LOGIN༺ Dafne Aslan ༻
A dor de cabeça ainda martelava com força quando abri os olhos na manhã seguinte. O teto alto, com detalhes esculpidos em gesso, me lembrou imediatamente de onde eu estava. Eu não estava no meu quarto miserável e nem sob as garras do meu pai. Mas na mansão dos De la Vega. Meu corpo inteiro protestou quando me sentei na beira da cama, mas ergui o queixo. Eu não podia me dar ao luxo de fraquejar agora. Sentar e chorar não ia resolver nada, e eu me recusava terminantemente a virar refém nesse lugar desses homens. Se eles pensavam que me trancar em um quarto luxuoso me faria baixar a guarda, estavam muito enganados. Caminhei até a janela e puxei a cortina pesada. O sol matinal iluminava a imensidão da propriedade, mas o belo visual logo perdeu a graça. Espalhados pelos gramados, perto dos portões e ao longo do muro alto, homens de terno escuro e postura rígida rondavam sem parar. A segurança desse lugar era uma fortaleza impenetrável. — Merda… Como vou sair daqui? — murmurei, soltando o tecido da cortina. Virei-me e vi minha mochila descansando sobre a mesa de cabeceira. Peguei a alça, ajustei no ombro e me aproximei da porta. Girei a maçaneta bem devagar, rezando para não fazer barulho, e pisei no corredor silencioso. Caminhei rente à parede, meus pés descalços afundando no tapete felpudo. A mansão parecia um labirinto, mas um aroma delicioso de café fresco e pão assado começou a flutuar pelo ar, guiando meus passos. Se eu quisesse encontrar uma saída discreta, a área de serviço ou a cozinha eram minhas melhores apostas. Desci a escadaria secundária e segui o cheiro até encontrar uma porta dupla de madeira clara. Empurrei uma das frestas e me esgueirei para dentro, procurando uma porta de saída para os fundos. — Tentando fugir antes do café da manhã? O susto fez meu coração saltar na garganta. Dei dois passos para trás, encostando as costas no balcão de mármore. Era aquele homem alto que foi gentil ao me dar o copo de água ontem. Ele tinha ombros largos e braços cobertos por tatuagens que sumiam sob as mangas dobradas da camisa; estava parado perto do fogão industrial. Ele usava um avental escuro e segurava uma colher de pau. Seu semblante era calmo, mas seus olhos me mediam da cabeça aos pés com uma atenção perturbadora. Era Dante. — Eu não estou fugindo — menti, apertando a alça da mochila no peito. — Só estava procurando a saída. — O que dá no mesmo — ele rebateu, esboçando um canto de sorriso sem nenhuma ironia. Ele virou de costas, pegando um prato fundo sobre a bancada. — Senta aí. Você precisa comer. — Eu não quero comer. Quero ir embora. Dante colocou o prato na bancada alta e puxou uma das banquetas de madeira, indicando o assento com a cabeça. — Você passou por um estresse absurdo ontem, passou mal e quase desmaiou de fraqueza. Se tentar cruzar aquele portão agora, não chega nem à metade do caminho antes de cair no chão. — Isso é problema meu — rebati, mantendo a postura ereta. — Agradeço por terem me tirado daquela estrada, mas não posso ficar aqui. Vocês não têm o direito de me segurar. Ele não se alterou. Serviu uma porção generosa de ovos mexidos, acompanhada de fatias de pão artesanal e um copo de suco de laranja natural, empurrando tudo na minha direção com uma delicadeza que contrastava com seu tamanho. — Come primeiro. Depois a gente conversa. Encarei o prato e meu estômago roncou, traindo minha tentativa de manter a pose. Odiei o fato de ele estar certo sobre a minha fraqueza. Com relutância, me aproximei e me sentei na ponta da banqueta, deixando a mochila no colo. Peguei o talher e dei a primeira garfada. A comida estava divina, o que me irritou ainda mais. Dante encostou o quadril na bancada da frente, cruzando os braços musculosos. Ele me observava mastigar, seu semblante calmo transmitindo uma estranha sensação de controle. Não havia violência no seu tom, mas cada palavra carregava um peso esmagador. — O seu pai quase te destruiu, garota. Ele te vendeu como se você fosse um objeto qualquer para cobrir o fracasso dele. Tossi, quase engasgando com o alimento. Pousei o garfo, sentindo uma pontada no peito. — Você não sabe nada da minha vida. — Sei o suficiente — ele interrompeu suavemente, dando um passo curto na minha direção. Apoiou as mãos no mármore, inclinando o corpo para ficar na altura do meu rosto. — Percebo que você está