontrolados saíam da minha boca. — Por que tinha que ser tudo tão difícil? — Bruna? — A voz abafada do tio Miguel veio do outro lado da porta, acompanha
Patrick Silva Rocha A noite finalmente chegou, mas a nossa cabeça já estava uma bagunça completa. Depois de virar algumas garrafas de bebida pra tentar anestesiar a dor da culpa, nós três fomos direto para a casa dos tios da Bruna. A gente sabia o caminho de cor. O problema foi subir naquela maldita árvore; com o álcool pesando no sangue e as pernas meio trôpegas, quase fomos pro chão umas duas vezes. Mas a necessidade de ver o rosto dela era maior do que qualquer tombo. Luan quase caiu ao pousar na grama do quintal e soltou um xingamento baixo. — Cala a boca, porra — sussurrei, puxando ele pelo casaco. Subi primeiro, segurando nos galhos grossos. Meus pés escorregaram duas vezes na casca da árvore por causa do álcool, mas alcancei a grade do balcão da sacada e me puxei pra cima. Caio veio logo atrás, e Luan subiu por último, resmungando o tempo todo. A porta de vidro da sacada estava encostada, empurrei devagar. O quarto dela estava no breu absoluto. Entramos os três na pon
Luan Silva Rocha Girei a chave na fechadura e empurrei a porta pesada da entrada. Assim que pisei no hall com o Caio do meu lado, senti algo diferente no ar. Um cheiro forte de uísque. Era nem cinco da tarde e o Patrick já estava acabado no sofá da sala, com a garrafa pela metade na mesa de centro e um copo na mão. — Puta que pariu, Patrick. Cinco da tarde e você nesse estado? — Caio resmungou, jogando o paletó no braço da poltrona. Patrick nem se mexeu direito. Só levantou os olhos vermelhos, encarou a gente com um sorriso amargo e deu mais um gole longo. Depois, apontou com a cabeça pro chão perto do tapete. — Pedido de divórcio. — a voz dele saiu arrastada, grossa por causa do álcool. — Ela já assinou. A Bruna assinou. Tá tudo terminado, caralho. Eu travei no meio da sala, Caio parou do meu lado, o olhar fixo naqueles papéis no chão. Por mais que a gente soubesse que as coisas tinham ido pro buraco, ouvir aquilo com todas as letras doeu de um jeito desgraçado. A nossa Coelhi
Patrick Silva Rocha A mansão estava num silêncio incômodo quando desci para a sala de estar. O relógio no corredor já marcava dez da manhã. Luan e Caio haviam saído para a empresa mais cedo, deixando para trás aquele clima pesado que tinha virado rotina entre a gente desde que tudo fugiu do controle. Fui até a cozinha para pegar um café, mas a campainha da entrada me fez parar no meio do caminho. Fui até a entrada da mansão, onde o carteiro do condomínio me esperava, aquele mesmo que sempre passava no mesmo horário fazendo as entregas das casas. — Bom dia, Sr. Patrick. Tenho uma correspondência para o senhor. Preciso da sua assinatura aqui, por favor — disse, me entregando a prancheta com a caneta. Assinei o comprovante sem dar muita atenção, pegando o envelope pardo pesado com o carimbo oficial. Assim que li o remetente e o timbre da vara de família, meu estômago deu um nó. Rasguei o papel de qualquer jeito e tirei as folhas dali de dentro. Quando vi o título em destaque no t
Bruna Marques Mais um dia começava exatamente do mesmo jeito. Me levantei devagar, tomei banho e vesti uma saia longa de tecido grosso, pus a blusa fechada até o pescoço e amarrei o cabelo num coque bem firme. Não tinha opção. Sob o olho clínico do meu tio Miguel, até um fio de cabelo solto podia virar motivo para uma bronca sobre modéstia e vaidade. Desci as escadas para a sala de jantar achando que seria só mais uma manhã normal, pronta para aguentar aquela oração interminável antes do café. Mas, assim que pisei no último degrau, notei que o clima estava estranho. Meus tios já estavam à mesa, mas acompanhados por um homem que nunca tinha visto antes. Ele vestia um terno impecável e segurava uma pasta de couro preta. — Bom dia — falei baixinho, abaixando a cabeça para não encarar ninguém direto. — Bom dia, Bruna. Sente-se — o tom do tio Miguel veio firme, sem espaço para pergunta







