FAZER LOGIN༺ Dafne Aslan ༻
Quando recobrei a consciência, eu já estava em um ambiente distinto da rodovia. Meu corpo todo estava dolorido e pesado. Olho ao redor, percebendo que estou em um quarto luxuoso. A iluminação suave de amêndoa realçava a arquitetura antiga do teto alto, misturada com móveis modernos de altíssimo padrão. Perto da porta, vozes masculinas e firmes chamaram a minha atenção. — Então, Mateo, como ela está? Vai precisar ir para o hospital? — Não — a resposta veio do homem de jaleco branco e postura impecável, que conferia alguns tubos de soro instalados ao lado da minha cama. — Não há fraturas graves, apenas escoriações e uma contusão forte pelo impacto no asfalto. Ela teve muita sorte. O choque foi grande, mas meu curativo e a medicação para a dor vão dar conta do recado. — Sorte? — interrompeu o ruivo de jaqueta de couro, encostado na parede com os braços cruzados. — A garota voou na pista, Mateo. O carro do Alejandro quase a mandou direto para o outro mundo. — Ela não voou, Santiago, para de ser dramático — rebateu um quarto homem, com porte atlético e pele bronzeada, enquanto mexia na janela do quarto. — Ela só rolou. Se bem que o susto deve ter sido o bastante para congelar o sangue dela. — Querem calar a boca? O importante é que ela está viva e em segurança — cortou o homem de cabelos castanhos e avental escuro, com um olhar focado e protetor. — Ninguém daquela fazenda chegou nem perto dos nossos portões. Ao observar como eles interagiam, trocando faíscas sem qualquer cerimônia, tive a certeza: esses homens eram irmãos. A estrutura do rosto, o porte físico dominante e a presença intimidadora que preenchia todo o quarto não deixavam dúvidas. E o mais impressionante era o quanto eles eram bonitos. Não, havia qualquer defeito nessa sala; pareciam estátuas esculpidas com uma precisão assustadora. No meio da névoa da dor, memórias da rodovia voltaram à minha mente. Lembrei-me dos faróis, do meu desespero, do barulho dos cavalos me perseguindo e do nome que ecoou na pista antes de eu apagar: De la Vega. Eu estava na propriedade da família mais influente e perigosa daquela região. Ao tentar me mexer na cama de casal enorme, o tecido de seda roçou na minha pele ferida, arrancando um gemido baixo dos meus lábios. O ruído fez o grupo congelar instantaneamente. O homem de terno, que parecia o mais velho entre eles, deu um passo à frente. Seu andar era sereno, consciente do próprio poder. Ele se aproximou do colchão e se curvou levemente na minha direção. — Como se sente, princesa? Foquei minha visão no tom profundo daquela face. — Dolorida… — sussurrei, sentindo minha garganta seca como poeira. O ruivo deu um passo para perto da cama, encarando o homem de terno com desdém. — É claro que ela não está bem. Você não vê o quanto ela está ferrada? Você atropelou a garota! — Eu não a atropelei porque quis! — o mais velho rebateu na hora, mantendo o controle por um fio. — Ela simplesmente apareceu do nada na frente do meu carro, no meio da escuridão. Se eu não tivesse freado, o impacto teria sido fatal. — Você corria demais naquela estrada, Alejandro, como sempre — provocou o homem com roupa de atletismo da janela, dando um sorriso torto. — Não comece, Diego — advertiu o médico, intercalando a atenção entre os monitores e a nossa conversa. — O caso aqui é que o susto passou, mas a situação dela ainda exige repouso. Observei a discussão continuar entre os quatro, uma troca rápida de acusações e alfinetadas que parecia fazer parte do cotidiano dos cinco. Eles agiam como se disputassem o controle de cada centímetro daquele ambiente. O burburinho, embora alto, serviu para me tirar daquele transe. Precisava dar um jeito de sair dali. Minha vida corria perigo se o meu pai descobrisse que eu estava sob o mesmo teto que figuras tão poderosas. Reuni forças, forcei meus braços para me sentar na cama e soltei: — Estou bem. Não quero dar trabalho para ninguém. Assim que eu me recuperar, vou embora. O cômodo caiu em um silêncio. Santiago, o ruivo, deu uma risada curta, debochada, enquanto caminhava até a ponta da minha cama. — Embora? Não é assim que as coisas funcionam por aqui, gatinha. Senti meu peito apertar, o pânico da minha fuga voltando com toda força. Minha mente desenhou a imagem do senhor Vicente e do meu pai me caçando. — Você não pode me prender aqui — respondi, tentando soar firme, apesar do tremor na pele. — Não ligue para ele — Mateo, interveio imediatamente, colocando a mão no ombro do irmão ruivo e o afastando um pouco. — Ele só está tentando causar medo. — É o