LOGINEla não se lembrava de tudo. Na verdade, havia coisas que seu próprio corpo parecia se recusar a esquecer, mesmo quando sua mente insistia em apagar. Um olhar que provocava uma sensação estranha de reconhecimento. Um lugar que parecia familiar demais. Uma música que fazia seu coração acelerar sem que ela soubesse por quê. E, principalmente, dois homens. Dois homens completamente diferentes, ligados a partes de sua vida que ela não conseguia reconstruir. Um despertava nela uma segurança quase inexplicável. O outro trazia uma atração perigosa, intensa, impossível de ignorar. Mas havia algo ainda mais perturbador: os dois pareciam saber sobre ela coisas que ela mesma havia esquecido. Conforme pequenas lembranças começam a surgir, a protagonista percebe que sua história não começou onde ela acreditava. Existem segredos, escolhas feitas por outras pessoas e acontecimentos que foram cuidadosamente escondidos dela. Alguém apagou partes do seu passado. E quanto mais ela tenta descobrir o que aconteceu, mais percebe que talvez a pergunta não seja apenas "o que aconteceu comigo?" Talvez seja: "O que fizeram para que eu esquecesse quem eu era?" Entre sentimentos que desafiam a razão, verdades enterradas e um passado que insiste em voltar, ela precisará decidir em quem confiar. Porque talvez um dos dois homens seja o amor que ela perdeu. Talvez o outro seja a pessoa que sabe exatamente por que ela o perdeu. E talvez a verdade sobre os três seja muito mais perigosa do que qualquer mentira.
View MoreNa noite em que Helena Duarte descobriu que seu casamento tinha acabado, ela ainda não sabia que aquele seria apenas o primeiro de três homens que mudariam sua vida.
O primeiro estava sentado diante dela. O segundo entraria em sua vida seis meses depois. E o terceiro... O terceiro ela só conheceria quando já fosse tarde demais para voltar atrás. Mas naquela noite, aos trinta e um anos, Helena só conseguia pensar em uma coisa. Como alguém podia olhar para você com tanta ternura enquanto destruía tudo o que vocês haviam construído? O restaurante estava quase vazio. Era uma quinta-feira chuvosa em Londres, e as janelas altas do pequeno restaurante italiano em Notting Hill estavam cobertas por pequenas gotas que distorciam as luzes da rua. Do lado de fora, pessoas passavam apressadas, escondidas sob guarda-chuvas escuros. Helena estava sentada diante de Daniel. O homem com quem havia dividido sete anos da própria vida. O homem que conhecia a maneira como ela tomava café, sabia que ela odiava dormir com a porta do quarto aberta e tinha sido a primeira pessoa a ouvir Helena dizer, ainda aos vinte e quatro anos, que queria construir uma carreira que fosse somente dela. Daniel mexeu no copo de vinho. Não bebeu. — Você não vai dizer nada? Helena olhou para ele. — O que você quer que eu diga? — Qualquer coisa. Ela soltou uma risada baixa. Não porque achasse graça. Era aquele tipo de riso que aparecia quando o corpo não sabia mais como reagir. — Você acabou de me dizer que está apaixonado por outra mulher, Daniel. Ele baixou os olhos. — Eu sei. — Então não sei exatamente o que você espera que eu diga. — Eu não queria que acontecesse assim. — Como você queria? Silêncio. Helena inclinou a cabeça. — Estou perguntando sério. Daniel respirou fundo. — Eu queria que fosse diferente. — Diferente como? Ele finalmente a encarou. — Eu queria continuar amando você. A frase doeu mais do que Helena esperava. Porque era justamente isso que ela não conseguia entender. Como alguém podia simplesmente parar de amar de uma hora pra outra? Ela passou os dedos pela borda do guardanapo. — Você ainda me ama? Daniel demorou alguns segundos. — De uma maneira diferente. Helena fechou os olhos. Ali estava. A frase que acabaria aparecendo em seus pesadelos durante meses. “De uma maneira diferente.” Como se sete anos pudessem ser colocados numa gaveta diferente. Como se amor tivesse categorias. Como se fosse possível acordar numa segunda-feira e decidir que aquela pessoa que conhecia cada detalhe seu, agora pertencia ao passado. — Quem é ela? Daniel não respondeu. — Daniel. — Não importa. — Para mim importa. — Você não conhece. — Então me diga quem é. Ele respirou fundo. — Sophie. Helena assentiu lentamente. Sophie. Um nome. Era tudo que ela tinha. Um nome e uma certeza. Seu casamento tinha terminado. O que Helena ainda não sabia era que Sophie não seria a mulher que destruiria sua vida. Na verdade, meses depois, Sophie seria uma das poucas pessoas em quem Helena confiaria. E esse seria apenas um dos muitos erros que ela cometeria. Porque, às vezes, a pessoa que parece destruir tudo é apenas a primeira peça de um jogo que começou muito antes de você chegar. Dali em diante tudo seria diferente.