LOGINSophia mantinha os olhos no caderno, mas suas anotações eram desconexas. Palavras soltas, setas sem direção. A caneta tremia levemente entre os dedos. Aquilo não podia estar acontecendo. Tinha se preparado para tudo, menos para encontrá-lo ali. O homem cuja boca conhecia cada curva de seu corpo. O homem cujo nome ela não sabia até aquela manhã.
O fim da tarde derramava sua luz dourada sobre os telhados de Oxford, tingindo as pedras antigas de âmbar e criando sombras longas nos corredores centenários. Era um cenário digno de poesia. Mas nada no peito de Sophia Jones era lírico naquele momento. Ela atravessava o campus como um furacão em formato humano, os saltos batendo no mármore com urgência, como se pudessem expulsar o caos interno que ameaçava explodir a qualquer segundo.O que ela havia feito?Seu corpo inteiro tremia, não de frio, mas de pura adrenalina, do tipo que invade quando se salta de um precipício sem saber se há rede de segurança embaixo. A mente girava como uma tempestade. A pele ainda lembrava o calor dos olhos dele. O olhar que a queimou por dentro. O timbre rouco da voz de Pietro ainda pulsava em seus ouvidos.— Meu Deus… — murmurou para si mesma, os olhos esbugalhados. — O que eu fiz? O que eu fiz?!A cada passo, as palavras se repetiam como um mantra desesperado. As mãos trêmulas, o coração batendo no pes
O ar de Oxford começava a esfriar, como se o próprio tempo decidisse esfumar seus contornos em névoas finas que se infiltravam entre as colunas centenárias do edifício de Direito. O dia, ainda banhado por um tímido sol de outono, perdia aos poucos o vigor matinal. Mas para Pietro Vincenzo Ferrara, não era o clima que causava o desconforto que queimava sob sua pele.Descendo os degraus de pedra da escadaria principal, ele não via mais os detalhes góticos ao redor, nem os alunos cruzando os corredores em grupos dispersos. Estava preso dentro de si, como se seus próprios pensamentos se comprimissem contra as paredes do crânio, zunindo de culpa, desejo, espanto e, acima de tudo, uma urgência que lhe tirava o ar.Naquela aula, a forma como Sophia entrou, com aquele vestido simples e justo, os olhos brilhando de algo que ele conhecia bem: provocação contida. Sabia que ela tinha plena consciência do efeito que causava nele. Mas hoje… hoje ela tinha ultrapassado uma linha invisível. Uma linh
A manhã em Oxford surgiu com uma beleza quase cinematográfica. O céu estava limpo, de um azul suave que contrastava com a imponência gótica dos edifícios da universidade. Uma brisa fresca corria entre as árvores centenárias do campus, fazendo as folhas dançarem como se sussurrassem segredos antigos. A luz do sol filtrava-se através dos vitrais das janelas altas do prédio principal, tingindo o chão de sombras coloridas e traços dourados. Dentro da sala 208, o tempo parecia desacelerar, como se o dia ali tivesse seu próprio ritmo.Pietro Vincenzo Ferrara entrou pontualmente, com os passos firmes reverberando no piso de madeira encerada. Seu rosto, belo e austero, mantinha a mesma expressão inabalável de sempre, mas por dentro ele era uma corda tensionada ao extremo. A noite anterior fora um campo de batalha silencioso: entre a razão e o desejo, entre a lembrança de Sophia e o peso de sua ética. Ele repetiu mentalmente dezenas de vezes que o que houve entre os dois não passava de um des
O relógio de parede marcava exatamente oito e cinquenta e sete da noite quando Pietro ouviu três batidas na porta de seu apartamento, rápidas, secas, seguidas de um assobio que ele conhecia bem demais. Era quase um código. Um daqueles sons que pertencem a uma vida anterior, ecoando direto dos tempos de juventude, quando as responsabilidades ainda eram apenas conceitos abstratos e os erros, facilmente perdoáveis.Ele soltou um longo suspiro. Ainda estava vestido com a camisa branca parcialmente desabotoada e a calça social escura, embora tivesse retirado o paletó e os sapatos assim que chegou. Com o copo de vinho tinto ainda pela metade na mão esquerda, caminhou devagar até a porta, deixando para trás o sofá de couro surrado e o som instrumental suave que tocava em algum canto da sala.Girou a maçaneta e abriu.— Finalmente. — Paulo surgiu com o velho casaco marrom aberto, o cabelo bagunçado como se tivesse sido atropelado por uma ventania mal-humorada, e uma expressão que misturava i
Pietro Ferrara cruzou os braços sobre o peito, apoiado à antiga escrivaninha de madeira escura que cheirava a verniz envelhecido e papel antigo. Estava sentado em sua sala, com os olhos fixos na tela do computador, mas a mente distante. Não conseguia se concentrar nos artigos que precisava revisar, nas chamadas que deveria registrar, nos e-mails urgentes de colegas de departamento que precisava enviar.A luz da tarde entrava pelas janelas góticas da ala leste do prédio principal da faculdade de Direito em Oxford, projetando sombras angulares pelas paredes altas. Lá fora, um grupo de calouros discutia em voz alta sobre jurisprudência comparada, mas para Pietro, nada mais existia além da mulher de olhos verdes e cabelos ruivos que ocupava, agora, todos os cantos de sua mente.Sua aluna, a ruiva da noite anônima.O nome finalmente tinha forma. Ele nunca imaginou que aquela mulher, daquela noite, voltaria a cruzar seu caminho, ainda mais dentro da universidade que considerava seu templo d
Sophia chegou em casa vinte minutos depois, com o cabelo encharcado pela garoa. O apartamento pequeno ainda estava aquecido do café da manhã e cheirava a maçã e canela, graças à vela aromática sobre a bancada.Trocou de roupa rapidamente, vestiu uma calça larga e um suéter confortável, prendeu o cabelo em um coque bagunçado e colocou a chaleira no fogo. Quando Anne Marie chegou, com uma caixa de rosquinhas e um sorriso cúmplice, Sophia já estava sentada no sofá com uma manta sobre as pernas.— Bom, ruiva... — disse a amiga, jogando a bolsa no chão e largando os sapatos perto da porta. — Conta tudo, desde o começo.Sophia soltou o ar com força e escondeu o rosto entre