assustada e acha que todo mundo quer te usar. Mas precisa entender uma coisa muito importante. — Eu não sou prisioneira de vocês! — exclamei, erguendo a cabeça para sustentá-lo. — Não saí da gaiola do meu pai para entrar na de vocês. Dante me encarou com uma paciência quase paternal, mas notei que uma obsessão brilhava no fundo das suas íris. Ele estendeu a mão e, com a ponta dos dedos, afastou uma mecha de cabelo que caía sobre a minha testa. O toque foi tão sutil que meu corpo congelou. — Ninguém disse que você é prisioneira — ele murmurou, mantendo o tom suave e acolhedor. — Mas daqui ninguém te tira. Nem o seu pai, nem esses homens que acham que podem te comprar… e nem você mesma. Você está sob a nossa proteção agora, Dafne. E nós cuidamos do que nos pertence. A palavra “pertence” ecoou no ambiente como uma sentença. A forma como ele usava a comida, o cuidado e a calma para me cercar era assustadora. Ele não precisava erguer a voz ou usar a força bruta; a posse dele estava disfarçada de abrigo. Afastei o rosto do toque dele, segurando o copo de suco com as mãos trêmulas. — Vocês são loucos. Todos vocês. — Somos realistas — ele corrigiu, voltando para o fogão para desligar a chama. — E, enquanto você estiver sob este teto, vai se alimentar direito, descansar e ficar viva. Quer você goste, quer não. Antes que eu pudesse formular uma resposta para rebater aquela loucura, a porta da cozinha se abriu bruscamente. Um dos homens de terno preto colocou a cabeça para dentro, o semblante tenso. — Sr. Dante. O Alejandro está chamando todo mundo. Reunião de emergência na biblioteca agora. Dante somente assentiu com a cabeça, tirando o avental de pano e jogando-o sobre o balcão. A aura calma de cozinheiro pareceu evaporar no mesmo instante, dando lugar à postura fria e perigosa de um homem daquela família. Ele me encarou uma última vez. — Termine de comer tudo. Se eu voltar e ver esse prato cheio, você vai me deixar chateado. Ele saiu da cozinha sem olhar para trás, deixando a porta balançando suavemente. Fiquei sozinha na imensidão desse ambiente. As mãos ainda tremiam sobre a mesa. As ameaças do meu pai eram fáceis de entender, mas aquilo… Esse tipo de domínio vestido de zelo era muito mais perigoso. Puxei a mochila para os ombros de novo e me levantei devagar. Se Alejandro estava reunindo todos os irmãos na biblioteca, a atenção da casa estaria voltada para lá. Era a minha única chance. Se eu quisesse descobrir o que eles planejavam fazer comigo ou encontrar uma falha naquela segurança. Eu precisava ouvir a conversa dessa reunião. Caminhei até a porta e dei uma espiada no corredor. Estava vazio. Respirei fundo, engolindo o medo que tentava me paralisar, e segui em silêncio na direção do centro da mansão.༺ Joseph Aslan ༻Minha perna queimar como se estivesse em carne viva. O sangue quente escorre pela minha calça jeans desbotada, sujando o chão de madeira do alpendre onde governei este lugar por mais de trinta anos.A espingarda pesa nos meus braços, inútil agora, enquanto o cheiro amargo de pólvora se espalha pelo pátio destruído.Observo o capitão da polícia caminhar até a varanda. Ele traz o papel da ordem judicial amassado na mão e guarda o revólver no coldre com um movimento lento, sem coragem de me encarar.— Joseph, acabou — ele declara, com a voz gasta, tentando manter uma postura neutra diante dos homens armados que cercam a propriedade. — Foi inútil a sua resistência. A ordem de desapropriação e o mandado de prisão por porte ilegal e tentativa de homicídio vão ser cumpridos agora.Tranco os dentes com tanta força que o maxilar estala. Cuspo o sangue que acumulou na minha boca direto na madeira da varanda, dando um passo para a frente.— Você prometeu me ajudar! — brado, rasg
༺ Dafne Aslan ༻A fumaça da pólvora ainda paira pesada sobre o pátio da fazenda quando vejo o rastro de passos acelerados da minha mãe.Mary corta o caminho entre os mourões derrubados e avança como uma doida no meio do caos, ignorando o perigo e marchando direto para os degraus da varanda, onde o Joseph tenta se arrastar para dentro de casa.— Mãe! Espera! — grito.Corro atrás dela, pisando fundo com as botas no cascalho para tentar alcançá-la antes que aquele velho engatilhe a espingarda de novo. Santiago e Alejandro vêm logo atrás de mim, mantendo as armas em riste para cobrir qualquer imprevisto, mas Mary não diminui o passo um segundo sequer.Quando finalmente chego perto da varanda, encontro minha mãe parada no topo dos degraus, com a espingarda firme entre as mãos e a feição tomada por uma fúria que sufocou anos de covardia.Joseph está encostado na amurada de madeira, limpando o sangue do rosto com o dorso do braço, arrastando a perna ferida.— Aonde você vai, Joseph? — Mary
