LOGINSeis anos depois...
Hoje é meu aniversário de dezesseis anos.
E, pela primeira vez, não senti falta de Rafael.
Talvez essa seja a parte mais estranha de tudo.
Durante anos, o aniversário dele foi uma data importante para mim. Eu lembrava do dia, pensava nele, imaginava como estaria, tentava ligar, esperava alguma mensagem.
Agora não.
Rafael havia se tornado uma lembrança.
Uma lembrança bonita, sim.
Mas apenas uma lembrança.
Aos poucos, eu o deixei no esquecimento.
Se ele não fazia questão de estar ao meu lado, não seria eu quem ficaria mendigando carinho, atenção ou uma simples lembrança.
Eu tinha cansado de esperar.
E, quando parei de esperar, descobri que havia muitas outras coisas para ocupar meu tempo.
Meus estudos, por exemplo.
Desde os doze anos eu sabia exatamente o que queria para minha vida.
Queria ser designer.
Não sabia ainda qual área seguiria, mas amava desenhar, criar, combinar cores, imaginar ambientes e transformar coisas simples em algo bonito.
Enquanto outras meninas da minha idade passavam horas falando sobre garotos, eu passava horas pesquisando referências, fazendo esboços e tentando aprender novos programas.
Alguns garotos até tentavam chamar minha atenção.
Eu sabia.
Não era completamente alheia aos olhares no corredor da escola, aos bilhetes deixados na minha mesa ou aos convites para festas.
Mas eu não queria aquilo.
Não naquele momento.
Eu queria uma carreira.
Queria entrar em uma boa faculdade.
Queria conquistar minha independência.
Queria provar a mim mesma que poderia construir uma vida da qual me orgulhasse.
Naquela manhã, minha mãe entrou no meu quarto carregando um bolo pequeno.
— Feliz aniversário, minha menina.
Sorri.
— Obrigada, mãe.
Ela colocou o bolo sobre minha escrivaninha.
— Dezesseis anos.
— Parece muito?
— Para mim, parece que você nasceu ontem.
— Você fala isso todos os anos.
— Porque todos os anos continua sendo verdade.
Meu pai apareceu atrás dela.
— E porque sua mãe está ficando velha.
— Lucas!
Comecei a rir.
— Pai!
Ele abriu os braços.
— Venha cá, aniversariante.
Levantei e fui abraçá-lo.
Por alguns minutos, éramos apenas nós três.
Minha família.
Minha casa.
Meu lugar seguro.
Eu não fazia ideia de que aquele seria um dos últimos momentos em que teria meus pais juntos.
Dois dias depois, minha vida acabou.
Ou, pelo menos, a vida que eu conhecia.
Eu estava sentada na sala, trabalhando em um projeto para a escola, quando ouvi alguém bater na porta.
Minha mãe e meu pai haviam saído naquela manhã.
Uma reunião.
Nada fora do comum.
Olhei para o relógio.
Eles deveriam ter voltado há quase uma hora.
A campainha tocou novamente.
Levantei.
Quando abri a porta, encontrei dois homens que eu nunca tinha visto.
Um deles usava uniforme.
O outro segurava um bloco de anotações.
— Camila Souza?
— Sim.
Eles trocaram um olhar.
Meu coração começou a bater mais rápido.
— Aconteceu alguma coisa?
O homem respirou fundo.
— Você é filha de Esther Souza e Lucas Souza?
— Sou.
Ele tirou o chapéu.
— Precisamos conversar com você.
Senti minhas pernas enfraquecerem.
— Eles estão bem?
Nenhum dos dois respondeu imediatamente.
E aquele silêncio foi a resposta que eu mais temi.
— O que aconteceu?
— Seus pais sofreram um acidente.
O mundo parou.
— Não.
Minha voz saiu quase sem som.
— Foi um acidente de carro. Eles foram levados às pressas para o hospital.
— Eles estão bem?
— Estão recebendo atendimento médico.
— Mas estão bem?
O homem baixou os olhos.
— A situação é grave.
Eu não conseguia respirar.
— Eu quero ir para o hospital.
— Vamos levá-la.
Peguei meu casaco sem sequer pensar.
Durante todo o caminho, fiquei repetindo a mesma frase.
— Eles vão ficar bem.
Ninguém respondia.
— Eles vão ficar bem, não vão?
O homem que estava dirigindo apertou o volante.
— Os médicos estão fazendo tudo o que podem.
Quando chegamos ao hospital, tudo ficou ainda mais confuso.
Corredores.
Médicos.
