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Capítulo 4

last update publish date: 2026-09-01 21:51:27

Rafael Juan Muniz

É engraçado como as coisas mudam com o tempo.

O que antes parecia ser a coisa mais importante do mundo, aos poucos, começa a perder espaço.

Não acontece de uma vez.

Não existe um momento exato em que você percebe: deixei de me importar.

Acontece aos poucos.

Uma lembrança que você deixa de procurar.

Uma ligação que você esquece de fazer.

Uma promessa que deixa de ser repetida.

E, quando percebe, aquilo que um dia ocupou quase todos os seus pensamentos já não passa de uma lembrança distante.

Foi assim comigo.

No Canadá, quase ninguém me chamava de Rafael.

Meu pai começou a me apresentar pelo meu segundo nome.

Juan.

No começo, eu estranhava.

— Juan Muniz.

Era estranho ouvir aquilo.

Parecia que estavam falando de outra pessoa.

Mas, depois de algum tempo, acostumei.

Na escola, eu era Juan.

No futebol, eu era Juan.

Entre meus amigos, eu era Juan.

Até meus professores já haviam esquecido que meu primeiro nome era Rafael.

E eu não me importava.

Talvez porque Juan combinasse mais com a pessoa que eu estava me tornando.

Eu tinha dezesseis anos.

E minha vida era completamente diferente daquela que eu tinha no Brasil.

Eu tinha amigos.

Uma turma.

Treinos.

Festas.

Escola.

E, principalmente, garotas.

Minha primeira namorada foi Emily.

Ela tinha cabelos castanhos e um sorriso bonito.

Ficamos juntos por quase três meses.

Depois terminamos porque ela começou a gostar de outro garoto.

Eu sofri.

Por uns três dias.

Depois conheci Sophie.

Sophie era diferente.

Tinha olhos claros e uma personalidade que fazia todo mundo prestar atenção quando ela entrava em algum lugar.

Ela gostava de música.

Eu gostava de futebol.

Ela odiava esportes.

Eu odiava estudar.

Talvez por isso tivéssemos dado tão certo durante alguns meses.

Era uma vida adolescente.

Simples.

Cheia de pequenas preocupações.

Uma prova.

Uma festa.

Uma garota.

Um jogo.

Uma briga com os pais.

Um beijo escondido.

E eu gostava daquela vida.

Gostava tanto que comecei a esquecer a antiga.

Camila.

O nome ainda existia em algum lugar da minha cabeça.

Mas já não ocupava o mesmo espaço.

No começo, eu ligava.

Depois, mandava mensagens.

Depois, respondia quando ela mandava.

Depois...

Nada.

Não houve uma decisão consciente.

Eu simplesmente fui deixando.

Quando percebi, fazia meses que não falava com ela.

Minha avó perguntava.

— Você não vai ligar para Camila?

— Qualquer dia.

Eu sempre dizia isso.

Qualquer dia.

E esse dia nunca chegava.

Não porque eu odiasse Camila.

Muito pelo contrário.

Eu ainda gostava dela.

Mas era um carinho diferente.

Distante.

Como quando você olha para uma fotografia antiga e sente carinho pelas pessoas que estão nela, mas já não consegue se lembrar exatamente de como era estar naquele momento.

Camila tinha se tornado isso.

Uma fotografia.

Uma parte bonita da minha infância.

Nada além disso.

Naquela época, eu não entendia que esquecer alguém também pode acontecer sem querer.

Eu achava que esquecer significava apagar.

Mas não.

Às vezes você apenas coloca a pessoa em uma prateleira dentro da sua cabeça e começa a viver outras coisas.

Foi exatamente o que fiz.

As lembranças do Brasil foram ficando guardadas.

Literalmente.

Minha mãe tinha separado algumas caixas com coisas que eu não usava mais.

Fotos.

Brinquedos.

Desenhos.

Cartas.

Uma camisa antiga.

E algumas coisas que eu nem lembrava mais que existiam.

Tudo foi parar em algum canto do meu closet.

Eu raramente mexia naquela caixa.

Era apenas uma caixa.

Nada importante.

Ou, pelo menos, era o que eu dizia para mim mesmo.

Um dia, depois da escola, entrei no quarto e encontrei Sophie sentada na minha cama.

— O que você está fazendo aqui?

Ela sorriu.

— Seus pais deixaram eu entrar. Ah, Juan, para disso, já passamos dessa fase de segredos.

— E você mexeu nas minhas coisas?

Aponto para uma caixa aberta.

Meu coração bateu mais forte.

— Por que abriu isso?

— Estava no caminho.

Aproximei-me.

— Não mexe.

Ela fez uma expressão divertida.

— O que tem aqui?

— Nada.

— Então por que está nervoso?

— Não estou.

