INICIAR SESIÓNLondres, Boate Pulse – 22h48
O céu de Londres parece um cetim azul-escuro cravejado de pontinhos prateados. A brisa de verão espalha o perfume dos plátanos que margeiam as ruas de Mayfair, enquanto as luzes do bairro, elegantes, quentes, duplicam-se nas janelas do luxuoso edifício onde ocorre a inauguração do novo bar-galeria Pulse.
A fachada espelhada devolve flashes de neon; os carros esportivos chegam um a um, e grupos bem-vestidos somem atrás das portas de vidro fumê. Ali dentro, os graves da música eletrônica batem como um segundo coração, e o ar se encharca de champanhe Dom Pérignon, conhaque de reserva e perfumes franceses que misturam notas de jasmim, âmbar cinza e couro.
Sophia Jones, vinte e dois anos, ruiva de olhos esmeraldas, estudante de Direito, jamais se imaginou no centro desse mundo feito de luxo cintilante. Todavia, ela empurra a porta giratória como se fosse dona da noite. O vestido preto, de microfibra acetinada, abraça cada curva: alças finas, decote generoso, costas nuas, curto e ousado. O salto agulha rubro denuncia cada passo, e os cachos ruivos, soltos, balançam sobre suas omoplatas nuas. A maquiagem é um grito contido: delineador felino, batom vinho escuro, bochechas marcadas. Na orelha, pequenos brilhantes emolduram o rosto.
Ao lado, Anne Marie Cooper, a amiga de riso escandaloso e boca sem filtro, ostenta um vestido azul e um batom cor coral. Ela vibra, como se absorvesse a música pelo sangue.
— O bar é seu, mulher! — berra Anne, levantando uma taça que já cintila gelada. — Hoje você bebe ou eu te troco por alguém que beba!
Sophia solta uma risada que mistura nervosismo e eletricidade. O som é tragado pelo DJ, mas a vibração percorre-lhe os ossos. Cada gole da primeira taça de champagne desliza pela garganta feito coragem líquida. Mas Anne queria ver a amiga solta, e resolve pedir algo mais forte.
Com a segunda dose de tequila, Sophia sente o peito afrouxar. A terceira dose faz o coração bater na mesma batida da música que domina o salão, na quarta dose, está rindo alto de piadas que Anne acabou de inventar. O tempo perde referências. Homens vêm em revoada, atraídos pelo magnetismo das duas:
— Posso te pagar uma bebida? — pergunta um executivo de gravata solta.
— Pode me pagar um dicionário — devolve Sophia com sorriso doce e mortal. — Pra aprender a chegar com vocabulário menos… previsível.
Outro se aproxima, tatuagem à mostra, jeito de predador entediado:
— Gata, se beleza matasse…
— Estaria preso por homicídio culposo com dolo eventual pela cantada medíocre — retruca ela, virando os ombros sem espalhar a cólera do batom.
Anne gargalha tão forte que perde o fôlego e se apoia no balcão.
— Essa é a jurista das minhas fantasias! — grita, piscando para a amiga. — Hoje você enterra qualquer saudade daquele imbecil.
Sophia ergue o copo na altura dos olhos. O cristal captura as luzes azuis e roxas que correm pelo teto. O álcool anestesia, sim, mas a alma ainda lateja com resquícios de dor, lembranças do ex e da melhor amiga dele enrodilhados nos lençóis que eram dela. “Hoje, não”, decide. Hoje ela não sangra: hoje ela dança.
E então o mundo parece frear.
Como num filme que desacelera, ela percebe o instante exato em que um estranho entra em seu campo de visão. Encostado no balcão, segurando um copo de whisky envelhecido, ele parece uma escultura renascentista perdida num sonho techno: Ombros largos sob um terno grafite de corte italiano, colete acetinado, camisa branca sem gravata. Os cabelos loiros, levemente bagunçados, tocam a testa; a barba por fazer, o maxilar quadrado. Há algo antigo e autoritário em cada linha dele e também perigoso.
Ele não sorri, apenas olha. E nesse olhar há constelações inteiras, tempestades magnéticas. Sophia sente o que há muito não sentia: a pele formigar, as coxas se apertarem numa vontade involuntária. É o primeiro homem da noite a não cometer a grosseria de um elogio gasto. Ele simplesmente a “lê”, como se fosse um texto secreto.
— Quem é aquele? — sussurra Sophia, sem mover o rosto, com a boca próxima ao ouvido de Anne.
