INICIAR SESIÓNO apartamento de Pietro é o reflexo milimétrico de seu dono: linhas retas, tons de cinza profundo e vinho escuro, sofás de couro sem uma única ruga fora de lugar. Prateleiras altas exibem legiões de tratados de Direito Penal, entrecortadas por raras primeiras edições de clássicos da literatura.
No centro da sala, uma mesa de madeira maciça sustenta o notebook aberto, cercado de pastas e planilhas coloridas que Pietro preenche à mão: notas, matrículas, pautas de semestre, tudo catalogado como um arquivo confidencial.
Vestindo camisa branca com as mangas dobradas até a metade do antebraço e óculos de leitura, Pietro digita o último código no campo de notas quando ouve o tilintar de gelo num copo de cristal. Vira o rosto apenas o suficiente para confirmar que Paulo Sipriano, moreno, olhos castanhos, camisa azul-clara aberta nos dois primeiros botões, está recostado de pernas cruzadas no sofá, sorrindo com um copo de whisky que reflete as luzes baixas da sala.
— Você precisa transar, Pietro.
Pietro inspira sem tirar os olhos da planilha.
— Alessandro, eu transo seu idiota, só não tenho o seu dom de não manter o pau dentro das calças.
— Que bom que reconhece meu dom — brincou o moreno, gargalhando. — Mas, fala sério… você tá precisando de uma foda selvagem, de preferencia com uma garota mais nova.
Pietro revira os olhos e bufa.
Paulo gargalha, batucando o copo contra o joelho e continua:
— Garotas novas, lindas, ousadas… — ele deixa a frase pairar como promessa pecaminosa. — É disso que você precisa, meu caro. A boate nova, Pulse, abriu hoje a três quadras do campus. Eu juro que vi de relance umas estudantes que fariam o Papa repensar o celibato.
Pietro tira os óculos devagar e passa as mãos pelos cabelos, os assanhando. Um típico gesto que faz quando está nervoso ou irritado.
— Não vou dormir com uma aluna, Alessandro. Você sabe que eu não suporto esse tipo de coisa.
— Cara, as suas alunas só faltam arrancar a roupa na sua frente. — Paulo ergue as sobrancelhas. — Aquela loirinha… como é o nome dela mesmo?
— Jessica. — o nome saiu num suspiro exausto.
— Isso! Porra, Pietro, ela apareceu sem calcinha na última aula. Eu estava passando no corredor, vi a cena: ela cruzando e descruzando as pernas como se apresentasse um trabalho de anatomia! Quase precisei de óculos escuros.
Os olhos de Pietro endurecem.
— Não adianta. Eu não durmo com garotas mais novas e muito menos com alunas.
Paulo se inclinou, apoiando o cotovelo no encosto do sofá, estudando o amigo como um experimento raro.
— Então você prefere atualizar planilhas numa sexta-feira, ouvindo o tique-taque do seu relógio Bennet, em vez de ouvir música alta e gemidos verdadeiros? — Ele sorri torto. — Integridade profissional é bonita… mas não aquece a cama.
Pietro abre uma gaveta, ignorando o comentário do amigo, pega outra pasta e começa a folhear papéis só para se ocupar.
— Minha integridade mantém meu cargo. — Sua voz traiu um leve tremor, quase imperceptível.
— Seu cargo vai te levar pra cama hoje? — Paulo dá um gole no whisky e balança a cabeça. — Você vive como se tivesse oitenta anos. Uma noite, Pietro. Uma noite não vai manchar a sua reputação perfeita. Vamos lá, cara?!
O silêncio que segue é grosso como fumaça. Pietro fita a tela do computador, mas vê apenas a sugestão tentadora do amigo e, lá no fundo, aquele brilho desconfortável de quem sabe que toda regra pode ruir se o desejo certo bater à porta.
Paulo levanta-se, ajeita a gola da camisa e ergue o copo num brinde preguiçoso.
— Pietro, pelo amor de Deus, você vai virar monge. Sai dessa clausura, cara! Vamos pra Pulse. É a inauguração, as mulheres estão um espetáculo! — disse o amigo, recostado no batente da porta, camisa meio desabotoada e sorriso de quem já tinha bebido o suficiente para perder a noção do ridículo.
