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Capítulo 6

last update Petsa ng paglalathala: 2026-09-02 02:49:55

Rafael Juan Muniz

Minha relação com Sophie havia mudado.

Não existia mais namoro.

Nenhuma promessa.

Nenhum compromisso.

Éramos amigos com benefícios, como ela gostava de chamar.

Eu preferia dizer que éramos dois adultos jovens fazendo exatamente o que queríamos, sem complicações.

Eu não queria um relacionamento sério.

Não naquele momento.

Tinha planos.

Queria terminar minha faculdade de arquitetura, seguir os passos do meu pai e construir meu próprio nome no mercado.

Não queria que ninguém dissesse que eu havia conseguido alguma coisa apenas porque era filho de Ricardo Muniz.

Eu queria conquistar sozinho.

Sophie entendia.

Pelo menos era o que eu acreditava.

Naquela tarde, eu estava no meu apartamento quando recebi uma mensagem do meu pai.

Venha para casa. Precisamos conversar.

Só isso.

Sem explicação.

Sem contexto.

Revirei os olhos.

Meu pai nunca mandava mensagens daquele jeito quando era algo bom.

Peguei as chaves e fui.

Quando cheguei, encontrei meus pais sentados na sala.

Minha mãe estava com os olhos vermelhos.

Meu pai tinha aquela expressão séria que eu conhecia desde criança.

— O que aconteceu?

Ninguém respondeu imediatamente.

— Pai?

Ele apontou para a poltrona.

— Sente-se.

Sentei.

Minha mãe segurou as próprias mãos.

— Juan, recebemos uma notícia do Brasil.

Meu corpo ficou tenso.

— O que aconteceu?

Meu pai respirou fundo.

— Os pais da Camila sofreram um acidente.

Meu coração parou por um instante.

Camila.

Aquele nome.

Depois de tanto tempo, ele voltou para a minha cabeça como se alguém tivesse aberto uma porta que eu mantinha trancada.

— O acidente foi grave — minha mãe continuou. — Muito grave.

Fiquei olhando para ela.

— Eles estão bem?

Meu pai baixou os olhos.

— Não.

A palavra foi seca.

Definitiva.

— Eles morreram?

Minha mãe começou a chorar.

Meu pai assentiu.

— Os dois.

Fiquei imóvel.

Não conhecia mais Lucas e Esther como antes.

Eu era apenas uma criança quando parti.

Mas lembrava deles.

O pai de Camila, que me ensinava a jogar bola.

A mãe dela, que sempre aparecia com alguma coisa para comermos quando estávamos brincando.

Eles faziam parte das minhas memórias.

Daquela vida.

Do Brasil.

E agora estavam mortos.

— E a Camila?

Minha voz saiu diferente.

Mais baixa.

Meu pai me encarou.

— É justamente sobre ela que precisamos conversar.

Senti um desconforto imediato.

— O que tem ela?

Minha mãe enxugou uma lágrima.

— Sua avó está cuidando de tudo.

— Ótimo.

— Não é tão simples.

— Por quê?

Meu pai colocou uma pasta sobre a mesa.

— Porque Camila ficou sem os pais.

— Eu sei.

— E sem um responsável legal adequado.

— Então os parentes dela...

— Não há ninguém próximo que possa assumir a responsabilidade por ela.

Comecei a entender.

— E daí?

Meu pai abriu a pasta.

— Sua mãe e Esther fizeram um acordo anos atrás.

Olhei para o documento.

— Que acordo?

— Se alguma coisa acontecesse aos pais dela antes que Camila atingisse a maioridade, você seria responsável por protegê-la.

Ri.

Não porque fosse engraçado.

Porque aquilo parecia absurdo.

— Eu?

— Você.

— Pai, eu tenho vinte e um anos.

— Eu sei.

— Estou estudando.

— Também sei.

— Tenho minha vida aqui.

— Sei disso também.

Levantei.

— Então qual é o problema?

Meu pai empurrou o documento pela mesa.

— Você vai se casar com ela.

Fiquei parado.

Por alguns segundos, achei que tivesse ouvido errado.

— O quê?

Minha mãe fechou os olhos.

— Juan...

— Não.

Olhei para meu pai.

— Não.

— Leia o contrato.

— Eu não preciso ler.

— Precisa.

Peguei as folhas com raiva.

Passei os olhos rapidamente.

Meu nome.

O nome dela.

Cláusulas.

Responsabilidades.

Prazo.

Divórcio.

Aquilo realmente existia.

— Isso é loucura.

Joguei o contrato sobre a mesa.

— Isso é completamente insano!

Meu pai não se moveu.

— Não farei parte desse circo.

— Você fará.

— Não vou me casar com uma garota que não vejo há doze anos!

— Ela não é uma estranha.

— Para mim é! Ela é uma estranha; não sei se ela já se apaixonou, se ela tem alguém em sua vida.

Minha mãe tentou intervir.

— Juan, por favor...

— Não, mãe. Isso é absurdo!

Comecei a andar pela sala.