Santiago, ele é assim mesmo, ameaçador — acrescentou Dante, aproximando-se com um copo de água fresca e me entregando com cuidado. — Mas, no fundo, é uma boa pessoa. Santiago virou o rosto para os quatro, incrédulo com o comentário. — Uma boa pessoa? Vocês realmente acreditam nisso? Os quatro responderam em uníssono, sem hesitar por um segundo: — Não acreditamos. Apenas conhecemos você o suficiente. Apesar do leve toque de humor entre eles, o clima voltou a pesar rápido. Alejandro, o mais velho, deu mais um passo na minha direção, bloqueando a luz do quarto com seu tamanho. — Brincadeiras à parte, você não vai para lugar nenhum esta noite. E nem nos próximos dias — a declaração dele caiu como uma pedra no meu colo. — Quando você se jogou na frente do meu veículo, trouxe um problema para a minha porta. O grupo de homens a cavalo que estava atrás de você não parou na rodovia. Meu sangue gelou instantaneamente. — O quê? — perguntei, o copo de água estremecendo nas minhas mãos. — Eles chegaram aos portões da nossa propriedade há vinte minutos — revelou Santiago, o sorriso debochado sumindo para dar lugar a um ar sombrio. — Um velho nojento acompanhado pelo dono daquelas terras vizinhas. Diziam que uma garota escapou e que sabiam que um dos nossos carros havia parado na pista e dado carona a ela. — Era o meu pai… E o senhor Vicente… — inclinei o corpo para a frente, o pânico tomando conta. — Eles viram você me colocar no carro? — Não viram nada — Alejandro respondeu com uma autoridade fria. — Meus seguranças mandaram ambos voltarem para o buraco de onde saíram. Mas eles não vão desistir tão fácil. Estão rondando a área externa, julgando que podem intimidar a família De la Vega. — Por isso mesmo eu preciso sair! — pedi, tentando me levantar da cama, mas uma pontada aguda nas costas me fez reclinar com um gemido. — Se eles descobrirem que estou aqui, vão arranjar uma guerra com vocês! Meu pai me vendeu para aquele homem, ele não vai aceitar perder o dinheiro. Diego deu um passo à frente, seus olhos brilhando com uma mistura perigosa de raiva e proteção. — Ninguém faz guerra contra nós nas nossas próprias terras, garota. Se aquele velho encostar um dedo no nosso portão de novo, o Santiago resolve o assunto com chumbo. — O ponto é — Alejandro continuou, cruzando os braços e me encarando com uma possessividade que fez meus pelos se arrepiarem. — Você agora está sob o nosso teto. E o que entra na nossa propriedade não sai até que eu decida o contrário. Você tentou fugir de um monstro, mas acabou caindo no território de cinco homens que não aceitam ordens de ninguém. Olhei para cada um daqueles rostos: a frieza calculada de Alejandro, a violência contida de Santiago, a precisão cirúrgica de Mateo, a arrogância física de Diego e o mistério protetor de Dante. Eu escapei da prisão do meu pai apenas para ser trancada em uma gaiola de ouro, rodeada por predadores ainda mais perigosos. — Vocês não me conhecem… não sabem o perigo que meu pai representa — sussurrei. — E você não sabe do que somos capazes — Alejandro rebateu com uma calma assustadora. — Agora durma. Amanhã vamos decidir o que fazer com você.༺ Dafne Aslan ༻Santiago está parado no batente, apoiado na madeira com os braços cruzados sobre o peito largo. O olhar dele passa de mim para Mateo, fixando-se na proximidade perigosa entre nós dois e na caixa de primeiros socorros esquecida sobre a cama. Um sorriso sombrio e perigoso surge no canto dos seus lábios.— Olha só para o nosso médico certinho — Santiago provoca, com uma ironia venenosa que faz a espinha arrepiar. — Veio cuidar do curativo da garota ou resolveu aproveitar a oportunidade, Mateo?Mateo se levanta da cama de pulo, ajeitando a armação dos óculos enquanto assume uma postura defensiva na minha frente.— Pense bem no que fala antes de falar bobagem, Santiago — Mateo rebate, mantendo a voz fria, embora os punhos fechados ao lado do corpo entreguem a sua irritação. — A Dafne se cortou na cozinha e eu só estava tratando o ferimento.— Ah, claro — Santiago caminha para o interior do quarto com passos lentos e ameaçadores de um predador, ignorando completamente a res