Ele passa a mão pelo cabelo, exasperado consigo mesmo, antes de murmurar ao vazio:
— Uma noite não muda nada… muda?
— Sabe o que você precisa? Uma mulher que te tire do eixo. Daquelas que fazem você esquecer a porra da planilha.
— Não preciso de distrações. Preciso de foco.
— Ah, claro. Aulas, código penal, moralidade acima do prazer. — Paulo riu alto. — Mas vamos fazer assim: uma cerveja. Só uma. Você me acompanha, e depois volta pro seu mosteiro particular.
Pietro hesitou por um instante longo. Depois, resmungou:
— Só uma cerveja.
Paulo ergueu os braços como se comemorasse um gol.
— Eu sabia! Professor Ferrara vai sair da caverna! Vou te dar vinte minutos pra ficar apresentável, porque se você aparecer com essa camisa abotoada até o pescoço, vão te confundir com o segurança do lugar.
Pietro lançou-lhe um olhar fulminante, mas se levantou.
No quarto, trocou a camisa por uma preta de algodão de corte justo, abriu dois botões e usou um blazer leve por cima. Ao se olhar no espelho, suspirou. Aquilo não era ele, mas, por algum motivo, estava indo.
Pulse era exatamente o que Paulo prometera: Um antro de sedução moderna. Luzes coloridas varriam o ambiente ao ritmo da batida eletrônica que fazia o chão vibrar. O bar exalava sofisticação com bancos de couro e coquetéis servidos como obras de arte líquidas.
— Eu amo esse lugar — murmurou Alessandro, já cumprimentando duas mulheres no caminho.
Pietro manteve a postura ereta, os olhos varrendo o ambiente com uma mistura de desprezo e fascínio contido. Aquilo estava longe de ser seu habitat natural. Estava prestes a pedir a tal “uma cerveja” e planejar a retirada estratégica, quando algo o fez congelar.
Um olhar…
Do outro lado da pista, entre reflexos de luz vermelha e o vaivém dos corpos, uma jovem de vestido preto colado, com um decote ousado e olhos intensos, dançava.
O coração de Pietro deu um salto involuntário. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha e, por um instante, o ar ao seu redor pareceu rarefeito. Ele desviou o olhar, tentando se recompor. Mas era tarde, algo dentro dele já tinha mudado.
Talvez Paulo estivesse certo. Talvez fosse hora de tirar o paletó da moralidade e… apenas viver.
Ou talvez… tudo aquilo fosse um erro.
E se a regra mais rígida do professor Ferrara estiver prestes a se quebrar por completo?
O fim da tarde derramava sua luz dourada sobre os telhados de Oxford, tingindo as pedras antigas de âmbar e criando sombras longas nos corredores centenários. Era um cenário digno de poesia. Mas nada no peito de Sophia Jones era lírico naquele momento. Ela atravessava o campus como um furacão em formato humano, os saltos batendo no mármore com urgência, como se pudessem expulsar o caos interno que ameaçava explodir a qualquer segundo.O que ela havia feito?Seu corpo inteiro tremia, não de frio, mas de pura adrenalina, do tipo que invade quando se salta de um precipício sem saber se há rede de segurança embaixo. A mente girava como uma tempestade. A pele ainda lembrava o calor dos olhos dele. O olhar que a queimou por dentro. O timbre rouco da voz de Pietro ainda pulsava em seus ouvidos.— Meu Deus… — murmurou para si mesma, os olhos esbugalhados. — O que eu fiz? O que eu fiz?!A cada passo, as palavras se repetiam como um mantra desesperado. As mãos trêmulas, o coração batendo no pes
O ar de Oxford começava a esfriar, como se o próprio tempo decidisse esfumar seus contornos em névoas finas que se infiltravam entre as colunas centenárias do edifício de Direito. O dia, ainda banhado por um tímido sol de outono, perdia aos poucos o vigor matinal. Mas para Pietro Vincenzo Ferrara, não era o clima que causava o desconforto que queimava sob sua pele.Descendo os degraus de pedra da escadaria principal, ele não via mais os detalhes góticos ao redor, nem os alunos cruzando os corredores em grupos dispersos. Estava preso dentro de si, como se seus próprios pensamentos se comprimissem contra as paredes do crânio, zunindo de culpa, desejo, espanto e, acima de tudo, uma urgência que lhe tirava o ar.Naquela aula, a forma como Sophia entrou, com aquele vestido simples e justo, os olhos brilhando de algo que ele conhecia bem: provocação contida. Sabia que ela tinha plena consciência do efeito que causava nele. Mas hoje… hoje ela tinha ultrapassado uma linha invisível. Uma linh