— Mãe? — Helena repetiu a palavra como se ela tivesse sido dita em uma língua completamente desconhecida, a voz falhando diante do impacto.Rafael continuava estático diante da televisão desligada, a tela refletindo as sombras do apartamento.— Quem era? — perguntou ele, virando-se devagar.— Eu não sei.— Qual era o número no visor?Helena baixou os olhos para a tela do celular.— Privado.— Você reconheceu a voz, Helena?— Não — sussurrou ela, negando com a cabeça.Nesse instante, Augusto surgiu sob o batente da porta da sala.— Quem ligou? — perguntou ele, com o olhar atento.Helena virou-se para ele, sentindo o peito apertar.— Uma mulher.— E o que ela disse?— Que era a minha mãe.Augusto ficou pálido no mesmo segundo. Foi uma reação sutil, quase imperceptível, mas que não passou despercebida por Helena.— Você conhece essa voz — afirmou ela, dando um passo em direção a ele.— Não — disse ele, recuando levemente.— Augusto...— Eu não conheço voz nenhuma!— Você está mentindo!E
Helena não conseguiu pensar racionalmente. Pegou o celular com as mãos trêmulas e viu a notificação: uma chamada perdida vinda do número fixo do seu próprio apartamento em Londres. Discou de volta imediatamente, mas o sinal ecoou até a ligação cair no vácuo. Ninguém atendeu.— Ele está lá — disse Augusto, quebrando o silêncio tenso.— Como sabe? — Helena virou-se para ele, sentindo o peito oprimir.— Porque foi ele quem me mandou aqui.Rafael deu um passo à frente, com o olhar faiscando de raiva.— Alessandro mandou você?— Sim.— Por quê?Augusto baixou a arma devagar, guardando-a no casaco.— Porque ele quer que vocês encontrem a última peça.Matteo respirou fundo no canto do corredor, abalado.— Augusto...— Chega — cortou Augusto, olhando diretamente para Helena. — Você quer saber quem é seu pai?Ela assentiu em silêncio, tomada por um nó na garganta.— Então precisa ir até o apartamento.— Por quê?— Porque a resposta está lá.— E se for uma armadilha?Augusto respondeu sem hesit
— Helena?Ela continuava em silêncio. Do outro lado da linha, a respiração de Rafael parecia tão ruidosa quanto a dela.— Helena, você está aí? — insistiu ele.Ela finalmente conseguiu encontrar a própria voz:— Estou.— Você ouviu tudo o que a gravação dizia?— Ouvi.— Então você entendeu o tamanho da loucura em que estamos pisando.— Não — a resposta de Helena saiu imediata, seca e sem qualquer margem para dúvidas. — Não entendi nada.— O que exatamente você não entendeu?— Tudo, Rafael! — Ela levantou da cama num impulso e começou a andar de um lado para o outro pelo quarto escuro, apertando o telefone contra a orelha. — Durante meses, cada pessoa que cruzou o meu caminho me contou uma versão convenientemente diferente da minha própria vida. A minha mãe, o Augusto, a Isabella, o Alessandro, o Daniel... E agora você me liga do aeroporto dizendo que o seu pai deixou um arquivo gravado garantindo que você não é filho do Vittorio.— Eu sei o quanto isso soa absurdo.— E ainda existe um
Helena recebeu a ligação às 4h37 da manhã. O sobressalto do toque agudo do celular cortou o silêncio do quarto escuro, fazendo-a despertar num pulo. Com as mãos trêmulas, pegou o aparelho na mesa de cabeceira.Era Rafael.— Helena? — a voz dele veio abafada, sobreposta pelo ruído metálico de fundo.Helena sentou-se na cama, puxando o lençol contra o peito enquanto tentava afastar o torpor do sono.— Onde você está?— No aeroporto.— Você ainda não embarcou? — perguntou ela, a preocupação fazendo sua voz falhar.— Não.— Por quê, Rafael? O que aconteceu?— Porque eu encontrei uma coisa antes de passar pelo portão.Helena ficou em silêncio por um segundo, sentindo uma pontada de ansiedade na espinha.— O que você encontrou?— Um arquivo oculto no computador que era do meu pai.O coração de Helena acelerou imediatamente no peito.— O que tem nesse arquivo?— O seu nome.— O meu nome?— O seu e o meu.A respiração de Helena trancou na garganta. O frio no estômago espalhou-se por todo o se






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