Enfermeiros.
Portas fechadas.
Perguntas.
Documentos.
E aquela palavra que eu não conseguia aceitar.
Grave.
Meus pais estavam entre a vida e a morte.
Eu tinha dezesseis anos.
E, de repente, não sabia mais quem cuidaria de mim se eles não voltassem.
Não tínhamos irmãos.
Não tínhamos tios próximos.
Nenhum parente morava naquela cidade.
A única pessoa que eu tinha era Dona Tereza.
A avó de Rafael.
Quando ela chegou ao hospital, encontrou-me sentada em uma cadeira, abraçada aos próprios joelhos.
— Camila...
Levantei correndo.
— Vó Tereza!
Ela me abraçou.
E eu desabei.
Chorei como não chorava desde criança.
— Eles vão morrer?
Ela segurou meu rosto.
— Não pense nisso.
— Mas eles podem morrer.
— Os médicos estão lutando por eles.
— Eu não tenho ninguém.
Ela me apertou contra o peito.
— Tem a mim.
— Mas você não pode cuidar de mim para sempre.
Ela ficou em silêncio.
Eu sabia que era verdade.
Dona Tereza já era uma senhora idosa.
Amor, ela tinha de sobra.
Mas força, saúde e condições para assumir a responsabilidade por uma adolescente eram outra história.
Ela acariciou meus cabelos.
— Sua mãe sabia que um dia isso poderia acontecer.
Olhei para ela.
— O quê?
Ela respirou fundo.
— Antes de viajar para uma de nossas reuniões de família, Esther conversou comigo.
— Sobre o quê?
Dona Tereza segurou minhas mãos.
— Sobre você.
Meu coração apertou.
— O que ela disse?
— Ela me fez uma promessa.
— Que promessa?
Os olhos dela ficaram marejados.
— Se alguma coisa acontecesse com ela e com seu pai antes de você atingir a maioridade, eu deveria garantir que você não ficasse desamparada.
— Mas como?
Ela olhou para o corredor.
Depois voltou os olhos para mim.
— Ela tinha uma pessoa em mente.
Senti um arrepio.
— Quem?
Dona Tereza apertou meus dedos.
— Rafael.
Meu coração pareceu esquecer como bater.
— Rafael?
Ela assentiu.
— Sua mãe pediu que ele fosse seu tutor e seu protetor.
Fiquei olhando para ela, incrédula.
— Mas ele está no Canadá.
— Eu sei.
— Faz anos que não falo com ele.
— Eu sei.
— Ele nem lembra mais de mim.
Dona Tereza suspirou.
— Talvez você esteja enganada.
— Não estou.
Ela não discutiu.
Apenas continuou:
— Esther disse que confiava nele. Disse que, apesar da distância, Rafael era a única pessoa que ela acreditava que jamais permitiria que você ficasse sozinha.
Ri sem humor.
— Ela não sabia que ele me esqueceu.
— Talvez ela soubesse mais sobre o garoto do que você imagina.
Balancei a cabeça.
— Não posso depender dele.
— Não vai depender.
— Então?
Dona Tereza olhou para mim com aquela expressão que eu conhecia desde criança.
A expressão de quem já tinha pensado em alguma coisa.
E, quando Dona Tereza pensava em alguma coisa, normalmente era melhor prestar atenção.
— Nós vamos precisar conversar com os advogados.
— Por quê?
— Porque sua mãe não deixou apenas um pedido.
Ela fez uma pausa.
— Deixou instruções.
Dois dias depois, eu estava sentada em uma sala que parecia grande demais para mim.
Dona Tereza estava ao meu lado.
Na nossa frente, dois advogados analisavam documentos.
— Camila — disse um deles —, sua mãe deixou registrado que, caso ela e seu pai não pudessem exercer a responsabilidade sobre você, Rafael Muniz deveria assumir sua tutela e proteção.
— Eu entendi.
— Existe, porém, uma questão.
— Qual?
Dona Tereza respondeu antes dele.
— Você é menor de idade.
— E Rafael já não é menor.
— Exatamente.
Olhei para ela.
— Então, como isso vai funcionar?
Ela respirou fundo.
— Existe uma alternativa.
— Que alternativa?
O advogado colocou um documento sobre a mesa.
— Um contrato.
Peguei as folhas.
Li algumas linhas.
Depois levantei os olhos.
— Isso é um contrato de casamento.
Ninguém respondeu.
— Vocês estão falando sério?
Dona Tereza segurou minha mão.
— Estou.
— Eu tenho dezesseis anos! Não posso me casar.