— Eu tenho vinte e um anos! Estou começando minha faculdade! Tenho planos! Não vou largar tudo para assumir uma adolescente no Brasil!

Meu pai continuou sentado.

Calmo demais.

— Você não vai largar sua faculdade.

Parei.

— Então?

— O casamento pode ser realizado por procuração e organizado conforme as exigências legais. Você continuará estudando.

— E ela?

— Virá para cá.

Ri sem humor.

— Claro.

— O quê?

— Vocês realmente pensaram em tudo.

Meu pai me encarou.

— Sua avó ajudou a elaborar o acordo.

— Minha avó?

— Sim.

Passei a mão pelos cabelos.

— Ela perdeu a cabeça.

— Não fale assim dela.

— Então me diga o que eu deveria fazer!

Meu pai se levantou.

A postura dele mudou.

Ele não era mais apenas meu pai.

Era o homem que comandava nossa família.

— Você vai casar com Camila.

— Não.

— Sim.

— Eu não vou.

Ele se aproximou.

— Então será deserdado.

Fiquei em silêncio.

— O quê?

— Você ouviu.

— Você está me ameaçando?

— Estou deixando claras as consequências da sua escolha. Você acha que a Sophie vai continuar ao seu lado quando você ficar sem um centavo?

Meu pai apontou para o contrato.

— Você quer seguir carreira na arquitetura? Faça isso.

— Eu vou fazer.

— Quer terminar sua faculdade?

— Sim.

— Quer construir sua própria vida?

— Sim.

— Então construa.

Ele fez uma pausa.

— Mas não conte com o meu dinheiro, minha empresa, meus contatos ou qualquer patrimônio que um dia seria seu.

Meu sangue ferveu.

— Você não faria isso.

— Faria.

— Sou seu filho!

— Exatamente.

Ele me encarou.

— E estou tentando ensinar você que responsabilidade vem antes de privilégio.

— Isso não é responsabilidade. É chantagem!

— Chame como quiser.

Meu pai voltou para a mesa.

— Você tem duas opções.

Ele levantou dois dedos.

— Casa com Camila ou perde tudo.

Eu respirei fundo.

Ele ainda não havia terminado.

— Ah, e aquele apartamento onde você leva a Sophie para passar a noite com você, pode esquecer.

Meu corpo ficou rígido.

— O quê?

— Já coloquei à venda.

— Você não pode fazer isso!

— Posso.

— É meu apartamento!

— Está registrado em meu nome.

Fiquei sem palavras.

Meu pai simplesmente voltou a se sentar.

— Você terá até o fim da semana para decidir.

Olhei para minha mãe.

Ela parecia tão desconfortável quanto eu.

— Mãe...

Ela desviou os olhos.

Aquilo doeu mais do que qualquer coisa que meu pai tivesse dito.

Eu estava sozinho.

Olhei novamente para o contrato.

Camila.

A garota que um dia foi minha melhor amiga.

A menina que eu prometi nunca esquecer.

A pessoa que eu havia deixado para trás.

E agora meu pai queria colocá-la dentro da minha vida novamente.

Um casamento.

Um contrato.

Uma obrigação.

Nada daquilo fazia sentido.

— Tudo bem.

Meu pai ergueu os olhos.

— O quê?

Respirei fundo.

— Eu caso.

Minha mãe arregalou os olhos.

— Juan...

Levantei a mão.

— Mas existem condições.

Meu pai permaneceu em silêncio.

— Eu não vou para o Brasil.

— Não precisa.

— E não quero a Camila aqui.

Minha mãe franziu a testa.

— Como assim?

— Ela pode ficar onde estiver. Eu não quero que ela venha morar comigo.

Meu pai me encarou.

— Isso não será decidido por você.

— Então resolva.

Apontei para o contrato.

— Eu aceito casar.

Minha voz saiu fria.

— Mas não vou transformar minha vida em uma prisão.

Meu pai pegou o documento.

— Você deveria ler todas as cláusulas antes de fazer exigências.

— Eu já li o suficiente.

— Não leu.

Ele abriu o contrato em uma página específica.

— Leia essa parte.

Aproximei-me.

Meus olhos correram pelas linhas.

E então parei.

A residência do casal deverá ser estabelecida no Canadá, sob responsabilidade do tutor e cônjuge, até que Camila complete vinte e um anos. 

Meu estômago afundou.

Levantei os olhos.

— Você disse que ela poderia ficar no Brasil.

Meu pai deu um sorriso quase imperceptível.

— Eu disse que você não precisaria ir para o Brasil.

— Isso é diferente.

— Exatamente.

Fechei os olhos.

Eu tinha acabado de aceitar um casamento para não perder meu futuro.

E, aparentemente, meu futuro agora tinha um nome.

Camila Souza.

A menina que eu havia esquecido.

A garota que, de acordo com aquele contrato, estava prestes a se tornar minha esposa.

E eu ainda não fazia ideia de que, ao aceitar aquele casamento, estava colocando dentro da minha casa a única pessoa capaz de destruir completamente a vida que eu havia construído.

Ou talvez… de reconstruí-la.

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