A manhã em Oxford surgiu com uma beleza quase cinematográfica. O céu estava limpo, de um azul suave que contrastava com a imponência gótica dos edifícios da universidade. Uma brisa fresca corria entre as árvores centenárias do campus, fazendo as folhas dançarem como se sussurrassem segredos antigos. A luz do sol filtrava-se através dos vitrais das janelas altas do prédio principal, tingindo o chão de sombras coloridas e traços dourados. Dentro da sala 208, o tempo parecia desacelerar, como se o dia ali tivesse seu próprio ritmo.Pietro Vincenzo Ferrara entrou pontualmente, com os passos firmes reverberando no piso de madeira encerada. Seu rosto, belo e austero, mantinha a mesma expressão inabalável de sempre, mas por dentro ele era uma corda tensionada ao extremo. A noite anterior fora um campo de batalha silencioso: entre a razão e o desejo, entre a lembrança de Sophia e o peso de sua ética. Ele repetiu mentalmente dezenas de vezes que o que houve entre os dois não passava de um des
O relógio de parede marcava exatamente oito e cinquenta e sete da noite quando Pietro ouviu três batidas na porta de seu apartamento, rápidas, secas, seguidas de um assobio que ele conhecia bem demais. Era quase um código. Um daqueles sons que pertencem a uma vida anterior, ecoando direto dos tempos de juventude, quando as responsabilidades ainda eram apenas conceitos abstratos e os erros, facilmente perdoáveis.Ele soltou um longo suspiro. Ainda estava vestido com a camisa branca parcialmente desabotoada e a calça social escura, embora tivesse retirado o paletó e os sapatos assim que chegou. Com o copo de vinho tinto ainda pela metade na mão esquerda, caminhou devagar até a porta, deixando para trás o sofá de couro surrado e o som instrumental suave que tocava em algum canto da sala.Girou a maçaneta e abriu.— Finalmente. — Paulo surgiu com o velho casaco marrom aberto, o cabelo bagunçado como se tivesse sido atropelado por uma ventania mal-humorada, e uma expressão que misturava i
Pietro Ferrara cruzou os braços sobre o peito, apoiado à antiga escrivaninha de madeira escura que cheirava a verniz envelhecido e papel antigo. Estava sentado em sua sala, com os olhos fixos na tela do computador, mas a mente distante. Não conseguia se concentrar nos artigos que precisava revisar, nas chamadas que deveria registrar, nos e-mails urgentes de colegas de departamento que precisava enviar.A luz da tarde entrava pelas janelas góticas da ala leste do prédio principal da faculdade de Direito em Oxford, projetando sombras angulares pelas paredes altas. Lá fora, um grupo de calouros discutia em voz alta sobre jurisprudência comparada, mas para Pietro, nada mais existia além da mulher de olhos verdes e cabelos ruivos que ocupava, agora, todos os cantos de sua mente.Sua aluna, a ruiva da noite anônima.O nome finalmente tinha forma. Ele nunca imaginou que aquela mulher, daquela noite, voltaria a cruzar seu caminho, ainda mais dentro da universidade que considerava seu templo d
Sophia chegou em casa vinte minutos depois, com o cabelo encharcado pela garoa. O apartamento pequeno ainda estava aquecido do café da manhã e cheirava a maçã e canela, graças à vela aromática sobre a bancada.Trocou de roupa rapidamente, vestiu uma calça larga e um suéter confortável, prendeu o cabelo em um coque bagunçado e colocou a chaleira no fogo. Quando Anne Marie chegou, com uma caixa de rosquinhas e um sorriso cúmplice, Sophia já estava sentada no sofá com uma manta sobre as pernas.— Bom, ruiva... — disse a amiga, jogando a bolsa no chão e largando os sapatos perto da porta. — Conta tudo, desde o começo.Sophia soltou o ar com força e escondeu o rosto entre