༺ Dafne Aslan ༻Alguns dias se passaram desde aquela grande confusão que tive com o meu próprio pai na entrada da propriedade. Mas sei perfeitamente que essa não vai ser uma batalha fácil. Alejandro me informou hoje cedo que Joseph dobrou o reforço de homens armados na fazenda. Sei melhor do que ninguém que isso é puro desespero da parte dele.Enquanto corto alguns pedaços de frutas frescas para fazer uma salada na cozinha, uma lembrança antiga e dolorosa vem à minha mente. Minha mãe andava completamente desesperada pelos cantos da casa naquela época.Eu tinha apenas dez anos quando presenciei uma discussão terrível entre os dois na sala, escondida atrás da cortina.“Meu pai segurava uma pasta cheia de papéis, tentando obrigar minha mãe a assinar os documentos de qualquer jeito.— Você vai assinar essa porcaria agora mesmo, mulher! — ele esbravejava, puxando o cabelo dela com violência enquanto a encostava contra a parede. — Vai assinar nem que seja preciso morrer para isso.Minha mã
༺ Alejandro de La Vega ༻Seguro o pulso de Joseph com a mão direita, apertando o osso da junta dele até ver o desgraçado franzir o rosto de dor. Encaro esse sujeito com um ódio que queima no peito.Jamais permitiria que qualquer tipo de agressão contra a Dafne acontecesse na minha frente. Meus irmãos se aproximam pelas minhas costas, formando uma barreira viva.Santiago, Mateo, Diego e Dante parecem dispostos a qualquer coisa para quebrar a cara desse sujeito nojento ali mesmo, sem importar quem está olhando.— Você não vai levá-la para lugar nenhum daqui — aviso, soltando a mão dele com um empurrão seco. — Ela declarou claramente que não deseja ir e que não permanece no nosso domínio por obrigação.Joseph massageia o punho avermelhado, me medindo da cabeça aos pés com a cara fechada.— Alejandro, não é? Esse é o seu nome — ele rebate, tentando aparentar uma coragem que não possui. — Fique fora disso. A conversa e a pendência são entre mim e a minha filha.— Sinto muito, senhor Joseph
༺ Dafne Aslan ༻Continuo observando meu pai com a mandíbula travada, tomada por uma fúria ardente que consome meu peito ao ver até onde vai a coragem dele de expor minha vida na imprensa.Mas não deixarei ele sair daqui com um sorriso vitorioso. A repórter se aproxima com o microfone e os olhos brilhando de pura curiosidade, percebendo que a pauta do dia acabou de tomar um rumo completamente inesperado.O cinegrafista ajusta o enquadramento na minha direção enquanto as viaturas da polícia mantêm os giroflex ligados atrás da multidão.— Então absolutamente tudo o que o seu pai falou aqui na frente das câmeras é uma mentira? — a repórter questiona, buscando confirmação. — Você não está sendo mantida em cárcere privado por essa família?— Eu não estou sendo sequestrada por ninguém — respondo com firmeza, encarando a lente da câmera. — Na verdade, estou sendo impecavelmente bem cuidada por esses homens. Acabei sofrendo um grave acidente na estrada justamente quando fugia do meu próprio pa
༺ Dafne Aslan ༻Estou lendo um livro que Mateo trouxe da cidade especialmente para mim. Era uma comédia romântica clichê. No começo, achei a história meio boba e sem graça, mas, aos poucos, o enredo acabou me prendendo de um jeito gostoso, fazendo o tempo passar sem que eu percebesse.De repente, barulhos altos de discussão vindos do pátio cortam a paz do meu quarto. Me levanto da cama de pulo e vou até a janela. Ao puxar a cortina para ver, me deparo com uma equipe de repórteres cheia de câmeras, viaturas da polícia e o meu próprio pai no centro do tumulto.Não acredito que ele estava fazendo isso, descendo a um nível tão baixo. Mas eu não sei por que eu não me surpreendo. Ele deve estar realmente muito desesperado. A audácia desse homem me faz travar a mandíbula de pura raiva.Como ele tem a audácia de continuar enfrentando homens poderosos que já sabem de todas as suas sujeiras? Recuso-me a ficar trancada assistindo ao circo. Saio do quarto furiosa e desço as escadas a passos largo
༺ Dante de La Vega ༻ Observo Dafne se alimentar em silêncio, sentado na beirada da cama enquanto ela saboreia cada pedaço do café da manhã que preparei. Foi a primeira vez que vi essa garota quebrar totalmente a muralha de durona que carrega desde que pisou nesta casa. O choque com a verdade sobre o pai com certeza a levou ao limite de aguentar tudo sozinha. Quando ela termina finalmente a refeição, me aproximo e recolho a bandeja prateada com o prato e os utensílios. Entrego um copo de água fresca para ela e aproveito para me inclinar, deixando um beijo carinhoso e demorado na sua testa. — Descansa mais um pouco, passarinha — recomendo com voz amena. — Você continua meio fraca devido a todo esse estresse. Ela somente concorda com um gesto leve de cabeça, permanecendo sentada na cama. Seguro a bandeja com firmeza e caminho até a saída do quarto. — Voltarei mais tarde com o seu almoço — aviso, dando um último olhar na sua direção antes de puxar a porta. Fecho a porta devagar e si