— Eu sei.
— Rafael tem o que?
— Vinte e um, atualmente.
Meu coração disparou.
Vinte e um.
Eu nem sabia disso.
— Isso é loucura.
— Talvez seja — Dona Tereza admitiu. — Mas é a forma mais segura de garantir que você fique protegida sob a responsabilidade de alguém em quem sua mãe confiava.
— E se eu não quiser?
— Você não terá escolha. Ou casa com o Rafael ou vai para um abrigo para menores.
Olhei novamente para o contrato.
— E ele?
— Também.
— Então por que fazer isso?
Dona Tereza se aproximou.
— Porque existe uma cláusula importante.
— Qual?
— Vocês não poderão se divorciar antes de você completar vinte e um anos.
Fiquei em silêncio.
— E depois?
O advogado respondeu:
— Depois dos vinte e um, vocês poderão decidir livremente se desejam continuar casados. O contrato também estabelece que, caso vocês não desenvolvam sentimentos um pelo outro, o divórcio poderá ser solicitado após essa idade.
Soltei uma risada nervosa.
— Sentimentos?
Olhei para Dona Tereza.
— Eu nem lembro mais do Rafael.
Ela me encarou.
— Mas ele lembra de você.
— Como sabe?
Um pequeno sorriso apareceu no rosto dela.
— Porque eu sou avó dele.
Olhei novamente para o documento.
Meu futuro estava ali.
Uma assinatura.
Um casamento.
Um homem que eu não via há anos.
Rafael.
O garoto que havia prometido nunca me esquecer.
O garoto que eu havia aprendido a esquecer.
E agora, quando minha vida estava desmoronando, ele estava voltando para ela.
Não por escolha minha.
Não por escolha dele.
Mas por causa de uma promessa feita por minha mãe.
Baixei os olhos para a última página.
Havia uma frase destacada no documento.
"Rafael Muniz será responsável pela proteção, segurança e bem-estar de Camila Souza até que ela complete vinte e um anos, salvo se ambos decidirem, após essa idade, pela continuidade da união."
Fechei os olhos.
Eu tinha acabado de completar dezesseis anos.
Dois dias antes, minha maior preocupação era escolher uma faculdade.
Agora eu estava prestes a me casar com o garoto que havia enterrado uma cápsula do tempo comigo quando éramos crianças.
Um garoto que eu jurava ter esquecido.
E que, naquele momento, eu descobria que jamais poderia esquecer completamente.
Porque o passado tinha acabado de bater à minha porta.
E desta vez...
Ele não estava pedindo para entrar.
Estava vindo para ficar.
Camila MariahFico alguns segundos em silêncio depois das últimas palavras de Rafael.Observe minhas atitudes.Era exatamente isso que eu precisava ouvir.Não queria mais promessas.Promessas foram o que nos trouxeram até aqui.Rafael prometeu voltar.Não voltou.Prometeu que cuidaria de mim.Não estava lá quando meus pais morreram.Prometeu tantas coisas quando éramos crianças que, em algum momento, eu aprendi a não esperar mais nada dele.Agora ele estava ali.Mais velho.Mais maduro.Com os olhos cheios de culpa e a mão tremendo levemente ao lado do corpo.E, pela primeira vez, parecia disposto a provar alguma coisa.Não sei se consigo confiar nele.Ainda não.Mas também não consigo ignorar o fato de que, desde que descobriu sobre a minha gravidez, ele não saiu do meu lado.— Eu aceito — digo finalmente.Rafael ergue os olhos.— Aceita?— Vou para sua casa.Um sorriso quase imperceptível aparece em seu rosto.— Sério?— Não comemore ainda.O sorriso desaparece.— Por quê?Respiro f
Rafael Juan Ligo para meus pais assim que Camila termina de falar. Não consigo aceitar a ideia de ela voltar para a casa da Vó Tereza como se nada tivesse mudado. Ela está grávida. Minha esposa está grávida. E eu passei tempo demais longe dela. — Mãe, preciso que preparem um quarto para a Camila. Do outro lado da linha, minha mãe fica em silêncio por alguns segundos. — Um quarto para a Camila? — Sim. Quero que seja confortável. O melhor quarto da casa, se for preciso. Ela vai precisar de espaço para descansar, e eu quero que tenha tudo o que ela precisar. Minha mãe entende imediatamente. — Rafael… — Ela é minha esposa, mãe. E está esperando nosso filho. Não pode simplesmente ficar longe de mim. Desligo depois de algumas orientações e volto para Camila. Ela me observa com uma expressão que já conheço. Aquela expressão de quem está prestes a discordar de tudo o que eu disser. — Camila, assim que tiver alta, você vai comigo para casa. Ela nem pensa antes de responder. —