— Não sei, mas ele te hipnotizou antes de acabar a primeira música — respondeu a amiga, mordendo o canudo do gin. — Acho que você acabou de ganhar a noite.
Sophia mordeu o lábio inferior, e o som do sorriso deslizou no peito dela como faísca. Decide virar-se e nesse movimento o vestido marca a cintura, abre o decote sutil, exibindo as costas nuas. Ela suspira fundo, termina de beber o conteúdo de seu copo e atravessa metade da pista com passos que dançam sozinhos. O estranho numa sincronia absurda, se vira no mesmo instante para devolver o copo vazio ao garçom. Sophia se detém a um metro dele. O espaço entre ambos ferve.
Pietro Vincenzo Ferrara, trinta e oito anos, professor de Direito Penal em Oxford, sente o mundo afundar três centímetros quando ela se aproxima. Não costumava beber em festas acadêmicas, mas Paulo insistiu e agora ele tenta esconder de si mesmo o interesse súbito que o domina. A voz dela chega antes do perfume floral:
— Essa música é boa, não acha? — diz, apoiando o cotovelo no balcão, aproximando-se o bastante para que os ombros quase se toquem. O tom é doce, mas traz algo de comando.
Pietro demora um segundo para responder e esse segundo já trai que não está no controle.
— É — murmura. Mantém os olhos na multidão, fingindo desinteresse. Porém o aroma dela, a proximidade da pele quente, vibra em sua audição interna.
Sophia arrisca mais:
— Você parece desconfortável. Espera alguém?
— Vim com um amigo — responde, com a voz grave, ainda fugindo do impacto de encará-la de frente. Ele pensa em Alessandro, que deve estar flertando com metade da casa nesse momento.
Ela gira o canudo entre os dedos, canta um sorriso torto:
— Se está só, pode dançar comigo.
— Não sou… bom nisso. — A declaração saiu engasgada, quase uma confissão.
— Não precisa ser — sussurrou, fechando a distância e enlaçando dois dos dedos dele. — Eu guio você.
Na pista, o DJ troca para um remix com batidas afro house. As luzes estroboscópicas desenham retângulos brancos no chão refletivo. Pietro repousa as mãos grandes na cintura de Sophia, ainda hesitante, mas tomado por uma corrente que mal compreende. Ela conduz os quadris dele no compasso, aproxima-se até que respirem o mesmo ar.
— Está se divertindo? — ele pergunta, baixo, rouco.
— Estava. — sorri, deslizando a mão pelo ombro dele.
— O que houve? — Sua voz falha ao sentir o toque.
— Um homem muito interessante me puxou para dançar.
— Interessante pode ser bom… ou perigoso. — Ele engole seco. A mão dele escorrega da cintura para o meio das costas, sentindo o calor da pele.
— Depende do que ele quer. — Sophia ergue o queixo e suas orbes brilham.
Pietro sorri e aproxima o rosto do dela e sussurra:
— Quero uma noite. — As palavras saem antes que ele planeje — Sem nomes, sem promessas, sem consequências.
O coração dela dispara e sua resposta é um murmúrio:
— Vamos para outro lugar?
— Achei que nunca fosse perguntar.
Aquela noite iria começar a ferver.
O fim da tarde derramava sua luz dourada sobre os telhados de Oxford, tingindo as pedras antigas de âmbar e criando sombras longas nos corredores centenários. Era um cenário digno de poesia. Mas nada no peito de Sophia Jones era lírico naquele momento. Ela atravessava o campus como um furacão em formato humano, os saltos batendo no mármore com urgência, como se pudessem expulsar o caos interno que ameaçava explodir a qualquer segundo.O que ela havia feito?Seu corpo inteiro tremia, não de frio, mas de pura adrenalina, do tipo que invade quando se salta de um precipício sem saber se há rede de segurança embaixo. A mente girava como uma tempestade. A pele ainda lembrava o calor dos olhos dele. O olhar que a queimou por dentro. O timbre rouco da voz de Pietro ainda pulsava em seus ouvidos.— Meu Deus… — murmurou para si mesma, os olhos esbugalhados. — O que eu fiz? O que eu fiz?!A cada passo, as palavras se repetiam como um mantra desesperado. As mãos trêmulas, o coração batendo no pes
