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Capítulo 5 – O passo rumo ao desconhecido

Author: Krys.Torres
last update publish date: 2026-10-09 22:56:26

O instante em que Sophia entrelaça os dedos delicados aos de Pietro é como um estalo, o som de uma cadeia de eventos pondo-se em movimento. Não há volta possível, embora ela não saiba ainda para onde essa trilha de ruído abafado e luzes embaçadas irá levá-los. 

Ela segura a clutch em uma mão, e, com a outra, puxa o homem em uma rota que parece ter sido ensaiada em sonhos que nenhum dos dois ousaria admitir.

O rebater dos saltos altos de Sophia contra o assoalho de madeira do corredor é uma marcha de rebelião, cada batida um lembrete de que Pietro está prestes a largar anos de contenção. Ele, preso na gravidade do gesto feminino, sente um tijolo simbólico desprender-se de sua muralha moral a cada passo. Desde que se entende por gente, construiu fortalezas em torno do desejo, agora percebe fissuras se abrindo como rachaduras em gelo fino.

A caminho da porta de saída, cruzam o amplo lounge inundado de lasers violetas. Alessandro, já de copo novo na mão e ladeado por dois rostos desconhecidos, ergue o queixo ao ver o amigo ser arrastado.  A risada que solta é breve, de quem coleciona vitórias antecipadas, mas Pietro não nota. Tudo o que sente é o pulso quente de Sophia vibrando no seu, conduzindo-o para fora daquele templo de luz. E, na garganta dele, treme a pergunta que ele não formula sequer em pensamento: Pode um único pecado reescrever todas as regras que levei a vida inteira para firmar?

O ar úmido de Londres envolve a rua como névoa fina quando Pietro abre a porta do Audi  e segura, cortês, para que Sophia entre. As luzes intermitentes da boate Pulse ficam para trás; agora, apenas o ruído distante de carros e o reflexo dos postes nas poças guiam a fuga improvisada.

Sophia desliza para o banco do passageiro, ajeitando a barra do vestido sobre as coxas. O banco de couro exala um perfume leve de cedro e algo mais, provavelmente, o cheiro dele. O motor ronrona baixo quando Pietro gira a chave, e a cabine se ilumina brevemente pelo painel digital.

Ele mantém as mãos no volante: mãos grandes, veias discretas, dedos longos que se curvam sobre o couro com firmeza calculada. A postura é impecável, mas os ombros estão tensos. Sophia observa, fascinada: o maxilar dele cerrado, a linha do pescoço saliente, o olhar fixo na faixa de asfalto adiante. Cada detalhe parece ter sido talhado em concentração.

Ela se inclina sutilmente, cruzando as pernas devagar. O friccionar do tecido sobre a pele faz uma onda minúscula de arrepio subir-lhe até a nuca. Pietro percebe pelo canto do olho o deslocamento do corpo dela e sente um calor curioso expandir-se no peito. Usa o espelho retrovisor como pretexto para não encarar direto.

O silêncio entre os dois vibra mais alto que a música que ainda ecoa na memória. Os faróis recortam sombras sobre o rosto de Sophia, cada vez que passam sob uma lâmpada, o brilho do delineador sobre as pálpebras cintila. Ela morde o lábio inferior de leve, só o suficiente para deixar uma marca vermelha fresca.

Pietro aperta o volante. 

O couro range sob os dedos. O motor desliza pelas avenidas largas de Mayfair, mas ele sente o trajeto como uma travessia interminável entre autocontrole e combustão. Por que o ar parece tão denso dentro do carro? Por que pensa no som que o vestido faria se deslizasse um pouco mais?

Sophia, por sua vez, nota como a camisa dele estica sobre o peito quando ele respira. A forma como o relógio de pulso brilha, frio, contra a pele bronzeada. O painel azulado iluminava as feições dele, e ela tentando registrar mentalmente: sobrancelhas retas, cílios longos, leves sulcos na testa quando ele analisa o trânsito. É um rosto concentrado, mas há uma tempestade por trás da fachada tranquila. E ela deseja incitar essa tempestade.

Cruza novamente as pernas, mais devagar, e percebe o sutil arquejo que ele mal consegue esconder. O decote sobe e desce com a respiração dela, os mamilos endurecidos já marcam o tecido fino, consequência do ar-condicionado e, sobretudo, da excitação que pulsa sob a pele.

Um sinal vermelho obriga Pietro a parar. 

O carro reduz suavemente até imobilizar-se sob a luz rubra que derrama cor dentro da cabine. Ele solta uma breve expiração, como se, finalmente, o universo lhe desse meio segundo para pensar. Mas, no reflexo do vidro, vê ela morder o lábio de novo e perde a trégua.

A mão dele abandona o volante quase sem permissão e repousa sobre a coxa dela. Não é um toque invasivo, é uma carícia firme, quente, no exato ponto em que o vestido termina. O polegar descreve um semicírculo, primeiro ele sente o cetim do vestido e, logo abaixo, a pele macia e quente.

Sophia arfa. 

Um som pequeno, mas cortante. O ar nos pulmões se torna pesado e Pietro finalmente vira o rosto, seus olhos azuis, estão mais escuros e encontram os dela. Ele vê tudo: a boca entreaberta, o respirar acelerado, o leve tremor de retenção no queixo, o brilho úmido nos lábios. Vê o contorno indecente dos seios marcando o tecido e o modo quase imperceptível como os músculos das coxas dela se contraem ao seu toque.

Cada sinal é um chamado. Cada detalhe dobra os limites do homem metódico.

A luz muda para âmbar, depois verde. Pietro respira fundo e, em um ato de disciplina heroica, recua a mão de volta ao volante. O carro retoma a marcha, mas o silêncio agora é brasa viva. 

Mas o silêncio não é mais cautela, é tensão pura. 

Sophia sente o eco daquela carícia queimando como ferro em brasa. A intimidade lateja, implorando por mais. E o coração de ambos martela num compasso que não é regulado por razão alguma.

Os minutos seguintes se alongam. O motor ronrona, o zumbido dos pneus mistura-se à sinfonia interna de respirações contidas e pensamentos proibidos. 

Nenhum dos dois diz uma palavra. O diálogo está no arrastar da respiração, no zumbido do motor, no bater ansioso do coração de ambos.

Quando dobram a esquina do hotel, o letreiro luminoso espelha-se no para-brisa como promessa. Pietro engata a marcha para estacionar e passeia os olhos pelo rosto dela uma última vez antes de desligar o motor. Sophia devolve o olhar, ousada, como quem reconhece que acabou de atravessar o ponto sem retorno.

Ele não sabe mais se foi erro deixar o amigo convencê-lo a sair naquela noite ou se tudo isso é o início de algo que nenhuma regra profissional, nenhum código de ética, poderá conter. Mas, ao fitar Sophia, sabe que está disposto a arriscar.

E, no segundo em que a chave do carro faz clique, selando o silêncio absoluto, ambos compreendem: o pecado já começou antes mesmo de atravessarem o lobby e escolherem um quarto. Tudo que resta é mergulhar  e permitir que cada regra escrita seja rasgada pelo desejo que lateja, urgente, entre eles.

Será uma noite capaz de ruir a fortaleza moral de Pietro ou apenas o primeiro capítulo de um incêndio que nenhuma consciência poderá apagar?

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