Camila Mariah Acordo já é noite. Por alguns segundos, não consigo entender onde estou. O teto branco, o cheiro característico do hospital e o silêncio do quarto me fazem lembrar de tudo aos poucos. Então olho para o lado. Rafael está dormindo. Ou, pelo menos, tentando. A cabeça está apoiada no canto da cama, o corpo todo torto na cadeira, uma das mãos ainda segurando a minha como se tivesse medo de me soltar até enquanto dormia. Amanhã ele vai estar todo dolorido. Por um momento, sorrio. É inevitável. Porque aquela imagem me faz lembrar de um garoto que não saía do meu lado quando eu ficava doente. O garoto que aparecia com um copo de água, cobertor, remédio e até histórias inventadas para me distrair. O garoto que prometeu que sempre estaria comigo. Meu sorriso desaparece lentamente. Porque aquele garoto cresceu. E foi embora. A porta se abre devagar, tirando-me dos meus pensamentos. Claire entra no quarto com uma bolsa pendurada no ombro e uma expressão cansada. Qu
Rafael Juan Não consigo explicar a sensação de olhar para Camila assim. Frágil. Deitada naquela cama de hospital, com os olhos ainda marejados e uma das mãos protegendo instintivamente a barriga. Desde que me lembro, Camila sempre foi forte. Quando éramos crianças, ela podia ser pequena, teimosa e até um pouco mandona, mas sempre encontrava uma maneira de enfrentar os problemas. Mesmo mais nova do que eu, muitas vezes era ela quem me ensinava a enxergar as coisas de outra maneira. Eu era aquele que prometia protegê-la. Mas, olhando para trás, percebo que muitas vezes foi ela quem me protegeu. Camila sempre foi meu alicerce. Acho que por isso me perdi quando nos afastamos. Eu não percebi imediatamente, mas quando ela deixou de fazer parte da minha vida, uma parte de mim foi junto. Eu tentei preencher aquele vazio com outras pessoas. Com festas. Com trabalho. Com a vida que construí no Canadá. Até criei outro nome para mim. Juan. Mas nenhum nome conseguiu apagar Rafael
Camila Mariah Acordo em um lugar estranho. As paredes são brancas. O teto também. Por alguns segundos, não faço ideia de onde estou. Minha cabeça pesa e minha visão está embaçada. Tento me mexer, mas uma tontura leve me obriga a ficar quieta. Então as palavras de Sophie voltam para me atormentar. *"Estou grávida."* Fecho os olhos. *"E o pai do meu filho é o Juan."* Meu peito aperta. As lágrimas escorrem antes mesmo que eu perceba. Não. Eu não quero pensar nisso. Não agora. Mas minha mente não me dá escolha. Aquela noite. A possibilidade de uma gravidez. O medo que senti quando Sophie me contou. Tudo se mistura, girando dentro da minha cabeça como a sala girou antes de eu cair. Sinto uma mão segurando a minha. Quente. Firme. Conhecida. Abro os olhos devagar. Rafael está sentado ao lado da cama, inclinado para a frente, com o cabelo bagunçado e a camisa amassada. Ele parece não dormir há dias. Quando percebe que acordei, o rosto dele se desfaz em alívio. — Camila… A
Rafael JuanEstou me preparando para ir para a sala de aula quando a porta da sala dos professores se abre com tanta força que todos olham na mesma direção.Claire entra praticamente correndo, como se estivesse fugindo de alguma coisa.Ou como se estivesse tentando salvar alguém da morte.— Juan… Professor… a Mariah!Meu corpo inteiro fica em alerta.— O que aconteceu?Ela tenta recuperar o fôlego, mas não consegue responder imediatamente.— A enfermaria…Não espero que ela termine.Saio correndo.— Juan!Ouço Claire vindo atrás de mim.Não paro.Meu coração bate tão forte que parece querer sair pela boca.Mariah.Camila.Minha esposa.Alguma coisa aconteceu com ela.Corro pelos corredores da universidade ignorando os olhares dos alunos.Quando chego à enfermaria, empurro a porta.E o mundo para.Ela está deitada sobre uma maca.Imóvel.Pálida.Os olhos fechados.— Camila…Aproximo-me rapidamente.— O que aconteceu? — pergunto à enfermeira.— Ela teve uma tontura durante a discussão q