Ela pegou uma fotografia.

Eu me virei rapidamente.

— Sophie.

Ela olhou para a foto.

Era antiga.

Eu tinha treze anos.

Camila tinha oito.

Estávamos sentados no quintal.

Ela segurava um pedaço de papel.

Eu estava com o braço em volta dos ombros dela.

Sophie franziu a testa.

— Quem é?

Peguei a fotografia.

— Uma amiga.

— Sua namorada?

— Não.

— Ex?

— Também não.

— Então, quem é?

Olhei para a fotografia.

— Minha melhor amiga.

Sophie ficou me observando.

— No Brasil?

Assenti.

— Ela é até bonitinha.

Sorri sem perceber.

— Era uma criança. 

— Ainda assim.

Coloquei a fotografia de volta na caixa.

— Isso foi há muito tempo, Sophie.

Sophie se aproximou.

— Você ainda fala com ela?

Fiquei em silêncio.

— Juan?

— Não.

— Por quê?

Dei de ombros.

— A vida mudou. E ela é só uma criança.

Era a resposta mais fácil.

E talvez a mais verdadeira.

Sophie se sentou novamente.

— Você sente falta dela?

Olhei para a caixa.

Pela primeira vez em muito tempo, tentei procurar dentro de mim alguma coisa.

Saudade?

Não.

Não exatamente.

Era apenas uma sensação estranha.

Como se eu estivesse olhando para uma parte de mim que não reconhecia mais.

— Às vezes.

Sophie sorriu.

— Então liga.

Ri.

— Você acha que é simples assim?

— É.

— Não é.

— Por quê?

— Porque já faz muito tempo.

Ela deu de ombros.

— E daí?

Eu não sabia.

Talvez porque eu tivesse medo de descobrir que não havia mais nada para conversar.

Talvez porque eu tivesse medo de ouvir a voz dela e perceber que aquela ligação não significaria mais nada.

Ou talvez simplesmente porque eu não queria.

Peguei a tampa da caixa.

— Não importa.

Fechei.

Empurrei para o canto do closet.

— Vamos sair?

Sophie sorriu.

— Agora.

Ela pegou minha mão.

Saímos do quarto.

E a caixa ficou lá.

Esquecida.

Junto com fotografias, desenhos e pequenas lembranças de uma vida que parecia pertencer a outra pessoa.

Naquela noite, quando voltei para casa, minha mãe perguntou:

— Você falou com sua avó?

— Não.

— Ela ligou mais cedo.

— Depois eu retorno.

Minha mãe me olhou por alguns segundos.

— Ela falou da Camila.

Parei de comer.

— De novo?

— Ela sente falta de vocês dois juntos.

— Nós éramos crianças, mãe. A Camila ainda é uma criança.

— E daí?

— Mãe, eu tenho dezesseis anos. E ela deve ter uns doze, no máximo.

Ela sorriu.

— Eu sei.

— Tenho uma vida aqui.

— Também sei.

— Camila está no Brasil.

— Eu sei.

— Não faz sentido continuar fingindo que nada mudou.

Minha mãe ficou quieta.

Depois disse:

— Só não confunda distância com esquecimento, Juan.

Olhei para ela.

— Eu não esqueci.

— Tem certeza?

— Tenho.

Mas, naquela noite, quando fui dormir, não consegui parar de pensar naquela fotografia.

Eu me lembrei da cerca.

Da árvore.

Da cápsula do tempo.

Da promessa.

"Quando eu tiver vinte e cinco anos, vou abrir a caixa."

Eu ri sozinho.

Era uma promessa infantil.

Eu tinha treze anos.

Camila tinha oito.

Não fazia sentido.

A vida tinha mudado.

Eu tinha mudado.

Ela também deveria ter mudado.

Talvez estivesse estudando.

Talvez tivesse novos amigos.

Talvez nem lembrasse mais de mim.

Talvez fosse melhor assim.

Virei para o outro lado da cama.

Peguei o celular.

Abri minhas mensagens.

O nome dela ainda estava ali.

Camila Souza.

Fiquei olhando para a tela.

Meu dedo chegou perto do botão de chamada.

Mas não apertei.

Bloqueei o celular.

Coloquei-o na mesa de cabeceira.

E dormi.

Sem saber que, naquele mesmo instante, no Brasil, uma garota ainda esperava uma ligação minha.

Uma garota que continuava acreditando em uma promessa que eu já não lembrava de repetir.

Uma promessa que, para mim, havia ficado enterrada junto com a infância.

E talvez esse fosse o maior erro que eu poderia cometer.

Acreditar que algumas coisas permanecem exatamente onde as deixamos.

Porque o tempo não respeita promessas.

Ele simplesmente passa.

E leva tudo aquilo de que não cuidamos.

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