༺ Mateo de La Vega ༻Ajustei meu óculos no rosto, sentindo o suor frio escorrer de leve perto da fonte. O portão de madeira recém-derrubado jaz estraçalhado na terra batida, e a poeira baixa devagar, revelando a linha de frente dos pistoleiros do Joseph.Eles estão posicionados atrás dos mourões da cerca e das pilhas de lenha espalhadas pelo pátio. O velho continua firme no centro, segurando aquela espingarda pesada com as mãos trêmulas, mas tomadas por uma loucura cega.Fico ao lado do Dante, mantendo a minha arma em riste, o dedo repousado com cuidado junto ao gatilho. O ar da manhã cheira a poeira, mato seco e perigo iminente.— Ele não vai recuar — digo para o Dante, sem tirar o olho do movimento dos capangas do velho. — Se viemos pelo bom senso, perdemos viagem. Ele quer bala, então que venha bala.— Se é isso o que ele quer, é isso o que terá — Dante reafirma, ajeitando a empunhadura da pistola com precisão calculada. — Ninguém sai desta fazenda sem resolver essa pendência hoje
༺ Dafne Aslan ༻O capitão da polícia me encara rígido, ajeitando o quepe na cabeça enquanto tenta manter uma autoridade que claramente já não tem.Ele olha para mim, depois para Alejandro e Santiago parados bem ao meu lado, e solta um suspiro pesado que quase se perde no barulho dos motores.— Não é tão fácil assim, garota — o policial responde, balançando a cabeça devagar. — A lei tem seus trâmites, os horários e as burocracias. Não podemos simplesmente derrubar um portão dessa propriedade sem garantia de segurança.— Não é tão fácil? — pergunto, dando meio passo à frente e soltando uma risada irônica que faz o capitão dar um sobressalto. — E o que tem de difícil aqui, seu capitão? O Joseph está morando em algo que não é dele! Ele é um invasor num terreno que pertence ao nome da minha mãe. O mandado de desapropriação está assinado pelo juiz, a papelada tá na mão do oficial e vocês estão aqui parados na entrada feito estátuas!O homem limpa a garganta, desconfortável. Ele corre os olh
༺ Dafne Aslan ༻Subo no banco do carona da caminhonete preta, batendo a porta com força para terminar naquela bagunça no meio da sala. Alejandro assume o volante ao meu lado, enquanto Dante se acomoda no banco traseiro, checando o pente da pistola antes de guardá-la no coldre. Na outra caminhonete, logo atrás da nossa, vão Santiago, Mateo e Diego, acompanhados por parte dos homens armados da fazenda.Alejandro dá a partida e o motor ronca pesado. As rodas cantam no cascalho do pátio antes de pegarmos a estrada de terra.Encosto a cabeça contra o vidro da janela, observando as árvores passarem rápido pela paisagem envoada do início da manhã. A poeira sobe em densas nuvens amarelas. Sei perfeitamente que o confronto com o meu pai não será simples. Aquele homem transformou a propriedade da minha mãe num verdadeiro campo minado, cercado de pistoleiros e corrupção. Ele vai tentar utilizar tudo o que tem para me ver destruída, para garantir que eu nunca ponha as mãos no que me pertence
༺ Santiago de La Vega ༻Aperto os dentes com tanta força que sinto o osso do meu maxilar estalar. Movo o corpo de um lado para o outro perto da janela, sem conseguir parar quieto um segundo. O dia mal começou a dar as caras lá fora e o meu sangue já fervilha nas veias, como se estivesse prestes a explodir.Minha bochecha esquerda ainda queima ao lembrar. Aquele estalo ressoa na minha cabeça toda vez que fecho os olhos. Puta que pariu. A garota me meteu a mão na cara sem pensar duas vezes, com uma fúria que quase me fez perder a cabeça no corredor.Passei a mão no rosto devagar, sentindo a pele um pouco inchada. Por dentro, um sentimento incômodo se misturava com uma pontada de fascínio que odeio admitir. A audácia dessa loira dos infernos me irrita, mas me atrai de um jeito totalmente descontrolado. Ela não se encolhe. Não baixa a cabeça para nenhum de nós. Quanto mais tento prensar a passarinha contra a parede, mais ela me mostra as garras.— O que aconteceu com a sua cara? — Die