O ar de Oxford começava a esfriar, como se o próprio tempo decidisse esfumar seus contornos em névoas finas que se infiltravam entre as colunas centenárias do edifício de Direito. O dia, ainda banhado por um tímido sol de outono, perdia aos poucos o vigor matinal. Mas para Pietro Vincenzo Ferrara, não era o clima que causava o desconforto que queimava sob sua pele.Descendo os degraus de pedra da escadaria principal, ele não via mais os detalhes góticos ao redor, nem os alunos cruzando os corredores em grupos dispersos. Estava preso dentro de si, como se seus próprios pensamentos se comprimissem contra as paredes do crânio, zunindo de culpa, desejo, espanto e, acima de tudo, uma urgência que lhe tirava o ar.Naquela aula, a forma como Sophia entrou, com aquele vestido simples e justo, os olhos brilhando de algo que ele conhecia bem: provocação contida. Sabia que ela tinha plena consciência do efeito que causava nele. Mas hoje… hoje ela tinha ultrapassado uma linha invisível. Uma linh
A manhã em Oxford surgiu com uma beleza quase cinematográfica. O céu estava limpo, de um azul suave que contrastava com a imponência gótica dos edifícios da universidade. Uma brisa fresca corria entre as árvores centenárias do campus, fazendo as folhas dançarem como se sussurrassem segredos antigos. A luz do sol filtrava-se através dos vitrais das janelas altas do prédio principal, tingindo o chão de sombras coloridas e traços dourados. Dentro da sala 208, o tempo parecia desacelerar, como se o dia ali tivesse seu próprio ritmo.Pietro Vincenzo Ferrara entrou pontualmente, com os passos firmes reverberando no piso de madeira encerada. Seu rosto, belo e austero, mantinha a mesma expressão inabalável de sempre, mas por dentro ele era uma corda tensionada ao extremo. A noite anterior fora um campo de batalha silencioso: entre a razão e o desejo, entre a lembrança de Sophia e o peso de sua ética. Ele repetiu mentalmente dezenas de vezes que o que houve entre os dois não passava de um des
O relógio de parede marcava exatamente oito e cinquenta e sete da noite quando Pietro ouviu três batidas na porta de seu apartamento, rápidas, secas, seguidas de um assobio que ele conhecia bem demais. Era quase um código. Um daqueles sons que pertencem a uma vida anterior, ecoando direto dos tempos de juventude, quando as responsabilidades ainda eram apenas conceitos abstratos e os erros, facilmente perdoáveis.Ele soltou um longo suspiro. Ainda estava vestido com a camisa branca parcialmente desabotoada e a calça social escura, embora tivesse retirado o paletó e os sapatos assim que chegou. Com o copo de vinho tinto ainda pela metade na mão esquerda, caminhou devagar até a porta, deixando para trás o sofá de couro surrado e o som instrumental suave que tocava em algum canto da sala.Girou a maçaneta e abriu.— Finalmente. — Paulo surgiu com o velho casaco marrom aberto, o cabelo bagunçado como se tivesse sido atropelado por uma ventania mal-humorada, e uma expressão que misturava i
Pietro Ferrara cruzou os braços sobre o peito, apoiado à antiga escrivaninha de madeira escura que cheirava a verniz envelhecido e papel antigo. Estava sentado em sua sala, com os olhos fixos na tela do computador, mas a mente distante. Não conseguia se concentrar nos artigos que precisava revisar, nas chamadas que deveria registrar, nos e-mails urgentes de colegas de departamento que precisava enviar.A luz da tarde entrava pelas janelas góticas da ala leste do prédio principal da faculdade de Direito em Oxford, projetando sombras angulares pelas paredes altas. Lá fora, um grupo de calouros discutia em voz alta sobre jurisprudência comparada, mas para Pietro, nada mais existia além da mulher de olhos verdes e cabelos ruivos que ocupava, agora, todos os cantos de sua mente.Sua aluna, a ruiva da noite anônima.O nome finalmente tinha forma. Ele nunca imaginou que aquela mulher, daquela noite, voltaria a cruzar seu caminho, ainda mais dentro da universidade que considerava seu templo d
Sophia chegou em casa vinte minutos depois, com o cabelo encharcado pela garoa. O apartamento pequeno ainda estava aquecido do café da manhã e cheirava a maçã e canela, graças à vela aromática sobre a bancada.Trocou de roupa rapidamente, vestiu uma calça larga e um suéter confortável, prendeu o cabelo em um coque bagunçado e colocou a chaleira no fogo. Quando Anne Marie chegou, com uma caixa de rosquinhas e um sorriso cúmplice, Sophia já estava sentada no sofá com uma manta sobre as pernas.— Bom, ruiva... — disse a amiga, jogando a bolsa no chão e largando os sapatos perto da porta. — Conta tudo, desde o começo.Sophia soltou o ar com força e escondeu o rosto entre







